Projeto de The Chosen: Vozes que O viram - CAPITULO XXIII _ JESSE
CAPÍTULO 23 --- JESSE
O Chão que Foi Meu Mundo
Eu conhecia cada pedra daquele chão.
Não como quem passa e nota — como quem mora. Como quem acorda e o
primeiro contato com o mundo é aquela superfície específica, aquela
temperatura específica, aquele cheiro de água estagnada e corpo humano e
esperança velha que é o cheiro de Betesda quando você está lá há tempo
suficiente para parar de notar e depois tempo suficiente para notar de
novo.
Trinta e oito anos.
Meu irmão Simão diz que eu carregava aquilo com dignidade.
Simão sempre foi generoso com as palavras.
O que eu carregava era o peso de homem que havia parado de esperar sem
conseguir ir embora da esperança completamente. Que ficava por hábito e
por falta de alternativa e pela teimosia quieta de quem não sabe fazer
outra coisa senão continuar.
Não era fé.
Era teimosia.
Às vezes é a mesma coisa.
Betesda tinha sua própria lógica.
Havia os que chegavam com esperança nova — os recentes, os que ainda
acreditavam que desta vez seria diferente, que desta vez chegariam
antes, que desta vez haveria alguém para ajudar. Você reconhecia pelo
brilho nos olhos. Pela forma que observavam a piscina com atenção que
vai ficando menos intensa com o tempo.
Havia os que estavam há algum tempo — os que haviam aprendido a lógica
do lugar, que conheciam os outros pelo nome, que haviam desenvolvido
estratégias e alianças e jeitos de otimizar as chances de chegar à água
primeiro.
E havia os como eu.
Os que estavam há tanto tempo que haviam deixado de ser pacientes
esperando cura e haviam se tornado parte da arquitetura do lugar. Tão
incorporados à piscina que Betesda sem eles seria diferente como Betesda
sem as colunas seria diferente.
Eu era arquitetura.
Simão vinha me ver.
Não vou falar muito do que isso custava a ele porque o capítulo dele já
foi escrito e porque há coisas que pertencem à perspectiva de quem
observa e não de quem é observado. Mas sei o que via no rosto do meu
irmão quando chegava — a combinação específica de amor e impotência
que é o rosto de quem ama alguém que está sofrendo e não tem como parar
o sofrimento.
Aprendi a receber aquele rosto sem deixar que me pesasse mais do que já
pesava.
Aprendi a sorrir quando ele chegava para que o sorriso dele de volta não
precisasse de esforço.
Aprendi muitas coisas em trinta e oito anos de chão.
A maioria delas eu preferia não ter precisado aprender.
O dia que Jesus chegou a Betesda era dia comum.
Não havia sinal de que seria diferente. O sol estava no mesmo lugar que
sempre estava naquela hora. O cheiro era o mesmo. Os sons eram os mesmos
— água, pessoas, a conversa de fundo que nunca para completamente em
lugar onde há gente suficiente reunida por tempo suficiente.
Vi um homem entrando.
Não era o tipo que vinha a Betesda normalmente — não tinha o andar de
quem carrega condição no corpo, não tinha o olhar de quem está
procurando a piscina, não tinha a expressão de esperança nova ou
esperança velha que eu havia aprendido a classificar automaticamente.
Tinha outro andar.
Tinha outro olhar.
Estava olhando para as pessoas — não para a piscina, para as pessoas.
Com aquela atenção que eu havia aprendido a reconhecer em médicos bons,
nos raros, nos que ainda viam paciente antes de ver condição.
Só que era mais que isso.
Era o tipo de atenção que vai fundo antes de ir para os lados.
Ele parou na minha frente.
Me olhou.
E perguntou: Queres ser curado?
Preciso parar aqui.
Porque essa pergunta — que parece óbvia demais para ser pergunta, que
parece quase insulto quando você está há trinta e oito anos num lugar
chamado piscina dos enfermos esperando cura — essa pergunta não era o
que parecia.
Havia em mim, construída em trinta e oito anos de chão, uma resposta
honesta para aquela pergunta que não era simplesmente sim.
Havia a parte de mim que queria ser curado — claro, havia sempre sido
essa a razão nominal de estar ali.
Mas havia outra parte.
A parte que havia aprendido a existir naquele chão. Que havia construído
identidade dentro daquela limitação. Que sabia como funcionar em Betesda
e não sabia como funcionar em lugar nenhum mais. Que havia passado tanto
tempo sendo o paralítico de Betesda que não sabia completamente o que
seria sem essa descrição.
A pergunta dele chegava nesse lugar que eu não havia olhado diretamente.
Queres ser curado?
Não respondi sim de imediato.
Respondi com o que era verdade — que não tinha ninguém para me colocar
na água quando ela se movia. Que quando eu tentava chegar alguém passava
na minha frente. Que o sistema não havia funcionado para mim em trinta e
oito anos.
Respondi com a explicação de por que não havia funcionado.
Não com sim.
Ele não precisava da explicação.
Eu entenderia isso depois — que a explicação era a minha forma de
responder sem responder, de dizer quero mas não acredito que vai
acontecer sem dizer isso em palavras que eu teria que me responsabilizar
por ter dito.
Ele ouviu a explicação.
E então disse: Levanta-te, toma o teu leito e anda.
Não era sugestão. Não era convite. Era instrução direta — levanta,
pega, anda.
Como se o corpo já soubesse o que fazer e só precisasse de alguém para
dizer.
Me levantei.
Não gradualmente. Não com o processo cuidadoso de quem não sabe se as
pernas vão aguentar. Me levantei porque ele havia dito para me levantar
e havia algo naquela voz que tornava levantar a única resposta possível.
