Projeto The Chosen : Vozes que O viram - CAPÍTULO VI - FILIPE

 

 



CAPÍTULO 6 --- FILIPE

Dois Mestres, Uma Busca

Antes de Jesus havia João.

Não estou dizendo isso para diminuir nenhum dos dois. Estou dizendo

porque é verdade e porque importa — porque quem eu era quando cheguei até Jesus foi moldado pelo tempo que passei com João Batista primeiro.

E entender o que João me deu e o que Jesus completou é entender como eu cheguei a ser quem sou.

Ou talvez — como eu cheguei a não ser quem achava que era.

Encontrei João Batista quando tinha talvez vinte anos.

A fama dele havia chegado até Betsaida antes de eu chegar até ele —homem no deserto, voz que gritava, água do Jordão, arrependimento.

As pessoas iam e voltavam diferentes.

Algumas voltavam assustadas.

Algumas voltavam com aquele brilho quieto nos olhos de quem tocou em algo real enão sabe bem o que fazer com isso.

Eu queria aquele brilho.

Não era vaidade

Era sede e fome de entender.

Havia em mim desde criança uma pergunta que não tinha palavras exatas mas que eu sentia como pressão constante no peito.

Uma sensação de que havia algo mais, algo maior, algo que eu estava circulando sem conseguir chegar ao centro.

A sinagoga não havia chegado ao centro.

Os rabinos que eu havia ouvido não haviam chegado ao centro.

Então fui para o deserto.

João era diferente de tudo que eu havia encontrado antes.

Não havia suavidade nele.

Não havia concessão, não havia diplomacia, não havia o jeito cuidadoso que os mestres tinham de dizer verdades difíceis de um ângulo que não machucasse tanto.

João dizia direto.

Muitas vezes, duro.

Dizia com aquela voz que parecia vir de um lugar mais fundo que os pulmões —

“Raça de víboras. Quem vos ensinou a fugir da ira que há de vir? Produzi frutos dignos de arrependimento.”

Na primeira vez que ouvi achei que ia embora.

Mas fiquei.

Porque havia algo na dureza de João que era paradoxalmente reconfortante— a sensação de que ele estava levando a sério o que a maioria fingia que não existia.

O peso do que fazemos.

O peso do que somos.

Não havia jeito de sair da presença de João Batista sem se sentir visto nas partes que você preferia não mostrar.

Passei meses com ele.

Aprendi que arrependimento não é sentimento — é direção.

Que a preparação importa.

Que havia algo vindo que era maior do que João e que João sabia disso e não se incomodava com isso, o que por si só já me dizia algo sobre o tamanho do homem.

João me ensinou a levar Deus a sério. 

E então Jesus veio ser batizado.

Eu estava lá.

Vi João hesitar — João que nunca hesitava, que dizia tudo direto sem recuar — hesitar diante daquele homem de Nazaré e dizer que era Ele que precisava ser batizado por Jesus e não o contrário.

Vi Jesus insistir gentilmente.

Vi a pomba sobre Ele.

Ouvi a voz.

E vi João depois — não imediatamente, mas nos dias seguintes — com uma expressão que eu nunca havia visto nele.

Não era derrota.

Era conclusão. Como alguém que passou anos construindo uma ponte e finalmente vê alguém atravessá-la.

A ponte cumpriu o propósito.

A ponte podia descansar.

“É necessário que ele cresça e que eu diminua.”

João disse isso com uma convicção serena que me ensinou mais sobre humildade do que qualquer sermão que já ouvi.

O homem mais corajoso que eu conhecia dizendo sem amargura que seu trabalho era apontar para outro.

Comecei a seguir Jesus pouco tempo depois.

A diferença foi imediata.

E foi em tudo.

João vivia no deserto — Jesus vivia entre as pessoas.

João pregava arrependimento — Jesus pregava misericórdia e reino.

 João pedia que você olhasse para o que havia de errado em você — Jesus olhava para o que havia de certo em você que ainda não havia crescido.

 João era fogo que queimava o que era palha.

Jesus era água que fazia crescer o que estava seco.

Não eram opostos. Eram sequência.

E eu havia chegado até Jesus já queimado pelo fogo de João — já sem as defesas mais fáceis, já sem a ilusão de que eu estava bem do jeito que estava.

João havia preparado o terreno.

Jesus chegou para plantar.

Mas levei tempo para entender isso.

Porque o fogo de João havia me ensinado a levar Deus a sério — e às vezes levar Deus a sério pode virar rigidez sem que você perceba.

Pode virar a sensação de que o caminho espiritual é sempre árduo, sempre custoso, sempre exigente.

Que leveza é suspeita.

Que alegria é descuido.

Jesus me desconstruiu isso devagar.

Com festas.

Com crianças no colo.

Com o vinho em Caná.

Com a forma que Ele ria — e ele ria, isso precisa ser dito, havia alegria genuína naquele homem que os retratos sérios nunca capturam direito.

João me havia ensinado a dobrar os joelhos.

Jesus me ensinou a levantar os olhos.

