Projeto The Chosen: Vozes depois d´Ele - CAPÍTULO 07 ANDRÉ

 

 



CAPÍTULO 07--- ANDRÉ 

Ser discreto não é de todo ruim.


Passei boa parte da vida sendo conhecido como irmão de Pedro.

E isso nunca me incomodou.

Pedro sempre foi maior.

Mais barulhento.

Mais impulsivo.

Mais fácil de ser notado.

Eu não.

Sempre fui o homem que trazia pessoas.

O homem que apresentava alguém a Jesus.

Foi assim com Pedro.

Foi assim com o menino dos pães.

Foi assim com tantos outros.

No começo, às vezes eu me perguntava se isso era pouco.

Se eu deveria ser mais forte.

Mais importante.

Mais lembrado.

Mas Jesus nunca pareceu achar que eu era pequeno.

Ele fazia cada pessoa se sentir necessária.

Mesmo as mais silenciosas.

Talvez por isso eu tenha amado tanto segui-Lo.

Porque, perto dEle, ninguém era invisível.

E Jesus tinha um jeito estranho de incluir as pessoas.

Não apenas nos milagres.

Mas nas coisas pequenas.

Nas conversas.

Nas risadas.

Nos gestos que ninguém anotava.

Ainda lembro das Bodas de Caná.

A música.

As pessoas dançando.

O vinho circulando.

As gargalhadas.

Pedro já tinha bebido o bastante para se tornar ainda mais Pedro.

Em certo momento, apontou para mim e riu:

— Mestre… se André entrar naquela roda e conseguir dançar sem derrubar ninguém… 

então eu acredito que o Reino chegou hoje mesmo.

As pessoas riram.

Eu senti o rosto queimar.

Eu não era bom naquilo.

Nunca fui.

Jesus olhou para Pedro.

Depois para mim.

E sorriu.

Aquele sorriso de quem sabe que vai nos colocar em apuros.

— Pedro… existem certos milagres que nem Eu faço.

A roda explodiu em risadas.

Inclusive eu.

E então Ele me chamou com a mão.

— Vem assim mesmo.

Entrei.

Totalmente sem ritmo.

Totalmente fora do lugar.

E em algum momento acabei chutando a canela de Jesus.

Ele parou.

Fez silêncio por um instante.

E disse:

— Eu não falei?

Todos riram ainda mais.

E eu, pela primeira vez, não me senti deslocado.

Me senti dentro.

Como se pertencer não exigisse perfeição.

Houve outra vez…

João desafiou todos para uma queda de braço.

Ele estava confiante.

Confiante demais.

Pedro já ria antes mesmo de começar.

Jesus estava por perto, observando.

Começamos.

João quase me venceu imediatamente.

Então ouvi a voz de Jesus atrás dele:

— Vamos, André.

João virou indignado:

— Mestre!

Jesus tentou ser sério.

Falhou.

Pedro já estava no chão de tanto rir.

E, de algum modo que ainda não entendo, eu ganhei.

João ficou olhando a própria mão como se tivesse sido traído pelo mundo.

Jesus riu.

Riu de verdade.

E disse:

— Agora eu vi um milagre.

Essas coisas pareciam pequenas.

Mas não eram.

Eram a forma de Jesus nos lembrar que ninguém era invisível.

Nem os mais discretos.

Nem os que não chamavam atenção.

Nem eu.

Mas houve um dia em que vi Jesus diferente.

O dia em que João Batista morreu.

A notícia caiu como pedra.

E eu fui até Ele.

Não sabia o que dizer.

Nunca sei.

Encontrei Jesus sozinho.

Silencioso.

A dor ao redor dEle parecia maior que o corpo.

Sentei ao lado.

Sem palavras.

Depois de um tempo, lembrei de um pedaço de pão que carregava.

Velho.

Duro.

Ofereci.

Ele olhou.

E riu baixo.

— André… isso aqui é mais antigo que os ossos de Eliseu.

Eu congelei.

— Mestre… não deveria rir agora.

Ele me olhou com calma.

E disse:

— André… não existe jeito certo ou errado de sofrer.

— Às vezes a tristeza e o riso apenas se sentam no mesmo lugar.