As pernas funcionaram.
Não com hesitação — funcionaram. Com a naturalidade de função
restaurada, como quando maquinaria que havia estado travada de repente
se move de novo como se nunca tivesse parado.
Peguei o leito.
Andei.
O chão embaixo dos pés era diferente de pé.
Isso soa simples mas não é — eu conhecia aquele chão de baixo.
Conhecia a textura, a temperatura, o jeito que a pedra pressionava
contra o lado do corpo quando você estava nela por horas. Conhecia
Betesda de um ângulo específico que muito poucos conheciam porque muito
poucos passavam tempo suficiente naquele ângulo para memorizar.
Agora havia o chão embaixo dos pés.
A mesma pedra. O mesmo lugar.
Mas completamente diferente porque eu estava de pé nele.
Havia passado trinta e oito anos olhando para aquele chão de baixo.
Agora estava acima dele.
A perspectiva era tão diferente que demorei um momento para reconhecer
que era o mesmo lugar.
Havia fariseus.
Claro que havia — sempre havia fariseus em Betesda nos dias de sábado,
havia a vigilância regular que fazia parte do tecido de controle que
eles mantinham sobre o que podia e o que não podia acontecer em lugares
públicos.
Me viram carregando o leito.
Disseram que era sábado e que eu não podia carregar o leito.
Eu que havia passado trinta e oito anos naquele chão — estava de pé,
estava andando, estava carregando o leito que havia sido minha cama e
meu lar e meu mundo por quase quatro décadas — e a primeira reação do
mundo de pé era me dizer o que eu não podia fazer.
Disse que o homem que me havia curado havia dito para pegar o leito e
andar.
Perguntaram quem era o homem.
Não sabia.
Ele havia ido embora no meio da multidão antes que eu perguntasse o
nome.
Encontrei-o depois no templo.
Ele me viu e disse algo que ficou comigo — Eis que estás curado. Não
peques mais para que não te aconteça coisa pior.
Essa frase.
Não vou fingir que não pesou — pesou. Havia algo ali que conectava a
condição com escolha, com responsabilidade, com o que eu havia feito ou
deixado de fazer. E eu fiquei com aquilo por tempo que não vou mentir e
dizer que foi curto.
Mas depois — depois de ficar com aquilo, depois de revolver, depois de
deixar o peso assentar — entendi que havia outra forma de ler aquelas
palavras.
Não era acusação sobre o passado.
Era direção para o futuro.
Estás curado — o passado foi tratado.
Não peques mais — o futuro está aberto.
Como se a cura não fosse só do corpo que havia estado no chão de Betesda
mas de tudo que havia se acumulado em trinta e oito anos de chão. Como
se ele estivesse me dizendo — a história anterior está fechada, a
história nova começa agora, e a história nova depende do que você faz
com o que recebeu.
Fui contar a Simão.
Não imediatamente — havia o processo de existir de pé que tomou algum
tempo antes que eu conseguisse pensar em outra coisa. Havia o mundo que
eu precisava reaprender de um ângulo diferente. Havia o leito que eu
havia carregado e que depois não sabia bem o que fazer com ele.
Mas fui.
E o rosto de Simão quando me viu de pé — o rosto que eu havia
aprendido a receber sem deixar que me pesasse mais, o rosto de amor e
impotência que ele havia trazido a Betesda visita após visita — não
era mais aquele rosto.
Era outro rosto.
Um que eu não havia visto no rosto do meu irmão.
Não sei nomear completamente. Havia alegria, claro. Havia o alívio de
quem havia carregado peso por trinta e oito anos e o peso havia sido
levantado. Mas havia também algo mais quieto por baixo — algo que
Simão processaria nos meses seguintes de um jeito que mudaria tudo para
ele também.
A faca que Jesus jogaria fora.
O grupo que pararia no meio da operação.
Tudo começou com o rosto que meu irmão fez quando me viu de pé.
Simão me perguntou o que havia sentido quando me levantei.
Fiquei pensando.
Disse: Senti que o chão ainda estava lá. Só que eu estava acima dele.
Ele não respondeu imediatamente.
Depois disse: Você passou trinta e oito anos naquele chão e não deixou
que ele fosse tudo que você era.
Disse que havia dias em que quase havia deixado.
Ele disse: Mas não deixou.
Fiquei com isso.
Porque havia verdade ali que eu não havia reconhecido enquanto estava
acontecendo — que trinta e oito anos de chão de Betesda haviam sido
também trinta e oito anos de não deixar que o chão fosse tudo. De
continuar sendo Jesse por baixo da condição. De manter acesa alguma
coisa que Betesda com toda a sua lógica e seu peso não havia conseguido
apagar completamente.
Jesus havia curado o corpo.
Mas o que estava no corpo para ser curado havia sobrevivido porque eu
havia mantido algo de pé por dentro mesmo quando estava deitado por
fora.
Não sei se isso é virtude ou só teimosia.
Às vezes são a mesma coisa.
O chão de Betesda ainda existe.
Às vezes passo por lá.
Não para visitar, não por nostalgia — passo porque é caminho e porque
evitar não seria honesto com o que aconteceu lá.
Quando passo olho para as pedras.
E reconheço a textura. A temperatura. O jeito que a luz bate naquele
ângulo específico na hora do dia em que eu costumava estar deitado.
Conheço aquele chão de baixo.
E agora estou acima dele.
As duas coisas são verdade ao mesmo tempo.
E as duas coisas juntas são a história completa.
Não só a cura.
Não só os trinta e oito anos.
As duas coisas.
O chão que foi meu mundo.
E o dia que deixou de ser limite.

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