Projeto The Chosen: Vozes que O viram - CAPÍTULO XXIX - MATIAS

 

 

CAPÍTULO 29 — MATIAS

O Escolhido Depois do Vazio

Eu não fui chamado na beira do mar.

Nem no meio de uma multidão.

Nem deixei tudo de uma vez.

Eu fui ficando...

Desde o começo.

Mas há algo que nunca contei abertamente.

No início, eu não estava ali por fé.

Estava ali por ordem.

Fui enviado.

Nicodemos queria entender.

Queria saber quem era aquele homem que agitava o povo sem levantar espada, que confrontava sem gritar, que desmontava certezas com silêncio.

E eu fui.

Como observador.

Como olhos emprestados.

Um espião.

Estava entre os muitos.

Os setenta.

Os enviados.

Os que foram e voltaram contando o que viram.

Mas eu... observava diferente.

Analisava.

Media.

Tentava encontrar falhas.

Inconsistências.

Qualquer coisa que explicasse.

Mas não encontrei.

E mesmo quando já não queria mais ser um espião…

ainda observava como um.

Não era o centro.

Nunca quis...

Preferia a discrição de uma fé simples e prática, mas presente e constante.

E foi exatamente assim que aconteceu:

eu fui ficando.

Não por missão.

Por incapacidade de ir embora.

Não é à toa que Tadeu foi o apóstolo de quem mais me aproximei.

Éramos parecidos nesse ponto.

Discretos.

Atentos.

Mais interessados em compreender do que aparecer.

Conversávamos bastante.

Tínhamos a mesma visão.

O fato de não estar no centro não impedia de estar perto o suficiente para ver.

Vi o que Ele fazia.

Mas mais que isso — vi como Ele era quando não estava fazendo nada.

Quando conversava só com um.

Quando olhava para a multidão antes de abrir a boca.

Quando parava no meio do caminho sem avisar e ficava em silêncio por um tempo que os outros não conseguiam medir.

Havia nele uma qualidade de presença que eu não havia encontrado em mais nenhum homem.

Não era carisma.

Era outra coisa.

Era como se o mundo ao redor ficasse mais real quando Ele estava nele — como se tudo encontrasse o lugar certo.

E isso... foi o que me prendeu.

Uma vez — não contei isso a ninguém —

fiquei para trás.

Os outros haviam ido.

E Ele também.

Mas eu demorei.

E quando virei uma esquina —

Ele estava ali.

Parado.

Como se me esperasse.

Olhou para mim por um tempo maior do que o confortável.

Como quem já sabia.

E disse:

Tens observado muito...vai continuar, Matias — ou só assistir até o fim?

Não era ordem, nem convite direto.

Era... leitura.

Como se soubesse que eu estava decidindo naquele momento se continuava ou não.

Eu disse:

Sim.

Ele assentiu com um leve tapa nas minhas costas e um sorriso.

Como se já soubesse.

E fomos.

Carreguei aquela esquina por anos.

Mas houve um momento em que minha antiga vida tentou me puxar de volta.

Na semana da crucificação.

Nicodemos me procurou.

Havia urgência nos olhos dele.

Ele já não era apenas um observador curioso — havia medo.

Preocupação real.

Ele me disse que Jesus corria perigo.

Mais do que todos imaginavam.

E me deu uma tarefa.

Levar Maria Madalena.

Em segredo.

Até ele.

Ela não quis ir.

Havia desconfiança.

Havia tensão.

Ela puxou o braço de volta uma vez.

Eu segurei.

Não com violência — mas com decisão suficiente para que ela entendesse que eu não voltaria atrás.

Por um instante, nos encaramos.

E então ela cedeu.

Não por mim.

Mas porque, no fundo, também sabia.

Saímos.

Em silêncio.

Pelas ruas onde tudo parecia prestes a explodir.

Nicodemos a recebeu escondido.

Falou baixo.

Mas com urgência.

— Eles não vão discutir com Ele.

A voz quase não saía.

— Já decidiram.

Um silêncio pesado caiu entre nós.

— E quando homens decidem isso…

ele continuou,

— não há mais debate. Só execução.

Vi nos olhos dela o impacto.

O peso.

O início de algo irreversível.

E ali, naquele momento —

eu entendi que não havia mais retorno para mim.

Não porque decidi ficar.

Mas porque já não existia mais um “eu” que pudesse ir embora.

Eu já não era um enviado observando.

Eu estava dentro da história.

E quando Judas caiu...

E com ele — algo que não era só ausência.

Era ruptura.

Nós éramos doze.

E de repente... não éramos mais.

E isso importava.

Mais do que número.

Era símbolo.

Era estrutura.

Era promessa.

Doze tribos de Judá.

Doze apóstolos.

Então decidiram escolher.

Oraram.

Apresentaram nomes.

O meu... entre eles.

O outro era Barsabás.

Eu o conhecia.

Havia estado lá também.

Ambos tínhamos o testemunho.

Ambos estávamos dispostos.

E só um lugar restava.

Não senti orgulho.

Senti peso.

Porque não era ocupar um lugar vazio.

Era ocupar um lugar que havia sido quebrado.

Lançaram sortes.

E caiu sobre mim.

As pessoas dizem: Matias foi escolhido.

Mas não entendem o que isso significa.

Significa continuar uma história que já estava sangrando.

Significa entrar depois da falha.

Significa carregar o testemunho inteiro — não só dos milagres, mas da traição, da cruz, da dúvida, da restauração.

Eu vi tudo isso.

Não de fora.

De perto.

E aceitei.

Não porque me sentia digno.

Mas porque havia dito sim muito antes.

Naquela esquina.

Quando Ele perguntou sem pressionar.

Vai continuar, Matias?

Continuo.

Mesmo depois do vazio.

Mesmo depois da perda.

Mesmo depois de tudo que não fechou.

Porque algumas escolhas… não são feitas uma vez.

São mantidas.

Mesmo quando ninguém mais está olhando.


Apóstolo Matias


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