Kamen Rider Legend - Temporada 3 - Just Faiz - Capítulo único
Num restaurante de beira de estrada, um homem de semblante taciturno, já próximo dos cinquenta
anos, estaciona sua moto e entra lentamente no estabelecimento.
Ele observa o ambiente apenas o suficiente para identificar quem está ali.
Um caminhoneiro cochila sobre a mesa.
Um casal discute em voz baixa.
Uma televisão antiga exibe um noticiário qualquer.
Nada importante.
Ele escolhe a mesa mais escondida do lugar.
Sempre escolhia.
Takumi Inui nunca gostou de ser visto.
Uma jovem atendente se aproxima.
— Vai querer alguma coisa?
Takumi ergue os olhos por um instante.
— Cerveja.
— E um sanduíche frio.
A atendente anota, estranhando por um momento o pedido.
— Não quer esquentar?
Takumi apenas balança a cabeça negativamente.
Alguns hábitos nunca mudavam.
Poucos minutos depois, ela retorna com o pedido.
Takumi come devagar, quase sem prestar atenção ao gosto.
Entre um gole e outro de cerveja, observa a estrada pela janela.
As luzes dos carros passando.
Os faróis cortando a escuridão.
O reflexo do próprio rosto no vidro.
Um rosto mais velho.
Mais cansado.
Seu olhar se perde.
E então o passado volta...
Como sempre voltava.
A Smart Brain.
Os Orphenochs.
As mortes.
As traições.
As batalhas.
Os números digitados no celular...
555.
O "Standing By."
O clique do Driver.
O "Complete."
Por um momento, Takumi quase consegue sentir de novo o peso da armadura de Faiz sobre o corpo.
Quase consegue ouvir o som metálico do Crimson Smash atravessando o ar.
Ele fecha os olhos.
A lembrança seguinte vem como um soco.
Mari sorrindo.
Keitaro falando alto demais.
Kiba parado diante dele, com aquele olhar de quem ainda queria acreditar que tudo poderia ser
diferente.
Takumi aperta a garrafa de cerveja um pouco mais forte.
Ele sabia como todas aquelas histórias terminavam.
Ainda assim, continuava revivendo cada uma delas.
Cena por cena...
Detalhe por detalhe.
Nem mesmo sua participação recente ao lado da Irmandade Rider, enfrentando Dark Riders de outras
realidades, havia mudado muito isso.
Takumi continuava sendo Takumi.
Os Riders mais novos o admiravam de longe.Mas raramente tentavam se aproximar.
Uma vez, os jovens Riders haviam tentado puxar conversa com ele depois de uma missão.
Takumi apenas respondeu com frases curtas, desviou o olhar e foi embora antes mesmo de
terminarem de falar.
Mais tarde, Tsukasa Kadoya apenas deu de ombros.
— Deixem ele.
— Ele é assim mesmo.
— Mas é uma boa pessoa.
Talvez Tsukasa fosse um dos poucos capazes de entender aquilo.
Mas o único que realmente conseguia atravessar a muralha de Takumi era Kazuma Kenzaki.
Talvez porque Kenzaki também soubesse o que era deixar de ser completamente humano.
Talvez porque ambos soubessem como era carregar o peso de continuar vivendo quando tudo dentro
de você dizia para parar.
Depois de terminar a refeição, Takumi paga a conta e vai embora.
Sem pressa...
Sem rumo.
A estrada era mais fácil do que pensar.
Horas depois, ele encontra uma hospedaria de quinta categoria à beira da estrada.
O quarto tem cheiro de mofo.
A cama range.
A televisão não funciona.
Takumi não se importa.
Ele larga a mochila no chão, se senta na cama e encara o teto por alguns minutos.
De dentro da mochila, parte de um velho porta-retratos aparece por entre as roupas.
Takumi o observa.
Fica em silêncio.
Depois de alguns segundos, puxa o objeto.
A foto está gasta pelo tempo.
