Projeto The Chosen: Vozes que o viram -CAPÍTULO V - Mateus

 

 



CAPÍTULO 5 --- MATEUS

O Que os Números Não Conseguiam Calcular

Eu entendia os números.

Sempre entendi.

Desde criança havia algo reconfortante na precisão deles— um número não mente, não interpreta, não depende de humor ou de favor.

Dois mais dois é quatro independente de quem você é, de onde veio, de quanto os outros te odeiam.

Os números eram o único lugar onde eu era tratado igual.

Aprendi cedo que as pessoas não eram assim.

As pessoas olhavam para mim e viam o que eu representava antes de ver quem eu era.

Cobrador de impostos para Roma.

Traidor.

Colaborador da ocupação.

Homem que enriquecia enquanto o povo sofria.

Algumas dessas coisas eram verdade — não vou sentar aqui e construir defesa que não me pertence.

Não serei meu advogado.

Eu cobrava.

Eu ficava com mais do que devia às vezes.

Eu sabia o que era e sabia o que as pessoas pensavam que eu era e em algum momento parei de distinguir entre as duas coisas.

Se vão me tratar como lixo de qualquer forma, podia muito bem ser lixo

rico.

Essa foi a lógica por anos.

A mesa era o meu mundo.

Não a mesa de jantar — a mesa de trabalho. O lugar onde eu sentava e as pessoas vinham até mim com medo ou raiva ou as duas coisas juntas e eu processava os números e elas iam embora com menos do que tinham chegado.

Eu era eficiente.

Era organizado.

Era o tipo de cobrador que Roma gostava porque não criava problemas desnecessários — fazia o

trabalho, mantinha os registros, entregava o que precisava ser entregrado.

E odiava cada dia disso.

Não o dinheiro.

O dinheiro era bom e eu mentia para mim mesmo dizendo que era suficiente.

Odiava o jeito que as pessoas me olhavam.

Mas a verdade é que eu odiava saber que elas estavam certas.

Eu nunca fui uma pessoa que a senso comum define como normal.

Eu mesmo, me acho esquisito...

Diferente...

Inadequado...

Fora de sintonia com tudo a minha volta...

As vezes tenho dificuldade em me entender.

Bom, mas não é sobre mim que quero falar.

Acho que já falei mais do que devia.

Eu quero falar de algo que feriu de morte a minha lógica metódica: Jesus de Nazaré.

Eu havia ouvido falar de Jesus antes do dia em que ele veio até a minha mesa.

Em Cafarnaum todo mundo havia ouvido.

As histórias circulavam...

O paralítico que andou, a mãe de Pedro curada,

Os demônios expulsos.

O caso de Lilith..., ou melhor, Maria Madalena foi os dos mais impressionantes pra mim.

 Eu ouvia e catalogava como catalogava tudo — informação relevante, origem incerta, verificação pendente.

Havia algo acontecendo com aquele homem mas eu não era o tipo de pessoa que ia atrás de profetas.

Profetas não tinham nada para mim. Eu era exatamente o tipo de pessoa que os profetas usavam como exemplo do que não ser.

E então Ele veio até a minha mesa.

Não do lado de fora gritando maldições.

Não com a multidão apontando.

Veio diretamente, parou na minha frente, me olhou — e aqui está a coisa que nunca consigo descrever adequadamente sem que pareça exagero ou invenção — ele me olhou como se a mesa não existisse.

Como se o que eu fazia não fosse o que eu era.

Ninguém havia me olhado assim em anos.

Talvez nunca.

Disse: Segue-me.

Duas palavras.

Sem argumento. Sem explicação.

Sem eu sei o que você fez mas mesmo assim ou se você mudar eu aceito ou qualquer uma das construções condicionais que eu esperaria de alguém que sabia minha história.

Só: Segue-me.

Como se fosse simples.

Como se a mesa e os registros e os anos e a reputação e o que Roma ia dizer e o que o dinheiro ia dizer e o que meu próprio reflexo ia dizer — como se nada disso fosse o obstáculo real.

Me levantei.

Não resisti ao chamado tão improvável, quanto desconcertante.

Não porque calculei.

Calculei depois — que era impulsivo, que não tinha plano, que estava abandonando renda segura por um itinerante galileu com seguidores pescadores.

Calculei tudo isso depois e os números não fechavam de jeito nenhum.

“Estaria louco?” —me perguntei várias vezes.

Mas antes de calcular me levantei.

E fui.

Fiz um banquete.

Precisava fazer alguma coisa com o que estava sentindo e a única linguagem que eu tinha para celebração era comida e companhia, então chamei as pessoas que me conheciam — outros cobradores, pecadores conhecidos, gente que a sinagoga não queria dentro.

O único tipo de festa que eu sabia dar era a festa que os fariseus olhavam de longe com repulsa.

Jesus foi.

Sentou.

Comeu.

Sorriu.

Se permitir até contar piadas.

Conversou com as pessoas que ninguém queria conversar.

Os fariseus perguntaram aos discípulos por que o mestre deles comia com pecadores e cobradores de impostos.

Jesus respondeu ele mesmo — não são os sãos que precisam de médico, mas os doentes.

Ouvi aquilo sentado na minha própria festa e algo se moveu dentro de mim que eu não sei nomear com precisão.

 Não era alívio somente.

