Projeto The Chosen: Vozes que O Viram- CAPÍTULO XIV

 

 

CAPÍTULO 14 --- MARIA DE NAZARÉ

O que Significa Dizer Sim

Eu tinha quinze anos quando o anjo veio.

Não vou descrever a aparência porque não é o que ficou.

O que ficou foi a sensação — como se o ar no quarto tivesse mudado de consistência, como se a realidade normal tivesse ficado levemente mais fina e algo do outro lado estivesse mais próximo do que deveria ser possível.

E então as palavras.

“Ave, cheia de graça. O Senhor é contigo.”

Fiquei imóvel.

O anjo disse para não ter medo.

Disse que eu havia achado graça diante de Deus.

Disse que conceberia e daria à luz um filho e que seu nome seria Jesus e que seria chamado Filho do Altíssimo e que o seu reino não teria fim.

Ouvi tudo.

E fiz a única pergunta que fazia sentido fazer.

Como se fará isso, pois não conheço homem?

Não foi descrença.

Adonai sabe.

Era a pergunta mais honesta disponível — a pergunta de uma moça de quinze anos tentando entender a mecânica do impossível com os instrumentos que tinha.

O anjo explicou o que explicou.

E eu disse: Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra.

Preciso falar sobre aquele sim.

Porque as pessoas falam dele como se fosse simples — como se fosse a resposta óbvia, a resposta certa, a resposta que qualquer pessoa de fé daria naturalmente naquele momento.

Como se o sim não tivesse peso.

Tinha muito peso...

Eu tinha quinze anos e estava prometida a José e o que o anjo estava descrevendo era gravidez antes do casamento numa sociedade onde isso tinha consequências que eu conhecia muito bem.

Conhecia o que acontecia com mulheres nessa situação.

Conhecia o olhar das pessoas.

Conhecia o que José poderia fazer legalmente e socialmente.

Disse sim sabendo de tudo isso.

Era evidente que sentia medo.

No entanto, havia algo naquele momento que era maior que o medo — não que o medo desaparecesse, mas que havia algo do outro lado do sim que o medo não conseguia alcançar.

Disse sim.

E o peso do sim ficou comigo desde então.

José foi o primeiro milagre que não foi registrado como milagre.

O homem poderia ter me abandonado.

Poderia ter feito o que a lei permitia.

Em vez disso teve seu próprio encontro — seu próprio anjo, sua própria visita impossível — e acordou diferente.

Acordou disposto a carregar junto comigo o que eu estava carregando.

Nunca lhe agradeci adequadamente por isso...

Não havia palavras adequadas.

Ficou do meu lado na coisa mais estranha e mais difícil e mais santa que aconteceu a qualquer família na história — e ficou com a dignidade quieta de homem que não precisava entender completamente para agir corretamente.

Aprendi muito com José.

Continuo aprendendo.

Belém foi frio e palha e o cheiro de animais e a dor que é a dor de toda mãe mas que naquela noite era também outra coisa que eu não consigo nomear completamente.

Segurei meu filho pela primeira vez.

E havia dois pensamentos ao mesmo tempo que não deveriam caber juntos mas cabiam — o pensamento de toda mãe que segura o filho pela primeira vez, aquela mistura impossível de amor e terror e responsabilidade que chega de uma vez sem aviso.

E embaixo desse pensamento, ou dentro dele, ou junto dele —a consciência de quem esse menino era.

O que eu segurava nos braços era meu filho.

O que eu segurava nos braços era também outra coisa.

Aprendi a viver com essas duas verdades simultaneamente desde aquela noite em Belém.

Nunca ficou fácil.

Ficou familiar — que é diferente de fácil.

Simeão no templo disse palavras que guardei.

O velho havia esperado a vida inteira por aquele momento — havia algo nele que reconhecia o que eu carregava antes que eu dissesse qualquer coisa, como se anos de espera tivessem afinado a percepção além do que é normal.

Segurou meu filho.

Abençoou a Deus.

Disse que seus olhos haviam visto a salvação.

E então me olhou.

Só para mim.

