The Chosen: Vozes que O viram - CAPÍTULO 8

 

 



CAPÍTULO 8 --- TOMÉ

O Preço de Permanecer

Eu precisava entender as coisas.

Não acho que era defeito — pelo menos não começou como defeito.

Era o jeito que eu funcionava desde criança.

Enquanto os outros aceitavam o que lhes era dito e seguiam em frente, eu ficava com a pergunta.

Virava ela de um lado e do outro.

Procurava onde a lógica sustentava e onde ela cedia.

Não era desconfiança das pessoas — era respeito pela verdade.

Se algo é verdade, aguenta ser examinado.

Se não aguenta, precisa ser examinado ainda mais.

Ramá dizia que eu pensava demais.

Eu dizia que alguém precisava.

Ela ria...

Ah, minha inesquecível Ramá...

Preciso falar dela primeiro porque não consigo falar de mais nada sem falar dela.

Ela era minha noiva e era minha âncora — não no sentido de que me prendia, mas no sentido de que me dava peso real, presença real, o tipo de chão firme que você só percebe que tinha quando some.

Ela me conhecia de um jeito que a maioria das pessoas não tenta conhecer os outros.

Conhecia o pensamento por trás do pensamento.

Sabia quando eu estava processando e quando estava evitando.

Sabia a diferença entre minha dúvida honesta e minha teimosia disfarçada de dúvida honesta — e me dizia a diferença sem crueldade, com aquela franqueza direta que era a coisa que eu mais amava e às vezes a que mais me incomodava nela.

Seguir Jesus foi decisão que tomamos juntos — ou pelo menos decisão que ela entendeu e apoiou com a generosidade de quem sabe que a pessoa que ama precisa ir atrás do que é verdadeiro, mesmo que custe.

Custou.

Custou mais do que eu havia calculado.

Vi coisas nos primeiros meses que reorganizaram tudo que eu sabia sobre o que é possível.

E eu precisava que as coisas fossem possíveis dentro de um sistema que fizesse sentido — não por rigidez, mas porque sou o tipo de pessoa para quem entender e crer não são processos separados.

Eu cria enquanto entendia. E entendia enquanto via.

Vi, ao lado de Ramá, a água se tornar vinho nas Bodas de Caná.

Vi o paralítico andar.

Vi o cego ver.

Vi os cinco mil alimentados com o que não era suficiente para cinquenta.

Cada vez minha estrutura de entendimento do mundo expandia —dolorosamente às vezes, porque expandir estrutura sempre custa, mas expandia.

E eu ia junto.

Com perguntas, com exame, com o processo lento que era meu processo — mas ia.

Então veio o dia de Quintus.

Aquele maldito dia...

Jesus fez uma pregação polêmica e contundente contra os fariseus que tentavam pegá-lo em contradição.

A população se alvoroçou.

O Governador Quintus, enfurecido, tentava dispersar a multidão , sem sucesso.

A única coisa que me vinha na mente era a segurança de Ramá.

Eu só pensava em protegê-la.

Segurei sua mão, tentando afastá-la da confusão

Mas no meio do caminho, a espada de Quintus a encontrou...

Vi Ramá ser transpassada na minha frente .

Fiquei em choque.

Ela caiu...

Grossos filetes de sangue saiam do seu corpo.

Todos os nossos sonhos e planos se esvaindo junto com o seu sangue e eu nada podia fazer.

Gritei : Ramá!

Segurei o corpo dela e o tempo fez aquela coisa que o tempo faz nos momentos que não deveriam acontecer — parou de ter a velocidade normal.

Cada segundo era grande demais.

Cada detalhe era nítido demais.

O chão embaixo dos joelhos.

 O peso dela nos braços.

Suas últimas palavras foram devastadoras: não deixe Jesus por nada...

O barulho da multidão que continuava ao redor como se o mundo não tivesse acabado de parar.

O mundo não tinha acabado.

Esse foi um dos primeiros problemas.

O mundo continuou, ignorando a minha dor.

O Sol continuou.

As pessoas ao redor continuaram.

E eu fiquei com o corpo de Ramá nos braços no meio de tudo que continuava e não conseguia entender como era possível que tudo continuasse.

Jesus estava perto.

Isso é o que eu precisava que você soubesse.

Ele estava perto.

Havia acabado de fazer o que fazia — ensinar, curar, reunir pessoas ao redor de algo que eu havia visto mudar vidas com os próprios olhos.

Estava a distância de uma voz.

E não fez nada.

Quando implorei que Ele a ressuscitasse, que aquilo não estava certo, ele apenas disse: Não era o tempo dela.

Não sei exatamente como eram meu rosto e minha voz naquele momento.

Sei o que sentia por dentro — não era só dor, era a dor específica de alguém cuja estrutura de entendimento do mundo acabou de ser apresentada a uma contradição que não fecha.

A voz falhou no meio. Não planejei que falhasse.

Foi o corpo sendo mais

honesto que eu queria ser.

Por que não ela?

Ele se aproximou.

Tomé...eu sinto muito!

NÃOOO!!!!

O grito veio de um lugar que eu não sabia que existia.

Rasgado.

O tipo de som que sai quando o que está dentro é grande demais para a garganta.

Eu não quero consolo. Eu quero uma resposta que faça sentido.

Silêncio.

Ele ficou no silêncio comigo.

Não foi embora.

Não se defendeu.

Não deu a resposta que eu havia pedido — porque não havia resposta que fechasse o que eu estava pedindo que fechasse.

Ficou.

E naquele momento a fé deixou de ser conforto.

E virou conflito.

Mas fiquei...

Talvez, atendendo ao último desejo de minha amada Ramá...

