Projeto The Chosen : Vozes que O Viram - CAPÍTULO XV - MARIA MADALENA

 

 

CAPÍTULO 15 --- MARIA MADALENA

O Nome que me Devolveu a Mim Mesma

Antes de falar de Jesus preciso falar do que havia antes de Jesus surgiu na minha vida.

Não se trata de reviver detalhes mórbidos — não é isso...

Mas porque o antes é parte do testemunho.

Porque quem eu era antes define o tamanho do que aconteceu quando ele chegou.

E diminuir o antes seria diminuir o que veio depois.

Lilith...

Esse era o nome que eu era conhecida na chamada Zona Vermelha de Cafarnaum.

Não da forma que se quer ser conhecida.

Era conhecida pela taverna. 

Pelo vinho que não parava no limite certo.

Pela astúcia na jogatina desonesta.

Por ser a mulher que tinha uma legião de demônios me flagelado em intervalos cada vez menore.

Pelas manhãs depois que eram piores que as noites durante.

Pelo ciclo que eu conhecia de dentro — a dor que levava à taverna, o alívio temporário que a taverna dava, a dor maior que chegava depois, e de volta ao começo.

Havia sete demônios, dizem...

Não sei nomear cada um.

Sei que havia algo dentro de mim que não era eu mas que havia morado em mim por tanto tempo que eu havia parado de distinguir onde terminava o que me havia sido feito e onde começava quem eu era.

Essa distinção — aprender essa distinção —foi o primeiro presente que Jesus me deu.

Quando ele chegou até mim não estava num bom dia.

Estava num dos dias em que o ciclo havia chegado ao fundo outra vez —

Não era um fundo dramático que faz boa história, mas o fundo ordinário que é pior porque não tem nem o drama para se segurar.

Só o vazio.

Só o cansaço de ser quem eu era sem saber como ser diferente.

Chegou um momento que o precipício era a única saída aceitável para aquele tormento.

Uma pomba voando em cima da minha cabeça não deixou...

Uma pomba.

Ela parecia me avisar que algo importante estava para acontecer.

Eu a segui.

Depois a perdi de vista.

Mas o que estava determinada a fazer, não fiz.

Desorientada, fui beber.

Ele chegou.

Segurou minha mão e disse: Isso não é pra você.

Com raiva, respondi: Me deixa!

E saí correndo.

Ele foi atrás de mim.

E o que Ele disse me abalou.

Como se lesse o mais intimo da minha alma, ele falou as mesmas coisas que meu falecido pai me dizia, quando eu sentia medo...

Falou mais.

Descreveu a minha vida em menos de cinco minutos.

Não lembro de todas as palavras.

Lembro dos olhos.

Havia nos olhos dele algo que eu não havia encontrado em nenhum rosto antes — não era  um olhar pena, muito menos de julgamento.

Também não era o interesse torto de quem se aproxima de uma mulher como eu com intenções que eu reconhecia antes de chegarem perto.

Havia reconhecimento.

Como se ele estivesse me vendo por baixo de tudo que havia se acumulado — por baixo dos anos, por baixo do ciclo, por baixo do que os outros viam quando viam Lilith , a mundana perdida.

Via quem eu era antes de tudo isso.

Ou talvez — quem eu poderia ser do outro lado de tudo isso.

Me chamou pelo nome: Eu te conheço, Maria de Magdala. Você é minha!

Maria de Magdala, o nome há muito tempo abandonado.

Esquecido no passado distante...

E eu senti que era Dele.

Não no sentido carnal, como muitos poderão pensar.

Era Dele porque Ele me conhecia e havia me chamado pelo nome.

Apenas isso.

E então os demônios se foram.

Não tenho descrição melhor que essa.

Foram.

Como quando você carrega peso por tanto tempo que o peso se torna parte do seu equilíbrio e então, de repente some e você tomba. porque seu corpo não sabe mais como ficar de pé sem aquele peso específico.

Fiquei sem saber como ficar de pé por um momento.

Ajoelhei.

Depois fiquei de pé.

Diferente.

Segui Jesus de imediato.

Não havia plano ou instrução ou convite formal.

Segui porque havia literalmente nenhum outro lugar que fizesse sentido ir.

O que havia antes não existia mais — não no sentido de que havia sido destruído, mas no sentido de que havia sido esvaziado do que o tornava inevitável.

