Projeto The Chosen: Vozrs que O viram - CAPÍTULO X - JUDAS TADEU
CAPÍTULO 10 --- TADEU/JUDAS TADEU
O Nome que Virou Peso
Meu nome é Judas.
Deixa eu ficar com isso por um momento antes de seguir em frente —porque a maioria das pessoas não fica.
A maioria das pessoas ouve o nome e já foi, já está no jardim, já está com as tochas e o beijo e as moedas de prata.
Já está no final da história antes de ouvir o começo da minha.
Meu nome é Judas Tadeu.
Prefiro que me chame de Tadeu...
Sou filho de Tiago.
Não o Tiago filho de Zebedeu — o outro.
As Escrituras estão cheias de nomes repetidos porque éramos muitos e a imaginação dos pais tinha limite.
Cresci sabendo que haveria sempre o momento de explicar qual Judas, qual Tiago, de onde, filho de quem.
Aprendi a explicar rápido.
Depois aprendi a usar só Tadeu.
Depois não precisei mais explicar — o outro Judas havia feito o trabalho de tornar o nome impossível de carregar sem explicação.
Quero ser honesto sobre o que senti quando Judas Iscariotes fez o que fez.
Não foi só horror pelo ato — o horror veio, claro, como veio para todos.
Foi também algo mais mesquinho que o horror, algo que me envergonha dizer mas que é verdade: foi a consciência imediata de que meu nome havia sido manchado por associação.
Que daquele dia em diante cada vez que eu dissesse me chamo Judas haveria uma pausa, um olhar, uma reorganização no rosto da pessoa enquanto ela tentava decidir o que fazer com aquela informação.
Pensei nisso enquanto a história de Judas Iscariotes ainda estava acontecendo.
Me envergonho disso.
Mas foi assim.
Cresci em família que levava a fé a sério.
Não foi uma performance — foi como estrutura real de vida, como o tecido pelo qual as decisões eram tomadas e as perguntas eram feitas.
Meu pai Tiago era homem de poucos excessos e muita consistência, o tipo de pessoa que não faz barulho sobre o que acredita mas vive de um jeito que torna a pergunta inevitável para quem observa de perto.
Aprendi com ele que fé sem custo não é fé — é conforto.
Quando Jesus me chamou eu já havia pensado sobre custo.
Achava que sabia o que estava concordando.
Não sabia.
O jeito simples e prático de meu pai moldou a minha forma de atuar como discípulo do Mestre.
Sem alarde.
Sem chamar a atenção.
Apenas vendo e vivendo os sinais e milagres, guardando uma certeza viva que , diante Dele, nada era impossível.
Nenhuma causa .
Nenhum obstáculo.
O impossível se tornou algo comum e alcançado com certa facilidade.
Bastava somente crer.
Na verdade, fui dos doze mas não fui dos três.
Não estava no monte da transfiguração.
Não estava no jardim da oração com Pedro e João e Tiago filho de Zebedeu.
Havia um círculo interno que eu via de fora — não com ressentimento, preciso ser honesto sobre isso, mas com a consciência quieta de quem entende que proximidade tem gradações e que estar entre os doze já era coisa que eu não havia merecido nem calculado.
Ser um dos doze já me bastava.
O que eu tinha era presença.
Estava lá na maioria das coisas.
Ouvia.
Observava.
Guardava.
Fazia com diligência o que o Mestre me designava a fazer, sem esperar recompensa.
E havia uma pergunta que ficou comigo por meses antes de eu ter coragem de fazer em voz alta.
Foi na Última Ceia.
Jesus havia falado de partir. Havia falado de revelar a si mesmo a quem o amava. E eu — que havia ficado quieto tantas vezes, que havia aprendido a existir nos espaços entre os discípulos mais visíveis sem fazer muito barulho — levantei a voz.
Senhor, por que razão te manifestarás a nós e não ao mundo?
Era a pergunta que eu carregava havia meses.
Se Ele era o que dizia ser.
Se havia vindo para o que dizia ter vindo.
Se o reino que anunciava era real e transformador e maior que tudo que havia existido — por que o esforço de esconder?
Por que não simplesmente mostrar ao mundo inteiro de uma vez, sem parábola, sem véu, sem o processo lento e às vezes confuso de discípulos que entendiam pela metade e erravam repetidamente?
Por que nós doze? Por que não todos?
Jesus me olhou com aquela paciência que não era passividade.
Era a paciência de alguém que vê a pergunta inteira — não só o que foi dito mas o que estava por baixo do que foi dito.
Respondeu que quem o amava guardaria suas palavras.
Que o Pai o amaria.
Que viriam e fariam morada Nele.
Que quem não O amava não guardava suas palavras.
Fiquei com aquilo no meu coração.
Não era resposta que fechava a pergunta — era resposta que mudava o formato da pergunta.
Eu havia perguntado sobre estratégia.
Ele havia respondido sobre relacionamento.
Eu havia perguntado por que não todos de uma vez e Ele havia respondido que o caminho para todos passava pelo um a um, pelo amor que guarda, pela presença que se instala devagar.
O mundo não seria alcançado por revelação em massa.
Seria alcançado por pessoas que haviam sido alcançadas, uma a uma, guardando o que haviam recebido e vivendo de um jeito que tornava a pergunta inevitável para quem observava de perto.
