Projeto The Chosen: Vozes que O viram - CAPÍTULO XVI - NICODEMOS
CAPÍTULO 16 --- NICODEMOS
A Noite em que Fui Perguntar
Eu era homem de perguntas.
Não se tratava de perguntas que existem para desafiar — e sim, o tipo que existe porque genuinamente precisa de resposta.
Havia em mim desde jovem uma necessidade de entender que não se satisfazia com resposta parcial ou com a autoridade de quem diz é assim porque é assim esperando que o peso do cargo substitua o peso do argumento.
Fui para as Escrituras porque as Escrituras suportavam perguntas.
Mesmo as mais complexas.
Fui para o Sinédrio porque acreditava que havia lugar para homens que faziam as perguntas certas nos lugares onde as decisões eram tomadas.
Aprendi devagar que havia limite para as perguntas que o Sinédrio tolerava.
Ouvi falar de Jesus antes de ir procurá-lo.
A libertação de Lilith foi notória em Cafarnaum.
Agora ela respondia por Maria de Magdala.
Eu havia tentado exorcizar os demônios que haviam nela e fracassei.
Fui procurá-la.
Saiu de sua própria boca que foi Jesus de Nazaré quem a libertou.
Não tinha como eu ignorar isso.
Fiquei com aquilo na mente...
No Sinédrio as notícias chegavam com a velocidade e o filtro de homens que têm interesse em determinar o que as notícias significam antes de deixá-las circular.
O homem da Galileia.
Os milagres — relatados com o tom de quem ainda não decidiu se acredita mas não pode ignorar.
Os mais apressados em julgar já o taxavam como blasfemo antes mesmo de conhecê-lo a fundo.
Shmuel, um dos meus alunos mais aplicados, foi uma dessas vozes precipitadas.
Os ensinamentos que contradiziam sem citar autoridade prévia — ouvistes que foi dito, mas eu vos digo — o que era ou heresia ou algo para o qual eu não tinha categoria ainda.
Fui observá-lo de dia primeiro.
Vi o que vi — a forma que ensinava, a autoridade que não vinha de nenhuma fonte que eu pudesse rastrear nos sistemas que conhecia, o jeito que as multidões respondiam; não como respondem a entretenimento mas como respondem a algo que tocava em necessidade real.
Precisei ir de noite.
A noite foi escolha prática e escolha de outra coisa também.
De dia havia o Sinédrio. Havia os colegas que me conheciam.
Havia a posição que eu havia construído ao longo de anos que dependia de um tipo específico de consistência pública.
Ir de dia até Jesus seria declaração antes de eu saber o que havia para declarar.
A noite me dava espaço para perguntar antes de declarar.
Não me orgulho da cautela.
Mas foi o que foi.
Fui de noite.
Comecei com o que eu havia concluído.
Rabi, sabemos que és mestre vindo de Deus, porque ninguém pode fazer os sinais que tu fazes se Deus não estiver com ele.
Era concessão generosa para um membro do Sinédrio.
Era o máximo que minha posição me permitia dizer com conforto — que havia evidência de origem divina, que os sinais eram reais, que havia algo aqui que merecia atenção respeitosa e honesta.
Esperava que Ele recebesse isso e avançássemos para discussão de ensinamento.
Ele respondeu com algo que não estava na minha pergunta.
“Em verdade, em verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus.”
Parei.
Nascer de novo...
Fiz a pergunta que a lógica imediata produzia — como pode um homem nascer sendo velho? Pode entrar segunda vez no ventre de sua mãe?
Era pergunta literal e eu sabia enquanto fazia que era pergunta literal e que provavelmente não era o que ele queria dizer.
Mas a literalidade era onde minha mente ia primeiro quando encontrava algo que não cabia nas categorias existentes — reduzia ao absurdo para forçar a clarificação.
Ele não se irritou com a literalidade.
Explicou sobre nascer da água e do Espírito.
Sobre o vento que sopra onde quer e você ouve o som mas não sabe de onde vem nem para onde vai.
Disse: Assim é todo aquele que é nascido do Espírito.
Fiz a pergunta que qualquer homem honesto na minha posição faria.
Como pode isso ser?
E ele me respondeu com outra pergunta — és tu mestre em Israel e não sabes estas coisas?
Não havia humilhação.
Havia espelho.
