Projeto The Chosen: Vozes que o Viram - CAPÍTULO XIX

 

 



CAPÍTULO 19 --- LÁZARO

A Voz que Eu Conhecia

Eu conhecia Jesus antes de ele ser Jesus para o mundo.

Isso precisa ser dito primeiro porque muda tudo que vem depois.

Não o conheci nas margens do Jordão.

Não o conheci numa multidão esperando milagre.

Não o conheci como discípulo que deixou tudo para seguir. 

O conheci como menino conhece menino — na rua, no calor da tarde, no jeito que crianças 

se encontram e decidem sem processo que vão ser amigos.

Ele vinha de Nazaré às vezes — José tinha trabalho em Betânia ocasionalmente, e Jesus 

vinha junto quando podia. E eu que crescia em Betânia com minhas irmãs Marta e Maria 

estava sempre do lado de fora quando havia chance.

Nos encontramos assim.

Dois meninos numa rua de Betânia.

Sem milagre. 

Sem multidão. 

Só a tarde e a poeira e a descoberta de que havia ali alguém com quem valia a pena ficar.

Era diferente mesmo quando criança.

Não de forma que assustasse — diferente de forma que atraía. 

Havia nele uma presença que eu não saberia nomear com palavras de criança mas que eu 

sentia e que me fazia querer estar perto. Uma atenção que dava para cada coisa o peso certo. 

Uma alegria que não era superficial — era funda, era real, era o tipo de alegria que faz o 

mundo ao redor parecer mais vívido.

Ele ria muito.

Isso as pessoas esquecem quando falam dele agora — que havia alegria genuína naquele 

homem. Que a risada era real e frequente e que havia momentos em que éramos só dois 

amigos rindo de algo que não precisava de explicação.

Crescemos.

As visitas ficaram menos frequentes — a vida separa as pessoas pelo peso da distância e do 

trabalho e de tudo que vai se acumulando. Mas quando vinha a Betânia vinha nos ver. 

Minha casa era onde ele ficava.

Minha mesa era onde comia. Minhas irmãs o conheciam como eu o conhecia — não como figura, mas como pessoa.

Como Yeshua que havia crescido com seu irmão.

Quando o ministério começou e as histórias começaram a chegar eu as ouvia com ouvido 

diferente do de qualquer outra pessoa.

Porque eu sabia a risada por baixo das histórias sérias.

Sabia as mãos que curavam eram as mesmas mãos que havia visto construir coisas com José 

quando criança.

Sabia a voz que ensinava multidões era a mesma voz que havia me chamado pelo nome em 

ruas de Betânia décadas antes.

E quando ele vinha me encontrar — depois dos milagres, depois das multidões, depois dos 

confrontos com fariseus que chegavam com intensidade crescente — havia sempre um 

momento em que o resto ficava do lado de fora e éramos só nós. 

O Yeshua que eu havia conhecido e o Lázaro que Ele havia conhecido.

Nesse espaço não havia título nem milagre.

Havia amizade.

O tipo que não precisa ser redefinida cada vez que vocês se encontram porque o 

fundamento foi estabelecido quando os dois eram pequenos e o tempo não alcança 

fundamentos assim.

Adoeci.

Não aconteceu de repente — foi processo, foi o corpo cedendo devagar, foi Marta

e Maria me observando com aquela expressão que irmãs têm quando sabem que algo está 

errado antes que você admita. 

Chegou o ponto em que ficou claro que era sério.

Mandamos mensagem para Jesus.

Não com drama, muito menos com exigência — Marta e Maria eram mulheres práticas e a 

mensagem foi direta. Senhor, eis que aquele que amas está doente. Não vem logo. 

Não se não vires ele morre. Só — aquele que amas está doente. 

Como se o amor fosse argumento suficiente. Como se nomear a relação fosse o bastante 

para que ele entendesse o peso do que estava sendo dito.

Esperamos.

Ele não veio.

Não vou descrever o morrer porque não é possível descrever de dentro —e porque o que 

importa não é o processo mas o que há do outro lado do processo.