E disse: Uma espada traspassará a tua própria alma.

Olhei para o meu filho nos braços do velho.

E guardei aquela frase.

Não sei o que esperava que significasse naquele momento.

Sei que quando chegou o dia em que entendi completamente...

O dia no Calvário — a frase estava lá, havia estado lá trinta e três anos, havia me acompanhado por cada fase da vida dele como nota baixa que você ouve antes de saber que está ouvindo.

Ele cresceu.

Isso parece simples mas não é — ver alguém que você conheceu antes de nascer crescer é experiência de camadas que se acumulam sem que você perceba o peso até olhar para trás.

Vi o menino que havia segurado em Belém aprender a andar.

A falar.

A fazer as perguntas que as crianças fazem e depois as perguntas que só Ele fazia — perguntas que me faziam parar no meio do que estava fazendo e ficar com elas por horas depois.

Havia momentos em que Ele era completamente meu filho.

E eu era sua “Ema”.

Travesso às vezes...

Curioso sempre.

Com aquela risada que eu conhecia antes de qualquer outro som no mundo.

E havia momentos em que eu via — não com os olhos, com outra coisa —que havia algo Nele que extrapolava o que eu havia gerado.

Que havia profundidade que não vinha de mim nem de José.

Que o menino que eu embalava à noite era também algo que eu não conseguia conter completamente com os braços de mãe.

Aprendi a não tentar conter o que não era para ser contido.

Mas nunca deixei de ser mãe.

Isso também não era para ser contido.

Caná foi onde eu entendi algo sobre como Ele operava.

A festa, o vinho acabando, a vergonha que se instalaria sobre a família anfitriã. Fui até Ele e disse simplesmente — não têm vinho.

Ele respondeu de um jeito que qualquer filho responderia para qualquer mãe e que ao mesmo tempo não era como qualquer filho responderia para qualquer mãe — Mulher, que temos nós com isso? A minha hora ainda não chegou.

Fiquei com aquela resposta na mente.

E disse aos serventes que fizessem o que ele dissesse.

Porque eu O conhecia.

Conhecia a voz por baixo das palavras.

Sabia que a minha hora ainda não chegou dito daquele jeito específico não era recusa— era algo mais complexo que eu sentia sem conseguir articular completamente.

Ele transformou a água em vinho.

E eu fiquei ali, entre os serventes e os convidados que celebravam sem saber o que havia acontecido, com aquela mistura familiar de orgulho de mãe e a consciência de que o que eu havia gerado estava começando a ser o que havia sido enviado para ser.

Houve momentos difíceis.

Momentos que eu fui incapaz de compreender seus gestos na plenitude.

Preciso dizer isso porque seria desonesto construir a narrativa de mãe que sempre entendeu, que sempre teve paz, que nunca teve noites em que o peso do que havia dito sim naquela tarde de quinze anos chegava com força diferente.

Houve um dia em que fui com os irmãos dele chamá-lo de volta.

As histórias que chegavam —as multidões, os confrontos com as autoridades, o perigo crescendo.

Fui porque era mãe.

Porque o instinto de mãe não pergunta se a missão é divina antes de proteger o filho.

Disseram a ele que eu estava do lado de fora querendo falar.

Ele disse que sua mãe e seus irmãos eram os que faziam a vontade de Deus.

Fiquei do lado de fora com aquelas palavras.

Não eram rejeição e muito menos ofensa — eu entendia isso com a cabeça.

Mas o coração de mãe levou tempo para alcançar o que a cabeça entendia.

Levou tempo para compreender que Ele não estava me afastando — estava me incluindo de forma diferente.

Estava dizendo que o laço entre nós era mais fundo que sangue.

Fiquei com isso.

E voltei para casa.

Em nossa cidade, Nazaré, quando Ele pregou na Sinagoga e quase foi apedrejado por amigos de infância, meu coração disparou.

Ele foi rejeitado em sua terra Natal, que deveria acolhê-lo.

Em outras cidades foi diferente.

A mensagem da espada transpassada voltou à mente.

Felizmente, não era a Sua hora.

