Projeto The Chosen: Vozes que O Viram: - CAPÍTULO XII- JUDAS ISCARIOTES
CAPÍTULO 12 --- JUDAS ISCARIOTES
O Que a Lógica não Alcança
Nota do autor.
Esse relato na fanfic, é uma carta de Juda, escrita minutos antes dele tomar a decisão de dar cabo de sua vida, arrependido de ter traído Jesus.
Essa carta teria sido encontrada, por Devoráh (Déborah) , sua irmã na série The Chosen.
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Estou confuso...
Estou quebrado...
Estou sem rumo...
A morte infame certamente será meu alívio...
Não apagará meu erro...
Tenho certeza disso...
O que fiz foi imperdoável...
Não tem mais volta...
Ainda que Jesus falou sobre o perdão, duvido que alguém perdoe o traidor do Filho de Deus .
Essa será a única coisa digna que me resta...
Eu amava Jesus.
Sei que muitos jamais entenderão...
Certamente a história será implacável comigo...
Preciso começar aqui porque sei o que as pessoas farão com meu nome —e sei que a maioria não começa pela pergunta de se havia amor.
Começarão por essa maldita traição e trabalharão de trás para frente construindo a figura do traidor que sempre foi traidor, que nunca amou, que estava desde o início calculando o preço.
Não era assim.
Eu amava Jesus.
Repito isso com toda a força que me resta ...
Amava do jeito que homens práticos amam — não com a efusão de João ou a intensidade impulsiva de Pedro.
Amava com atenção.
Com dedicação.
Com a disposição de colocar as capacidades que tinha a serviço de algo que eu genuinamente acreditava ser maior que tudo que havia existido antes.
Gerenciei os recursos do grupo por anos.
Não por ambição de poder — porque era o que eu sabia fazer bem e porque queria que o movimento funcionasse.
Queria que Jesus tivesse o que precisava para fazer o que havia vindo fazer.
Esse era o problema...
Eu tinha ideia muito formada sobre o que Jesus havia vindo fazer.
Eu via o reino.
Não como abstração — como realidade concreta chegando.
Cada milagre era evidência.
Cada confronto com os fariseus era avanço.
Cada multidão que seguia era recrutamento para algo que estava crescendo com a inevitabilidade das coisas que estão do lado certo da história.
Jesus era o Messias.
Não havia o que discutir.
Eu sabia disso com a certeza das coisas examinadas e confirmadas repetidamente.
E o Messias tinha papel específico — papel que as escrituras descreviam, papel que Israel aguardava, papel que envolvia estabelecer o reino de Deus de maneira que Roma sentiria e os sacerdotes corruptos sentiriam e o povo sofrido de Israel finalmente veria com os próprios olhos.
Jesus tinha o poder.
Eu o via como um ser divino.
Muito mais que Pedro e João.
Eu via o poder toda semana.
O que eu não entendia era por que não usava esse poder.
Havia sinais de que eu estava errado.
Preciso dizer isso porque é verdade e porque seria desonesto não dizer— havia sinais claros de que o reino que Jesus anunciava não era o reino que eu havia mapeado.
Não era o reino dos meus desejos...
Da minha ambição...
Havia momentos em que ele dizia coisas que não cabiam no meu mapa e eu escolhia não caber.
Quando alimentou os cinco mil e a multidão quis fazê-lo rei à força —Ele foi embora.
Eu havia ficado parado olhando para o lugar onde Ele havia estado e sentindo a oportunidade escorregando e não conseguindo entender por que Ele havia deixado escorregar.
Quando Pedro disse que Ele era o Cristo e Jesus começou a falar de sofrimento e morte — eu ouvi aquelas palavras e as arquivei em lugar que não era crença.
Eram figura de linguagem.
Eram o tipo de coisa que líderes dizem para preparar os seguidores para dificuldades sem necessariamente prever o pior.
Assim eu pensei...
Quando Maria de Betânia derramou o perfume caro nos pés dele e eu protestei — Ele me repreendeu.
Disse que ela havia feito coisa bela.
Que os pobres sempre estariam conosco mas Ele não.
Ele não...
Arquivei também.
Havia sinais...
Muitos...
Escolhi não ver.
A lógica cresceu devagar.
Não foi decisão tomada numa noite.
Foi processo de meses em que uma ideia que parecia razoável foi ficando maior dentro de mim sem que eu percebesse o tamanho que havia tomado.
A ideia era simples...
Jesus não usava o poder porque não havia pressão suficiente.
Porque o momento certo não havia chegado.
Porque faltava o catalisador que forçaria a mão — que colocaria Jesus numa posição onde o poder teria que aparecer, onde o reino teria que ser estabelecido porque não haveria outra saída.
