Projeto The Chosen : Vozes que o Viram - CAPÍTULO XIII - JOÃO BATISTA

 

PARTE II - OUTRAS VOZES 

CAPÍTULO 13 --- JOÃO BATISTA

O Que Significa Preparar o Caminho 


Eu sabia desde criança que havia sido separado para algo.

Meu pai Zacarias, sempre me dizia isso...

Não era arrogância — era a consciência quieta que vem quando você cresce num lar onde seus pais falam sobre seu nascimento com aquela reverência específica de quem viveu algo que não tem explicação natural.

Meu pai Zacarias havia ficado mudo durante meses.

Minha mãe Isabel havia engravidado quando não devia ser possível.

E havia as palavras que meu pai disse quando recuperou a voz — palavras sobre mim, sobre o que eu seria, sobre o que eu viria fazer.

Sua certeza era tão viva que eu passei acreditar que era predestinado para uma missão especial como dádiva de ADONAI .

Cresci com aquelas palavras no corpo.

Não encarando-as como pressão, mas como direção.

Havia algo que eu vim fazer.

E desde cedo entendi que fazer aquilo exigia separação — do conforto, da cidade, das negociações sociais que as pessoas fazem para serem aceitas nos lugares onde vivem.

Fui para o deserto para me preparar.

A aridez do deserto me ensinou coisas que a cidade não consegue ensinar.

Ensinou silêncio real — não a ausência de barulho, mas a presença de algo que só aparece quando o barulho para.

Ensinou que o corpo precisa de menos do que a cultura diz que precisa.

Ensinou que havia uma voz que eu precisava ouvir antes de ter voz para falar.

Fiquei no deserto até que soube o que tinha para dizer.

E quando soube — fui falar.

O que eu tinha para dizer não era popular.

Era rude.

Raça de víboras.

Produzi frutos dignos de arrependimento.

O machado já está posto à raiz das árvores.

Não eram palavras para fazer amigos.

Eram palavras para acordar quem estava dormindo — e acordar dói, e quem acorda com dor às vezes culpa quem acordou.

Eu sabia disso.

Não era ingênuo sobre o que as palavras custavam.

Mas havia algo que precisava ser dito antes que o que vinha depois pudesse ser recebido.

A terra precisava ser preparada antes da semente.

E preparar terra não é trabalho delicado — é trabalho que vira o solo, que expõe o que estava embaixo, que parece destruição antes de parecer preparação.

Era meu trabalho.

Eu sabia que era meu trabalho.

E fiz.

E então Jesus veio ao Jordão.

Eu o reconheci antes de Ele chegar.

Não consigo explicar isso de forma que não pareça misticismo vago —mas é verdade.

Havia algo que mudou no ar quando ele entrou na água.

Como se o Jordão soubesse quem estava chegando.

Como se tudo que eu havia feito até aquele momento — os anos de deserto, as palavras duras, as multidões, o batismo — houvesse sido construção de um único ponto de chegada e aquele ponto estava à minha frente.

Disse que era eu que precisava ser batizado por Ele.

Ele insistiu com aquela gentileza que tinha — não gentileza de quem cede para agradar, gentileza de quem sabe algo que você ainda não sabe e não vai explicar com argumento mas vai mostrar com presença.

O batizei.

Vi o que vi — a pomba, a voz, o céu aberto.

E soube que minha parte havia chegado ao ponto de entrega.

É necessário que Ele cresça e que eu diminua.

Disse aquilo com convicção real.

Preciso que fique claro porque é fácil ler essa frase como resignação elegante, como humildade performática de homem que sabe que é esperado ser humilde naquele momento.

Não era.

Era a coisa mais verdadeira que eu havia dito em toda minha vida.

Eu havia passado anos sendo a voz. Sendo o centro de algo que crescia— as multidões que vinham ao Jordão, a influência que se espalhava, a sensação de que havia algo acontecendo através de mim que era maior que eu.