Fui com Lázaro encontrá-lo.

Ele estava diante da sepultura de José.

Chorando…

Ficamos ali por um tempo que não sei medir.

Havia algo naquele silêncio que dizia mais do que qualquer palavra poderia dizer.

Em certo momento, Ele me olhou.

E eu entendi…

Foi ali que comecei a compreender o peso que Ele carregava —

E que o pior ainda estava por vir.

Que nem tudo era dádiva.

Nem tudo era milagre.

Sua missão era divina.

Seu cálice… amargo.

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Não estava em Jerusalém para a entrada com os ramos.

Estava quando as notícias chegaram.

As notícias chegam de um jeito específico quando envolvem seus filhos— com aquela urgência que antecede as palavras, com o rosto da pessoa que traz antes das palavras, com o intervalo entre ver o mensageiro chegar e ouvir o que o mensageiro diz.

Soube que havia sido preso.

E Simeão disse uma espada traspassará a tua própria alma.

E eu fui.

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O Calvário.

Não tenho palavras para o Calvário que não sejam menores que o Calvário.

Não vou tentar descrever o que é ficar de pé ao lado da morte do seu filho porque não há descrição que chegue perto e qualquer tentativa diminui em vez de alcançar.

Vou dizer só o que precisa ser dito.

Ele me viu.

No meio de tudo — no meio da dor e do peso e do que estava custando— ele me viu.

Olhou para baixo e me viu ali e vi nos olhos dele as duas coisas que sempre haviam coexistido...

O filho que eu havia embalado em Belém e o outro, o maior, o que eu nunca havia conseguido conter completamente com os braços de mãe.

E disse: Mulher, eis aí o teu filho.

Apontou para João.

Depois disse a João: Eis aí a tua mãe.

No meio de morrer — cuidou de mim.

É isso que precisa ser dito sobre o Calvário.

No meio de morrer — cuidou de mim.

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Os três dias.

João me levou para casa como Jesus havia pedido e eu fiquei com aquilo— com o peso de mãe que perde o filho, com a frase de Simeão que havia se cumprido completamente, com o sim de quinze anos chegando ao seu custo mais alto.

Havia dito sim sem saber completamente o que estava concordando.

Agora sabia.

E aqui está a coisa que preciso dizer com todo o cuidado que merece...

Eu diria sim de novo.

Não porque foi fácil.

Não porque não doeu.

Não porque a espada de Simeão não traspassou o que Simeão disse que traspassaria.

Mas porque havia algo do outro lado do sim que o medo não alcançava.

Havia sempre sido assim desde aquela tarde de quinze anos.

Na manhã do terceiro dia Maria Madalena chegou correndo.

Ouvi.

Não corri como Pedro. Fiquei.

Não porque não acreditei — mas porque havia um momento que eu precisava ter sozinha antes de ter com as outras pessoas.

Um momento entre eu e o que havia sido prometido naquela tarde de quinze anos.

Entre eu e o anjo que havia dito não temas.

Entre eu e o sim que havia

dito sem saber completamente o custo.

Fiquei quieta.

E soube.

Não precisei ver para saber.

Eu o havia carregado antes de qualquer outro.

Eu O conhecia antes de qualquer outra voz.

E soube.

Quando o vi — não no jardim, nem no cenáculo, mas depois, num momento que guardo só para mim porque há coisas que pertencem só entre mãe e filho e esse foi um deles — não disse nada por um tempo.

Só fiquei com ele.

Como em Belém.

Como nas noites que o embalei.

Como nas manhãs que o vi crescer.

Só fiquei.

E o sim de quinze anos — o sim que havia custado tudo, que havia carregado a espada de Simeão, que havia ficado de pé no Calvário quando tudo nela queria cair — esse sim estava completo.

Não resolvido.

Não sem cicatriz.

Completo.

Há diferença.

E eu sabia a diferença melhor que ninguém.

Desde Belém.

Desde a palha e o frio e o primeiro choro.

Desde o primeiro momento em que segurei nos braços o que havia dito sim para carregar.


 
Maria de Nazaré 


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