Exatamente como meu pai Tiago vivia...
Algo que parece tão simples e trivial, mas que não enxergamos na maioria das vezes.
Levei um tempo para entender que Jesus havia me respondido com o exemplo da minha própria família.
Hoje penso que a mensagem de Jesus era simples e objetiva.
Nós é que, em nossas fraquezas e ignorâncias, complicávamos tudo.
Depois veio a noite da prisão.
Fugi como os outros.
Não tenho versão diferente para oferecer.
A noite era escura, havia tochas e espadas e a súbita compreensão de que tudo estava desmoronando de um jeito que nenhum de nós havia realmente se preparado para enfrentar apesar de Jesus haver dito que viria.
Ouvir que algo vai acontecer e ter esse algo acontecendo na sua frente são duas experiências completamente diferentes.
Fugi como vários fugiram.
Nos três dias fiquei no cenáculo com os outros.
Havia muito silêncio.
Muita culpa.
Muito remorso por não termos defendido Jesus a altura.
Havia também, inevitavelmente, o processo de revisitar o que havia acontecido com Judas Iscariotes.
Sem um julgamento elaborado, pois não havia energia para julgamento elaborado, mas com a pergunta simples e pesada que ficava no ar sem que ninguém quisesse ser o primeiro a dizê-la em voz alta.
Como?
Não como no sentido de método. Como no sentido de — como alguém que havia estado tão perto, que havia visto o que vimos, que havia ouvido o que ouvimos — como chegou ali?
Como se perdeu daquela maneira?
Ficamos em choque.
Eu não tinha resposta.
Tenho menos resposta ainda agora do que tinha então.
Acredito que Jesus conhecia Judas em seu mais profundo íntimo, assim como conhecia a todos nós.
E mesmo assim, Ele o escolheu.
Teria o Mestre errado?
Não...
O Mestre sabia desde o princípio...
Salomão, em sua sabedoria já dizia que “tudo tem um propósito debaixo do Sol” e que “há tempo para todas as coisas”.
O que tenho é a consciência desconfortável de que a distância entre quem eu era e quem Judas Iscariotes se tornou não era tão absoluta quanto eu gostaria que fosse.
Que havia em mim também a capacidade de calcular mal.
De deixar o querer contaminar o ver.
De achar que entendia o que Jesus estava fazendo quando não entendia.
A diferença entre nós não foi virtude superior da minha parte.
Foi escolha.
E circunstância.
E graça que não mereço mais do que ele merecia.
Fico com isso.
E havia meu nome.
Nos três dias de silêncio do cenáculo o peso do nome chegou com força diferente.
Porque antes havia dois Judas entre os doze e um era traidor e o outro era eu — e agora havia só um Judas entre os que sobraram e esse era eu.
Não disse isso para ninguém.
Guardei.
Mas era peso real.
O nome que eu havia carregado a vida inteira — que havia explicado repetidamente, que havia tentado distinguir com o Tadeu, que havia aprendido a usar com cuidado — agora estava carregado de algo que eu não havia feito mas que estava colado a mim por associação de som.
Não era justo.
Não precisava ser justo para ser verdade.
Quando Jesus apareceu no cenáculo com as portas trancadas eu estava lá.
Vi as mãos.
Ouvi a voz.
E havia algo específico naquele momento para mim que não sei se os
outros sentiram da mesma forma — a sensação de que o peso do nome estava sendo tratado mesmo que Jesus não dissesse nada sobre o nome.
Que a presença Dele naquele quarto com aquelas portas trancadas era também para o Judas que havia ficado, não só para os outros.
Que ser Judas Tadeu ainda significava algo.
Que meu nome não havia sido destruído — havia sido complicado.
E complicado é diferente de destruído.
Fiz uma escolha depois disso.
Parei de me apresentar como Tadeu para evitar a pergunta.
Comecei a me apresentar como Judas filho de Tiago.
Não por masoquismo. Por recusa de deixar que o ato de outro homem determinasse como eu me nomeava.
Por entender que Jesus havia me chamado pelo nome completo e que encolher o nome era de certa forma encolher o chamado.
Havia duas histórias agora ligadas ao nome Judas.
Uma havia terminado em tragédia num campo comprado com sangue.
A outra ainda estava sendo escrita.
Eu era a outra.
E a outra importava.
A pergunta que fiz na Última Ceia ainda fico com ela às vezes.
Por que a nós e não ao mundo?
E a resposta que Jesus me deu — que passa pelo um a um, pelo amor que guarda, pela presença que se instala devagar — continua sendo a resposta mais difícil de aceitar para alguém que queria resultado visível e imediato.
Continua sendo a resposta certa.
O mundo não é alcançado de uma vez.
É alcançado por pessoas que carregam o que receberam e vivem de um jeito que torna a pergunta inevitável.
Meu pai me ensinou isso sem saber que estava me ensinando.
Jesus confirmou.
E eu — Judas Tadeu, filho de Tiago, o Judas que ficou — carrego isso.
Com o nome inteiro.
Sem pedir desculpa pelo nome.
Sem deixar que um homem que fez escolha diferente da minha defina quem eu sou pelo som que temos em comum.
Somos sons parecidos.
Somos histórias completamente diferentes.
E as histórias importam mais que os sons.


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