The Chosen: Vozes que O Viram - CAPÍTULO IX - Tiiago Menor
CAPÍTULO 9 --- TIAGO MENOR
O que Ele Viu em Mim
Eu coxeava.
Sentia dores insuportáveis no corpo de movimentos pra lá de limitados.
Não vou adiar isso para o meio do capítulo ou envolver em linguagem que suavize.
Era a primeira coisa que as pessoas viam quando eu entrava num lugar — antes do rosto, antes dos olhos, antes de qualquer palavra.
O corpo que não andava do jeito que corpos deveriam andar.
A perna que arrastava levemente, o equilíbrio compensado, o ritmo irregular que anunciava minha chegada antes de eu chegar.
Aprendi a entrar nos lugares de um jeito que minimizasse o quanto isso aparecia.
Aprendi a sentar cedo para não ter que me levantar na frente de todos.
Aprendi a chegar antes ou depois da multidão para não ter que atravessá-la.
Aprendi tantas estratégias de invisibilidade que às vezes me perguntava se o objetivo da minha vida era existir sem ser notado.
Minha mãe me chamava de Tiago.
Os outros meninos me chamavam de “coiso”.
Não todos — havia gentileza também, havia amigos reais.
Mas havia aquele tipo específico de crueldade infantil que encontra o ponto mais vulnerável de uma pessoa e volta para ele repetidamente porque crianças ainda não aprenderam que isso tem peso permanente.
Que as palavras ditas aos oito anos de idade ainda estão no corpo aos trinta.
Estão.
Isso é fato!
Aprendi a não mostrar que estavam.
Quando conheci Jesus eu esperava que Ele me visse do jeito que todos me viam.
Como um estorvo
Não estava sendo pessimista — estava sendo realista. Era o que acontecia.
As pessoas viam o corpo primeiro.
Depois tentavam ser gentis em relação ao corpo, ou tentavam ignorar o corpo, ou simplesmente paravam no corpo e não conseguiam chegar à pessoa atrás dele.
Jesus não parou no corpo.
Não quero dizer que ignorou — Jesus nunca ignorava nada, era incapaz de desconsiderar o que estava na sua frente.
Mas o corpo não foi onde ele parou.
Passou por ele como se fosse informação relevante mas não a informação principal.
Olhou para mim e disse:
Tiago.
Só o nome chamado de um jeito carinhoso e único
Repleto de afeto.
Da forma que ele dizia — não Tiago como chamada de presença, não Tiago como inicio de instrução.
Como se o nome fosse inteiro e a pessoa dentro do nome fosse inteira e as duas coisas juntas fossem o que importava.
Depois sorriu e disse:
“Meu precioso Tiaguinho”
Preciso parar aqui.
Porque sei como isso soa.
Sei que um homem adulto sendo chamado de diminutivo por outro homem poderia soar como condescendência, como a gentileza levemente humilhante de quem faz concessão para o mais fraco.
Conhecia esse tipo de gentileza.
Havia recebido vida inteira.
A voz levemente mais alta, o tom levemente mais lento, o sorriso levemente mais cuidadoso que as pessoas usam quando acham que estão sendo amáveis com alguém que precisa de cuidado especial.
Não era isso.
Era o oposto disso.
Quando Jesus disse “meu precioso Tiaguinho” havia uma ternura que não diminuía — que fazia o nome pequeno conter algo grande.
Como quando você chama pelo apelido de infância alguém que você conhece profundamente e o apelido não é infantilização mas intimidade.
Não você é pequeno. Mas eu te conheço inteiro e te quero inteiro.
Fiquei com aquilo por dias.
Precioso.
Eu havia sido muitas coisas para muitas pessoas.
Nunca havia sido precioso.
Segui sem hesitar.
Não porque havia calculado como Mateus, não porque havia sido arrastado pela correnteza como às vezes Pedro parecia ser.
Segui porque havia algo naquele olhar e naquela voz que respondia a uma pergunta que eu carregava há tanto tempo que havia parado de reconhecê-la como pergunta.
A pergunta era simples.
Tem alguma coisa em mim que vale?
Não o corpo que compensava o equilíbrio.
Não a pessoa que havia aprendido a ser invisível.
Não a versão de mim que existia apesar da perna — mas eu, inteiro, incluindo a perna, incluindo as estratégiasde invisibilidade, incluindo os anos de aprender a minimizar minha presença para não incomodar.
Tem alguma coisa nesse homem inteiro que vale?
Jesus havia respondido antes que eu terminasse de formular.
“Meu precioso Tiaguinho.”
Nos meses que seguiram aprendi que ser chamado de precioso por Jesus não significava ser poupado.
Pelo contrário.
Ele tinha uma expectativa de mim que ninguém havia tido antes.
Não a expectativa condescendente de quem quer que você faça o que consegue dentro das suas limitações — a expectativa real de quem acha que você pode mais do que imagina.
Que o limite que você internalizou não é o limite real.
Isso era desconfortável de um jeito diferente de todas as formas que já me haviam desconfortado.
Desconforto que vem de subestimação você aprende a carregar.
Tem peso conhecido, tem estratégia conhecida.
Desconforto que vem de alguém acreditar em você além do que você acredita em si mesmo — esse não tem estratégia pronta.
