Lendas Garo - Boku ga ai wo tsutaete yuku - Capítulo 3 (Final)

 

 

Lendas Garo 


Boku ga a wo tsutaete yuku 



Capítulo 3: A Herança da Luz (Final)

Parte I: O Peso da Espada

Três anos depois...

O suor ardia nos olhos de Raiga. Seus braços tremiam sob o peso da espada de treino.

Não pela fadiga física, mas pela tensão acumulada em semanas de fracassos repetidos.

O dojo da Mansão Saejima cheirava a madeira antiga e também, determinação.

A luz cinzenta da manhã atravessava as janelas altas, desenhando retângulos no chão polido onde Raiga tentava, pela centésima vez naquela semana, executar a Técnica do Corte Ascendente.

Gonza Kurahashi observava com atenção crítica, tendo os braços cruzados e a postura rígida, típica de um instrutor que não podia permitir fraqueza.

—Novamente, jovem mestre. Seus movimentos estão imprecisos. Um Cavaleiro Makai não pode hesitar.

Raiga respirou fundo e volta a assumir a posição inicial, com os pés firmes, joelhos flexionados e espada em guarda baixa.

Concentrado e se esforçando ao máximo que podia, Raiga visualizou o movimento como Gonza lhe ensinara — um arco ascendente fluido, terminando com a lâmina apontando para o céu.

Começou o movimento.

O primeiro terço foi perfeito. O segundo começou a vacilar. No terço final, a espada tremeu visivelmente em suas mãos, e o golpe terminou torto, sem força, sem convicção.

—Insuficiente. — A voz de Gonza cortou como uma lâmina. — Na sua idade, Mestre Kouga já executava essa técnica com os olhos vendados. Se você não consegue sequer...

—Eu estou tentando! – responde Raiga, visivelmente incomodado com aquela cobrança.

A voz de Raiga ecoou pelo dojo, mais alta do que pretendia.

Lágrimas de frustração ardiam em seus olhos, mas ele as segurou.

Um Cavaleiro Makai não chora...

Não pode chorar!

O velho Gonza suspirou, denotando uma mal disfarçada decepção ou cansaço.

—Tentar não é suficiente. O Mestre Kouga, na sua idade, já...

—Eu não sou o meu pai!

As palavras explodiram de Raiga como uma ferida que finalmente se abriu.

A espada caiu das suas mãos com um estrondo que pareceu ressoar por toda a mansão.

—Eu não sou! Eu nunca vou ser tão bom quanto ele!

E então Raiga correu. Correu para fora do dojo, deixando a espada caída no chão como uma acusação.

Gonza ficou parado por um longo momento, olhando para a espada abandonada.

Seu reflexo distorcido na lâmina parecia questioná-lo.

“Estou sendo justo com o menino?” — refletiu por um instante.

Mas ele sabia a resposta.

Justo ou não, o mundo não pouparia Raiga.

Os Horrors não esperariam até que ele estivesse pronto.

A armadura de Garo exigia perfeição, e Gonza tinha o dever de preparar o jovem mestre para isso.

Mesmo que o custo fosse alto.

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Parte II: Cores no Ateliê

Raiga entrou no ateliê sem bater, o peito ainda ofegante e as lágrimas finalmente correndo livres pelo rosto.

Kaoru estava diante de uma grande tela. Desta vez, não pintava paisagens ou flores, mas uma figura dourada emergindo da escuridão.

A luz da tarde criava halos ao redor dela, transformando-a numa espécie de sacerdotisa da cor.

Ela não se virou, mas sua mão pausou no meio de uma pincelada.

—Treinamento difícil hoje, meu querido?

Raiga enxugou as lágrimas com raiva, com as costas da mão.

—Gonza-chan não entende! Ele fica me comparando com o papai o tempo todo. Eu nunca vou ser tão forte! Nunca!

Kaoru finalmente virou-se. Tinta dourada manchava suas mãos até os pulsos, como se ela tivesse mergulhado os dedos no sol.

—Vem cá, Raiga. — Kaoru faz um gesto maternal de acolhimento.

Na sequência, conduziu-o até a tela com gentileza, colocabdo delicadamente a mão no seu ombro, transmitindo calor que contrastava com o frio que ele sentia por dentro.