Era Ele me mostrando que havia limite para o que meu sistema de conhecimento alcançava — e que esse limite não era falha do sistema em si, mas falha de achar que o sistema era suficiente para conter tudo que havia para conter.
Eu era mestre em Israel.
E havia coisas que um mestre em Israel precisava nascer de novo para ver.
Ele continuou falando.
Falou de coisas celestiais e terrenas.
Falou do Filho do Homem que havia descido do céu.
Falou de ser levantado como Moisés havia levantado a serpente no deserto.
E então disse algo que ficou comigo por anos — que ficou comigo através de todas as reuniões do Sinédrio onde o nome dele era mencionado com crescente hostilidade, através de todas as vezes que eu fiquei em silêncio quando deveria ter falado, através de todas as noites em que voltei ao que havia sido dito naquela primeira noite.
“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça mas tenha a vida eterna”.
Fui de noite com perguntas de teólogo.
Voltei com algo que não era resposta teológica.
Era convite.
E não sabia ainda o que fazer com convite.
Dias depois eu O vi com seus discípulos conversando.
Me escondi atrás de um pequeno muro e ouvi sua conversa.
Havia deixado reservadamente para um seus discípulos algumas moedas de ouro para custear o seu ministério.
Ele quando soube que era eu que havia feito aquilo, falou em voz alta, como se soubesse que estava ali, escutando: Que pena! Chegaste tão perto.
A minha única reação foi chorar.
Era um recado claro: que eu O seguisse sem medo da minha posição e das consequências que isso teria perante o Sinédrio.
Embora eu tivesse crido, hesitei...
Os meses que se seguiram foram os mais desconfortáveis da minha vida intelectual.
Porque eu havia sido treinado para um mundo onde as coisas se resolvem com estudo suficiente.
Onde a pergunta certa aplicada com rigor suficiente produz resposta que pode ser verificada e defendida e ensinada.
Onde o conhecimento é acumulativo e o processo é confiável.
Jesus havia me apresentado a algo que não resolvia por esse processo.
Não porque fosse irracional — havia lógica interna, havia coerência, havia profundidade que sobrevivia ao exame.
Mas havia também um ponto além do qual o exame não chegava.
Um ponto onde era necessário dar passo que o exame não podia dar por você.
Nascer de novo.
Não era metáfora decorativa.
Era descrição de processo que não estava no meu repertório.
E eu ficava na borda desse passo — voltando às Escrituras, voltando ao que havia ouvido naquela noite, voltando à pergunta como pode isso ser— sem conseguir dar o passo e sem conseguir ir embora da borda.
No Sinédrio havia tensão crescente.
As discussões sobre Jesus tornavam-se mais hostis com cada semana.
Havia urgência política — Roma, o povo, o equilíbrio frágil que o Sinédrio havia mantido por anos e que este homem parecia não se importar em perturbar.
Havia urgência teológica — as afirmações que ele fazia eram ou verdade ou blasfêmia e não havia posição intermediária confortável.
Eu ficava em silêncio nas reuniões.
Não por covardia somente — havia covardia, não vou negar — mas também porque não havia chegado ainda onde precisava chegar para falar.
Falar antes de saber o que você de fato acredita é o tipo de declaração que serve ao momento mas não serve à verdade.
Houve um momento em que falei.
A sala havia chegado ao ponto de não retorno — eu sentia.
Havia aquela energia específica de decisão que já foi tomada internamente mas que ainda não foi dita em voz alta, e que uma vez dita não volta.
Alguém disse que precisavam agir.
Que Jesus estava influenciando o povo.
Todos concordavam.
Eu permaneci em silêncio um momento mais longo que o confortável.
Alguém disse meu nome. Todos olharam.
Disseram que eu o conhecia.
Respirei.
Disse que conhecer não era o mesmo que compreender.
Disseram para compreender então: ele era uma ameaça.
Perguntei — a quê?
A pergunta ficou no ar.
Disseram que à ordem.
Perguntei se era à ordem ou ao nosso controle.
O ambiente mudou.
Havia em silêncios de Sinédrio uma textura específica — não o silêncio de reflexão, não o silêncio de consideração.
Era o silêncio de quem já decidiu e está calculando como responder ao que atrapalhou o caminho da decisão.
Perguntaram se eu estava defendendo esse homem.
Disse que estava dizendo que não o entendíamos completamente.
Disseram que não precisavam entender para julgar.
Aquilo me atingiu como pedra.
Porque era verdade.