Esse te obriga a crescer ou a recuar.
Eu não queria recuar.
Não na frente de Jesus.
Então cresci.
Devagar, com tropeços, com a perna irregular marcando cada passo — mas cresci.
E então veio o dia que mudou tudo.
Não a ressurreição — essa veio depois.
O dia que mudou tudo foi um dia ordinário em que Jesus me chamou à parte.
Havia uma multidão. Havia coxos, havia aleijados, havia pessoas que carregavam no corpo o peso de condições que eu conhecia de dentro —não como observador, mas como alguém que havia vivido variações daquilo a vida inteira.
Ele me olhou.
Havia algo diferente naquele olhar — não menos ternura, a ternura estava lá.
Mas havia também o peso de alguém que está prestes a pedir algo difícil e sabe que é difícil e pede assim mesmo porque acredita que você consegue.
Disse: Quero que você vá até eles. Imponha as mãos. Ore.
Fiquei imóvel.
Eu?
Não disse em voz alta. Mas ele ouviu — Jesus sempre ouvia o que não era dito em voz alta.
Esperou.
Não havia cura na minha perna. Eu estava de pé na frente de pessoas que precisavam de cura com o corpo que precisava de cura — e ele estava me pedindo para ser instrumento de cura para elas.
Minha primeira reação foi o pensamento que me envergonha e que vou dizerassim mesmo: por que me manda curar os outros se não me curou?
Não era raiva. Era a pergunta mais sincera que eu tinha .
Ele não respondeu à pergunta diretamente.
Fez outra coisa — coisa que Jesus fazia, que eu havia aprendido a reconhecer e que ainda assim me pegava de surpresa.
Olhou para os que estavam esperando.
Para os corpos que carregavam o que carregavam.
E depois olhou para mim.
E eu entendi sem palavras.
Quem entre todos os discípulos poderia chegar até aquelas pessoas sem que houvesse distância entre o que ele era e o que elas eram?
Quem poderia se ajoelhar na frente de um aleijado sem que o gesto fosse de cima para baixo?
Eu me ajoelhava diferente.
Eu sabia o chão de um jeito diferente.
Eu conhecia o peso de um corpo que não coopera de um jeito que Pedro não conhecia, que João não conhecia, que nenhum dos outros conhecia da mesma forma.
Ele não havia me deixado com a perna assim por descuido ou por limitação.
Havia me enviado exatamente como eu era porque o que eu era — a perna,os anos de invisibilidade, as estratégias de sobrevivência, o peso de ser visto como menos antes de ser visto — era exatamente o que aquelas pessoas precisavam ver chegando até elas.
Não alguém que havia sido consertado.
Alguém que não havia sido consertado e estava de pé assim mesmo, dando um testemunho silencioso de fé, paciência e resignação.
Fui.
Com a perna irregular e o equilíbrio compensado e o ritmo que anunciava minha chegada antes de eu chegar — fui.
Me ajoelhei na frente do primeiro.
E quando impus as mãos sobre ele — não vou descrever o que aconteceu porque não tenho linguagem completamente adequada.
Só vou dizer que havia algo passando por mim que não era meu.
Que eu era canal de algo que não cabia em mim mas que eu estava aprendendo a não fechar.
Ele havia me chamado de precioso.
Eu havia passado a vida aprendendo a ser invisível.
E agora estava no meio de uma multidão sendo visto — não apesar da perna, com ela.
Com tudo.
Inteiro.
A perna não foi curada.
Isso permanece verdade e permanece com peso. Não vou pintar de teologia bonita o que às vezes ainda dói numa manhã difícil quando o corpo lembra do que o corpo lembra.
Mas aprendi a distinção que Jesus me ensinou sem palavras naquele dia.
Há coisas que Ele remove.
E há coisas que Ele redime.
Remover seria tirar a perna irregular da história — consertar, apagar, normalizar.
Redimir foi pegar a perna irregular e tudo que ela havia me ensinado sobre o chão, sobre invisibilidade, sobre o peso de um corpo que não coopera — e fazer disso a coisa específica que me qualificava para o que Ele me enviou fazer.
Não consertado.
Redimido.
A diferença é enorme.
Eu vi paralíticos andarem.
Vi ossos responderem à voz dele.
E continuo mancando.
No começo achei que era questão de tempo.
Depois achei que era falta de fé.
Agora eu só caminho assim mesmo.
E Ele nunca me pediu para parar de segui-lo por causa disso.
Então talvez isso não seja ausência.
Talvez seja outra coisa que eu ainda não entendo completamente.
Mas que não me impede de continuar.
Quando Ele ressuscitou e me olhou pela primeira vez depois — ainda me chamou de Tiaguinho.
Com aquela ternura que não diminuía.
E eu entendi que o nome pequeno nunca havia sido sobre meu tamanho.
Era sobre o quanto ele me conhecia.
Precioso não é o que você consegue fazer.
É o que você é para quem te conhece inteiro.
Aprendi isso com uma perna irregular e um nome pequeno dito por uma voz que tornava o nome pequeno conter o mundo.
“Meu precioso Tiaguinho”.
Sim.
Ainda.
Sempre.


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