Raiga olhou para a pintura e seu coração deu um salto.

A figura dourada tinha características familiares — a postura, a inclinação da cabeça. Era Garo, mas havia algo diferente.

A armadura não era apenas dourada. Havia pinceladas de outras cores tecidas no ouro: azul nas sombras, vermelho nos reflexos, verde nas bordas.

Como se a armadura fosse feita não apenas de metal, mas de luz viva.

—Sabe o que estou pintando?

Raiga supõe:

—O papai?

Kaoru tocou de leve no ombro do filho.

—Não exatamente...Estou pintando a ideia que Garo representa. A armadura, a força, a coragem. — Kaoru fez uma breve pausa. — Mas sabe qual é o segredo?

Nesse instante, ela aponta para o coração da figura dourada, onde havia um pequeno ponto de luz branca, quase imperceptível em meio ao ouro.

—É isso aqui que faz Garo ser verdadeiramente poderoso.

Raiga olhou mais de perto, confuso:

— O coração?

—A humanidade. — Kaoru olhou para a própria tela como se visse algo além das pinceladas. — Seu pai não é forte apenas porque treinou a vida toda. Ele é forte porque tem algo pelo que lutar...

— Nós.

Propositadamente, ela faz uma breve pausa , permitindo que o pequeno Raiga absorvesse aquele conceito , que ela tinha a certeza que seria valioso no futuro.

Passado cerca de trinta segundos, ela esclarece:

— Você não precisa ser igual a ele, Raiga. Pessoas são diferentes...

—No modo de pensar, agir e entender o mundo. Você precisa encontrar sua própria luz. Isso em nada o tornará inferior ao seu pai ou ao seu avô.

As palavras tocaram algo profundo em Raiga. Ele olhou para o ponto branco na pintura, depois para sua mãe.

—Mas eu tenho medo, mamãe. — sua voz tremeu. — E se eu não for forte o suficiente? E se um dia um Horror...

A voz do pequeno novamente falhou.

Os punhos se cerraram.

Kaoru ajoelhou-se na frente dele, segurando suas mãos com firmeza. Suas palmas manchadas de tinta deixaram marcas douradas nos dedos de Raiga, como se ela estivesse transferindo luz diretamente para ele.

— Ter medo é humano, meu filho. Seu pai também tem medo. Medo de nos perder, medo de falhar. Mas ele continua lutando mesmo assim. Essa é a verdadeira coragem!

Nesse instante, Raiga se lembrou de algo. Uma memória que havia esquecido, enterrada sob o peso das expectativas e do treinamento.

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Flashback

Dois anos antes, numa noite rara em que Kouga estava em casa.

Raiga, então com cinco anos, acordou assustado.

O pesadelo ainda pulsava em sua mente — criaturas escuras com olhos vermelhos, garras que rasgavam a luz, e seu pai desaparecendo numa névoa negra.

Correu pelo corredor escuro da mansão, os pés descalços frios contra o piso de madeira, até encontrar a luz fraca vinda do escritório de seu pai.

— Papai?

Kouga estava limpando sua espada. Os ombros curvados sob peso invisível, o rosto marcado por uma fadiga que ia além do físico.

Ao notar a presença do filho, levantou os olhos, surpreso:

— Raiga. Deveria estar dormindo...

— Tive um pesadelo. — A voz do pequeno Raiga tremia. — Havia monstros escuros e... e você não estava lá para me proteger.

Kouga ficou em silêncio por alguns instantes.

A espada brilhava à luz da vela, recém-limpa, mas ainda carregando o peso de batalhas recentes.

Então, pela primeira vez que Raiga conseguia se lembrar, seu pai abaixou a espada. E abriu os braços:

— Vem aqui!

Raiga correu e se jogou no braços do pai.

— Haverá momentos em que eu não estarei aqui. — Kouga falou devagar, escolhendo cada palavra. — Missões longas, batalhas distantes. Mas isso não significa que você está desprotegido.

— Como? — o pequeno pergunta.

Kouga tocou no peito do menino:

— Porque você carrega minha força aqui.

 Depois tocou sua testa:

 —E a luz da sua mãe aqui. Quando você crescer e vestir esta armadura, vai entender. Garo não é apenas uma espada que corta demônios. É uma promessa de que a luz sempre vence a escuridão.