Havia aprendido a não me confundir com o que estava acontecendo através de mim.

Mas aprender uma coisa e vivê-la completamente são distâncias diferentes.

Quando Jesus começou a batizar mais do que eu — quando os discípulos vieram me contar com aquela mistura estranha de informação e teste, esperando ver o que eu faria com aquela notícia…

Eu disse que era exatamente o que devia acontecer.

E era.

Alguns dos meus… foram.

André.

Filipe.

Homens que haviam estado comigo no Jordão, que haviam ouvido minhas palavras, que haviam caminhado ao meu lado…

Foram atrás Dele.

Não tentei impedir.

Não havia em mim o direito de reter quem eu havia preparado para reconhecer outro.

Senti.

Não perda — não exatamente.

Mas o ajuste interno de quem vê aquilo que começou a formar… continuar sem ele no centro.

E, para minha própria surpresa…

houve satisfação.

Não pela ausência deles.

Mas pela direção.

Eles haviam entendido.

Mais do que isso — haviam respondido antes mesmo de eu terminar de explicar tudo.

Isso é o que significa preparar o caminho.

Não é fazer discípulos para si.

É formar olhos capazes de reconhecer quando é hora de ir.

E eles foram.

E eu permaneci.

E cada um estava exatamente onde deveria estar.

E estavam.

E ainda assim havia algo que precisou de silêncio para ser processado.

Não era ciúme. Era algo mais sutil que ciúme.

A sensação de que o papel que havia sido o centro da minha identidade estava sendo concluído — e que eu ainda estava vivo, ainda estava aqui, ainda era João Batista com voz e presença e seguidores, mas que o capítulo principal havia sido entregue.

Das oportunidades que tive de conversar com Jesus, que por sinal era meu primo carnal eu o questionava sobre o porquê da demora.

Eu queria vê-lo agir...

Mover as águas...

Sua atuação era mais com os discípulos e convertidos.

Faltava algo maior...

Eu tentava compreender.

Mas sentia que Ele hesitava.

Impaciente, eu perguntava: Quando?

Ele sorria e me dizia: Logo.

Logo...

Palavra genérica...

Imprecisa.

Mas eu sabia que viria...

Talvez, não do jeito que eu imaginava.

Apesar de primos, Jesus era totalmente diferente de mim.

Afável.

Doce.

Calmo.

Acessível a todos.

Na minha ânsia eu me questionava sobre o que vem depois do maior momento da sua vida enquanto você ainda está vivo?

Fiquei com essa pergunta.

Herodes foi a resposta que não esperava.

Havia falado sobre o casamento de Herodes com Herodias porque era o que havia para falar.

Não era cruzada pessoal, era a mesma coisa que dizia sobre qualquer coisa que precisava ser dita independente do custo.

A verdade não escolhe alvos convenientes.

Ou você a diz quando é difícil também ou o que você tem não é amor pela verdade mas amor pelo conforto da verdade quando não custa.

Custou...

A prisão foi o preço.

A cela era pequena.

O ar pesado.

O tempo — diferente de qualquer tempo que eu havia conhecido.

No deserto o tempo era largo, havia espaço para ele se mover.

Na prisão o tempo ficava parado como água em poço fechado.

Cada dia igual ao anterior.

Cada parede igual às outras paredes.

Eu que havia vivido sob o céu aberto com o Jordão correndo e as multidões vindo e a sensação de movimento constante — fiquei parado.

E no parado, veio a pergunta...

Não me envergonho da pergunta.

Envergonhei por um tempo.

Achei que era fraqueza incompatível com quem eu havia sido — com a voz que havia chamado raça de víboras, com o homem que havia apontado para Jesus e dito eis o Cordeiro de Deus com convicção absoluta.

Como esse homem podia ter dúvida?

Mas a dúvida veio.

A demora de Jesus em se anunciar como Messias, me incomodava.

Me afligia.

