Projeto The Chosen: Vozes que O viram - CAPÍTULO IV - Thiagão

 

 


CAPÍTULO 4 --- TIAGO, FILHO DE ZEBEDEU

O Trovão que Aprendeu a Silenciar

Meu nome é Tiago.

Ou Tiagão, como o Mestre sempre me chamava...

Eu era o tipo de pessoa que resolvia as coisas na hora.

Não é elogio.

 É descrição.

Quando algo estava errado eu queria corrigir imediatamente, quando alguém nos desrespeitava eu queria responder na mesma moeda, quando havia injustiça na frente dos meus olhos eu queria agir antes de pensar.

Meu pai Zebedeu era assim.

Eu herdei isso dele e carreguei como se fosse virtude durante anos sem perceber que era também um problema.

João é diferente de mim.

Mesmo sendo irmão, mesmo crescendo no mesmo barco, comendo o mesmo peixe, ouvindo o mesmo mar — João sempre foi mais quieto.

Mais observador.

Mais místico, eu diria...

Enquanto eu via o que estava na frente, João via o que estava por baixo.

Durante anos achei que isso era fraqueza.

Jesus nos chamou de Filhos do Trovão.

Era afeição.

Mas era também um aviso nas entrelinhas.

Jesus era acessível e brincalhão com todos nós.

Mas nas brincadeiras também dizia muitas verdades.

Demorei para entender o aviso.

Quando Jesus nos chamou eu não hesitei.

Isso eu tenho — a capacidade de decidir rápido.

Vi, ouvi, senti algo que não tinha nome ainda mas que era impossível ignorar, e fui.

Deixei meu pai com os empregados e as redes e o barco e fui sem olhar para trás.

Pedro diz que fui corajoso.

Eu sei que fui impulsivo.

 Às vezes as duas coisas se parecem tanto que você não descobre a diferença até muito depois.

Nos primeiros meses eu estava convicto de que sabia o que Jesus era e o que iria fazer.

Messias. Libertador. Alguém que viria mudar a ordem das coisas — tirar Roma do lugar onde Roma não deveria estar, devolver ao povo de Israel o que havia sido tomado.

Eu tinha esse mapa na cabeça e ia encaixando o que via Nele.

Quando Ele falava de reino eu pensava em trono.

Quando Ele falava de poder eu pensava em exércitos.

Quando Ele expulsava os mercadores do Templo com o chicote eu pensei — agora sim.

Agora começa!

Não começou o que eu esperava.

Começou outra coisa...

Fui ao monte com Ele.

Pedro e João também — éramos os três que ele levava para os momentos que os outros não podiam ver ainda.

Nunca perguntei por que esses três.

Talvez Pedro por ser Pedro.

João por ser João.

E eu — talvez porque Jesus sabia que eu precisava ver mais para crer mais.

Que minha fé era larga mas não era funda, e que sem profundidade largura não sustenta peso.

No monte vi o que vi.

A luz que vinha de dentro Dele, não de fora.

O rosto diferente. Moisés e Elias presentes como se o tempo fosse apenas sugestão.

E uma voz.

Caímos com o rosto em terra.

Quando levantamos havia só Jesus.

E Ele disse para não contarmos a ninguém até que o Filho do Homem ressuscitasse dos mortos.

Ressuscitasse dos mortos...

Guardei aquela frase sem entender.

Sem tentar entender, na verdade...

Porque havia coisas que Jesus dizia que eu arquivava em algum lugar longe porque eram grandes demais para processar no momento e eu sabia que um dia fariam sentido.

Ou não fariam...

E teria que viver com isso também.

Preciso confessar algo que me envergonha até hoje.

Houve um momento — minha mãe foi falar com Jesus, e eu deixei que ela fosse, e eu sabia o que ela ia pedir.

Que na glória do reino dele um de nós dois sentasse à sua direita e o outro à sua esquerda.

Os lugares mais importantes.

Os lugares de maior honra.

Eu queria aquilo...Não posso mentir.

Não vou mentir dizendo que foi só ideia dela.

Minha mãe foi porque eu e João deixamos que fosse, e deixamos que fosse porque queríamos o que ela ia pedir.

Tínhamos vergonha de pedir nós mesmos então deixamos que nossa mãe pedisse por nós como se a distância de um intermediário tornasse o desejo menos embaraçoso.

Jesus olhou para nós dois de um modo triste e perguntou se podíamos beber do cálice que ele iria beber.

Em nossa ignorância dissemos que podíamos.

Dissemos com aquela convicção rápida que é minha especialidade — sem pensar, sem calcular o custo, com a certeza performática de homens que não sabiam o que estavam prometendo.

Vós bebereis, de fato, do meu cálice.

E depois disse que sentar à sua direita ou esquerda não era Dele dar.

Que os outros dez ficaram indignados conosco quando souberam e Ele teve que sentar todo mundo e explicar de novo que no reino Dele a lógica era invertida — que o maior seria o servo de todos.

