Projeto The Chosen: Vozes que o viram - Capitulo I - André

 


 

PARTE I — OS DOZE



CAPÍTULO 1 --- ANDRÉ

O Primeiro

Meu irmão Pedro sempre soube entrar num lugar e rapidamente ocupar os espaços.

Eu, porém aprendi a observar.

Não era timidez.

Pelo menos não era só isso...

Era que eu percebia certas coisas quando ficava quieto.

O jeito que uma pessoa segurava os ombros quando estava com medo mas não queria mostrar.

 O jeito que o silêncio numa sala muda quando alguém importante entra.

Meu irmão entrava e o silêncio mudava. Sempre foi assim.

Eu entrava e o silêncio continuava igual.

Aprendi a viver com isso.

Antes de Jesus, eu conheci o João.

João Batista, quero dizer — não o filho de Zebedeu que virou meu companheiro depois.

O outro João.

O que gritava no deserto e cheirava a areia e a couro e a algo que não tinha nome, algo antigo.

Eu o segui porque ele dizia coisas profundas que eu não conseguia ignorar.

Não eram coisas confortáveis.

Eram coisas verdadeiras — e existe uma diferença enorme entre as duas.

Meu irmão Pedro achava João Batista perturbador demais.

Rigoroso demais.

Perturbador era exatamente o que eu precisava.

Eu estava no Jordão no dia em que Jesus veio ser batizado.

Estou tentando descrever o que aconteceu e percebo que as palavras chegam erradas.

Imprecisas...

Não foi visão.

Não foi voz trovejante.

Foi mais como quando você está num quarto escuro há tanto tempo que esqueceu que existe luz — e de repente alguém abre uma janela.

 Não é o Sol que te surpreende.

É perceber que seus olhos ainda funcionam.

João apontou e disse: Olha o Cordeiro de Deus.

Eu não tinha a menor ideia do que isso significava.

Mas fui atrás.

Algo nele me chamou a atenção de imediato e eu não saberia dizer o que era.

Jesus ouviu meus passos e virou.

Não perguntou o que eu queria.

Perguntou: O que você está procurando?

Eu devia ter respondido algo profundo.

Respondi a coisa mais sem sentido possível — perguntei onde ele estava hospedado.

Ele disse: Vem e vê.

E eu fui.

Fiquei o resto do dia com Ele.

Não consigo dizer o que conversamos porque não era sobre o que conversamos — era sobre o que acontecia enquanto conversávamos.

A sensação de que alguém estava te ouvindo de verdade.

Não ouvindo para responder.

Ouvindo para entender.

Eu tinha vinte e poucos anos e nunca tinha experimentado aquilo antes.

Naquela noite eu fui encontrar Pedro.

E aqui está a coisa que carrego até hoje — eu fui buscar meu irmão.

Eu, que sempre fui o segundo, fui o primeiro a saber.

Fui eu que cheguei até Pedro ofegante e disse: Nós encontramos o Messias.

Pedro foi.

Pedro viu.

E Jesus olhou para meu irmão e disse que ele se chamaria Pedro — a Rocha.

Eu fiquei do lado.

Não vou mentir dizendo que não doeu.

Doeu.

Mas era difícil ficar com a dor por muito tempo perto de Jesus porque ele tinha esse jeito de te fazer sentir que a comparação era a coisa menos importante do mundo.

Não que Ele dissesse isso.

Ele nunca precisava dizer as coisas.

Seu olhar profundo falava por si só...

Não era um olhar autoritário.

Era um olhar que parecia decifrar nossos mais íntimos pensamentos .

Você simplesmente parava de se encolher.

Eu vi a pesca.

Vi meu irmão jogar as redes depois de uma noite inteira sem nada — com aquela cara de quem faz isso só para provar que não vai funcionar — eas redes voltaram tão cheias que o barco começou a afundar.

Vi Pedro jogar-se aos pés de Jesus na proa molhada e dizer: afasta-te de mim, Senhor, que sou pecador.

E vi Jesus olhar para ele com uma expressão que eu não consigo traduzir.

Não era pena.

Não era admiração.

Era algo que via Pedro inteiro — o que ele era, o que ele tinha medo de ser, o que ele poderia ser — e não recuava de nenhuma das três coisas.

“Não temas. De agora em diante serás pescador de homens”.

Eu ouvi isso também.

Ele disse para nós dois.

Mas todo mundo lembra só de Pedro.

Aprendi a viver com isso também.

Havia um momento no meio do ministério que nunca contei a ninguém.

Não porque era dramático — era o oposto.

Era um dia comum, numa cidade que já não lembro o nome, depois de uma cura que havia reunido multidão e depois a multidão havia ido embora e havia só o grupo e o cansaço do fim do dia.

Jesus estava sentado separado dos outros.