Mari.
Keitaro.
Ele próprio.
Os três diante da lavanderia.
Takumi passa o polegar sobre a foto.
— Idiotas...
Mas existe um pequeno sorriso cansado no canto de sua boca.
Ele guarda a foto de volta.
Apaga a luz.
E dorme.
Na manhã seguinte, acorda antes mesmo do nascer completo do sol.
Sem alarme.
Nunca precisou de alarme.
O corpo de Takumi havia aprendido, décadas atrás, que dormir demais era um luxo que não existia.
Ele fica parado por um momento, olhando o teto descascado do quarto.
O barulho de um caminhão passando na estrada lá fora.
O cheiro de pão fresco vindo de algum lugar próximo se mistura ao cheiro de óleo e graxa da moto.
Era estranho.
Mas era familiar.
Era, de certa forma, a própria vida de Takumi Inui.
Ele se levanta devagar.
Não porque estava com preguiça.
Mas porque havia aprendido que não existia motivo para correr quando não havia lugar para chegar.
Lava o rosto na pia enferrujada do banheiro.
Observa o próprio reflexo por alguns segundos.
O mesmo rosto taciturno.
As mesmas marcas ao redor dos olhos.
Takumi nunca se acostumou com a ideia de envelhecer.
Isso nada tinha a ver com medo da morte.
Mas porque por muito tempo achou que não chegaria até ali.
Orphenochs não tinham expectativa de vida longa.
Nem Riders.
E ele era as duas coisas.
Ou nenhuma das duas.
Dependia de quem perguntava.
Do lado de fora, a moto estava exatamente onde havia deixado.
Takumi passa a mão pelo guidão antes de ligar o motor.
Um velho hábito.
Como checar se ainda estava ali.
Como confirmar que a noite havia passado e ele ainda existia.
A estrada de manhã cedo tinha um silêncio diferente.
Menos carros.
Menos ruído humano.
Apenas o vento e o som do motor e o asfalto se abrindo à frente.
Takumi não pensava enquanto dirigia.
Ou melhor — pensava, mas de um jeito diferente.
Os pensamentos não tinham forma de palavras.
Tinham forma de imagens.
A lavanderia.
O vapor saindo das máquinas.
Mari gritando o nome dele de longe.
Keitaro tropeçando em algo e caindo no meio da rua.
Takumi, parado, fingindo não ter visto.
Mas vendo.
Sempre vendo.
Ele para num posto de gasolina pequeno à beira da estrada.
Abastece a moto.
Compra um pão numa padaria improvisada ao lado.
A senhora que atende sorri para ele.
Takumi não sorri de volta.
Mas diz obrigado.
Ela parece surpresa.
Ele percebe isso e desvia o olhar.
Alguns gestos ainda custavam mais do que deveriam.
De volta à estrada, ele come o pão enquanto dirige devagar num trecho sem movimento.
O gosto é simples.
Farinha, sal, um pouco de manteiga.
Takumi fecha os olhos por meio segundo.
Pensa em Kenzaki.
Pensa que talvez devesse ligar.
Depois decide que Kenzaki apareceria quando quisesse aparecer.
Sempre aparecia.
Ele nunca pediu muito.
Um lugar para dormir.
Algo para comer.
Uma estrada longa o bastante para não precisar pensar demais.
A mochila surrada em suas costas carregava mais do que roupas.
Carregava uma vida inteira.
Carregava o Faiz Gear.
Carregava o peso de ser algo entre homem e monstro.
Takumi nunca procurou ser um herói.
Ele procurava apenas um lugar onde pudesse existir sem precisar fugir.
Mas o destino o colocou diante de Mari Sonoda.
Diante do Faiz Gear.
Diante da pergunta que o perseguiu por toda a vida:
"Em quem você confia?"
A primeira vez que vestiu o Driver, o metal frio encostando em seu corpo pareceu errado.
Poderoso.
Assustador.
