Projeto The Chosen: Vozes depois d´Ele - PRÓLOGO - ABIGAIL

 


 


Prólogo

Abigail

E O Homem Que Gostava de Crianças


Eu me chamo Abigail.


Quando penso Nele, não lembro primeiro dos milagres.


Nem das multidões.


Nem das histórias que as pessoas contam agora, como se sempre tivessem


sabido quem Ele era.


Eu lembro do fogo.


Do cheiro de pão.


Da terra fria debaixo dos meus pés.


E de um homem sentado perto de uma fogueira, sorrindo como se tivesse


todo o tempo do mundo.


Eu era pequena.


Pequena o bastante para os adultos acharem que eu não entendia nada.


Mas crianças entendem.


Entendem quando alguém está triste.


Quando alguém está bravo.


Quando alguém está fingindo.


E eu soube, assim que O vi, que Ele não fingia nada.


Naquele tempo, os adultos estavam sempre preocupados.


Falavam de romanos.


De impostos.


De fome.


De regras.


De medo.


Mas Ele não parecia ter medo.


Mesmo quando todos queriam alguma coisa.


Mesmo quando as pessoas disputavam Sua atenção.


Ele olhava para cada pessoa como se ela fosse importante.


Até as crianças.


Talvez, principalmente as crianças.


Eu fiquei observando de longe.


Os outros meninos hesitavam.


Alguns adultos diziam que Ele era profeta.


Outros diziam que era perigoso.


Eu não sabia quem estava certo.


Só sabia que queria descobrir sozinha.


Então fui.


Devagar.


Parando no meio do caminho.


Pensando em voltar.


Mas Ele me viu antes de eu chegar.


E sorriu.


Foi isso.


Não houve trovões.


Não houve voz do céu.


Não houve milagre.


Só um sorriso.


E, às vezes, é assim que tudo começa.


Perguntei se podia me sentar.


Ele disse que sim.


Perguntei se podia trazer meu amigo, Josué.


Ele disse que sim de novo.


Eu perguntava de tudo.


Ele me chamava de abelhinha Abi.


Eu adorava.


Achava bonito.


Achava meu.


Eu não parava quieta mesmo.


Josué demorou mais.


Mas, quando viu que Ele respondia com verdade… criou coragem.


Na primeira pergunta, Ele sorriu e disse:


— Então o corajoso Josué fala.


A gente se sentia importante.


Não por causa do que sabíamos.


Mas por causa de como Ele nos olhava.


Dias depois, outras crianças vieram.


Chegaram desconfiadas.


Uma se escondeu atrás de mim.


Outra começou a perguntar sem parar.


Ele riu.


— Abi… minha abelhinha… acho que você foi superada.


Um menino só queria comer.


E Ele prestou atenção em todos.


Como se não houvesse nada mais importante naquele momento.


Perguntei por que Ele gostava tanto de crianças.


Ele ficou em silêncio por um instante.


Depois disse que os adultos esqueciam como era confiar.


Na hora, não entendi.


Mas guardei.


Naquela noite, meus amigos correram, riram, fizeram barulho.


E Ele gostou.


Eu lembro da luz do fogo no rosto Dele.


Do jeito como escutava antes de responder.


Do jeito como fazia cada pessoa se sentir única.


Como se fosse vista.


Como se fosse importante.


E, para uma criança, isso é tudo.


Dias depois, Ele foi embora.


Sem anúncio.


Sem despedida.


Um dia, simplesmente não estava mais lá.


Eu corri até o lugar da fogueira.


Já estava apagada.


As pessoas tinham ido embora.


E ficou aquele vazio estranho que a gente sente quando alguém importante


some sem avisar.


Mas havia algo me esperando.


Dois cavalinhos de madeira.


Pequenos.


Feitos à mão.


Imperfeitos.


E uma pequena tábua com palavras gravadas:


“Abigail, minha abelhinha Abi,


Eu desejo que os adultos que eu encontrar façam como você: creiam,


espalhem a notícia e tragam mais amigos para compartilhar.


Seja feliz.”


Por muito tempo, eu guardei aqueles cavalinhos.


Quando tinha medo, segurava um deles.


Quando ficava triste, olhava para eles.


E, quando perguntavam por que eu falava tanto sobre Ele… eu lembrava


daquela madeira.


Algum tempo depois, eu O vi de novo.


A casa estava cheia.


Cheia demais.


Gente nas portas, nas janelas, no lado de fora.


Eu e Josué subimos em um telhado próximo.


Lembro do calor.


Do barulho.


Da impaciência dos adultos.


E da voz Dele atravessando tudo aquilo.


Então o teto começou a ser aberto.


Poeira caindo.


Gente reclamando.


Silêncio crescendo.


Um homem foi descido.


Deitado.


Imóvel.


Eu olhei para ele.


E pensei que ele parecia triste demais para alguém ainda vivo.


Então Jesus olhou para ele.


Como sempre olhava.


Como se visse mais do que o corpo.


E, quando aquele homem se levantou…


Quando ficou de pé…


Quando começou a rir e chorar ao mesmo tempo…


Parecia que o mundo inteiro tinha parado.


As pessoas gritavam.


Algumas choravam.


Outras não conseguiam entender.


Eu olhei para Ele.


E Ele não parecia surpreso.


Só… feliz.


Feliz porque aquele homem podia andar.


Feliz porque alguém voltaria para casa diferente.


Ele olhou para mim.


E piscou.


Ele lembrava de mim.


Corri até Ele.


E O abracei.


— Ah, minha abelhinha…


— Você está aqui.


E, por um instante, eu fui de novo só aquilo.


A abelhinha do Jardim de Adonai.


Depois vieram as histórias.


A cruz.


A dor.


A confusão.


Eu não entendia.


Ainda não entendo completamente.


Mas lembro de ter pensado:


Como alguém pode ferir um homem que sorria para crianças?


E isso ficou dentro de mim por muito tempo.


Sem resposta.


Até o dia em que ouvi que a pedra tinha sido removida.


E, pela primeira vez desde a cruz…


Eu consegui respirar de novo.


Algum tempo depois, Ele me chamou.


Em sonho.


— Abi… minha abelhinha do Jardim de Adonai…


— Vá até o riacho.


Eu fui.


E Ele estava lá.


Não vou dizer o que conversamos.


Algumas coisas não são feitas para serem repetidas.


Mas sei o que ficou.


.


Eu cresci.


O tempo passou.


A vida seguiu.


Josué ficou.


O menino cauteloso… aprendeu a caminhar comigo.


E, de algum jeito, nós dois continuamos fazendo a mesma coisa que naquela noite:


Nos aproximando.


Perguntando.


Confiando.


Tivemos um filho.


E, quando chegou a hora de dar um nome…


Não pareceu uma escolha difícil.


Chamamos de Jesus.


Não porque entendíamos tudo.


Mas porque havia coisas que não podiam ser esquecidas.


Eu continuo acreditando.


Continuo contando.


Continuo trazendo outros.


Porque, antes de ser tudo o que dizem que Ele é…


Ele foi o primeiro adulto que me fez sentir que eu importava.


E isso… eu nunca esqueci.

 
Abigail com Jesus



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