Eu fui até Ele.

Não com pergunta.

Não com pedido.

Fui porque havia aprendido a reconhecer quando Ele queria companhia que não precisava de nada — e havia aprendido, talvez por ser o tipo de pessoa que prefere observar, que esse tipo de companhia era rara de oferecer e Ele recebia quando aparecia.

Sentei do lado.

Ficamos em silêncio por um tempo que não sei quanto durou.

Depois Ele disse, sem olhar para mim, como quem continua um pensamento que havia começado antes:

“Você vê mais do que deixa ver, André”.

Não era elogio.

Era observação.

Da forma que ele observava — sem julgamento, sem agenda, só o que havia visto.

Disse que havia aprendido a não ocupar espaço que não havia sido oferecido.

Ele virou.

Me olhou daquele jeito.

Disse: O espaço é seu. Sempre foi.

Não entendi completamente naquele momento.

Levei meses para entender.

Talvez ainda esteja entendendo.

Mas havia algo naquelas palavras que foi direto para o lugar onde eu guardava a certeza de que ser a ponte não era o mesmo que ser a outra margem.

Que apresentar era menos que chegar.

Que trazer Pedro havia sido minha contribuição mas que contribuição não era o mesmo que presença.

Ele havia me dito que havia espaço.

Que sempre havia sido meu.

E que eu havia passado anos não ocupando o que era meu.

O que eu quero dizer — o que eu preciso dizer — é que não fui atrás de Jesus por causa de milagres.

Os milagres vieram depois e eram impossíveis de ignorar, mas não eram isso.

Era o que acontecia quando Ele me olhava

Era a sensação de ser visto sem ser julgado, que é diferente de ser aceito — aceitação você pode fingir, pode ser educação, pode ser indiferença bem-vestida.

O que Jesus fazia não era aceitação.

Era reconhecimento.

Como se Ele soubesse quem você era antes mesmo de você saber.

E não achasse isso um problema.

Havia também o menino de Decapólis.

Os cinco mil.

Filipe estava calculando o impossível em voz alta — duzentos denários não seriam suficientes, a lógica fechava contra qualquer solução prática.

Eu havia saído andando entre a multidão sem saber exatamente o que procurava.

E havia encontrado um menino com cinco pães e dois peixes.

Poderia ter passado.

A maioria das pessoas teria passado.

Mas havia aprendido a não passar pelo que parecia pequeno demais para importar.

Havia aprendido isso com anos de ser considerado pequeno demais para importar.

Trouxe o menino até Jesus.

E aqui está o que me ficou não do milagre mas do momento antes — Jesus olhou para os pães e os peixes e depois olhou para mim com aquela expressão que não era surpresa.

 Era como se Ele soubesse que eu traria aquilo.

Como se soubesse que eu seria o tipo de pessoa que encontra o que existe em vez de calcular o que falta.

Não disse nada diretamente para mim.

Mas havia algo naquele olhar que era continuação daquele dia em que ficamos sentados em silêncio na cidade que não lembro o nome.

O espaço é seu. Sempre foi.

Eu havia trazido o menino.

Havia ocupado o espaço.

Eu passei a vida sendo o irmão de Pedro.

Antes disso fui discípulo de João Batista.

Sempre cheguei em segundo, sempre apresentei alguém maior, sempre fui a ponte entre as pessoas e o lugar onde precisavam estar.

Não sei se isso é destino ou personalidade ou só o jeito que as coisas se deram.

Sei que fui eu que encontrei Jesus primeiro.

Sei que fui eu que trouxe Pedro.

Sei que fui eu que trouxe o menino com os pães.

E sei que quando tudo terminou — quando a cruz, quando o silêncio de três dias, quando a manhã que ninguém esperava — eu estava lá.

Não no centro.

Nunca no centro.

Mas estava lá.

E às vezes me pergunto se Jesus sabia exatamente o que estava fazendo quando me chamou primeiro.

Se sabia que eu seria o tipo de pessoa que não precisava de crédito para continuar.

Que podia ser a ponte sem precisar ser a outra margem.

Não sei se isso é elogio ou apenas descrição.

Mas foi o que eu fui.

E foi suficiente.

Pelo menos é o que eu digo a mim mesmo nos dias bons.

Nos outros dias — lembro daquela tarde em silêncio numa cidade que não lembro o nome.

E ouço: o espaço é seu.

E isso, pra mim, também é suficiente.

Estar na presença Dele e com Ele, sempre me bastou.

 
Apóstolo André 



Comentários

  1. Nossa. Realmente tocou meu coração. Parabéns meu amigo.

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    1. Grande Jeremias!

      Foi feito com muito carinho.

      Nada tem de pregação religiosa.

      É só a mensagem de Jesus e o impacto na vida dos que o viram de perto.

      Fico feliz que gostou.

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