Fui eu que apresentei Natanael a Ele.

Encontrei-o embaixo da figueira e disse que havíamos encontrado o Messias — Jesus de Nazaré, filho de José.

E Natanael fez aquela pergunta que só Natanael faria com aquele tom exato: De Nazaré pode sair alguma coisa boa?

Não argumentei.

Aprendi isso com João Batista — algumas coisas não se argumentam. Se mostram.

Disse: Vem e vê.

E Natanael foi.

E Jesus o viu chegando e disse: eis um verdadeiro israelita em quem não há dolo e Natanael ficou completamente desarmado porque Jesus havia visto o que havia debaixo da pergunta cínica — não arrogância, mas honestidade.

A pergunta de Natanael não era menosprezo.

Era a pergunta de alguém que havia sido decepcionado antes e não queria ser decepcionado de novo.

Jesus via isso.

Via tudo isso.

E eu que havia estado com os dois mestres — com João que me ensinou a me ver, e com Jesus que via além do que eu conseguia ver de mim mesmo— comecei a entender que o que eu havia buscado desde criança não era doutrina.

Era isso.

Ser visto completamente e não destruído.

Mas eu ainda não havia chegado completamente.

É isso que preciso confessar.

Havia a questão dos cinco mil.

Jesus me perguntou — me perguntou especificamente, a mim — onde compraríamos pão para alimentar toda aquela gente.

Depois soube que estava me testando.

Na hora não sabia.

E a minha resposta foi — calcular.

Duzentos denários não bastariam para cada um receber um pedaço sequer.

Números.

Lógica.

Limitações práticas.

André trouxe o menino com os cinco pães e os dois peixes.

Eu não havia pensado em procurar o que havia. Havia pensado em calcular o que faltava.

Essa é a diferença entre quem eu era e quem Jesus estava tentando me fazer ser.

E então veio o momento que carrego com mais peso.

A Última Ceia.

A tensão que encheu a sala naquela noite.

Jesus falando de partir, de preparar lugar, de caminhos que conhecíamos.

Tomé perguntou como poderíamos saber o caminho se não sabíamos para onde ia.

Jesus respondeu — Eu sou o caminho, a verdade e a vida.

E eu — que havia seguido João Batista no deserto, que havia deixado tudo para seguir Jesus por anos, que havia visto os cinco mil alimentados e Lázaro saindo do sepulcro e a transfiguração no monte —

eu disse: Senhor, mostra-nos o Pai e nos basta.

Ainda estava procurando.

Ainda achava que havia algo além que eu precisava ver para finalmente chegar.

E Jesus me olhou.

Com uma expressão que não era raiva.

Era algo mais fundo que raiva e mais gentil que paciência. Era a expressão de alguém que percebe que o que amava ficou de frente para a resposta da própria pergunta sem reconhecê-la.

“Há tanto tempo estou convosco, Filipe, e não me conheces?”

Aquela frase.

“Quem me viu a mim viu o Pai.”

Fiquei em silêncio por um longo tempo depois disso.

Não de vergonha paralisante —já havia aprendido com João Batista que vergonha que paralisa serve só a quem se envergonha.

Fiquei em silêncio porque estava processando a extensão do que havia acabado de ouvir.

Eu havia seguido João para encontrar Deus.

João havia me apontado para Jesus.

E eu havia seguido Jesus por anos ainda procurando Deus além Dele.

Como se Ele fosse mais um degrau na escada em vez de o destino.

Como se o caminho e o destino fossem coisas diferentes.

“Eu sou o caminho.”

Não — eu mostro o caminho. Não — eu indico a direção.

Eu sou. O caminho é Ele.

O destino é Ele.

A busca e a chegada são a mesma coisa e eu havia estado nessa coisa por anos sem ver completamente o que estava

dentro dela.

Quanta estupidez a minha...

João me havia preparado para receber.

E eu havia estado tão ocupado procurando que quase não recebi.

Quando Ele ressuscitou e apareceu no cenáculo eu entendi de um jeito que não é intelectual.

É o tipo de entender que desce do pensamento para o corpo.

Que faz as mãos pararem e os pés firmarem no chão como se a gravidade fosse diferente.

A busca tinha chegado ao fim.

Não porque todas as perguntas foram respondidas — ainda tenho perguntas, sempre terei.

Mas porque entendi que a pergunta que havia me movido desde criança — essa pressão constante no peito, esse sentido de que havia algo mais — não era ausência de resposta.

Era saudade de alguém.

E esse alguém havia estado comigo o tempo todo.

Há tanto tempo estou convosco.

Sim.

E eu finalmente sei disso.

João Batista me ensinou a levar Deus a sério.

Jesus me ensinou que Deus me levava a sério.

Não sei qual dos dois ensinamentos foi maior.

Sei que precisei dos dois para chegar onde estou.

E sei que se um dia alguém me perguntar onde encontrar o Pai — não vou calcular, não vou apontar para o deserto, não vou indicar o próximo profeta no horizonte.

Vou dizer o que André me disse.

Vem e vê.


 
Apóstolo Filipe


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