Projeto The Chosen : Vozes que O Viram - CAPÍTULO XX - SHULA E BARNABÉ

 

 



CAPÍTULO 20 --- BARNABÉ E SHULA

O que Cada Um Carregava


BARNABÉ

Eu não fui por mim.

Preciso começar por aqui porque é a verdade e porque muda tudo que vem depois.

Não fui até Jesus com petição pessoal, não fui com lista do que precisava, não fui com a consciência de 

que havia algo em mim que precisava de cura.

Fui por Shula.

Shula havia sido minha amiga desde que eu me lembrava de ter amigos.

Crescemos na mesma rua, estudamos com o mesmo rabino, dividimos a mesma visão de mundo com a 

variação específica que dois temperamentos diferentes produzem quando expostos ao mesmo material 

— ela mais quieta, mais interior, mais disposta a ficar com a experiência antes de nomeá-la.

Eu mais em movimento, mais observador do que acontecia ao redor, mais interessado nas histórias das 

pessoas do que nas minhas próprias.

Quando Shula perdeu a visão eu não perdi um pedaço da minha vida social.

Perdi o jeito que eu via o mundo.

Porque havia anos eu havia aprendido a ver algumas coisas através dela— a forma que ela descrevia o 

que experimentava, a profundidade que ela dava às coisas que eu passava rápido demais para notar.

E quando aqueles olhos fecharam para o mundo externo havia uma perda que era também minha 

mesmo que não fosse no meu corpo.

Dez anos.

Dez anos eu havia sido os olhos de Shula quando ela precisava de olhos.

E havia algo nesse papel que eu não sabia que havia me definido até o dia em que deixou de ser 

necessário.

SHULA

A escuridão não chegou de uma vez.

Isso é o que as pessoas não entendem quando perguntam sobre perder a visão — imaginam interruptor, 

imaginam o antes e o depois separados por momento claro.

Não foi assim.

Foi acontecendo.

Foi o mundo ficando levemente menos nítido, levemente menos definido, as bordas das coisas 

começando a sangrar para dentro do que estava ao redor.

Até que as bordas desapareceram.

E depois o resto...

Aprendi a existir de outro jeito.

Isso não é frase de consolo — é a descrição do real.

Você aprende.

O mundo que havia sido visual vira tátil, auditivo, olfativo.

Você aprende o peso do espaço ao redor. A

Prende os passos das pessoas antes de ouvi-las falar.

Aprende que há formas de ver que não passam pelos olhos.

Mas havia coisas que eu sabia que havia perdido e que nenhum aprendizado substituía completamente.

O rosto de Barnabé.

Não me lembrava mais exatamente.

Tinha a impressão — a estrutura geral, a sensação de quando ele estava perto.

Mas o detalhe havia ido ficando menos preciso com os anos como memória que não tem como ser 

renovada.

Dez anos é tempo suficiente para a memória visual começar a ceder.

Ele sempre dizia que era o mais bonito dos homens.

Eu acreditava.

Até porque ele era bonito como ser humano.

Ouvi falar de Maria Madalena antes de qualquer outra história sobre Jesus.

Não sei exatamente como a história chegou até mim.

As histórias chegam pelo som quando você não tem mais olhos para buscar, chegam em conversas que 

você ouve sem ser o destino delas, chegam fragmentadas e você monta o que consegue com os pedaços 

que chegam.

Mas a história de Maria chegou inteira.

A mulher com os sete demônios.

O que havia nela que ninguém conseguia alcançar.

E então Jesus — não com cerimônia, não com processo longo, mas com aquela presença que as 

histórias tentavam descrever sem conseguir completamente — e os demônios foram.

E ela ficou.

Livre de um jeito que ela não havia sido em anos.

Fiquei com aquela história no meu coração.

Havia algo naquele relato que tocava em algo que eu entendia de dentro.

A sensação de carregar algo que não era você mas que havia morado em você por tanto tempo que 

você havia parado de distinguir.

A sensação de que havia uma versão de você do outro lado daquilo que você não conseguia mais 

alcançar.

Eu entendia isso.

A escuridão não era demônio.