Se as autoridades o prendessem — Ele seria obrigado a agir e reinvindicar sua autoridade divina.
Se não houvesse saída pelo caminho da paciência — o poder apareceria.
Eu estava ajudando...
Era o que eu dizia para mim mesmo.
Estava forçando o momento que Ele estava adiando por alguma razão que eu não entendia mas que se tornaria clara quando o momento chegasse.
Essa era a lógica.
E a lógica parecia sólida de dentro.
Havia outra coisa que não digo com facilidade.
Eu não dormi última noite
Cada decisão parecia lógica.
Mas nenhuma parecia leve.
Se Ele é quem diz ser — isso vai funcionar.
Tem que funcionar.
Mas e se não?
Afastei o pensamento.
Dúvida não constrói nada.
Ainda assim — pela primeira vez —eu quis estar errado.
As moedas...
As malditas moedas...
Não foram o motivo — preciso que fique claro. Trinta moedas de prata não eram o que me movia.
Mas quando os sacerdotes as colocaram na mesa, eu as peguei.
Preciso pausar...
Isso é pesado pra eu suportar...
Estou escrevendo em lágrimas isso...
E pegar foi o momento em que algo que havia sido abstrato— um plano, uma lógica, uma teoria sobre catalisadores e momentos certos — se tornou concreto e irreversível.
As moedas na mão tornaram real o que havia sido só pensamento.
Devia ter parado ali...
Não parei.
Havia ainda uma noite antes.
Pedro me encontrou.
Não sei como sabia — Pedro tinha aquele instinto de pescador que sente a mudança antes de ver.
Me olhou da forma que Pedro olha quando quer que você saiba que ele está vendo através de você.
Perguntou o que eu estava fazendo.
Disse que estava fazendo o que precisava ser feito.
Ele disse que eu falava como se soubesse mais que Jesus.
Virei para ele.
Disse que Pedro falava como se Jesus estivesse fazendo algo.
O sangue subiu no rosto dele — eu conhecia aquele vermelho, conhecia o que vinha depois.
Disse que eu não via? Que havia poder ali? Que Jesus poderia mudar tudo?
Disse que via um homem que poderia mudar tudo e escolhia não fazer.
Ele disse que eu não entendia nada.
Disse que era ele que não entendia. Que reino não se constrói com histórias. Que se precisava forçar o momento — colocar Jesus numa posição onde o poder teria que aparecer.
Pedro ficou parado.
Depois disse baixo: você acha que está no controle.
Hesitei...
Só um segundo.
Mas Pedro viu.
E foi ali que algo no rosto dele mudou — não raiva, algo mais fundo que raiva. Como alguém que vê uma pedra rolando morro abaixo e sabe que não vai conseguir parar.
Fui embora sem responder.
Porque a resposta honesta era que eu não sabia mais se estava no controle.
E não queria saber.
Um pouco antes da Ceia, foi a vez de Mateus, observador atento que era me alertar:
“Judas, estou preocupado. Tenho um mau pressentimento sobre você. Vigiai!”
Mas a decisão já estava tomada e eu não estava disposto a recuar.
A Última Ceia foi onde os sinais ficaram impossíveis de ignorar.
Ele lavou meus pés.
Jesus lavou meus pés sabendo o que eu havia combinado com os sacerdotes.
Olhou para mim enquanto lavava, e naquele olhar havia algo que eu precisava não ver para continuar com o plano
Havia tristeza, havia amor, havia o peso de alguém que sabe o que vem e escolhe lavar os pés assim mesmo.
Não era acusação.
Era pior que acusação.
Era Ele sendo quem era até o fim comigo.
E quando disse que um de nós o trairia — e todos perguntaram “sou eu, Senhor?” — eu também perguntei.
E Ele me respondeu de um jeito que só eu entendi.
E eu poderia ter parado ali.
Poderia ter ficado.
Poderia ter dito — não vou, o plano está errado, eu não entendi.
Não fiquei...
Ele disse: Faze depressa o que tens a fazer.
E eu fui...
Porque era mais fácil ir do que ficar com o que eu veria nos olhos dele
se ficasse.
Havia combinado o sinal com os soldados — um beijo. O jeito que discípulo cumprimenta o mestre.
Havia escolhido aquilo com a frieza de quem está pensando em logística, em identificação clara no escuro, em eficiência de operação.
Quando cheguei ao jardim com as tochas e as espadas e os soldados —Jesus já estava de pé esperando.
Como se soubesse.
Como se o jardim inteiro soubesse...
Fui até Ele.
Disse: Salve, Rabi.
E o beijei.
Ele me olhou.
Disse: Amigo, para que vieste?
