Projeto The Chosen Projeto The Chosen: Vozes que O Viram - CAPÍTULO XI - SIMÃO ZELOTE
CAPÍTULO 11 --- SIMÃO ZELOTE
A Faca que Ele Jogou Fora
Eu tinha uma faca.
Uma adaga, pra ser mais exato...
Muito mais que um símbolo, era ferramenta.
Era o jeito que os zelotes existiam no mundo — com a consciência permanente de que a liberdade de Israel não viria por oração ou paciência ou confiança em que Roma eventualmente cedesse por bondade.
Viria por sangue.
Pelo preço que toda libertação real cobra.
Pela disposição de homens que amavam suficientemente a causa para colocar o corpo entre a causa e o que ameaçava a causa.
A Quarta Filosofia, poderia ser considerada mais radical se comparada aos fariseus, saduceus e até dos essênios; esses pacifistas demais.
Para mim, era a mais honesta e verdadeira porque agia.
Não ficava esperando soluções milagrosas.
Eu amava suficientemente.
Tinha a faca
E tinha Jesse, o irmão paralítico mais velho, que eu abandonei para se juntar à Irmandade Zelote.
Não só irmão no sentido de família — irmão no sentido de pessoa que você conhece de um jeito que não é possível conhecer ninguém que você encontrou depois de adulto.
Havia carregado ele nas costas quando criança, havia brigado por ele na rua, havia sido o primeiro a perceber quando algo estava errado.
Quando Jesse adoeceu e as pernas pararam de funcionar eu estava lá.
Vi o processo.
Vi as pernas que haviam corrido ao meu lado desaprender o
movimento.
Vi Jesse aprender a existir de outro jeito — com uma dignidade que eu admirava e com uma dor que ele escondia de mim especificamente porque sabia que eu não conseguia ver a dor dele sem
precisar atacar a origem dela.
A origem era doença. Não tinha origem para atacar.
Aprendi a raiva que não tem para onde ir.
A faca na cinta era resposta para outras raivas.
Mas não para essa.
Decidi seguir meu caminho, acreditando na missão de libertar nosso povo da opressão nojenta e asquerosa dos romanos.
Abandonei meu irmão à própria sorte.
Treinei corpo, mente e espírito para uma causa, esperando a chegada do Messias prometido.
Queria ser o soldado mais corajoso e fiel que o Messias poderia esperar.
Hoje me arrependo por isso.
Abandonar meu irmão foi tão errado quanto entender as profecias de modo equivocado.
Betesda era onde Jesse ficava.
A piscina das cinco pórticos, o lugar onde os doentes esperavam o movimento da água. Jesse estava lá há anos — anos, não semanas, não meses.
Anos daquele chão, daquela espera, daquela esperança que se renovava cada vez que a água se movia e se dissolvia cada vez que ele chegava tarde ou não conseguia chegar sozinho.
Eu o visitei certa vez.
Não era fácil vê-lo naquele estado tão lamentável.
Sujo...
Barbudo...
Tão desacreditado de si mesmo.
O meu abandono somado a minha obsessão de lutar pela libertação de Israel e fazer justiça com minhas próprias mãos, gerou muitas mágoas nele.
Mesmo entendendo sua revolta era difícil porque eu era zelote.
Porque havia em mim a convicção de que homens de ação mudavam as coisas — e ver meu irmão naquele chão ano após ano me colocava de frente com o limite do que ação podia fazer.
Havia coisas que a faca não resolvia.
Não queria admitir isso.
Mas vê-lo tão indefeso , me fez pensar, ainda que eu jamais em trair à Irmandade.
O dia da operação havia sido planejado com cuidado.
Não vou dar detalhes que não precisam ser dados — o alvo era uma autoridade romana, o momento estava calculado, as posições estavam combinadas.
Éramos um grupo.
Homens que eu conhecia bem, homens em quem eu confiava com a vida porque operações assim dependem de confiança absoluta ou não dependem de nada.
Johar estava à minha esquerda.
Os outros distribuídos como havíamos combinado.
Havia a tensão específica dos momentos antes — não medo exatamente, mais a contração de todo o corpo em direção ao que vem, o silêncio que antecede a ação quando homens treinados esperam o sinal.
Esperávamos o sinal.
E então Jesse passou...
Andando...
Como se nunca houvesse sofrido de paralisia...
Não estava esperando Jesse.
Não havia razão ou lógica para Jesse estar naquela rua naquele momento.
Exceto que Jesse havia saído de Betesda naquele dia pela primeira vez em anos e estava caminhando pela cidade com as pernas que haviam parado de funcionar, funcionando.
Com a cama nas costas...
Carregando a própria cama.
Andando.
Jubilando de alegria.
Exaltando um profeta vindo da Galileia.