O ciclo que havia me prendido tinha os demônios como combustível.

Sem o combustível o ciclo parou.

E eu era livre de um jeito que não sabia o que fazer com a liberdade ainda.

Aprendi andando.

Havia outras mulheres — Joana, Tamar, Ramá, Susana, outras.

Havia os doze com toda a energia e o caos que doze homens com personalidades daquelas produzem em movimento constante.

Havia Jesus no centro de tudo — ensinando, curando, respondendo perguntas, fazendo perguntas melhores que as respostas.

Eu observava.

E servia no que havia para servir.

E havia dias em que a liberdade era tão real que parecia impossível que havia sido outra coisa antes.

Então veio a recaída.

Não vou construir justificativa elaborada para o que aconteceu porque justificativa elaborada é o jeito que a mente protege o ego da verdade simples.

A verdade simples é esta — havia tensão, havia um dia difícil, havia a memória do que a taverna fazia com dias difíceis, e eu escolhi.

Não fui arrastada.

Escolhi.

Isso é o que me envergonha mais — não que aconteceu, mas que aconteceu com escolha consciente.

Eu sabia o que estava fazendo.

Sabia o que havia sido libertada.

Sabia o que estava custando ao que havia me libertado— o olhar dos outros, os que esperavam que eu recaísse para confirmar o que sempre haviam achado.

Fui assim mesmo.

E estava na taverna quando Pedro e Mateus chegaram.

Pedro e Mateus.

Duas pessoas tão diferentes quanto a água e o vinho de Caná da Galileia.

Penso nessa escolha às vezes —quem Jesus havia enviado, ou quem havia vindo por conta própria, não sei ao certo.

Sei que eram os dois que vieram.

Pedro — que depois negaria Jesus três vezes junto a uma fogueira, onde vi com meus próprios olhos.

Que havia saído para chorar e voltado porque em Pedro o arrependimento nunca ficava parado por muito tempo, tinha que se mover.

Mateus — que havia sido cobrador.

Que sabia o que era ser o tipo de pessoa de quem as pessoas esperavam o pior.

Que havia sido resgatado de uma mesa de trabalho por duas palavras sem argumento.

Os dois não vieram com sermão ou julgamento.

Pedro ficou do lado de fora.

Mateus entrou, sentou do meu lado, e ficou em silêncio por um tempo.

Depois disse apenas: Vamos.

Eu respondi: Como vou encará-lo? Jesus está desapontado comigo. Você  sabe que o que fiz está errado.

Novamente ele disse: Vamos.

Como se fosse simples.

Como se ir fosse a coisa mais natural do mundo e ficar fosse a coisa estranha.

Diante da minha hesitação, ele disse: Um cobrador de impostos tão falho quanto você, não tem o direito de te julgar em nada.

Me levantei.

O caminho de volta foi em silêncio.

Pedro andava do outro lado e havia algo na forma que os dois andavam —um de cada lado, não na frente, não atrás — que me dizia sem palavras que não era escolta de quem errou.

Era companhia de quem entende que o caminho de volta precisa ser feito mas não precisa ser feito sozinho.

Quando cheguei — quando vi Jesus — não consegui olhar de imediato.

Havia a primeira libertação, que eu havia recebido sem entender completamente o peso porque não havia tido tempo de entender antes que acontecesse.

Agora havia isto.

Agora eu sabia o que havia recebido e havia ido assim mesmo e havia voltado e estava de pé na frente de quem havia me dado o que eu havia desperdiçado.

Levantei os olhos.

Ele me olhou da mesma forma.

Não da mesma forma no sentido de idêntica — da mesma forma no sentido de que havia o mesmo reconhecimento, o mesmo ver por baixo de tudo, o mesmo alcançar quem eu era antes dos anos e do ciclo e agora antes da recaída também.

Como se a recaída não houvesse mudado o que ele via quando me via.

Não disse nada por um momento.

Depois disse meu nome.

Maria.

Só isso.

E foi o suficiente para desfazer tudo que eu havia construído de vergonha no caminho de volta.

Não porque a vergonha que sentia era errada.

Era resposta legítima ao que havia feito.

Mas porque havia algo no jeito que Ele dizia meu nome que colocava a vergonha no lugar certo — real mas não definitiva, presente mas não o fim da história.

