Projeto The Chosen: Vozes que O viram - CAPÍTULO XVII
CAPÍTULO 17 --- RAMÁ
O que Eu Vi nas Talhas
Eu entendia de vinho.
Não como quem aprecia — como quem sabe. Sabia pela cor antes de provar.
Sabia pelo cheiro antes de ver a cor. Sabia calcular quantidade para festa, sabia quando as reservas estavam acabando antes que o anfitrião percebesse, sabia a diferença entre vinho que envergonha o anfitrião e vinho que faz a festa ser lembrada.
Era meu trabalho.
Era o que eu sabia fazer bem.
E estava fazendo meu trabalho em Caná quando tudo mudou.
Tomé estava lá.
Claro que estava — Tomé ia a qualquer lugar onde havia possibilidade
de conversa interessante e bodas de casamento eram lugares onde pessoas diferentes se encontravam e vinhos diferentes circulavam e Tomé podia fazer as perguntas que sempre fazia sem que parecesse inadequado.
Nós dois trabalhando — eu com o vinho, ele com as ideias — era o
jeito que funcionávamos juntos.
Eu no concreto, ele no abstrato.
Eu calculando o que havia nas talhas, ele calculando o que havia nas pessoas.
Havíamos chegado a Caná com tudo planejado.
As quantidades estavam certas.
Eu havia verificado.
Quando o vinho acabou senti antes de saber.
É o jeito que acontece quando você conhece seu trabalho de verdade — o
corpo percebe antes da cabeça confirmar. Havia algo no ritmo dos serventes, na forma que as jarras estavam sendo carregadas, um vazio chegando antes de ser visível.
Fiz a conta.
O vinho havia acabado.
Não havia acabado porque alguém havia calculado errado — havia acabado porque havia mais gente do que esperado e a festa estava indo bem demais e esse é o tipo de problema que acontece quando tudo corre bem demais.
Mas acontecesse pelo motivo que acontecesse — havia acabado.
E eu que havia garantido que não acabaria.
Vi quando a mãe dele foi falar com Jesus.
Não sabia quem ele era ainda — era o filho de Maria, era convidado, era o homem que as pessoas ao redor olhavam de um jeito específico que eu havia notado mas não havia parado para analisar porque estava ocupada com o vinho que havia acabado.
Ouvi ela dizer: Não têm vinho.
Simples assim. Três palavras. Como se não houvesse forma mais direta de apresentar o problema.
Vi ele responder algo que não ouvi completamente.
Vi ela virar para os serventes e dizer: Fazei o que ele vos disser.
Vi os serventes encherem as talhas de pedra.
Seis talhas. As talhas de purificação — não eram recipientes de vinho,
eram recipientes de água para ritual. Cada uma comportava entre oitenta e cento e vinte litros.
Os serventes as encheram até a borda com água porque foi o que ele disse para fazer.
Eu estava olhando.
Não porque havia algo para ver ainda — havia só serventes enchendo as talhas de água seguindo instrução de convidado enquanto a festa ficava sem vinho e o anfitrião ainda não havia percebido a extensão do problema.
Estava olhando porque era meu trabalho olhar para onde o vinho estava ou não estava.
Então ele disse para tirarem e levarem ao mestre da festa.
E os serventes tiraram.
Vi o rosto do mestre da festa quando provou.
Esse rosto eu conheço. É o rosto de alguém que recebe informação que não encaixa no que esperava — a reorganização, o piscar, a pausa antes da reação porque o cérebro precisa de um momento extra para processar o que acabou de receber.
Ele chamou o noivo.
Disse que toda pessoa serve primeiro o vinho bom e depois o inferior —mas que ele havia guardado o bom até agora.
Fui até as talhas.
Precisava verificar com os próprios sentidos — era quem eu era, era o jeito que eu funcionava. Não aceitava informação de segunda mão sobre o que estava dentro de recipiente que eu havia visto cheio de água.
Provei.
Era vinho.
Não era vinho razoável, não era vinho aceitável para salvar a situação, não era o tipo de vinho que cumpre função sem envergonhar.
Era o melhor vinho que eu havia provado naquele ano.
Fiquei parada com o copo na mão e o sabor na boca e a memória de ter visto os serventes enchendo aquelas talhas com água minutos antes.
E não havia explicação.
Dentro de tudo que eu sabia sobre vinho e sobre água e sobre como as coisas funcionam no mundo — não havia explicação.
Virei para Tomé.
Ele estava me olhando. Havia estado me observando — Tomé sempre observava, era o que ele fazia melhor.
Havia visto meu rosto quando provei.
Havia visto a parada.
Disse: Tomé.
Ele disse: Eu vi.
Ficamos os dois em silêncio por um momento no meio da festa que havia continuado ao redor de nós como se nada impossível houvesse acontecido.
Disse: É real.
Ele não respondeu imediatamente.
Tomé quando não responde imediatamente está processando — e processar para Tomé leva tempo porque ele não aceita conclusão sem examinar cada passo que leva à conclusão.
Mas havia algo nos olhos dele que eu reconhecia.
Era o início de algo que ainda não tinha nome completo para ele.
Aquela noite no caminho de volta eu disse a Tomé que precisávamos saber mais sobre aquele homem.
Ele disse que eu estava sendo impulsiva.
Disse que talvez estivesse. Mas que havia provado o vinho e sabia o que
havia visto e que havia coisas para as quais impulsiva era a resposta certa.
Ele riu.
E começamos a seguir Jesus — primeiro de longe, depois mais perto, até que Tomé foi de vez e eu ficava sabendo das histórias através dele, através das cartas, através das voltas que ele dava.
Cada milagre que ele me contava eu ouvia com o gosto do vinho de Caná ainda na memória.
Sabia que era real.
Porque havia estado lá.
Porque havia visto as talhas cheias de água.
Porque havia provado.
Não sei quanto tempo faz.
O tempo está fazendo coisas estranhas.
Há calor — ou frio, não consigo distinguir direito. Há dor que vem em ondas e entre as ondas há momentos de clareza e em um desses momentos de clareza estou aqui tentando segurar o que sei antes que vá embora.
Tomé está aqui.
Sinto o peso dos braços dele.
Conheço esse peso.
As talhas.
Continuo voltando para as talhas por alguma razão. Seis talhas de pedra cheias de água e então cheias de vinho e eu que entendia de vinho provei e soube.
Aquele homem havia transformado o que havia acabado.
Havia transformado o que parecia perdido no meio de uma festa.
E eu havia estado lá.
Eu havia visto.
Tomé está dizendo alguma coisa.
A voz dele chega de longe agora — não porque ele está longe, está
aqui, sinto os braços — mas o longe está chegando mais perto que o perto e é difícil segurar as duas coisas ao mesmo tempo.
Há algo que preciso dizer.
Há algo importante.
As talhas — não, não as talhas. Tomé. É sobre Tomé.
Tomé.
Ele inclina a cabeça. Está ouvindo.
Há uma coisa só que importa agora.
Uma coisa só que eu preciso que ele leve quando eu não puder mais levar.
Segue Jesus.
Ele está dizendo algo. Está dizendo meu nome. A voz está—
As talhas cheias de água.
O rosto do mestre da festa quando provou.
O vinho que era o melhor que—
Segue...
Tomé...
As talhas...
O vinho era..
Era...
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O testemunho de Ramá para aqui.
Como toda voz que deu o que tinha
antes de partir.


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