Projeto The Chosen: Vozes que O Viram - CAPÍTULO XVIII
CAPÍTULO 18 --- TOMÉ
O Preço de Permanecer (parte II)
Já falei de mim uma vez nessa coleção de vozes.
Falei do pescador analítico, do homem que precisava entender antes de crer, da dúvida que
não era fraqueza mas era o jeito que eu funcionava no mundo.
Falei de Ramá — da morte dela, da pergunta que ficou, de Lázaro que ressuscitou e do que
aquilo fez com o que eu já carregava.
Mas há mais.
Há o que não disse na primeira vez porque havia coisas que precisavam vir depois para que
o que vem agora fizesse sentido completo.
Ramá me pediu para seguir Jesus com os últimos pensamentos que tinha.
Preciso começar aqui porque é o começo real de tudo que veio depois.
Ela estava nos meus braços. O que havia acontecido havia acontecido rápido demais —
Quintus, a multidão, a confusão que durou segundos e mudou tudo.
Eu havia chegado e ela estava no chão e eu a havia segurado e o tempo havia feito aquela
coisa que o tempo faz quando você não quer que ele continue.
E ela havia dito meu nome: Tomé.
A voz chegava de longe já. Eu conhecia aquela voz melhor que qualquer outra voz no
mundo — havia anos ouvindo aquela voz, havia anos aprendendo cada variação dela, o que
significava quando chegava rápida e o que significava quando chegava devagar e o que
significava quando chegava daquele jeito específico que ela estava usando agora.
Significava que havia pouco tempo.
Segue Jesus.
Duas palavras.
Com o pouco que havia sobrado ela havia usado duas palavras.
Não, não me deixa.
Não... Fica comigo.
Não eram as palavras que qualquer pessoa nos braços de quem ama diria com o pouco que
sobrou.
Segue Jesus.
Fiquei com aquelas duas palavras por muito tempo depois.
Nos primeiros dias eram peso — não peso de obrigação, peso de presença.
Como se as palavras dela houvessem ficado no ar onde ela as havia deixado e eu as
carregasse sem conseguir depositar em lugar nenhum.
Depois viraram ancora.
Quando a dor era grande demais para qualquer outra coisa — quando a pergunta por que
não ela chegava com força que eu não conseguia processar — as palavras dela eram o que
ficava quando tudo mais havia sido varrido.
Segue Jesus.
Ela havia visto as talhas em Caná.
Havia provado o vinho impossível.
Havia carregado aquilo com uma certeza que eu nunca havia conseguido ter completamente
— a certeza que não precisa de processo, que vai direto do que foi visto para o que é
verdadeiro sem passar pela análise.
Eu precisava de processo.
Ela havia dado o processo que tinha para mim antes de ir.
Segui.
Posso assegura que não foi com paz — Foi com o pedido dela.
Com as duas palavras que eram o último presente que ela havia conseguido dar. Com a
consciência de que ir embora seria trair o único pedido que ela havia feito.
E comecei a entender devagar o que ela havia entendido rápido naquela noite em Caná.
Que havia algo naquele homem que não cabia nos sistemas que eu conhecia.
Não porque os sistemas eram ruins.
Porque a realidade era maior que os sistemas.
Lázaro.
Preciso falar de Lázaro aqui porque é onde as camadas de dor chegaram ao ponto mais alto
antes de começarem a mudar de forma.
Havia ido com Jesus até Betânia sabendo que havia perigo — os judeus haviam tentado
apedrejá-lo não muito antes e Judeia não era lugar seguro.
Quando Jesus disse que íamos eu disse aos outros vamos também nós para que morramos
com ele.
Não era sarcasmo.
Era o Tomé que havia aprendido que algumas coisas valem o preço — e que o preço de ir
com Jesus era mais aceitável que o preço de ficar sem ele.
Cheguei a Betânia.
Vi o sepulcro.
Vi Maria e Marta e o luto que transbordava de um jeito que eu reconhecia de dentro — não
o luto observado de longe, o luto que você sabe como é porque morou nele.
Vi Jesus chorar.
Esse detalhe ficou comigo de um jeito que ainda não terminou de me ensinar tudo que tem
para ensinar.
Jesus chorou.
Ele que sabia o que ia fazer. Que havia dito que a doença não era para morte mas para glória de Deus.
Que havia esperado dois dias depois de saber que Lázaro estava doente antes de ir — havia
esperado deliberadamente.
E chegou e viu o luto de Maria e chorou.
Não foi performance. Posso garantir
Era alguém que sentia o peso da morte como peso real mesmo sabendo o que
vinha depois. Mesmo tendo o poder de desfazer o que estava diante dele — sentia o peso
assim mesmo.
Fiquei com isso.
E depois Lázaro saiu.
Não vou mentir sobre o que senti quando Lázaro saiu.
Havia alegria — claro que havia, era impossível estar naquele momento e não ser movido
pelo que estava acontecendo. Lázaro havia estado morto quatro dias.
E estava saindo envolto em faixas chamado pelo nome.
Mas havia também — embaixo da alegria, ou junto da alegria, as duas coisas ao mesmo
tempo — a pergunta que havia ficado desde o dia em que Quintus matou Ramá. chegando
com uma força que eu não havia conseguido sentir completamente até aquele momento.
Porque Ramá não?
Ele havia chorado na frente do sepulcro de Lázaro.
Havia sentido o peso.
Havia o poder. Havia a disposição de usá-lo.
E Ramá estava morta.