Mas havia algo em dez anos de escuridão que havia ido tomando espaço que não era dele — não a 

cegueira em si, mas o jeito que a cegueira havia ido definindo o que eu achava que era possível para 

mim.

O que eu poderia pedir.

O que eu merecia esperar.

Maria Madalena havia sido libertada de algo que havia tomado espaço que não era dele.

E Jesus havia feito isso.

Comecei a crer então.

Na escuridão.

Sem ver nada.

Sem milagre pessoal.

Sem evidência que passasse pelos olhos porque os olhos não funcionavam mais.

Cri pela história de uma mulher que havia sido vista quando esperava ser ignorada.

Mas não pedi cura para mim.

Preciso ser honesta sobre isso.

Barnabé falava de Jesus com frequência crescente — as histórias que chegavam, os relatos de curas, a s

ensação de que havia algo acontecendo que merecia atenção.

E eu ouvia e havia em mim a fé que havia crescido desde a história de Maria Madalena —fé real, fé que 

não precisava de evidência nova para existir porque já havia encontrado fundação.

Mas quando pensava em pedir cura para mim vinha sempre o mesmo pensamento.

Havia o cego de nascença que nunca havia visto nada.

Havia o paralítico que havia perdido décadas no chão de Betesda.

Havia crianças doentes, havia leprosos, havia pessoas com necessidade que eu conseguia imaginar pesando mais que a minha no cálculo de quem Jesus deveria alcançar primeiro.

Eu havia aprendido a ver.

Havia sido a minha visão, havia me pertencido, havia me definido por vinte anos antes de ir.

E havia outros que nunca haviam tido o que eu havia perdido.

Então ficava em silêncio sobre a minha própria necessidade.

Não digo com falsa humildade — era simplesmente o raciocínio real que eu fazia.

Que havia uma fila e que eu não estava na frente dela.

BARNABÉ

O dia que decidi levar Shula foi um dia em que ela estava difícil.

Não difícil no sentido de comportamento — Shula nunca era difícil no sentido de comportamento.

Difícil no sentido de presença.

Havia dias em que a resignação que ela havia construído com tanto cuidado ficava menos sólida por 

algumas horas.

Em que eu chegava e havia algo no silêncio dela que era diferente do silêncio normal.

Naquele dia havia algo.

Perguntei o que estava pensando.

Ela ficou quieta por um momento.

Depois disse: Estava lembrando de como era ver o seu rosto. Você disse que é bonito...

Disse aquilo com uma quietude que era pior que choro.

Com a quietude de quem já processou o suficiente para não chorar mais mas que ainda carrega o peso 

completamente.

Brinquei, dizendo que era bonito.

Ela sorria.

Mas eu fiquei com aquilo martelando na minha mente.

E foi grande demais para continuar fazendo o que eu havia feito — esperar, observar, cuidar do que eu 

podia cuidar.

Disse: Shula, quero te levar até Jesus.

Ela ficou quieta.

Depois perguntou: Você acredita que Ele pode fazer algo?

Disse que havia ouvido coisas que não conseguia mais ignorar.

Disse que queria tentar — não por mim, por ela.

Mas que a decisão era dela.

Outro silêncio.

Depois: Vamos.

Não disse que não merecia.

Não disse que havia outros com necessidade maior — não naquele momento, não para mim.

Disse vamos.

Brinquei de novo: Finalmente você verá o quanto sou bonito.

E fui descobrir depois que ela havia dito vamos por mim.

Que havia ido não para pedir mas porque eu havia pedido para ir.

SHULA

Fui por Barnabé.

Não para pedir cura.

Fui porque ele havia pedido com aquela voz que eu conhecia como conheço poucas vozes no mundo — 

a voz de quem chegou ao limite de ficar parado.

E quando Barnabé chega ao limite de ficar parado você vai com ele porque é quem ele é e porque dez 

anos de amizade ensinam a reconhecer quando a coisa importa de verdade.

No caminho continuava com o pensamento de sempre — havia outros com necessidade maior.

Havia o cego de nascença.

Havia o paralítico de Betesda.