Vou dizer só o que é possível dizer.

Há um momento.

Um momento de passagem que é diferente de tudo que você conhecia antes e que é também 

— estranhamente, impossível de explicar de forma que faça sentido para quem não esteve 

lá — reconhecível. Como entrar em lugar que você não havia estado antes mas que de alguma forma conhecia. 

Como chegar depois de longa viagem.

Havia paz.

Não a paz que as pessoas descrevem como ausência de dor — era mais que isso. 

Era presença de algo que tornava a dor irrelevante não porque a apagava mas porque havia 

algo maior que ela que tornava o tamanho dela relativo.

Fiquei lá.

Quanto tempo?... — não sei. 

O tempo funciona diferente. 

Não havia urgência, não havia o peso do que havia deixado, não havia o próximo item na 

lista de coisas que precisavam ser feitas.

Havia só aquilo.

E era suficiente.

E então ouvi meu nome.

Não um nome qualquer. Meu nome — do jeito específico que uma pessoa específica dizia 

meu nome. Com o peso e a textura que só vêm de décadas de amizade, de duas crianças em 

ruas de Betânia, de anos de mesa compartilhada e risada compartilhada e silêncio 

compartilhado.

"Lázaro, vem fora".

Reconheci antes de processar.

Não o Messias está chamando. Não uma autoridade espiritual está invocando. 

Era Yeshua. 

Era meu amigo. 

Era a voz que havia me chamado pelo nome desde que eu me lembrava de ser chamado 

pelo nome.

E o corpo respondeu à voz antes de qualquer outra coisa responder.

A luz chegou antes que meus olhos estivessem prontos para ela.

Havia as faixas — o cheiro, o peso, a restrição do que havia sido preparado para quem não 

ia mais precisar de movimento. 

E havia o som das pessoas do lado de fora que eu ainda não conseguia ver completamente 

mas que chegava com aquela textura específica de som que é choro que virou outra coisa no 

meio.

Ouvi a voz dele de novo: Desatai-o e deixai-o ir.

E mãos chegaram.

Marta primeiro — eu conhecia o jeito das mãos de Marta, práticas, eficientes, fazendo o que 

havia para fazer antes de processar o que estava fazendo. Maria depois — as mãos de Maria 

chegaram tremendo.

E então vi o rosto dele.

Há uma coisa que preciso dizer sobre o rosto de Jesus naquele momento.

Havia alegria — a alegria que eu conhecia desde criança, a alegria real e funda que tornava 

o mundo ao redor mais vívido. 

Estava lá.

Mas havia também algo que eu não havia visto antes naquele rosto.

O rastro das lágrimas.

Ele havia chorado. Eu soube antes que me dissessem — havia o rastro, havia o vermelho ao 

redor dos olhos, havia algo no rosto de quem chora de verdade que não desaparece 

completamente antes de você estar pronto para mostrar que chorou.

Ele havia me chamado de volta.

Tinha o poder de me chamar de volta desde o começo.

Havia esperado.

E havia chorado no meio da espera.

Precisei entender isso.

Não foi algo  imediato — nos primeiros dias depois havia tanto a processar que as 

perguntas ficaram na fila atrás da necessidade de simplesmente existir de volta no mundo. 

Marta me alimentava com a determinação de quem está fazendo a coisa mais importante 

que já fez. Maria ficava perto com aquela forma de presença dela que não precisa de 

palavra para ser real.

Jesus ficou em Betânia por dias.

E houve um momento — os outros saíram, Marta estava ocupada, Maria havia ido 

descansar — em que ficamos só nós dois. Como quando éramos crianças. Como quando 

havia o espaço onde o resto ficava do lado de fora.

Perguntei.

Não com raiva. 

Com a honestidade de décadas de amizade que permite a pergunta direta sem  cerimônia.

Por que esperaste?

Ele ficou quieto por um momento.

Depois disse algo que não vou repetir completamente porque há palavras que pertencem ao 

espaço entre duas pessoas e perdem algo quando saem desse espaço. 