Isso ficou comigo.

Porque ali eu entendi algo maior do que explicação.

Entendi presença.

Mas houve um tempo… depois da ressurreição… em que comecei a esquecer disso.

Paulo tinha chegado.

E tudo ao redor dele parecia maior.

Mais intenso.

Mais visível.

Ele falava…e multidões paravam.

Ele ensinava…e homens mudavam.

Ele confrontava…e ninguém ficava indiferente.

Havia fogo nele.

Havia urgência.

E, pela primeira vez em muito tempo…eu me senti pequeno.

Não pequeno como antes.

Mas pequeno como quem começa a desaparecer.

Porque perto de homens como Pedro e Paulo…homens como eu pareciam feitos 

de silêncio.

Às vezes me perguntava se ainda havia lugar para mim.

Se o Reino precisava de alguém que apenas aproximasse pessoas.

Ou se isso era pouco demais.

Houve dias em que senti vergonha da minha própria forma de servir.

Vergonha por não dominar multidões.

Vergonha por não ter respostas rápidas.

Vergonha por não ser lembrado.

E o pior tipo de insegurança…é aquela que não faz barulho.

Na noite anterior a uma conversa que mudaria muita coisa… eu sonhei.

Jesus estava comigo.

Sem multidões.

Sem discurso.

Sem milagres.

Apenas presença.

Caminhávamos perto do lago.

E Ele disse:

— André… você ainda está tentando ser o que não foi chamado para ser.

Aquilo me atravessou.

Porque era verdade.

Passei anos sem invejar Pedro.

Sem invejar João.

Mas comecei a invejar Paulo.

E inveja silenciosa ainda é inveja. 

Ele continuou:

— Há vozes que abrem caminhos falando.

— Há vozes que sustentam caminhos ouvindo.

E então disse:

— Escute.

— Escute Tiago.

— Escute Paulo.

— E ajude-os a se escutarem.

Quando acordei, não senti grandeza.

Mas senti paz.

Como se não precisasse ocupar espaço para pertencer.

Percebi que ser lembrado pelos homens nunca tinha sido promessa do Reino.

Na noite seguinte, encontrei Pedro.

Ele estava exausto.

Carregava tensões que não dizia em voz alta.

Paulo e Tiago estavam em conflito.

E a Igreja parecia esticada demais.

Pedro falava com o peso de quem teme ver tudo se romper.

Eu o ouvi.

E então, ao meu lado, estava Éden.

Ela não falava muito nesses momentos.

Mas enxergava com clareza o que muitos não conseguiam ver em meio ao ruído.

Me lembrei do sonho.

E foi ali que entendi que aquilo não era sobre escolher lados.

Era sobre lembrar algo que Jesus sempre fazia.

Escutar.

Então disse a Pedro, com calma:

— Meu irmão,  escute os dois lados.

Ele me olhou sem entender de imediato.

E eu continuei:

— Paulo e Tiago não são inimigos.

— Estão apenas feridos em direções diferentes.

Eden apenas assentiu em silêncio.

E foi então que completei aquilo que Jesus havia me ensinado:

— É isso que Ele sempre fez.

— Ele escutava.

— E respondia com outra pergunta…— até que as pessoas finalmente entendessem o 

que já estava dentro delas.

Pedro ficou em silêncio.

Não um silêncio vazio.

Mas um silêncio que começa a reorganizar coisas por dentro.

Demoramos muito para entender isso.

Que ouvir também é liderança.

Que nem toda voz precisa ser a mais alta…para ser a mais necessária.

Depois da ressurreição, cada um seguiu seu caminho.

Pedro ficou no centro.

João cuidou de Maria.

Tomé atravessou o mundo.

Paulo incendiou cidades.

E eu…eu fui para lugares pequenos.

Onde ninguém sabia meu nome.

E talvez isso tenha sido bom.

Porque pude continuar fazendo o que sempre fiz: aproximar pessoas de Jesus.

Sem precisar ser visto.

Porque, no fim…talvez ninguém se lembre de todos os lugares por onde passei.

Mas Jesus lembra.

E isso… sempre foi suficiente para mim.



Apóstolo André

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