LENDAS GARO - Boku ga ai wo tsutaete yuku - Capitulo 02
Lendas Garo
Garo: Boku ga ai wo tsutaete yuku
Capítulo 2: O Testamento Dourado
O crepúsculo tingiu as janelas da Mansão Saejima de âmbar e violeta.
Raiga permanecia na biblioteca, com o álbum de fotografias ainda aberto em seu colo, mas seus olhos fitavam a escuridão crescente lá fora.
— Gonza-chan... — sua voz era pequena , hesitante. — O papai se foi para a Missão Sombria, não foi? Ele teve que ir muito longe... É a missão mais longa de todas.
O velho serviçal assentiu lentamente.
— A jornada para a Terra dos Antigos Horrors é longa e traiçoeira. Mas ele está voltando. Kouga-sama sempre cumpre sua palavra, especialmente para aqueles que ama.
Raiga apertou os punhos sobre o álbum, num misto de medo e raiva contida:
— Mas e se ele esquecer? E se Garo, o Cavaleiro Dourado, esquecer o caminho de casa?
O velho Gonza sentou-se ao lado do menino, o movimento lento de quem carrega décadas nas costas.
— Raiga-sama, seu pai pode esquecer o caminho para qualquer lugar do mundo. Mas jamais esqueceria o caminho para o coração de Kaoru-sama. Ele leva algo dela consigo. Algo que nunca se quebra.
— O quê? — Raiga se espanta, tentando entender.
Em vez de responder, Gonzo fechou os olhos. E novamente, o passado o reclamou.
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Flashback
A luz da manhã era cruel em sua clareza.
Kouga estava na entrada da mansão, a capa de Cavaleiro Makai já sobre os ombros, a postura rígida de quem se prepara para guerra. Atrás dele, o Cavalo Gouten aguardava, inquieto.
Kaoru apareceu na soleira. Não usava o quimono formal que normalmente vestia para despedidas. Apenas roupas simples de trabalho, manchadas de tinta. Nas mãos, segurava uma pequena caixa de madeira sem verniz, tosca e claramente feita às pressas.
— Não vou chorar desta vez. — Voz firme, apesar do tremor nas mãos. — Nem vou te pedir para ficar.
Kouga virou-se para encará-la. Não disse nada, mas algo em sua postura se suavizou imperceptivelmente.
— Mas você vai levar isto.
Kaoru estendeu a caixa. Ele a pegou com cuidado, como se temesse que fosse se desfazer. A expressão permanecia imutável, mas seus dedos traçaram o contorno irregular da madeira.
— É uma pedra que encontrei na praia onde nos conhecemos. — Um sorriso forçado. — É cinzenta e sem graça. Comum. Mas eu a segurei quando estava com medo naquela noite. Quando você partiu pela primeira vez e eu não sabia se voltaria.
Kaoru respirou fundo neste instante:
— Eu a pintei por dentro.
Kouga abriu a caixa lentamente. Dentro, acomodada em tecido vermelho, havia uma pedra do tamanho de uma noz.
À primeira vista, apenas isso.. uma pedra cinza comum.
Mas havia uma pequena abertura, e naquela fenda escura, ele viu um lampejo de cor: ouro vibrante, vivo, impossível.
— Como você...?
— Paciência. — Kaoru dá de ombros com falsa leveza. — E um pincel muito fino. E muitas noites em claro pensando em você.
Kouga continuou olhando para a pedra. Pela primeira vez em muito tempo, Kaoru viu algo que poderia ser vulnerabilidade em seu rosto.
— É só um lembrete, Kouga... — Deu um passo à frente. — Se você se sentir cinzento por muito tempo, cercado pela escuridão... olhe para dentro. Eu pintei a promessa de que você vai voltar para mim. Você é ouro por fora...
Tocou de leve o peito dele, onde a armadura se materializaria.
— Mas é a sua humanidade que eu amo. Não a perca nas sombras... Eu lhe peço...