A pergunta não era nova. Mas ver Lázaro sair deu à pergunta uma precisão que ela não
havia tido antes.
Não era mais por que as pessoas morrem.
Era por que ele usou o poder aqui e não lá.
Não fiz a pergunta em voz alta naquele momento.
Fiz depois.
Em outra cena que já descrevi.
Mas o peso dela começou em Betânia. Quando Lázaro saiu e eu fiquei parado com as duas
coisas ao mesmo tempo — o milagre diante dos meus olhos e a ausência que não havia sido
corrigida.
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Na Ultima Ceia, havia tensão naquela noite que todos sentíamos mas que chegava em cada
um de um jeito diferente. Quando Jesus disse que sabíamos o caminho para onde ia — eu
disse o que era verdade.
Senhor não sabemos para onde vais. Como podemos saber o caminho?
Não era sabotagem. Não era provocação. Era eu — como sempre havia sido eu — não c
onseguindo aceitar que entendia quando não entendia.
Ramá teria dito que eu pensava demais.
E talvez tivesse razão.
Mas era o jeito que eu chegava às coisas — pela pergunta honesta, pelo processo, pelo não
fingir que sabia quando não sabia.
Jesus respondeu que ele era o caminho.
Guardei aquilo.
Fugi no jardim.
Já disse isso. Não tenho versão diferente. Fugi porque tinha medo e porque havia chegado
ao limite do que conseguia processar naquela noite e o limite havia sido atingido antes de
terminar.
Nos três dias que se seguiram estive mais sozinho que nos outros.
Os outros ficaram juntos no cenáculo.
Eu ficava lá às vezes e ficava fora outras vezes porque havia algo na presença coletiva que
me pesava quando o que eu precisava era de silêncio para ficar com a magnitude do
que havia acontecido.
Jesus havia morrido.
Havia morrido do jeito que ele havia dito que morreria — e eu havia ouvido as palavras e
não havia acreditado completamente porque havia partes do que ele dizia que eu arquivava
em lugar que não era crença ainda.
Havia morrido.
E Ramá havia morrido.
E eu estava de pé num mundo onde as duas coisas eram verdade ao mesmo tempo e não
sabia o que fazer com isso exceto ficar de pé.
Quando os outros disseram que o haviam visto eu não estava lá.
Não sei onde estava.
Sei que não estava.
E quando voltei e disseram — com aquela mistura de alegria e cuidado de quem não sabe
bem como entregar a notícia para quem sabe que vai questionar — que Jesus havia aparecido, que haviam visto, que era real—
Disse o que precisava dizer.
Se eu não vir nas suas mãos o sinal dos pregos e não meter o meu dedo no lugar dos pregos
e não meter a minha mão no seu lado de modo algum o crerei.
Quero deixar claro que não foi desafio.
Era o limite honesto do que eu conseguia fazer com o que tinha.
Havia permanecido através de tudo — da morte de Ramá, da pergunta sem resposta, de
Lázaro, da cruz, dos três dias. Havia permanecido com o pedido dela como ancora quando nada mais segurava.
Havia chegado ao limite do que a ancora sozinha conseguia segurar.
Precisava de mais.
Oito dias.
Jesus apareceu.
Portas trancadas. Ele dentro assim mesmo.
E virou diretamente para mim.
Como se os oito dias houvessem sido calculados. Como se o tempo entre o relato dos
outros e aquele momento não fosse ausência mas preparação — o tempo que eu precisava
para chegar ao fundo completo do que não conseguia mais segurar sozinho antes de receber
o que vinha.
Disse: Coloca aqui o teu dedo e vê as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca no meu
lado. Não sejas incrédulo, mas crente.
Não precisei tocar.
Reconheci a voz.
A voz que havia ficado no silêncio comigo depois de Ramá. A voz que havia dito eu sou o
caminho quando perguntei o caminho.
A voz que havia chamado Lázaro pelo nome de dentro do sepulcro.
Meu Senhor e meu Deus.
Saiu inteiro. Sem o processo lento. Sem o exame. Pela primeira vez em toda a minha
história com ele — chegou antes da análise.
Ele disse: Porque me viste creste. Bem-aventurados os que não viram e creram.
Fiquei com aquela frase.
Os que não viram e creram.
Ramá não havia visto a ressurreição. Havia visto Caná — as talhas, o vinho impossível — e
havia carregado aquilo com uma certeza que eu nunca havia conseguido ter do mesmo jeito.
E havia morrido acreditando.
Havia usado as últimas palavras que tinha para me pedir que ficasse.
Ela era bem-aventurada.
Ele havia dito que era bem-aventurada antes de eu entender que estava
falando dela.
Mas estava.
Por que não ela?
A pergunta não desapareceu.
Nunca vai desaparecer completamente.
Mas mudou de peso.
Já não era uma pergunta que acusa para pergunta que aceita — não é isso, não é resignação passiva, não é fazer as pazes com o que não tem resposta.
É a pergunta que fica mas que não é mais a única coisa.
Porque ao lado dela — com o mesmo peso, no mesmo espaço — está outra coisa.
A memória dos braços dela.
Segue Jesus.
Dois palavras.
Com o pouco que havia sobrado.
O último presente que ela tinha para dar.
E eu segui.
Com dúvida. Com a pergunta aberta. Com o processo lento que era meu processo.
Mas segui.
Porque ela pediu.
E porque descobri que o que ela havia visto nas talhas de Caná era real.
Era o melhor vinho.
E ela havia provado.
E eu finalmente provei também.

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