Não sei definir...

Isso é o que as pessoas não entendem quando falam de mim — que a dúvida não me fez ir embora.

Permaneci mesmo sem entender.

Permaneci com a contradição aberta, com a ferida cravada no peito, sem resolução, sem o fechamento que eu precisava e não tinha.

Não sei explicar completamente por que fiquei.

Talvez porque havia visto coisas demais para simplesmente descartar.

Talvez porque a ausência de resposta de Jesus naquele momento não era a ausência de alguém que não se importava — havia algo na forma que Ele ficou no silêncio comigo que era diferente de indiferença.

Diferente de incapacidade também.

Era outra coisa que eu não tinha palavra para nomear.

Talvez porque Ramá havia apoiado essa escolha e ir embora parecia trair ela também.

Talvez só porque eu não sabia para onde ir.

Fiquei com a pergunta aberta e continuei andando.

Eu havia guardado aquilo como informação importante sem saber ainda o que fazer com ela.

Mas então por que Ramá?

A pergunta não desapareceu.

Com o tempo, mudou de forma.

Deixou de ser por que Ele não fez nada e virou o que significa que ele não fez nada quando podia ter feito?

Não é pergunta menor. É pergunta maior.

E não tenho resposta.

Somente carrego a dor.

Na noite da Última Ceia eu perguntei.

Não sobre Ramá — sobre o caminho. Jesus disse que ia preparar lugar e que conhecíamos o caminho.

E eu disse o que era verdade: Senhor, não sabemos para onde vais; como podemos saber o caminho?

Não era sabotagem.

Era a pergunta mais honesta disponível.

Jesus respondeu: Eu sou o caminho, a verdade e a vida.

Fiquei com aquilo.

Eu que precisava entender as coisas — ele me dizia que o caminho não era mapa.

Era pessoa.

Que a verdade não era sistema. Era pessoa.

Que encontrar a vida não era resolver a equação certa.

Era conhecê-lo.

Não sei se entendi completamente naquele momento.

Sei que guardei.

Quando disseram que havia ressuscitado eu não estava lá.

Não sei onde estava.

Sei que estava sozinho — que nos dias depois da cruz eu havia chegado num nível de isolamento que era diferente de introversão.

Era o fechamento de alguém que não tem mais estrutura para processar o que aconteceu e então para de processar.

Pedro havia negado.

João havia ficado.

Os outros haviam fugido.

E eu havia ficado com a lembrança de Ramá morta nos meus braços e Jesus morto e as perguntas sem resposta empilhadas até o teto de onde quer que eu estivesse.

Quando voltei e disseram que o haviam visto — que estava vivo, que havia aparecido no cenáculo, que havia mostrado as mãos e o lado — eu ouvi.

E disse o que era verdade para mim naquele momento.

Se eu não vir nas suas mãos o sinal dos pregos, e não meter o meu dedo no lugar dos pregos, e não meter a minha mão no seu lado, de modo algum o crerei.

Não era desafio.

Era o limite do que eu conseguia fazer com o que tinha.

Eu havia permanecido com a pergunta de Ramá sem resposta.

Havia permanecido através da cruz.

Havia permanecido quando tudo que eu havia construído como estrutura de entendimento havia sido apresentado à maior contradição possível.

Havia chegado ao limite do que conseguia aceitar por fé sem âncora.

Precisava de âncora.

Oito dias depois ele apareceu.

Portas trancadas de novo.

Ele dentro mesmo assim. E virou diretamente para mim — como se soubesse exatamente onde eu estava, como se as oito dias de ausência fossem calculadas, como se o tempo entre o relato dos outros e aquele momento fosse intencional.

Disse: Coloca aqui o teu dedo e vê as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca no meu lado. Não sejas incrédulo, mas crente.

Eu não precisei tocar.

Não porque era desnecessário — mas porque quando ele falou eu reconheci a voz.

A mesma voz que havia ficado no silêncio comigo depois de Ramá.

A mesma voz que havia dito “eu sou o caminho” quando eu perguntei o caminho.

A mesma voz que havia perguntado por que duvidaste a Pedro na água.

A voz que conhecia meu nome completo.

Meu Senhor e meu Deus.

Saiu inteiro.

Sem hesitação.

Sem o processo lento que era meu processo.

Pela primeira vez em toda a minha história com Ele — sem exame, sem volta, sem o peso da pergunta pendente atrasando a chegada.

Ele disse: Porque me viste, creste. Bem-aventurados os que não viram e creram.

Ouvi aquilo e pensei em Ramá.

Ela havia acreditado sem ver tudo que eu vi.

Havia apoiado a escolha sem ter as evidências que eu tive.

Havia ido antes de ver o que eu vi naquele cenáculo.

E Jesus estava dizendo que isso — aquele tipo de fé, o tipo de Ramá— era bem-aventurado.

Não chorei na hora.

Chorei depois, sozinho, com aquela frase repetindo.

Ainda carrego a pergunta.

Não desapareceu...

Não vai desaparecer.

Por que não ela?

Vai estar comigo enquanto eu viver e talvez seja a pergunta que eu faça primeiro quando chegar ao outro lado.

Mas aprendi algo sobre perguntas que não têm resposta.

Que carregar a pergunta e continuar andando não é fraqueza de fé.

É talvez a forma mais cara de fé que existe.

Qualquer um acredita quando entende.

Crer sem entender — crer com a pergunta ainda aberta, crer com a dor ainda presente, crer sem o fechamento que você precisava e não veio —isso custa diferente.

Ramá sabia disso antes de mim.

Ainda estou aprendendo com ela. 


 
Apóstolo Tomé 



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