Projeto The Chosen: Vozes depois d´Ele - CAPÍTULO 09 NICODEMOS
CAPÍTULO 09--- Nicodemos
O Nascer de Novo Que Finalmente Entendi
Passei boa parte da minha vida acreditando que entendia Deus.
Eu conhecia a Lei.
Conhecia os profetas.
Conhecia cada detalhe das tradições.
As pessoas me olhavam com respeito.
Os mais jovens ouviam meus conselhos.
Os mais velhos valorizavam minha opinião.
Eu era um homem importante.
E talvez esse tenha sido meu maior problema.
Porque homens importantes se acostumam a acreditar que já sabem tudo.
Até encontrar alguém que nos mostre o contrário.
O Sinédrio já não era apenas um conselho.
Era um corpo inquieto.
As reuniões começaram a mudar de tom.
Não era mais apenas debate.
Era pressão.
Urgência.
Suspeita.
Shmuel batia na mesa mais do que argumentava.
Outros evitavam olhar nos olhos uns dos outros.
Todos estavam apenas tentando sobreviver ao próprio lado da história.
Foi nesse ambiente que tomei uma decisão silenciosa.
Chamei um jovem chamado Matias.
Discreto.
Observador.
Inteligente demais para ser ignorado.
Pedi que acompanhasse Jesus.
Não de perto.
Mas o suficiente para ouvir.
Ver.
Entender.
Ou, pelo menos, trazer-me algo que fizesse sentido dentro do caos que se formava.
Ele aceitou.
Sem perguntas.
Sem resistência.
E isso deveria ter me preocupado mais do que me preocupou.
As semanas passaram.
Matias voltou.
Falou de curas.
De multidões.
De parábolas que não terminavam onde deveriam terminar.
Mas algo havia mudado nele.
No começo, era sutil.
Depois, impossível de ignorar.
Ele não relatava mais como quem observa.
Relatava como quem foi tocado.
Um dia o confrontei.
Perguntei diretamente:
— Você ainda consegue vê-Lo como um homem comum?
Ele hesitou.
E respondeu:
— Ninguém permanece neutro perto dEle por muito tempo.
Aquilo ficou comigo.
Mais do que deveria.
Porque o mesmo estava acontecendo dentro de mim.
Quando fui até Jesus naquela noite, achei que estava indo examiná-Lo.
Mas foi Ele quem me examinou.
Ainda lembro da sensação.
Era como se cada palavra dEle atravessasse tudo aquilo que eu construí dentro de mim.
Meu orgulho.
Minha segurança.
Minha posição.
Passei anos ensinando que o Reino de Deus era reservado aos puros, aos obedientes e aos dignos.
Então Jesus apareceu cercado de pescadores, cobradores de impostos, mulheres mal vistas e
gente quebrada.
E, ainda assim, Deus parecia estar com Ele.
Isso me perturbava.
E também me fascinava.
Por muito tempo tive medo.
Medo dos outros fariseus.
Medo do Sinédrio.
Medo de perder tudo.
Medo de admitir que aquele homem da Galileia talvez fosse realmente quem dizia ser.
Vi Shmuel endurecer.
Vi homens transformarem zelo em violência.
Vi a justiça se tornar conveniência.
E então vieram as decisões.
Uma delas não foi escrita em nenhum registro oficial.
Mas aconteceu.
E por um tempo, ele fez isso com fidelidade.
Até que deixou de conseguir chamar aquilo de “espionagem”.
Porque o que ele via não cabia mais na palavra suspeita.
Cabia em outra coisa.
Chamava-se verdade.
E isso o destruiu por dentro antes de o salvar por inteiro.
Depois da crucificação, pensei que nunca mais conseguiria respirar sem culpa.
Porque eu sabia.
Sabia que Ele era inocente.
Sabia que deveríamos tê-Lo protegido.
Sabia que minha voz poderia ter feito mais.
Ainda assim, me calei vezes demais.
Foi por isso que ajudar José de Arimateia a cuidar do corpo dEle foi tão importante para
mim.
Não apagou minha culpa.
Mas foi a primeira vez que senti que ainda havia algo que eu podia fazer por Ele.
Depois da ressurreição, minha vida mudou lentamente.
Eu O vi novamente.
Vi Jesus vivo.
E, depois disso, já não havia mais espaço para dúvidas.
Ainda havia medo.
Ainda havia vergonha.
Ainda havia lembranças.
Mas não havia mais dúvida.
E então aconteceu algo que mudou tudo outra vez.
Eu estava sozinho quando Ele apareceu.
Não havia multidões.
Não havia Sinédrio.
Não havia títulos.
Apenas Ele.
Vivo.
Diferente.
E ao mesmo tempo o mesmo.
Por um instante, tudo dentro de mim quis cair em silêncio.
Mas Ele falou primeiro.
Não com acusação.
Nem com reprovação.
Com direção.
— Nicodemos.
Eu abaixei a cabeça.
Não consegui sustentar o olhar.
E então Ele disse algo que nunca esqueci:
— Você passou a vida tentando defender Deus diante dos homens.
— Agora você vai aprender a trazer os homens até Deus.
Levantei os olhos.
Ele continuou:
— Seja luz entre os fariseus.
— Não para vencer debates.
— Mas para impedir que o coração deles apague por completo.
— Ainda há alguns que não endureceram totalmente.
— Cuide deles.
— Como quem cuida de uma chama fraca no vento.
Eu não respondi imediatamente.
Porque aquilo não era um comando simples.
Era um novo nascimento acontecendo dentro de mim.
Com o tempo, deixei o Sinédrio.
Eu estava velho.
Cansado.
E já não suportava continuar fingindo neutralidade.
Indiquei Yussif para ocupar meu lugar.
Ele também acreditava em Jesus.
Talvez de forma mais discreta.
Mais prudente.
Mas acreditava.
Vi Shmuel se partir entre dor e orgulho.
Vi Caifás envelhecer sem encontrar descanso.
Os anos passaram.
Os seguidores de Jesus cresceram.
As sinagogas começaram a se dividir.
E se Ele realmente era o Messias?
Ajudei famílias.
Ajudei perseguidos.
Ajudei discípulos escondidos.
E, aos poucos, entendi algo que antes me destruiria:
Deus nunca dependeu do Sinédrio para ser Deus.
Hoje, vendo Jerusalém cair, vendo o Templo ser destruído, percebo algo que antes eu jamais aceitaria:
Jesus tinha razão.
O Reino de Deus nunca esteve preso a pedras.
Nunca esteve preso ao Templo.
Nunca esteve preso ao poder dos sacerdotes.
Ele vive nas pessoas.
Naqueles que amam.
Naqueles que perdoam.
Naqueles que continuam crendo mesmo quando tudo parece desabar.
Passei a vida achando que precisava defender Deus.
Mas, no fim…descobri que era Deus quem tentava salvar a mim.
E agora entendo.
Não fui chamado para controlar a verdade.
Fui chamado para ser luz onde ela estava apagando.
Nicodemos

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