Havia a fila que eu imaginava e onde eu não me colocava na frente.

Fui sem plano de pedir.

Fui para acompanhar Barnabé.

BARNABÉ

Chegamos onde Jesus estava.

Eu O vi antes de chegar perto e aqui está a coisa que não sei descrever adequadamente — havia algo 

que mudava no espaço ao redor Dele que não era milagre visível.

Era mais sutil.

A sensação de que a realidade ao redor dele estava levemente mais acordada do que o habitual.

Chegamos perto.

Jesus nos viu.

Viu Shula.

E aqui está o que eu vi no rosto Dele que ainda fico pensando — não havia surpresa.

Como se Ele já soubesse quem ela era.

Como se a história Dela — os dez anos, a fé que havia crescido sem milagre pessoal, o fato de ter vindo 

sem pedir — fosse visível para Ele antes de qualquer palavra.

Como se Ele visse não só a cegueira mas o que havia crescido dentro dela apesar da cegueira.

Ou por causa dela.

SHULA

Eu o senti antes de ouvi-lo.

Havia algo que mudou no ar próximo — uma presença diferente das outras presenças.

E então a voz.

Não disse meu nome imediatamente.

Disse algo que não vou repetir completamente porque era para mim.

Mas havia naquelas palavras o reconhecimento — não de cega que precisava de cura, mas de pessoa 

que havia crido sem ver.

Que havia ouvido a história de Maria Madalena na escuridão e havia deixado aquela história plantar 

algo real.

Como se Ele soubesse de onde havia vindo a fé.

Como se a corrente de Maria até mim fosse visível para Ele.

Ele brincou: Shula, você precisa ver o quanto seu amigo Barnabé é bonito.

E então senti as mãos nos meus olhos.

Não pedi.

Ele chegou até mim assim mesmo.

Do mesmo jeito que havia chegado até Maria.

Do mesmo jeito que havia chegado até Jesse em Betesda.

Chegou.

BARNABÉ

Vi as mãos dele chegarem nos olhos de Shula.

E fiquei olhando com o olho de quem havia passado dez anos olhando por ela.

Com o olho que havia aprendido a ver o que ela não via.

Com o olho de amigo que havia carregado a impotência de não poder consertar.

Shula ficou imóvel.

E então abriu os olhos.

A primeira pessoa que ela viu fui eu.

Ela sorriu: Você não é nada bonito Barnabé.

Eu gargalhei com lágrimas nos olhos.

Jesus gargalhou: Ele não é mesmo. Tem razão, Shula.

Ela me abraçou.

SHULA

A luz chegou de uma vez.

Não gradual — de uma vez. E foi demais e foi exatamente certo ao mesmo tempo.

Havia cores que eu não sabia que havia esquecido.

Havia definição, havia detalhe, havia o mundo se apresentando de novo com tudo que havia ficado de 

fora por dez anos.

Pisquei.

Pisquei de novo.

E então virei para Barnabé.

Vi meu amigo pela primeira vez em dez anos.

Não resisti: Você não é nada bonito.

Barnabé, ao invés de ficar ofendido, riu.

Até Jesus riu.

Ele havia ficado mais velho — havia linhas que não havia quando eu ainda o via, havia algo no rosto 

que era o acúmulo de dez anos que eu havia conhecido pelo som e pelo tato mas não pela visão.

E havia nos olhos dele — nos olhos que haviam sido os meus por dez anos — algo que eu nunca havia 

conseguido ver antes porque não podia ver.

Havia amor.

O tipo simples e real que não precisa de nome grande para existir.

Fiquei olhando para aquele rosto por um momento longo.

Depois disse: Você ficou mais velho.

Ele riu novamente.

Todos rimos.

Jesus brincou: É preciso cuidado com o que pede, Barnabé. Agora aguenta.

E foi o primeiro riso com os olhos dele me vendo e os meus olhos vendo ele de volta em dez anos.

BARNABÉ

E então senti a mão de Jesus no meu ombro.

Não havia pedido nada para mim.

Havia vindo por Shula.