Fiquei quieto por muitos dias depois disso.

Foi a maior lapada que tomei na vida.

Não de humilhação.

De processo.

Eu precisava tomar essa lapada e hoje agradeço por isso...

Porque algo havia entrado e estava reorganizando coisas dentro de mim que eu não sabia que precisavam ser reorganizadas.

No jardim quando vieram prender Jesus eu estava entre os que dormiram.

Ele havia pedido que ficássemos acordados.

Que orássemos com ele. E eu adormeci — não uma vez, três vezes.

Cada vez que ele voltava nos encontrava dormindo e havia uma tristeza no rosto Dele que era diferente de decepção.

Era algo mais fundo.

Era a solidão de alguém que sabe que o peso que carrega não pode ser dividido, que pediu companhia sabendo que a companhia tinha limite, e mesmo assim pediu.

Quando vieram com tochas e espadas eu acordei de vez.

E depois que Pedro cortou a orelha e Jesus curou o homem e disse para guardar a espada — eu fugi.

Corro de pressa também.

Sempre corri.

Só que dessa vez era para o lado errado.

Como me arrependo disso...

Covarde é pouco para descrever o que fui naquele instante.

Nos dias que se seguiram fiquei com os outros no cenáculo.

Não havia muito a dizer.

Às vezes ficávamos em silêncio por horas.

Pedro não conseguia ficar quieto por muito tempo — levantava, andava, sentava, levantava de novo.

João ficava mais parado mas eu via nos olhos dele o mesmo que eu sentia — uma dor que não era só tristeza.

Era a dor de ter estado perto de algo extraordinário e não ter entendido a extensão até que fosse tarde demais.

Ou o que parecia tarde.

Quando Ele apareceu no cenáculo eu estava lá.

As portas estavam trancadas.

Ele estava dentro mesmo assim.

E antes que qualquer um de nós encontrasse as palavras ele disse:

“Paz seja convosco” — e mostrou as mãos e o lado.

Reconheci a voz antes de reconhecer o rosto.

E aqui está a coisa que o trovão aprendeu naquele momento — que reconhecer a voz de alguém no escuro é um tipo diferente de conhecimento.

Não é certeza intelectual.

É algo que mora mais fundo, num lugar que o medo não consegue alcançar completamente.

Eu havia prometido beber do cálice sem saber o que estava prometendo.

Estava começando a entender.

Havia uma pergunta que eu carregava havia meses e nunca fiz em voz alta.

Fiz internamente, na quietude, no escuro do cenáculo enquanto os outros dormiam.

A pergunta era simples: para que serviu toda a raiva que eu tinha?

Raiva de Roma.

Raiva da ocupação.

Raiva da injustiça.

Eu havia chegado

até Jesus cheio dessa raiva e convicto de que ela seria bem utilizada— que haveria momento para o fogo, que os Filhos do Trovão seriam convocados para algo que combinasse com o nome.

Jesus nunca convocou o fogo.

Pediu amor.

Pediu serviço.

Pediu renúncia de nós mesmos.

Pediu que o maior fosse o servo.

E eu — que havia chegado querendo sentar à direita do trono — estava aprendendo que o único trono no reino dele era uma cruz.

Isso não era o que eu queria.

Era o que eu precisava.

A diferença entre as duas coisas é o espaço onde a pessoa se transforma— se conseguir suportar ficar nesse espaço tempo suficiente sem fugir.

Eu havia fugido uma vez no jardim.

Não pretendia fugir de novo.

Meu irmão João ficou no Calvário até o fim.

Eu não fui.

Carrego essa culpa .

Não com autopunição que paralisa — Jesus já havia me ensinado que autopunição que paralisa é luxo que serve só a quem se pune, não a quem foi machucado.

Carrego como lembrança de onde estava a fronteira entre o que eu dizia ser e o que era de fato.

João ficou.

Eu aprendi com isso mais do que aprendi com qualquer coisa que Jesus

disse diretamente para mim.

Às vezes o ensinamento chega através da vida do irmão.

O que Jesus me deixou não foi o que eu fui buscar.

Fui buscar revolução.

Fui buscar reino com trono e poder e a satisfação de ver as coisas injustas corrigidas de maneira visível e imediata.

Encontrei um homem que lavava pés dos seus discípulos.

Que curava o servo do inimigo.

Que morreu pedindo perdão pelos que o matavam.

E que ressuscitou sem pedir satisfação de ninguém.

Durante muito tempo fiquei tentando conciliar o Jesus que encontrei com o Jesus que esperava encontrar.

Depois parei de conciliar.

E comecei a deixar que o Jesus que encontrei me refizesse a partir de dentro.

O trovão não desapareceu.

O impetuoso Tiagão só aprendeu quando silenciar.

E às vezes — só às vezes — o silêncio diz mais que o trovão jamais disse.


 
Apóstolo Tiago Maior ( Tiagão)



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