ProjetoThe Chosen: Vozes que O viram - CAPÍTULO XXVI -FOTINA

 

 


 

CAPÍTULO 26 --- FOTINA

O Homem que Sabia Tudo e Ficou Assim Mesmo

Eu ia ao poço no meio do dia.

Não porque era o melhor horário — não era. O calor do meio-dia em

Samaria é o tipo de calor que você evita quando pode. As outras mulheres

iam de manhã cedo, quando estava fresco, quando havia companhia, quando

a caminhada até o poço era também encontro social e troca de notícias e

o tipo de conversa que costura comunidade.

Eu ia no meio do dia porque as outras mulheres iam de manhã.

Não preciso explicar mais que isso.

Havia chegado ao ponto em que era mais fácil o calor do que os olhares.

Mais fácil o sol do que o silêncio que se instalava quando eu chegava.

Mais fácil estar sozinha com o peso do que estava carregando do que ver

aquele peso refletido nos rostos das pessoas que me conheciam.

Me conheciam bem demais.

Ou achavam que conheciam.

Havia cinco.

Não vou entrar em cada história porque cada história tem suas próprias

complicações e suas próprias justificativas e suas próprias formas que

as coisas foram se tornando o que se tornaram. O que importa não é o

número ou as histórias individuais mas o que o padrão significava —

que havia em mim uma busca que eu não sabia nomear corretamente e que eu

havia tentado preencher com o que havia disponível e que o que havia

disponível não havia preenchido.

Não era falta de esforço.

Era falta de entender o que estava buscando.

Você não encontra o que procura quando não sabe o nome do que procura.

E eu não sabia o nome.

Então continuava tentando.

E o sexto — com quem eu estava mas não era meu marido, como ele diria

depois com aquela precisão gentil que era pior que acusação — era mais

do mesmo. Mais tentativa. Mais a sensação de que havia algo que eu

estava quase alcançando mas que escorregava sempre que eu pensava que

havia chegado.

Ia ao poço no meio do dia.

Carregava a cântaro.

Carregava o resto.

Havia um homem sentado na borda do poço quando cheguei.

Judeu — isso era imediato, havia sinais que você aprende a reconhecer

quando cresceu em Samaria sabendo a fronteira entre os dois grupos.

Havia séculos de história naquela fronteira, havia o peso de divisão que

era ao mesmo tempo política e religiosa e cultural e que as crianças

absorvem antes de entender completamente o que estão absorvendo.

Judeus não conversavam com samaritanos.

Homens judeus definitivamente não conversavam com mulheres samaritanas.

E havia um homem judeu sentado na borda do poço de Jacó olhando para mim

chegar.

Preparei o jeito de não notar, o jeito de fazer o que havia para fazer

sem interação, o jeito que eu havia desenvolvido para mover pelo mundo

sem criar atrito desnecessário.

Ele disse: Dá-me de beber.

Olhei para ele.

Havia algo naquele pedido direto que desarmou o jeito de não notar antes

que eu pudesse usá-lo. Não era pedido de superior para inferior — não

havia aquela textura. Era pedido de pessoa que precisava de água para

pessoa que tinha acesso à água.

Disse o óbvio — que era judeu e eu samaritana, e como pedia de beber?

Ele respondeu que se eu soubesse quem estava me pedindo, eu é que

pediria a ele e ele me daria água viva.

Fiz a pergunta que a lógica imediata produzia — não tinha cântaro, o

poço era fundo, de onde tiraria essa água viva? Era maior que Jacó que

havia dado o poço?

Não era desafio.

Era a pergunta genuína de alguém tentando entender o que estava sendo

dito.

Disse que quem bebesse da água daquele poço voltaria a ter sede.

Mas que a água que ele dava — quem bebesse não teria sede para sempre.

Que se tornaria nele fonte de água que jorrava para a vida eterna.

Fiquei com aquilo.

Havia em mim o hábito de levar coisas ao literal antes de ir ao fundo

— mecanismo de defesa, talvez, a literalidade como distância segura

antes de deixar o sentido mais fundo chegar.

Disse que queria aquela água para não ter mais sede e não precisar vir

buscar.

E então ele disse: Vai, chama o teu marido e vem aqui.

O assunto havia mudado.

Ou talvez não havia mudado — talvez ele estava chegando ao mesmo ponto

por caminho diferente. Por baixo de toda a conversa sobre água havia

chegado à água de verdade que eu estava precisando e que não era a do

poço de Jacó.

Disse que não tinha marido.

Ele disse: Bem disseste que não tens marido. Porque tiveste cinco

maridos e o que agora tens não é teu marido. Nisso disseste a verdade.

Havia duas formas de receber aquilo.

Havia a forma que eu havia aprendido a receber quando alguém conhecia

minha história — o julgamento embutido, a acusação vestida de

observação, o peso adicional de ser nomeada pelo que havia errado em vez

de pelo que era.

E havia o jeito que aquele homem havia dito.

Não havia julgamento na voz.

Havia precisão.

A diferença entre os dois não é pequena.

Julgamento usa o que você fez para definir quem você é.

Precisão nomeia o que aconteceu como parte da história sem torná-la o

fim da história.

Ele havia dito nisso disseste a verdade — havia reconhecido a

honestidade dentro da resposta incompleta. Havia visto que eu havia dito

o que havia de mais verdadeiro no que havia dito mesmo sem dizer tudo.

Via por baixo das palavras.

Via por baixo da história.

Me via.

Tentei mover o assunto para terreno mais seguro.