E era exatamente o problema.
Disse que talvez devêssemos entender antes de julgar.
Silêncio.
Não era silêncio de reflexão.
Era de decisão já tomada.
E pela primeira vez em anos de Sinédrio — pela primeira vez sentado naquelas cadeiras, naquele lugar onde eu havia acreditado que a verdade era o objetivo — percebi que a verdade não era o objetivo ali.
Nunca havia sido.
As intrigas, a política e os jogos de poder falavam mais altos
E eu havia ficado em silêncio por anos dentro disso.
Quando a discussão havia chegado a ponto em que parecia que decisão seria tomada sem processo adequado — levantei a voz e disse que nossa lei não condena ninguém sem primeiro ouvir e saber o que fez.
Foi pouco.
Eu sabia que era pouco.
Mas era o que eu conseguia dar naquele momento sem ter chegado ainda onde precisava chegar.
Recebi a resposta previsível — és tu também da Galileia? — e fiquei em silêncio de novo.
A vergonha daquele silêncio ficou comigo.
E então veio o Calvário.
Não estava lá durante. Soube depois — com a velocidade que as notícias ruins chegam, com o peso específico de notícia que você temia e esperava ao mesmo tempo porque havia sinais suficientes de que estava vindo.
Quando soube que havia morrido algo em mim chegou a decisão que havia ficado na borda por meses.
Nós O matamos, conclui com tristeza.
Tarde demais para o que eu queria que significasse.
Mas não tarde demais para o que ainda havia para fazer.
Fui com José de Arimateia.
Trouxe as especiarias — cem libras de mirra e aloés.
Quantidade excessiva para qualquer cálculo prático.
Quantidade que era declaração —não a declaração que eu deveria ter feito quando ainda havia tempo para fazer diferença política, mas a declaração que eu conseguia fazer agora.
Ajudei a preparar o corpo.
Ajudei a colocar no sepulcro.
E fiz aquilo com as mãos que haviam ficado quietas nas reuniões do Sinédrio e compreendi que há formas de cuidar que chegam tarde para salvar mas não chegam tarde para honrar.
E honrar era o que eu tinha.
Quando veio a notícia do terceiro dia eu estava acordado.
Não havia dormido bem nos dias anteriores — havia a pergunta que não dormia comigo, havia a noite em que havia ido perguntar e as palavras que não haviam saído da minha cabeça desde então.
Nascer de novo.
O vento sopra onde quer.
Todo aquele que nele crê.
Quando a notícia chegou — o sepulcro vazio, as aparições, os relatos que multiplicavam com a especificidade que relatos inventados não têm
— fiquei com aquilo.
E finalmente dei o passo que havia ficado na borda por meses.
Não com cerimônia.
Não com testemunhas.
Num quarto, sozinho, com as Escrituras abertas e a memória daquela noite e a consciência de que havia chegado ao ponto onde o exame tinha levado o que o exame podia levar e agora era necessário o resto.
O passo que o exame não podia dar por mim.
Dei.
Cheguei tarde a muitas coisas.
Fui de noite quando devia ter ido de dia.
Fiquei em silêncio quando devia ter falado.
Cheguei com especiarias quando o que havia para salvar já não precisava de salvação do jeito que eu entendia salvação.
Mas aprendi — da forma mais cara, pelo processo mais longo — que tarde não é o mesmo que nunca.
Que a borda onde eu havia ficado por meses não era ponto de fracasso permanente.
Era ponto de chegada demorada.
E que o que me havia dito como pode isso ser naquela noite havia esperado.
Com a paciência que eu havia levado anos para entender que era característica Dele — não paciência de quem não tem outra opção, paciência de quem escolhe esperar porque acredita que você vai chegar.
Tarde.
Mas cheguei.
E descobri que tarde mas cheguei era recebido da mesma forma que cheguei na hora certa teria sido.
Como se o tempo de chegada não fosse a variável principal.
Como se a chegada fosse o que importava.
Com sessenta anos e as mãos que haviam preparado o corpo e a memória de uma noite de perguntas e o passo que havia ficado na borda por tempo demais.
Nasci de novo.
E o vento soprou onde quis.
E eu finalmente parei de tentar calcular de onde vinha.
Dias depois, Ele apareceu pra mim.
Tivemos uma longa conversa.
Com gesto terno, me perguntou: Entendes agora, Nicodemos?
Sim.
Eu entendia.


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