Raiga agarrou-se ao pai:

—Eu vou ser forte como você, papai. Eu prometo.

Kouga, com raro sorriso, respondeu:

— Eu sei que vai... Mas lembre-se: ser forte não significa não ter medo. Significa lutar mesmo quando você está com medo.

E naquela noite, Raiga dormiu no escritório de seu pai, embalado pelo som rítmico da pedra de amolar contra o aço.

Fim do Flashback

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De volta ao ateliê, Raiga limpou o rosto e olhou para sua mãe com algo novo nos olhos.

Não era confiança completa...

 Ainda não...

Mas era um começo.

— Mamãe, posso fazer uma coisa?

— Claro. O que você precisa?

—Quero que você me ensine a pintar. — As palavras saíram numa corrida. — Não para ser artista como você, mas... para lembrar... Para ter minha própria luz quando o papai não estiver aqui. Quando eu tiver medo.

O sorriso de Kaoru foi como o Sol nascendo:

— Isso, meu filho, é a coisa mais sábia que você já disse!

Em seguida, entregou-lhe um pincel pequeno e uma paleta com apenas duas cores: ouro e branco.

—Vamos começar simples. Pinte o que você sente agora, meu pequeno!

Raiga hesitou.

O pincel parecia estranho em sua mão.

Tão diferente do peso familiar da espada.

Leve demais.

Frágil demais.

Mas então mergulhou o pincel na tinta dourada.

Com traços incertos mas determinados, começou a desenhar na borda da tela de sua mãe.

Não uma armadura completa.

 Não uma figura heroica.

Apenas uma pequena espada dourada, e ao redor dela, pontos de luz branca como estrelas.

Quando terminou, deu um passo atrás.

— É isso... — sua voz era firme. — É a promessa que eu faço. Vou proteger nossa luz, mamãe. Assim como o papai faz. Do meu próprio jeito.

Kaoru sentiu lágrimas nos olhos.

Tocou no rosto de Raiga com as mãos ainda manchadas de tinta, deixando traços dourados em suas bochechas como marcas de guerra pintadas por um povo antigo.

E então ela cantou, suave:

Boku ga ai wo tsutaete yuku...

Raiga, que sempre a ouvia cantar essa canção antes de dormir, juntou sua voz à dela:

Boku ga ai wo tsutaete yuku...

(Eu continuarei transmitindo o amor)

—Essa música não é apenas uma canção de ninar, meu pequeno. — Kaoru, visivelmente emocionada, segurou o rosto dele com ternura.

—Ela é a celebração do amor entre seu pai e eu. E esse amor germina em você. Assim o amor continua, de geração em geração.

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Parte III: A Reconciliação

Do lado de fora da janela do ateliê, o velho Gonza observava cena.

A culpa pesava em seus ombros como armadura invisível.

Ele tinha empurrado o menino longe demais, rápido demais, tentando forjar aço quando deveria ter cultivado crescimento.

“Kaoru-sama sabe o que eu esqueci” — pensou. — “Não se cria um Cavaleiro Makai apenas com técnica”

Decidido a se reconciliar com o herdeiro dos Saejima, Gonza bateu suavemente na porta.

— Posso entrar?

Raiga enrijeceu, mas Kaoru tocou seu ombro com encorajamento.

— Entre, Gonza-chan!

O velho serviçal entrou, e pela primeira vez em semanas, não havia rigidez militar em sua postura.

Apenas um homem idoso, cansado, que amava aquela família mais do que sua própria vida.

— Jovem mestre. — Inclinou-se levemente. — Preciso lhe pedir desculpas!

Raiga piscou, surpreso.

— Eu estava errado... — Gonza continuou, com as palavras saindo com dificuldade. —Fui instruído a transformá-lo no próximo Garo. Mas esqueci que antes de ser Garo, você precisa ser Raiga. Antes de ser uma armadura, você precisa ser uma pessoa.

Fez uma pausa, olhando para a pintura de Kaoru, depois para o pequeno desenho de Raiga na borda.

—Seu pai não se tornou um grande Cavaleiro porque era perfeito tecnicamente. Ele se tornou grande porque encontrou algo além da batalha. — Olhou para Kaoru. — Ele encontrou luz.