Aprendi algo naquele dia que a primeira libertação não havia ensinado completamente.

A primeira libertação havia me ensinado que eu podia ser livre.

A segunda havia me ensinado que a liberdade não dependia da minha performance perfeita depois.

Que cair e levantar era parte do aprendizado.

Que o perdão não era condicional a nunca mais precisar de perdão.

Que Jesus não havia me libertado apostando que eu nunca recairia —havia me libertado sabendo quem eu era inteira, incluindo a parte que recairia, e havia me libertado assim mesmo.

Essa distinção enraizou de um jeito que a primeira libertação não havia conseguido enraizar completamente.

Porque a primeira vez eu havia recebido perdão sem entender o custo.

A segunda vez eu entendia o custo e recebi assim mesmo.

E o que você recebe sabendo o custo completo — esse fica diferente.

Esse fica fundo.

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Estava no Calvário.

Não era coragem calculada — os homens haviam fugido e eu não havia calculado nada.

Havia só a impossibilidade de estar em qualquer outro lugar.

Como se meus pés soubessem onde ir quando minha cabeça havia parado de funcionar direito.

Vi tudo.

Não vou descrever porque Maria de Nazaré já descreveu o Calvário melhor do que eu poderia e porque algumas coisas pertencem a cada pessoa de forma diferente e o que o Calvário foi para mim pertence a mim de um jeito que as palavras não alcançam completamente.

Vou dizer só o que é necessário dizer.

Fiquei.

Depois que Ele morreu — fiquei.

Depois que O desceram — fiquei.

Acompanhei até o sepulcro. Vi onde colocaram.

E na manhã do primeiro dia da semana voltei.

Voltei porque não havia outro lugar.

O sepulcro estava aberto.

As faixas no chão.

Corri para Pedro e João — eles vieram, viram, foram embora.

Eu permaneci.

Fiquei do lado de fora do sepulcro chorando porque havia perdido o único lugar onde eu sabia como ser a pessoa que Ele havia me devolvido.

Sem Ele eu não sabia se conseguia manter quem Ele havia me mostrado que eu era.

Esse era meu medo real no jardim — não só a morte, não só a perda. Era— sem Ele, eu sei quem sou?

Vi dois anjos.

Perguntaram por que eu chorava.

Disse que haviam tirado meu Senhor e eu não sabia onde o haviam posto.

Me virei.

Havia um homem.

Perguntou por que eu chorava. Quem eu procurava.

Achei que era o jardineiro.

Disse que se ele havia levado o corpo me dissesse onde e eu o tiraria.

E então ele disse meu nome.

Maria.

Do mesmo jeito.

Com o mesmo reconhecimento.

Com o mesmo ver por baixo de tudo.

Com o mesmo alcançar quem eu era antes de qualquer outra coisa.

Maria.

Me virei completamente.

Rabôni.

Havia dito meu nome duas vezes em momentos que definiram minha vida.

A primeira — quando me havia libertado e eu havia recebido sem entender completamente o peso.

A segunda — quando havia voltado da taverna e eu havia recebido sabendo o custo.

E agora esta — no jardim, no terceiro dia, com o sepulcro aberto atrás de mim e a manhã começando e tudo que eu havia pensado que havia terminado não havendo terminado.

Três vezes ele havia dito meu nome.

Três vezes o nome havia me devolvido a mim mesma.

Cada vez mais fundo.

Cada vez mais real.

Fui contar aos discípulos.

Vi o Senhor.

Sei o que os rostos fizeram com aquela informação — o ceticismo, a gentileza cuidadosa de quem não quer ferir mas também não quer acreditar em algo que não consegue processar ainda.

Não me importei.

Havia aprendido a não me importar com o que os rostos faziam.

Havia aprendido que meu valor não dependia do que os rostos decidissem sobre mim.

Havia aprendido isso duas vezes — uma na libertação e uma na recaída.

E havia sido chamada pelo nome num jardim de manhã por alguém que havia saído do outro lado da morte.

O que exatamente os rostos céticos fazem com isso?

Nada.

Absolutamente nada.

Eu vi o Senhor.

E Ele disse meu nome.

E isso é suficiente.

Sempre foi suficiente.

Desde o primeiro dia até agora.

Maria.

Sim.

Sou eu.


 
Maria de Magdala (Maria Madalena)


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