O que eu carregava no meu corpo havia se tornado tão parte de mim que havia parado de contar como 

coisa para ser curada— havia se tornado só o jeito que eu andava, o preço que eu havia parado de 

calcular porque calcular não mudava nada.

Já estávamos indo embora, quando a mão Dele chegou no meu ombro.

Ele disse: Você não precisa dessa muleta, Barnabé.

E havia algo mudando no corpo — não dor, não processo dramático, mas a sensação de estrutura se 

reorganizando para o que havia sido antes de começar a ceder.

Olhei para os próprios pés.

Fiz um passo.

Depois outro.

Sem o ajuste que havia feito milhares de vezes.

Sem o cálculo automático de equilíbrio que havia se tornado tão habitual que eu havia esquecido que 

estava calculando.

Só o passo.

Direto.

Olhei pra Shula.

Olhei pra Jesus.

Ele sorriu.

Minha emoção foi tão grande que reuni força e ergui Jesus alguns centímetros do chão.

Obrigado.

Obrigado.

Era o que só conseguia dizer.

SHULA

Vi Barnabé andar.

Vi com os olhos que haviam acabado de receber o mundo de volta — vi meu amigo que havia me 

guiado por dez anos andar sem o passo compensado que eu conhecia pelo som mas que agora via pela 

primeira vez.

E entendi de uma vez o que havia acontecido.

Ele havia me trazido sem saber que também seria trazido.

Havia vindo por mim sem pedido para si mesmo.

E havia recebido assim mesmo.

E eu havia vindo sem pedir para mim.

E havia recebido assim mesmo.

Os dois chegamos sem pedir o que mais precisávamos.

Os dois recebemos assim mesmo.

SHULA

No caminho de volta eu ficava olhando para as coisas.

Não conseguia parar.

Havia dez anos de mundo que eu não havia visto e o mundo estava se oferecendo de volta com 

generosidade que eu não sabia como conter.

E havia Barnabé do meu lado.

Andando diferente.

Eu que havia ouvido aquele passo por dez anos sem vê-lo — agora via o passo novo.

Via os ombros diferentes. Via meu amigo no corpo que havia sido antes de começar a ceder.

Disse: Você está andando diferente.

Ele disse: Eu sei.

Andamos em silêncio por um tempo.

Depois eu disse: Você sabia que eu não ia pedir para mim.

Não era acusação. Era reconhecimento.

Ele ficou quieto.

Depois: Por isso fui eu que te trouxe.

Eu disse: Você não é bonito. É uma alma linda.

BARNABÉ

Há uma coisa que fico pensando desde aquele dia.

Eu havia passado dez anos sendo os olhos de Shula.

Havia aprendido a ver por ela — a notar detalhes que eu não notaria se fosse só para mim, a descrever 

com precisão o que o mundo tinha para oferecer porque havia alguém que dependia dessa descrição.

Aprendi a ver melhor por ter sido olhos de outra pessoa.

E no dia em que a trouxe para Jesus — sem pedir nada para mim, sem saber que havia algo para pedir — recebi o que nem sabia que precisava.

SHULA

Penso em Maria Madalena às vezes.

Ela não sabe que a história dela chegou até uma mulher cega em algum lugar e plantou fé que cresceu 

por anos sem milagre pessoal.

Que aquela fé foi o que eu carregava quando Barnabé me trouxe.

Que quando Jesus chegou até mim sem que eu pedisse — havia algo que ele viu que havia sido 

plantado pela história dela.

A corrente de uma vida transformada alcançando outra.

Sem que ninguém planejasse.

Sem que ninguém soubesse.

Jesus havia chegado até Maria.

Maria havia chegado até mim pela história.

E Jesus havia chegado até mim de novo porque havia reconhecido o que a história de Maria havia plantado.

Cri sem ver.

E então vi.

E o que vi primeiro foi o rosto do amigo que havia me trazido.

Que não era bonito fisicamente como afirmava ser e havia ficado mais velho.

Que havia me guiado por dez anos com os olhos que eu não tinha.

E que estava andando diferente.

Os dois diferentes.

Os dois de pé.

Os dois vendo.

Cada um do seu jeito. 

 
Shula e Barnabé


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