O irmão que eu havia visitado no chão de Betesda, cujos pés eu havia visto arrastar ano após ano, que havia me olhado com aquela dignidade dolorosa de quem aprendeu a existir dentro do limite — estava andando na minha frente carregando a prova do que havia sido e a prova do que era agora ao mesmo tempo.
Fiquei imóvel.
Em choque.
Meus olhos se recusavam a acreditar, mas as evidências eram incontestáveis.
O grupo todo parou.
Não foi ordem.
Não foi sinal combinado.
Foi o tipo de parada que acontece quando algo maior que a missão passa na frente da missão e os olhos seguem antes que a vontade decida seguir.
Johar estava à minha esquerda e ficou tão imóvel quanto eu.
Os outros também.
Um grupo de homens prontos para produzir morte parou porque um homem que havia recebido vida passou carregando a cama.
Jesse nem nos viu.
Estava olhando para as próprias pernas com aquela expressão de quem ainda não acredita completamente no que o próprio corpo está fazendo.
Andando com o cuidado de quem não quer acordar de sonho bom.
Sorrindo sozinho sem perceber que estava sorrindo.
Passou.
E foi embora pela rua.
O silêncio que ficou entre nós tinha textura diferente do silêncio de antes.
Antes era tensão contraída em direção à ação.
Depois era outra coisa — era o silêncio de homens que estavam olhando para a mesma coisa sem conseguir nomear o que haviam visto mas sabendo que o que haviam visto mudava alguma coisa que não voltava.
Johar foi o primeiro a falar.
Disse baixo, quase para si mesmo: Foi o paralítico.
Não era pergunta.
Foi Jesse , meu irmão — eu disse.
Outro silêncio.
Depois Johar olhou para mim com aquela expressão que eu nunca havia visto nele — Johar que era o homem mais comprometido do grupo, o que nunca recuava, o que havia recrutado metade de nós com a força da própria convicção.
Johar que estava pronto para matar havia dois minutos.
Olhou para mim e disse: Não consigo.
Não precisou explicar o que não conseguia.
Nenhum de nós conseguia.
A operação havia terminado sem que ninguém desse ordem para terminar.
Fui encontrar Jesse naquele mesmo dia.
Ele me contou com a velocidade de quem está transbordando — as palavras saindo antes de conseguir organizá-las, os gestos apontando para as pernas como se ainda precisasse confirmar que estavam lá.
Jesus havia chegado até ele. Havia perguntado se queria ser curado.
Havia dito para se levantar e andar.
E ele havia andado.
Fiquei ouvindo com aquela coisa acontecendo dentro de mim que não tinha nome ainda — não era só alegria pelo irmão, era a reorganização de algo fundamental.
Como quando uma estrutura que você havia construído sobre certa base descobre que a base era menor do que a realidade e precisa ser reconstruída sobre algo maior.
Jesus, muito mais que curar meu irmão, me conquistou o coração sem eu nunca tê-lo visto.
Perguntei onde estava Jesus.
Em êxtase; Jesse me afirmou que Jesus era o Messias.
Fui encontrá-lo.
Ele me viu chegando.
Não havia surpresa no olhar — como se a cura de Jesse fosse também convite para mim sem que isso fosse dito em voz alta.
Como se ele soubesse que eu viria e soubesse por quê e soubesse o que eu ainda estava segurando.
Parei na frente dele.
Sem fala.
Eu que havia passado anos em reuniões argumentando estratégia e método e tempo de ação — fiquei sem fala.
Ele olhou para mim.
Olhou para a faca na cinta.
E sem cerimônia, sem discurso, sem pedir licença ou explicar o que estava fazendo — estendeu a mão, pegou a faca e jogou fora, num riacho próximo.
Preciso parar aqui.
Porque o que aconteceu naquele momento foi mais do que o gesto físico.
A faca era identidade.
Era o jeito que eu sabia quem eu era no mundo —zelote, homem de ação, alguém que havia escolhido pagar o preço que a liberdade custava.
Durante anos aquela faca na cinta era a resposta para a pergunta de quem eu era.
Jesus pegou e jogou fora.
E eu não reagi.
Não parti para cima. Não fui buscar.
Não protestei.
Fiquei olhando para onde a faca havia caído e sentindo — não raiva, não humilhação.
Senti alívio.
Como quando você carrega peso por tanto tempo que para de perceber que está carregando e então alguém tira das suas mãos e você sente os ombros descerem e só aí entende quanto estava pesando.
A faca estava pesando.
Havia pesado por anos.
Eu não sabia.
Ele disse então: Simão.
Só o nome.
Da forma que ele dizia os nomes — inteiros, com peso, como se o nome fosse pessoa e a pessoa fosse vista completamente.