Takumi tentou rejeitar aquilo.
Tentou dizer que não era a pessoa certa.
Tentou dizer que não era problema dele.
Mas nunca conseguiu ignorar alguém pedindo ajuda.
Esse sempre foi o problema dele.
Takumi dizia que não se importava.
Mas se importava.
Mais do que qualquer um.
Mari foi quem mais percebeu isso.
Ela conhecia cada resposta atravessada.
Cada silêncio.
Cada olhar desviado.
Takumi reclamava dela o tempo inteiro.
Achava que ela se metia demais na vida dos outros.
Achava que ela falava demais.
Mas a verdade era simples.
Mari era o motivo de ele continuar voltando.
Ela era o lugar para onde seus passos sempre levavam.
Keitaro era diferente.
Barulhento.
Ingênuo.
Otimista demais.
Takumi nunca admitiria em voz alta, mas havia dias em que só continuava seguindo em frente porque
sabia que ainda existiam pessoas como Keitaro no mundo.
Pessoas que ofereciam abrigo sem pedir nada em troca.
Pessoas que acreditavam nos outros mesmo quando não havia motivo.
Kusaka, por outro lado, era a lembrança constante de que algumas pessoas nunca mudariam.
Takumi ainda conseguia se lembrar de Kusaka sorrindo enquanto deixava outro aliado ferido para trás.
Ainda conseguia ouvir sua voz dizendo que alguns sacrifícios eram necessários.
Takumi odiava aquilo.
Porque Kusaka usava a palavra "justiça", mas não entendia nada sobre proteger alguém.
Já Kiba...
Kiba era diferente.
Em alguns dias, Takumi se perguntava o que teria acontecido se os dois tivessem se conhecido em
outras circunstâncias.
Conseguia imaginar os dois sentados em silêncio, dividindo pão e café numa manhã qualquer.
Talvez pudessem ter sido amigos.
Talvez tenham sido, por pouco tempo.
Mas a dor de Kiba foi maior.
A raiva dele foi maior.
E Takumi entendeu isso.
Era justamente por entender que doía tanto lutar contra ele.
Yuka Osada era uma das poucas pessoas que realmente compreendiam o que significava existir entre
dois mundos.
Não era preciso falar muito entre eles.
Os dois carregavam a mesma solidão.
Já Kaidou...
Takumi se lembra de uma vez em que encontrou Kaidou encostado num muro, tocando guitarra como
se nada no mundo importasse.
— Você não se preocupa com nada?
— perguntou Takumi.
Kaidou apenas respondeu:
— Me preocupar dá muito trabalho.
Takumi revirou os olhos na época.
Hoje, pensando bem, talvez Kaidou fosse mais honesto consigo mesmo do que todos os outros.
Os anos passaram.
As batalhas ficaram mais violentas.
As perdas ficaram mais pesadas.
Mas Takumi continuou.
Não como um herói brilhante.
Não como um símbolo.
Apenas como alguém cansado demais para abandonar as pessoas que ainda importavam.
Em seu último grande confronto, a armadura de Faiz estava rachada.
Seu corpo estava no limite.
O som fraco da moto ainda ecoava atrás dele.
Diante do inimigo final, Takumi apenas respirou fundo.
— Eu não me importo com o mundo...
— disse com a voz rouca.
— Só quero que as pessoas que eu conheço possam viver em paz.
Ele inseriu o Faiz Pointer na perna.
"Exceed Charge."
O Crimson Smash atravessou o campo de batalha.
Quando tudo acabou, Takumi permaneceu de pé.
Sozinho.
Como sempre.
Mas vivo.
E isso precisava bastar.
De volta ao presente, Takumi segue estrada acima até uma região montanhosa que conhecia bem.
Ali existia um velho mirante de onde era possível ver a cidade inteira ao longe.
Ele estaciona a moto.
Fica parado observando o horizonte.
O vento frio sopra entre as árvores.