Kouga fechou a caixa e a segurou contra o peito. Quando ergueu os olhos para ela, não eram mais os olhos de Garo, o Cavaleiro implacável. Eram os olhos de um homem que sabia o que estava deixando para trás.
— Vou mantê-la perto...
Tocou de leve no queixo dela.
Kaoru sorriu, tentando evitar que as lágrimas caíssem.
— Eu sei. E eu vou te esperar.
Mas quando ele montou em Gouten e partiu, ela ficou na porta até que a silhueta dourada desaparecesse no horizonte.
E só então permitiu que as lágrimas viessem.
Intensas.
Arrebatadoras.
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Fim do Flashback
— Mestre Kouga nunca removeu aquela caixa de seu cinto Makai. — Gonza abriu os olhos lentamente:
— Carregou-a através de todos os reinos, por todas as batalhas. Alguns inimigos zombavam dele por carregar algo tão frágil em combate. Mas aquela pedra... — Sorriu com a lembrança — Aquela pedra era mais forte que qualquer armadura.
Raiga absorveu aquelas palavras, processando com seriedade.
— Então... o ouro não é apenas uma armadura. O ouro é a cor do amor da mamãe.
Gonza fez um gesto positivo com a cabeça.
— Exatamente, jovem mestre...
O menino ergueu o rosto com os olhos brilhando de modo diferente:
— Então, quando eu for o Cavaleiro Dourado, eu não preciso ter medo de amar.
Gonza sentiu um aperto no peito. Pousou a mão no ombro do menino com afeto paternal.
— Não, Raiga-sama. Você pode e deve amar. Deve proteger a luz mais do que a própria armadura.
Após uma pausa significativa, o velho e leal serviçal retoma a fala:
— É assim que o amor deles continua, através de você...
Naquele exato momento, como se invocada pelas palavras, a porta da biblioteca se abriu suavemente. O cheiro de papel velho e cera foi substituído por algo familiar: tinta a óleo, terebintina e o perfume de laranja.
Lá estava ela!
Não a figura austera de uma esposa de Cavaleiro aguardando notícias de batalhas distantes.
Mas Kaoru Saejima em toda a sua glória caótica, com os cabelos presos com um lápis atravessado, uma mancha de tinta azul-cobalto no queixo, o avental coberto de cores como um mapa de suas criações.
E aquele sorriso...
Aquele sorriso que parecia capaz de afastar qualquer escuridão.
— Desculpem a bagunça! — Ainda segurava um pincel na mão. — Estava no ateliê e perdi a noção do tempo. O que vocês dois estão conspirando aqui no escuro?
Raiga esqueceu completamente toda etiqueta, saltando da poltrona e correndo em direção à mãe como o menino de sete anos que realmente era.
— Mamãe!
— Ah, meu pintor favorito!
Kaoru ajoelhou-se rapidamente, abrindo os braços.
Ele a abraçou com força, enterrando o rosto em seu ombro.
Ela o apertou de volta, seu riso enchendo a biblioteca com uma luz que nenhuma vela poderia produzir.
Gonza, discretamente, levantou-se e começou a sair.
— Vou preparar chá.
Nenhum dos dois ouviu.
Raiga afastou-se apenas o suficiente para olhar o rosto da mãe, os olhos sérios demais para sua idade.
— Mamãe, Gonza-chan estava falando sobre o amor. Como ele é forte!
As palavras do pequeno Raiga Saejima saíam atropeladas, urgentes:
— Mas... como você me ama? É do mesmo jeito que ama o papai? Porque eu serei Garo um dia?
A pergunta pegou Kaoru de surpresa. Ela sentiu o peso daquele abraço.
Não apenas o corpo pequeno de seu filho, mas toda a responsabilidade que ele já começava a carregar.
Kaoru sabia que um dia Raiga também partiria em missões sombrias. Que ela esperaria noites intermináveis por seu retorno. Que viveria o mesmo terror silencioso.