Amigo...
Me chamou de amigo...
No momento em que eu o entregava com beijo de amigo — ele me chamou de amigo.
Não era ironia.
Era Jesus sendo quem era até aquele momento também.
Vendo-me inteiro. Sabendo o que eu estava fazendo e ainda assim —amigo...
Os soldados avançaram.
E eu fiquei parado olhando e sentindo a lógica que havia construído por meses começar a rachar de um jeito que eu não sabia como parar.
Mas ainda não havia entendido completamente.
Ví os outros onze me olharem com perplexidade.
Pedro me fulminava com os olhos...
Mateus , mexia com as mãos de modo inquieto e desordenado.
Mas eu ainda acreditava...
A parte de mim que havia construído a lógica ainda dizia — agora Ele vai agir. Agora o poder aparece.
Agora o catalisador funcionou e o reino vai ser estabelecido e tudo isso vai fazer sentido.
Pedro, de modo impulsivo, sacou a espada e cortou a orelha do servo.
Jesus curou a orelha.
Disse a Pedro para guardar a espada.
E foi com os soldados sem resistência.
A lógica rachou mais.
Pedro quis me agredir: O que fizeste? Maldito seja pela eternidade!
Não apanhei porque Tiagão e Filipe o impediram.
Saí da presença deles.
Fiquei do lado de fora do julgamento.
Não consegui entrar. Ficava andando, parando, andando — com aquela coisa dentro de mim que ainda não tinha nome completo mas que estava crescendo para um tamanho que eu não conseguia mais conter com explicação.
E então vi Jesus condenado.
Vi o resultado do que eu havia feito.
E a lógica não rachou mais.
Desmoronou.
Completamente...
De uma vez!
O que senti naquele momento não era arrependimento ainda —arrependimento é palavra muito organizada para o que foi.
Era o colapso simultâneo de tudo.
Do plano.
Da lógica.
Da ideia de que eu havia entendido o que Jesus havia vindo fazer.
Da certeza de que eu estava ajudando.
Não estava ajudando.
Havia entregado o homem que amava à morte.
E o poder não havia aparecido.
O reino não havia sido forçado.
Havia só Jesus condenado e eu do lado de fora com trinta moedas de prata e o peso do que havia feito descendo pelo corpo como água gelada que não para.
Fui aos sacerdotes.
Devolvi as moedas.
Disse que havia pecado entregando sangue inocente.
Disseram: Lá te arranjas.
Três palavras.
Lá te arranjas...
Não havia absolvição ali.
Não havia acolhimento, nada podia ser corrigido, desfeito,
Era um caminho sem volta.
Havia três palavras que me devolviam para mim mesmo com o peso inteiro sem saída.
As moedas caíram no chão do templo...
Eu as havia segurado durante dias como se fossem prova de que o plano era real, era concreto, havia sido executado.
Agora eram só metal no chão de pedra.
Saí.
E estou aqui , num campo.
Não sei quanto tempo andei antes de chegar até aqui.
O tempo havia feito aquela coisa estranha que faz nos momentos que não deveriam acontecer — havia parado de ter velocidade normal.
Cada passo era grande demais.
Cada pensamento chegava e saía antes de terminar.
Jesus lavando meus pés.
Amigo, para que vieste?
As moedas na mesa dos sacerdotes.
Lá te arranjas.
Os olhos dele no jardim.
A orelha curada.
Faze depressa o que tens a fazer.
Eu havia feito depressa.
Eu havia feito.
E agora...
Não há mais lógica.
Não há mais plano.
Não há mais nada que eu possa organizar para fazer sentido disso.
Eu pensei que estava conduzindo os acontecimentos…
Mas eu era o acontecimento.
Eu pensei que estava forçando o reino…
E forcei a cruz.
(pausa)
Ele sabia…
Desde o início…
E mesmo assim lavou…
Mesmo assim chamou…
Mesmo assim ficou…
E eu…Fui.
A diferença entre Pedro e eu era uma coisa só.
Pedro havia negado e chorado e havia um lugar para onde voltar — havia o olhar de Jesus puxando de volta mesmo na negação.
Havia a
possibilidade de ser olhado e de aguentar ser olhado.
Eu não conseguia aguentar ser olhado.
Não depois disso.
Não com o que havia feito.
Não com...
Jesus lavando...
Amigo...
As moedas...
Eu...
Me lembrei de Dévoráh, minha irmã...
Me lembrei de nossa última conversa.
Eu manchei a imagem da família Kerioth para sempre...
Eu falhei...
xxxxxx
O testemunho de Judas para aqui.
Sem conclusão.
Sem resolução.
Sem resposta.
Apenas o silêncio...


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