Na cela, no tempo parado, no silêncio que não era o silêncio fértil do deserto mas o silêncio estéril de quatro paredes — a dúvida veio com a pergunta mais simples e mais pesada possível.

És tu aquele que havia de vir ou esperamos outro?

Mandei perguntar.

Mandei meus discípulos até Jesus com aquela pergunta.

Não era falta de fé.

Era — como disse para meu discípulo quando ele perguntou por que havia perguntado antes se agora duvidava — que saber não é o mesmo que suportar.

Eu sabia.

Havia visto a pomba.

Havia ouvido a voz.

Havia apontado e dito eis o

Cordeiro de Deus com convicção que vinha de lugar mais profundo que argumento.

Eu sabia...

Mas saber e suportar são exercícios diferentes.

Suportar é quando o peso da situação encontra o que você acredita e você descobre se o que você acredita tem fundação real ou fundação de palavras bem construídas.

Na cela o peso era real.

E eu estava descobrindo se o que eu sabia tinha fundação para suportar aquele peso específico.

Jesus mandou a resposta.

Não veio Ele mesmo — e por um momento aquilo também pesou, a ausência Dele, a resposta chegando por mensageiro em vez de presença.

Depois entendi que era resposta também — que o que Jesus fazia era a resposta, não as palavras sobre o que fazia.

“Os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e aos pobres é anunciado o evangelho.”

Fiquei com aquilo.

Era a lista. Era a lista das escrituras — o que o Messias faria quando viesse.

Não havia argumento novo.

Havia o que eu já sabia colocado defrente com o peso da cela e a pergunta implícita — isso é suficiente para suportar?

E havia a última parte da mensagem.

“Bem-aventurado aquele que não se escandalizar de mim.”

Ele sabia da minha dúvida.

Sabia que a cela estava pesando.

Que a incerteza sobre meu destino, me mostrava que apesar de tudo, eu era humano e sentia medo.

E em vez de me dar mais — me deu exatamente o suficiente para suportar.

Não resolução.

Somente o suficiente.

Fiquei com aquilo por dias.

Os passos que às vezes ouviam do lado de fora da cela.

A luz que mudava pela fresta.

O discípulo que voltou e ficou comigo em silêncio depois de entregar a resposta.

Havia momentos em que a fundação segurava.

Havia momentos em que o peso era quase demais.

E eu ficava com os dois — com o saber e com o peso — sem tentar resolver a tensão entre eles.

Porque às vezes a fé não é a ausência da tensão.

É a disposição de ficar na tensão sem fugir dela para nenhum dos lados.

Nem para a certeza fácil que nega o peso.

Nem para o desespero que nega o que foi visto.

Fica.

Com os dois.

Os passos vieram numa manhã.

Firmes.

Diferentes dos passos normais dos guardas.

Eu sabia o que eram antes de saber o que eram.

Fiquei quieto por um momento.

Pensei no Jordão.

Na pomba.

Na voz.

Nas multidões que haviam vindo.

Nos que haviam entrado na água diferentes do que haviam chegado.

Pensei em Jesus caminhando pelo interior da Galileia fazendo o que a resposta havia descrito.

Os cegos veem.

Pensei que havia feito o que havia sido separado para fazer.

Que a ponte havia sido construída.

Que o que vinha do outro lado da porta era o fim do meu capítulo — não o fim da história.

A história continuava.

Ele crescia.

Eu diminuía.

Era o que havia dito.

Era o que havia dito com convicção real.

E era — mesmo ali, mesmo com os passos chegando — ainda verdade.

Abri os olhos.

Sem medo.

Eu fiz o que tinha que fazer.

Eu semeei.

Era o momento Dele colher...

E pela primeira vez — aquilo precisou bastar.

E bastou.

Como último bálsamo, pelas frestas da pequena janela, vi o esplendor do Sol.

Vi um Cordeiro Imaculado. 

Sim...Era Ele!

E permaneci.


 
João Batista 



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