Mas o centro do que disse era isto — que havia coisas que precisavam ser vistas. 

Que havia pessoas ao redor que precisavam ver. 

Que o que havia acontecido não era só sobre mim e sobre ele mas sobre algo maior que os 

dois.

Disse: E tu, meu amigo — tu precisavas ir para poder voltar. 

Fiquei com isso.

Tu precisavas ir para poder voltar.

Não havia resposta mais completa que aquela para o que eu havia experimentado. 

Não a paz como ausência de dor mas como presença de algo que só se conhece passando 

por onde eu havia passado.

Ele sabia.

Havia mandado a paz antes de mandar a cura.

Há uma coisa que as pessoas me perguntam com frequência.

O que havia do outro lado.

Perguntam com aquela mistura de curiosidade e medo e esperança que a pergunta sobre o 

que há depois sempre carrega. 

Perguntam esperando descrição — lugares, sensações, visões, o tipo de 

relato que confirma ou refuta o que já acreditam.

Não dou esse relato.

Não pensem porque não há nada para dizer. 

Mas porque o que há para dizer não é do tipo que confirma ou refuta — é do tipo que só faz 

sentido de dentro. 

É experiencial de uma forma que palavra adequada ainda não foi inventada.

O que digo é isto.

A voz que me chamou de volta — eu a reconheci de lá.

Não era estranha de onde eu estava.

Era a mesma voz. 

Com o mesmo peso. 

Com a mesma textura de décadas de amizade.

Como se a distância entre onde eu estava e onde ele estava fosse menor do que a distância 

que separava Betânia de Nazaré quando éramos crianças.

E eu havia feito aquele caminho muitas vezes.

Tomé me procurou depois.

Ele havia estado lá — havia visto. 

E havia algo nos olhos dele que eu reconhecia como o processo específico de Tomé 

trabalhando — examinando, comparando, tentando fechar o que não fechava 

dentro dos sistemas que ele tinha.

Ficamos juntos por um tempo em silêncio.

Depois ele perguntou — do jeito que Tomé pergunta, direto, sem preparação — o 

que havia sentido quando Jesus chorou.

Pensei.

Disse: Senti que ele não havia me abandonado. 

Que havia esperado pelo motivo certo mesmo que eu não soubesse o motivo. 

Que havia chorado porque o custo era real mesmo que o fim fosse diferente do que parecia.

Tomé ficou em silêncio processando.

Depois disse baixo, quase para si mesmo: Ela acreditava nisso.

Não precisei perguntar quem era ela.

Sabia de Ramá.

Havia ouvido.

E havia algo no que Tomé havia dito que me dizia que o processo lento dele estava 

chegando a algum lugar — não ainda, não completamente, mas chegando.

Vivo em Betânia.

A mesma casa. 

A mesma mesa. 

Marta ainda cozinha com aquela determinação que é forma de amar. 

Maria ainda senta e fica e sua presença ainda não precisa de palavra para ser real.

E às vezes — não com frequência, mas às vezes — sento do lado de fora à tarde e o calor e 

a poeira me lembram de quando éramos dois meninos numa rua e havia ali alguém com 

quem valia a pena ficar.

Ele havia valido a pena.

Havia valido a pena quando éramos crianças sem saber por quê.

Havia valido a pena quando crescemos e as visitas ficaram menos frequentes.

Havia valido a pena quando havia esperado e eu havia ido para onde fui e voltado quando 

Ele chamou.

Havia valido a pena no cenáculo com as portas trancadas e as mãos e o 

lado.

Continua valendo.

Não foi porque ressuscitou — embora tenha ressuscitado.

Porque era meu amigo.

E a amizade que começa em rua de Betânia com dois meninos e atravessa o que a nossa 

atravessou — essa não tem do outro lado.

Eu sei.

Estive lá.

E a voz que me trouxe de volta era a mesma voz de sempre.

Só isso.

Era a voz de sempre.


 Lázaro


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