Por alguns minutos, existe apenas silêncio.
Até que outro som de motor se aproxima.
Takumi não precisa olhar para saber quem é.
O som do motor era diferente do dele.
Mais regular.
Menos cansado.
Kazuma Kenzaki estaciona ao lado dele.
Os dois permanecem em silêncio por um momento.
Esse era o tipo de silêncio que só existia entre pessoas que não precisavam preencher o ar com
palavras para provar que estavam presentes.
Então Kenzaki se aproxima e toca de leve o ombro de Takumi.
— Você ainda para nos mesmos lugares.
Takumi observa a cidade ao longe.
— Você também.
Kenzaki solta um pequeno sorriso.
Os dois ficam lado a lado, olhando o horizonte.
O vento havia diminuído um pouco.
As árvores paravam de balançar por alguns segundos, como se também estivessem ouvindo.
— Certas dores não passam — diz Kenzaki.
— A gente só aprende a carregar.
Takumi demora um pouco para responder.
Não porque não soubesse o que dizer.
Mas porque ainda estava decidindo se queria dizer em voz alta.
— Não sei se estou preparado para ensinar alguma coisa para alguém.
— Ainda mais para as Girls Remix.
— Não tenho muito a oferecer.
Kenzaki vira levemente a cabeça para ele.
Não responde de imediato.
Esse também era um hábito dele.
Deixar a frase de Takumi existir um pouco antes de contestar.
— Você ainda acha que precisa ser perfeito para ajudar alguém.
Takumi não responde.
— Elas não precisam de alguém perfeito — continua Kenzaki.
— Precisam de alguém que já esteve onde elas estão.
Takumi franze levemente a testa.
— Você acha que eu sei onde elas estão?
— Você sabe o que é carregar algo que não pediu para carregar.
— Você sabe o que é continuar mesmo sem entender por quê.
— Isso é suficiente.
Takumi fica quieto.
Do lado de baixo, a cidade começava a acordar.
Luzes se acendendo nas janelas.
Fumaça saindo de uma chaminé distante.
O mundo humano seguindo em frente sem pedir licença.
— Você é um dos Riders mais respeitados que eu conheço.
— Não porque venceu batalhas.
— Mas porque continuou de pé quando qualquer outra pessoa teria desistido.
Takumi abaixa os olhos.
Havia algo incômodo em ser elogiado por coisas que ele nunca havia feito de propósito.
— Eu já fui mais fechado.
— A Irmandade tem ajudado.
— Acho que estou aprendendo a carregar as coisas sem ficar sozinho o tempo inteiro.
A frase saiu mais honesta do que ele pretendia.
Takumi olhou para a cidade para não ter que ver a reação de Kenzaki.
— Isso já é mais do que você fazia antes.
Simples.
Sem dramatismo.
Kenzaki tinha esse jeito de dizer coisas importantes como se fossem observações de tempo.
Takumi ficou em silêncio.
Então, depois de alguns segundos, abre a mochila.
Tira o pão que havia sobrado daquela manhã.
Parte ao meio.
Entrega metade para Kenzaki.
— Não fala pra ninguém.
Kenzaki sorri.
— Seu segredo está seguro.
Os dois continuam olhando o horizonte.
Comendo pão em silêncio como se fosse a coisa mais natural do mundo.
E talvez fosse.
Para os dois, pelo menos.
Takumi sabia que a dor continuaria ali.
Sabia que algumas perdas jamais deixariam de existir.
Kiba.
Yuka.
Os que foram e os que ele não conseguiu salvar.
Mas talvez Kenzaki estivesse certo.
Talvez seguir em frente não significasse esquecer.
Talvez significasse apenas continuar caminhando.
Com alguém do lado, quando dava.
E, pela primeira vez em muito tempo, Takumi percebe que não está completamente sozinho.
Não era pouco.
Na verdade, para Takumi Inui, era quase tudo.
Um novo Just Faiz estava começando.


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