Raiga olhou para Gonza, depois para sua mãe, depois para suas próprias mãos manchadas de tinta dourada.

—Gonza-chan... eu ainda quero treinar. Quero ser forte. — sua voz era firme. — Mas do meu jeito. Posso fazer isso?

O velho serviçal sorriu, e era um sorriso genuíno, não a máscara severa do instrutor.

— Não apenas pode, jovem mestre... Deve! A partir de amanhã, treinaremos diferente. Não para fazer de você uma cópia de Mestre Kouga, mas para ajudá-lo a encontrar seu próprio caminho dourado.

Kaoru puxou Raiga para um abraço, depois estendeu um braço para Gonza. O velho serviçal, depois de um momento de hesitação, juntou-se ao abraço.

Ali, no ateliê manchado de cores, cercados por telas que capturavam luz em pigmento, os três formaram um círculo.

E Raiga compreendeu que aquele era seu primeiro escudo. Não de metal ou magia, mas de amor.

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Parte IV: O Retorno

Naquela noite, Raiga voltou ao dojo.

A espada ainda estava onde havia caído, esperando.

Ele a pegou, sentindo o peso familiar em suas mãos.

Mas agora era diferente.

 Não era apenas o peso da expectativa, do legado, da comparação.

Era o peso da escolha.

“Eu escolho isso” — pensou. — “Não porque preciso ser meu pai. Mas porque há pessoas que eu amo. Porque há luz que vale a pena proteger”.

Determinado, Raiga assumiu a posição inicial.

Respirou fundo, sentindo o ar frio da noite encher seus pulmões.

E executou o Corte Ascendente.

Não foi perfeito. O arco tremeu no meio, a conclusão foi um pouco torta. Mas havia algo novo no movimento...

0onvicção.

Propósito

 Vida.

—Melhor...

A voz de Gonza veio da porta. Ele tinha observado em silêncio.

—Muito melhor, jovem mestre!

Raiga virou-se, suado mas sorrindo.

— Posso tentar de novo?

— Quantas vezes quiser. Temos tempo...

E pela primeira vez em meses, o treinamento não pareceu uma prisão, mas um caminho. Um caminho que Raiga escolhia trilhar.

Naquela noite, ele pendurou seu pequeno desenho ao lado das pinturas de sua mãe no corredor da mansão. Era imperfeito, infantil até, mas brilhava com promessa genuína.

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Interlúdio Distante

Em algum lugar na Terra dos Antigos Horrors, onde a escuridão era espessa o suficiente para ter peso, Kouga Saejima parou no meio de uma batalha.

Seu inimigo havia recuado momentaneamente, permitindo-lhe um segundo de respiro.

Instintivamente, sua mão foi para o cinto.

Encontrou a pequena caixa que nunca o deixava. Abriu-a, e ali, no meio de toda aquela escuridão, o ponto dourado dentro da pedra cinza brilhou.

Por um momento, não estava mais naquela terra maldita. Estava em casa. Kaoru pintando, Raiga rindo, o cheiro de tinta e essência de laranja.

“Luz” — pensou. — É por isso que eu luto”.

Fechou a caixa, guardou-a de volta, e voltou para a batalha com renovada determinação.

Não sabia exatamente o que havia acontecido, mas sentiu — da forma que apenas corações conectados podem sentir através de qualquer distância — que seu filho tinha dado mais um passo importante.

Em direção ao seu próprio destino dourado.

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Epílogo: O Ciclo Continua

Quinze anos depois.

O cemitério estava quieto sob o sol da primavera.

Flores de cerejeira dançavam no vento, seus pétalas rosa-claras caindo como neve morna sobre a terra.

Um homem vestido com ums roupa estilizada branca com detalhes em dourado e uma grande capa, típica do Cavaleiro Dourado estava diante de um túmulo simples, mas cercado pelas flores mais vibrantes.

Raiga Saejima, agora o Cavaleiro Dourado, segurava a mão de uma criança pequena.

Ao seu lado, Mayuri observava em silêncio respeitoso, sua própria mão livre descansando protetoramente sobre o ventre ainda plano onde uma nova vida começava a crescer.

O pequeno Saiga olhava o túmulo com curiosidade inocente — a mesma curiosidade que o próprio Raiga tivera na biblioteca, tantos anos atrás.