Eu que havia passado anos com a identidade de zelote tão fundida com o nome que as duas coisas eram quase a mesma coisa — ouvi meu nome dito de um jeito que separava as duas coisas sem violência.
Que dizia Simão e deixava zelote onde havia caído junto com a faca.
Não perguntou se eu queria seguir.
Não havia necessidade de perguntar.
Eu já estava seguindo.
O grupo soube naquele mesmo dia.
Não precisei ir até eles — Johar veio até mim.
Disse que havia pensado no que havia visto.
Que havia falado com os outros.
Que a operação estava cancelada — não adiada, cancelada.
Que havia algo acontecendo com aquele homem que nenhum deles conseguia ignorar depois do que tinha visto.
Perguntou se eu ia seguir Jesus.
Disse que já estava seguindo.
Ele ficou em silêncio por um momento.
Depois disse que não estava pronto para isso ainda.
Mas havia algo no jeito que disse — ainda — que me disse que a semente havia caído.
Jesse carregando a cama havia plantado algo naqueles homens que nem eles mesmos sabiam ainda o tamanho.
Os zelotes da ordem souberam depois.
Vieram com os avisos de sempre — traição tem preço, Israel precisa de homens comprometidos, o que eu havia feito era deserção em tempo de guerra.
Ouvi.
Porém , não temi...
Ainda que tivesse plena consciência das consequências da minha deserção.
Para quem teve o irmão curado daquela forma milagrosa, nada mais importava.
Depois disse: Eu vi meu irmão andar depois de anos no chão de Betesda. E estava no meio de uma operação quando ele passou carregando a cama. E o grupo inteiro parou. Homens que não param pararam. Me diga qual é o argumento que supera isso.
Silêncio.
Foram embora.
Não sem aviso. Não sem deixar claro que o assunto não estava encerrado para eles.
Mas foram.
A fé me salvou de ser morto.
Digo isso com precisão — não é exagero.
Havia entre os zelotes homens para quem traição tinha preço fixo.
E eu havia traído a ordem.
O que me protegeu não foi argumento.
Foi a convicção que eles viram em mim que não era negociável.
Homens que vivem pela força reconhecem quando outro homem encontrou algo que não tem medo da força deles.
Não porque eu fosse mais forte. Mas porque havia algo no que eu havia encontrado que tornava a ameaça deles pequena em comparação.
Quando você estava no meio de uma operação e seu irmão paralítico passou carregando a cama — o que a ameaça de homens armados faz com isso?
Jesse e eu conversamos muito nos anos que seguiram.
Ele me perguntou uma vez se eu me arrependi de ter largado a faca.
Disse que me arrependi de ter achado que a faca era a resposta antes de ver o que era a verdadeira resposta.
Ele ficou quieto pensando.
Depois disse: Eu esperava todo dia que alguém me ajudasse a chegar à água. Ninguém chegou. Mas Jesus chegou até mim.
Não precisei perguntar o que queria dizer.
A revolução que eu havia planejado era eu chegando até o problema com a ferramenta que havia escolhido.
O que Jesus fazia era diferente — chegava até as pessoas com o que elas precisavam de verdade, não com o que eu havia decidido que precisavam.
Eu havia decidido que Israel precisava de faca.
Jesse havia precisado de alguém que chegasse até ele e perguntasse “queres ser curado?”
Pergunta simples.
Presença direta.
Poder que não dependia de organização ou estratégia ou quantidade de homens comprometidos com a causa.
Só chegou.
E perguntou.
E meu irmão andou.
Às vezes ainda sinto o peso fantasma da faca na cinta.
O jeito que o corpo lembra de hábitos longos mesmo quando o hábito foi embora.
Para quem esperava um rei militar tal qual Davi, encontrei um rei diferente.
Não foi um processo simples.
Não foram poucas vezes que perguntei a Jesus sobre sua missão.
Ele ria como quem dissesse: ainda não entendeste?
Mas suas atitudes, seus milagres falavam por Ele.
Comecei a ler as Escrituras com mais atenção.
As profecias eram claras.
Nós é que não sabíamos enxergar.
Mesmo assim, eu nutria esperança que Ele libertaria Israel com pulso firme, em algum momento.
A cruz e a ressurreição me provaram o contrário.
Só aí entendi...
Quando sinto isso — coloco a mão na cinta onde a faca ficava e não encontro nada.
E lembro de Jesus estendendo a mão.
Do gesto sem cerimônia.
Da faca indo embora.
Ele viu o que eu segurava.
Soube que eu precisava largar.
E fez o que era necessário fazer.
Eu só precisei deixar.
Às vezes é tudo que se pede.
Deixar.
E foi o mais difícil e o mais simples que já fiz na vida.


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