Era mais parecido com ser nomeado corretamente pela primeira vez.

Não nomeado como traidor, não como cobrador, não como lixo de Roma.

Nomeado como alguém que precisava de médico.

Precisava de cura...

Isso eu conseguia ser.

Nos meses seguintes aprendi que seguir Jesus era diferente de qualquer coisa que eu havia feito antes.

Eu era homem de estrutura.

De registro.

De sistema.

De método.

E o movimento de Jesus era orgânico, responsivo, imprevisível — chegávamos a uma cidade sem saber o que aconteceria, partíamos sem agenda clara, dormíamos onde havia espaço.

Para Pedro isso era natural.

Para os pescadores era só terra em vez de mar.

Para mim era um exercício constante de soltar o controle.

Mas havia algo que eu podia fazer que os outros não faziam tão bem.

Eu registrava.

Não conseguia parar de registrar.

Era como respirar — observava, organizava, guardava.

As palavras dele.

Os muitos milagres.

As conversas com fariseus.

Os momentos que os outros deixavam passar sem perceber o peso.

Eu percebia.

E escrevia com um inexplicável sentido de urgência.

Era mais forte que eu.

Jesus nunca comentou sobre isso diretamente.

Mas certa vez passou por trás de mim quando eu estava escrevendo e parou um momento.

Não disse nada.

Continuou andando.

Mas eu senti que Ele havia visto e que o que havia visto estava bem.

Isso me bastou.

Na noite da Última Ceia eu estava lá.

Observando, como sempre.

Registrando internamente cada detalhe — a luz das lamparinas, o cheiro do pão, o jeito que Jesus segurou o cálice.

Havia uma solenidade diferente naquela noite que eu sentia na pele mas não conseguia identificar a origem.

Quando ele disse que um de nós o trairia, o silêncio que caiu na sala foi o tipo de silêncio que eu havia aprendido a reconhecer — não era ausência de som.

Era presença de algo que ninguém queria nomear.

Todos perguntaram se era eles.

Eu também perguntei.

Não foi por performance.

Foi por necessidade genuína de saber — porque e conhecia minha própria capacidade de calcular mal, de tomar decisão errada achando que estava certa.

 Conhecia isso em mim melhor do que a maioria conhecia em si mesma.

Então perguntei de verdade.

Sou eu, Senhor?

Ele respondeu de um jeito que não era acusação pública mas que eu entendi — e vi Judas entender também.

E depois Judas saiu.

Judas estava estranho nos últimos dias.

Não teve eu não perceber.

Quando ele saiu, eu pensei: acho que é ele.

Infelizmente, estava certo...

E a noite ficou mais escura.

Fugi no jardim como os outros.

Não tenho heroísmo para oferecer aqui.

Fui cobrador de impostos por anos e aprendi que sobrevivência tem preço e que pagar esse preço não é sempre vergonhoso — às vezes é só realismo.

Mas aquela noite não era realismo.

Era medo.

E a diferença entre os dois é que o realismo você consegue defender para si mesmo na manhã seguinte.

O medo não.

Nos três dias fiquei com os outros no cenáculo.

Havia pouco a dizer então ficávamos em silêncio ou falávamos de coisas pequenas — quem ia buscar comida, se as portas estavam trancadas,quanto tempo ainda.

O tipo de conversa que existe para preencher o espaço onde as perguntas reais demais grandes para serem feitas em voz

alta.

Eu ficava acordado à noite e pensava nos números.

Não os números de imposto — os números da vida dele.

Três anos de ministério.

Doze discípulos.

Setenta enviados.

Cinco mil alimentados.

Um morto ressuscitado depois de quatro dias.

E agora três dias num sepulcro.

Os números não fechavam de nenhum jeito que eu conhecia.

A menos que o que ele havia dito fosse verdade.

E se fosse verdade — então todos os outros números da minha vida precisavam ser recalculados do começo.

Quando ele apareceu eu entendi que era exatamente isso.

Recalcular do começo.

Não como punição. Mas como correção necessária — o tipo de correção que um contador faz quando descobre que o sistema inteiro foi construído sobre uma premissa errada.

Você não joga os números fora.

Você encontra onde a premissa falhou e reconstrói a partir daí, remontando o quebra-cabeça.

A premissa que havia falhado na minha vida era simples.

Eu havia achado que era o que fazia.

Ele havia me mostrado que era quem eu era.

E quem eu era — mesmo com a mesa, mesmo com os anos, mesmo com tudo— era alguém que ele havia olhado nos olhos e chamado pelo nome e dito: segue-me.

Nenhum número muda isso.

Continuo registrando.

É o que faço.

É o que sou.

E agora entendo que talvez seja para isso que sirvo no que ele começou — não para pregar nas praças com a voz de Pedro, não para a contemplação profunda e quase mística de João, não para o fogo de Tiago.

Para registrar.

Para que as palavras Dele não se percam no tempo.

Para que quem vier depois possa ler e encontrar o que eu encontrei naquela inesquecível tarde em Cafarnaum quando ele parou na minha frente e me olhou como se a mesa não existisse.

Dois mais dois ainda é quatro.

Mas aprendi que existem equações que os números sozinhos não resolvem.

E que às vezes a resposta certa para um problema impossível é levantar da mesa e ir.



 
Apóstolo Mateus


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