“A roda continua girando” — pensou com um aperto no coração.
Mas quando falou, sua voz era pura ternura:
— Sabe, meu pequeno... — afastando alguns fios de cabelo do rosto dele. — Quando seu pai está longe, eu recorro à pintura. Cada pincelada é uma prece e cada cor é uma memória feliz que o guia de volta para casa.
Raiga arregalou os olhos.
— Então suas pinturas são mágicas?
Kaoru riu de forma genuína e livre:
— Talvez não da forma que os Cavaleiros Makai entendem magia. — inclinando a cabeça, pensativa. — Não há selos ou invocações. Mas sim, elas têm poder. O poder de manter a esperança viva. O poder de lembrar que há luz no mundo, mesmo quando tudo parece escuro.
Segurou o rosto do menino entre as mãos manchadas de tinta — as mesmas que criavam beleza em vez de empunhar espadas.
Por um instante, seus olhos se perderam. As memórias vieram como sempre vinham, inevitáveis.
O frio toque da armadura de Kouga contrastando com o calor de seus abraços. As despedidas dolorosas, os retornos desesperados.
A primeira vez que ele partiu, quando ela não sabia se o veria novamente. A primeira vez que ele voltou ferido. As batalhas vencidas pela luz que ela lhe deu.
A melodia que ela cantava para Raiga dormir, a mesma que murmurava para si mesma nas noites vazias.
“Boku ga ai wo tsutaete yuku”... (Eu continuarei transmitindo o amor...)
O amor que ela sentia por Kouga tinha sobrevivido a maldições, demônios, distâncias impossíveis e o próprio tempo. Era uma promessa contínua, uma linha dourada conectando três corações.
A força que ela dava a Kouga agora precisava passar para o filho.
Não era sobre a armadura. Nunca foi. Era sobre a alma.
— Meu pequeno Raiga... Meu amor por você... — ela hesita, buscando as palavras certas com os olhos brilhando de esperança. — É como o céu pintado depois da chuva. É a continuação de tudo o que eu e seu pai lutamos para construir. Cada tom, cada nuance. É um sentimento que transcende o tempo e a razão. É o ouro que eu não preciso pintar, porque já está aí, brilhando em cada sorriso seu, em cada pergunta curiosa, em cada vez que você corre para meus braços.
Raiga ouvia tudo aquilo, fascinado.
— Eu te amo! — Apertou gentilmente suas bochechas. — Não porque você será Garo um dia. Não porque você carregará a armadura dourada ou lutará contra os Horrors. Eu te amo porque você é você. Porque você é nosso Sol, Raiga! A semente do grande amor que une o seu pai e eu. A luz que me diz que, não importa quão longe a escuridão leve seu pai, a claridade sempre volta para nós.
O menino sentiu algo se expandir dentro do peito. Uma compreensão que não conseguia nomear, mas que sabia ser verdadeira.
— Mamãe... — Sussurrou. — Eu também vou voltar sempre para você. Eu prometo!
Kaoru puxou-o para outro abraço, desta vez permitindo que as lágrimas viessem. Lágrimas de amor, de orgulho, de medo do futuro e gratidão pelo presente.
— Eu sei, meu amor. Eu sei...
Da porta entreaberta, Gonza observava a cena, uma xícara de chá esquecida nas mãos.
— E é assim... — Murmurou para si mesmo, a voz embargada. — Que o amor continua.
O pequeno Raiga, abraçado à mãe na penumbra crescente da biblioteca, finalmente compreendeu a verdadeira força por trás da linhagem dourada.
A armadura de Garo era indestrutível. Mas o amor de sua mãe era o escudo que nunca poderia ser quebrado.
E quando chegasse sua vez de partir, quando vestisse aquele ouro reluzente e partisse para suas próprias batalhas, levaria consigo não apenas as técnicas de espada de seu pai.
Levaria também as cores de sua mãe.


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