Disse que ele parecia profeta. Trouxe a questão teológica entre

samaritanos e judeus sobre onde se devia adorar — Gerizim ou

Jerusalém. Era o tipo de questão que podia ocupar conversa por tempo

suficiente para não precisar voltar ao que havia sido tocado.

Ele não deixou o desvio funcionar.

Respondeu sobre a questão — com cuidado real, não descartando, não

usando a questão como pretexto para outro assunto. Falou de adoração em

espírito e em verdade. Disse que o Pai buscava adoradores assim.

E havia algo naquele buscava que ficou comigo.

O Pai que busca.

Não o Pai que espera que você chegue com as credenciais certas no lugar

certo.

O Pai que busca.

Ativamente. Incluindo quem vai buscar água no meio do dia para evitar

olhares.

Disse que sabia que o Messias viria e que quando viesse nos ensinaria

tudo.

Não era declaração de fé robusta — era a afirmação de algo que havia

sido ensinado, que havia ficado como informação antes de virar crença, o

tipo de coisa que você diz quando quer ancorar a conversa em algo firme

porque o terreno onde estava ficando estava ficando menos sólido de um

jeito que era ao mesmo tempo desconfortável e necessário.

E então ele disse: Eu, que falo contigo, sou esse.

Fiquei com aquilo.

Eu, que falo contigo.

Não Eu sou o Messias em declaração formal. Não afirmação distante e

grandiloquente.

Eu, que falo contigo.

Como se o mais importante não fosse a identidade mas a conversa. Como se

o fato de estar falando comigo — com essa mulher específica, no meio

do dia, junto ao poço, com toda a história que havia entre os dois

grupos e toda a história pessoal que eu carregava — como se isso fosse

parte da declaração.

O Messias que fala com quem vai buscar água para evitar olhares.

O Messias que sabe tudo o que você fez e fica assim mesmo.

Os discípulos voltaram.

Vi nos rostos deles a surpresa — estavam tentando entender o que havia

acontecido, havia a questão de por que ele estava falando com

samaritana, havia o cálculo social que eles estavam fazendo em silêncio

porque algo os impedia de perguntar em voz alta.

Deixei a cântaro.

Não foi decisão elaborada. Foi o que aconteceu — havia chegado ao poço

para buscar água e estava indo embora sem a cântaro porque havia

recebido outra coisa que tornava a cântaro secundária de uma forma que

eu não havia experimentado antes.

Fui para a cidade.

Disse: Vinde ver um homem que me disse tudo o que tenho feito.

Não disse que me curou. Não disse que me perdoou. Não disse que me

liberou da vergonha ou qualquer uma das coisas que eu poderia ter dito

que seriam também verdade mas que seriam menores que o que havia

acontecido.

Disse que me disse tudo o que tenho feito.

Porque era isso.

Havia sido completamente vista.

Não a versão que eu apresentava — não a mulher que ia buscar água no

meio do dia com o jeito de não notar e o hábito de desviar a conversa

para terreno mais seguro. Não a versão que eu havia construído para

sobreviver nos espaços onde precisava sobreviver.

A versão inteira.

Com os cinco. Com o sexto. Com a busca que não havia encontrado nome.

Com a cântaro e o meio-dia e os anos de olhares que haviam me ensinado a

preferir o calor.

Havia sido vista inteira.

E ele havia ficado.

Não havia recuado.

Não havia mudado o tom para o tom que as pessoas usam quando sabem

demais sobre você.

Havia ficado.

E havia dito que buscava adoradores em espírito e em verdade.

Havia me incluído na busca.

A cidade veio.

Não sei exatamente o que foi no jeito que eu disse que os fez vir —

talvez a ausência do que eu normalmente carregava quando voltava ao meio

deles. Talvez algo no rosto. Talvez o simples fato de que eu havia

voltado para o meio deles em vez de terminar a tarefa e voltar para o

isolamento.

Vieram.

E muitos creram por causa do que eu havia dito.

E depois Jesus ficou dois dias e mais creram.

E disseram que já não era por minha causa que acreditavam — haviam

ouvido eles mesmos e sabiam que era verdadeiramente o Salvador do mundo.

Não senti aquilo como diminuição.

Senti como conclusão.

Havia ido buscar água.

Havia deixado a cântaro.

Havia voltado vazia de uma coisa e cheia de outra.

E aquele transbordamento havia chegado até outros que haviam chegado até

a fonte por conta própria.

Era o que a água viva fazia.

Jorrava.

Não ficava.

Jorrava.

Fotina.

Esse é meu nome.

Não a samaritana, não a mulher do poço, não a que tinha cinco maridos.

Esses são pedaços da história mas não são o nome.

Fotina.

Ele sabia meu nome antes de eu dizer.

Sabia tudo antes de eu dizer.

E ficou assim mesmo.

E disse que o Pai buscava adoradores em espírito e em verdade.

E eu — que havia ido buscar água no meio do dia para evitar olhares,

que havia passado anos tentando preencher com o que havia disponível o

que eu não sabia nomear — eu havia sido encontrada.

Não havia chegado até ele.

Ele havia chegado até o poço.

Ele havia sentado na borda.

Ele havia dito dá-me de beber.

E tudo que veio depois havia começado com ele chegando até onde eu

estava.

Como sempre havia sido com os outros.

Sempre ele chegava.

Sempre ele ficava.

Sempre ele via.

E o que você faz com ser visto completamente e não destruído — aprendi

que o que você faz é deixar a cântaro.

E voltar para o meio das pessoas.

E dizer: vinde ver.

 Fotina

 

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