— Papai, quem está aí?

Raiga ajoelhou-se ao lado do filho, respondendo com carinho:

—Esta é a sua avó Kaoru. Ela era uma artista. A mais brilhante que já existiu.

— Ela pintava Horrors? — a pergunta veio tão sincera, quanto direta.

Típico de uma criança curiosa, como Raiga já fora um dia

Raiga riu, o som suave e carregado de memória.

—Não, pequeno Saiga... Ela pintava esperança, luz e amor!

—Ela me ensinou que um Cavaleiro Makai não é apenas alguém que destrói a escuridão, mas alguém que protege a luz.

A seguir, ele retira uma pequena caixa de madeira de seu cinto.

A mesma que Kaoru tinha dado a Kouga tantos anos atrás. A madeira estava gasta pelo tempo e batalhas, mas o conteúdo permanecia intocado.

Abriu-a, mostrando a pedra com o ponto dourado que ainda brilhava como se tivesse sido pintado ontem.

—Vê isto, meu filho? Sua avó pintou isso para o seu avô Kouga. E ele carregou durante toda a vida. Depois eu carreguei. E um dia, quando você crescer, você também vai carregar algo precioso. Algo que te lembre por que você luta.

Saiga tocou na pedra com reverência infantil:

— Por que eu luto, papai?

Raiga abraçou o filho, e Mayuri se aproximou, completando o círculo. Ele olhou para o túmulo, e podia jurar que sentiu o aroma de laranja no ar.

—Porque há pessoas que você ama. Porque há beleza no mundo que vale a pena proteger. — fez uma pausa. — E porque o amor é a verdadeira força de Garo. Não a armadura. Não a espada. O amor.

Uma brisa suave passou pelo cemitério, carregando pétalas de cerejeira e aquele perfume impossível de laranja. Na lápide, as palavras gravadas eram simples:

**KAORU SAEJIMA**

*Ela pintou luz onde havia sombras*

*E amor onde havia apenas dever*

Mayuri tocou o ombro de Raiga com ternura.

—Ela estaria orgulhosa de você. Do homem que você se tornou. Do pai que você é.

Raiga acenou, não confiando em sua voz por um momento.

Então, muito suavemente, começou a cantar.

A canção que sua mãe sempre cantava, a canção que ela havia ensinado a ele, a canção que agora ele ensinaria a Saiga:

Boku ga ai wo tsutaete yuku...

— Boku ga ai wo tsutaete yuku...

Saiga, sem entender todas as palavras mas sentindo o peso delas, juntou sua voz pequena:

Boku ga ai wo tsutaete yuku...

(Eu continuarei transmitindo o amor)

E ali, no cemitério sob as cerejeiras em flor, três gerações se conectaram através do tempo e da canção.

Kouga, que aprendeu a ver além da escuridão.

Kaoru, que pintou luz onde não havia.

Raiga, que encontrou seu próprio caminho dourado.

Mayuri, que agora carregava a próxima geração.

E Saiga, que um dia carregaria a armadura e a promessa adiante.

Pai, filho e mãe caminharam lentamente de volta pela alameda. O traje de Raiga brilhava sob a luz do sol, mas era o sorriso no rosto de Raiga — o mesmo sorriso radiante de Kaoru — que verdadeiramente iluminava o caminho.

Atrás deles, se alguém tivesse olhado com atenção, poderia ter visto uma figura translúcida entre as cerejeiras.

Uma mulher com as mãos manchadas de tinta, sorrindo enquanto observava sua família partir.

E então ela também partiu, dissolvendo-se em luz dourada e pétalas de cerejeira.

Sua obra estava completa.

O amor continuaria sendo transmitido...

De geração em geração...

Eternamente.

**FIM** 



Raiga Saejima, o sucessor de Kouga e o legado de sua mãe Kaoru

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Nota do Autor

*"O ouro não é apenas metal. É promessa.

A espada não é apenas aço. É escolha.

E o amor não é apenas sentimento. É legado.*

*Esta história é dedicada a todos aqueles que carregam armaduras — visíveis ou invisíveis — e ainda assim escolhem amar, proteger e transmitir luz para as próximas gerações.*

*Que encontremos nossa própria cor em meio ao ouro."*


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