Projeto The Chosen: Vozes depois d´Ele - CAPÍTULO 10- YUSSIF

 

 


CAPÍTULO 10 -- YUSIFF

Demorei, Mas Aceitei



Passei a vida tentando ser prudente.

Discreto...

Cuidadoso....

Talvez prudente demais.

Desde jovem, aprendi que homens como eu sobrevivem observando mais do que falando.

No Sinédrio, isso era ainda mais importante.

Uma palavra errada podia destruir reputações.

Uma opinião mal colocada podia acabar com uma carreira inteira.

E havia algo ainda pior: o conselho tinha memória longa.

Homens eram marcados por anos por causa de uma única frase dita no momento errado.

Por isso, quando conheci Jesus, escondi melhor do que deveria aquilo que sentia.

Eu O admirava.

Muito antes de admitir isso para qualquer pessoa.

Via como tratava as mulheres.

Os pobres...

Os doentes...

Os impuros.

E percebia algo que não encontrava mais em muitos líderes religiosos: compaixão.

Não se tratava de uma compaixão teatral.

Muito menos de uma bondade usada para parecer santo diante do povo.

Era diferente.

Jesus olhava para as pessoas como quem enxergava algo nelas que nem elas mesmas 

conseguiam mais enxergar.

E aquilo me desarmava.

Mas, se existe um momento em que minhas dúvidas realmente começaram a morrer…

foi na casa de Jairo.

Jairo era escriba e administrador  ligado à nossa sinagoga.

Um homem respeitado.

Sério.

Correto.

Não era impulsivo.

Nem facilmente enganado.

Por isso, quando ouvi que sua filha estava morrendo e que ele havia ido atrás de Jesus…

o choque percorreu Cafarnaum inteira.

Porque homens como nós não corriam atrás de pregadores da Galileia.

Muito menos em público.

Lembro da tensão naquele dia.

Os comentários...

Os olhares....

Os cochichos.

Alguns diziam que o desespero fazia os homens perderem a razão.

Outros falavam como se Jairo tivesse humilhado a própria posição.

Mas então veio a notícia.

A menina havia morrido.

E, ainda assim, Jesus entrou naquela casa.

Eu me lembro do silêncio.

Do silêncio pesado de luto.

Do som baixo do choro.

Do desespero de Michal, sua esposa.

E lembro de olhar para Jairo.

Porque o rosto dele já não era o rosto de um líder religioso.

Era apenas o rosto de um pai destruído.

Então Jesus disse para não temer.

Naquele momento, parte de mim achou aquilo cruel.

Como pedir calma a um homem cuja filha acabara de morrer?

Mas havia algo na voz dEle…algo que impedia as pessoas de simplesmente se afastarem.

Então Ele entrou.

E algum tempo depois…a menina saiu viva.

Passei anos tentando explicar aquilo para mim mesmo.

Talvez porque, no fundo, eu soubesse exatamente o que tinha visto.

Naquela noite, minhas dúvidas não desapareceram completamente.

Mas começaram a perder força.

Porque discursos podem enganar.

Emoções podem enganar.

Mas um pai não olha para a filha morta…e depois para ela viva…sem saber que algo 

impossível aconteceu.

Nem todos entenderam isso.

No Sinédrio, muitos viam Jesus apenas como ameaça.

Nicodemos via mais.

José de Arimateia via mais.

Eu também via.

Mas, diferente deles, eu me escondia melhor.

Talvez por medo.

Talvez por covardia.

Talvez porque eu acreditasse que ainda poderia fazer mais permanecendo dentro do 

conselho do que saindo dele.

As reuniões sobre Jesus se tornaram cada vez mais hostis.

No começo ainda havia debate.

Depois, apenas tensão.

Homens falavam ao mesmo tempo.

Acusações atravessavam a sala.

Alguns exigiam prisão imediata.

Outros temiam reação popular.

Outros temiam Roma.

Mas quase ninguém parecia realmente interessado em descobrir a verdade.

Apenas em controlar as consequências dela.

Nicodemos tentou resistir.

Mais de uma vez.

Eu também.

Lembro de uma reunião em especial.

A sala parecia menor naquela noite.

Pesada.

Como se o próprio ar estivesse cansado.

Shmuel estava diferente.

Eu o conhecia desde Cafarnaum.

Já tínhamos dividido refeições.

Conversas.

Silêncios.

Ele nem sempre foi duro daquele jeito.

Mas naquela noite…havia violência em suas palavras.

Não violência das mãos.

Violência de homem ferido tentando transformar dor em certeza.

Ele dizia que Jesus precisava ser interrompido antes que tudo saísse do controle.

Falava do povo.

De Roma.

Da estabilidade.

Mas, por trás de tudo aquilo, eu ouvi outra coisa:medo.

Nicodemos argumentou.

Lembrou que nenhum homem deveria ser condenado sem ser ouvido.

Lembrou da Lei.

Lembrou da justiça.

E eu o apoiei.

Mesmo sabendo que estávamos quase sozinhos.

Alguns homens desviaram os olhos.

Outros ficaram em silêncio.

O pensamento de Caifas era compartilhado pela maioria.

E naquele momento entendi algo terrível: muitas vezes o mal cresce não porque todos 

concordam com ele…mas porque homens cansados escolhem não enfrentá-lo.

Shmuel olhou para mim com uma tristeza que doeu mais do que sua raiva.

E perguntou:

— Então você também acredita nEle?

A sala inteira ficou em silêncio.

Senti todos esperando minha resposta.

E, mesmo naquele momento…eu hesitei.

Isso ainda me dói.

Porque percebi que admirava Jesus mais do que tinha coragem de admitir.

Depois da morte e da ressurreição de Jesus, isso se tornou ainda mais difícil.

Porque os seguidores dEle cresceram.

E quanto mais cresciam, mais medo despertavam.

Foi então que Nicodemos deixou o Sinédrio.

Ele estava cansado.

Ferido.

Mas também estava em paz.

Quando me indicou para ocupar seu lugar, fiquei apavorado.

Porque eu sabia o que aquilo significava.

Significava carregar a esperança de alguém melhor dentro de um lugar que, muitas vezes, 

parecia incapaz de mudar.

Aceitei mesmo assim.

Porque alguém precisava estar ali.

Alguém precisava ouvir os rumores sobre prisões.

Sobre perseguições.

Sobre famílias inteiras sendo expulsas das sinagogas.

Usei tudo o que podia para proteger quem conseguia.

Avisei discípulos.

Atrasei denúncias.

Convenci homens mais violentos a terem cautela.

Nem sempre funcionava.

Nem sempre eu conseguia salvar alguém.

Mas fiz o que pude.

E talvez Deus também trabalhe através disso: homens imperfeitos tentando impedir que a 

escuridão avance ainda mais.

Meu maior conflito sempre foi Shmuel.

Porque ele não era mau.

Nunca foi.

Era apenas um homem ferido demais para admitir que estava errado.

Ele carregava remorso.

Muito remorso.

Às vezes falava de Jesus como alguém fala de uma ferida que nunca fechou.

Mas ainda se recusava a chamá-Lo de Messias.

Eu tentava argumentar.

Tentava lembrá-lo de tudo o que vimos.

Dos milagres.

Da bondade.

Da coragem.

Mas havia algo dentro dele que permanecia preso.

Talvez medo.

Talvez orgulho.

Talvez tristeza.

Ou talvez aceitar Jesus significasse admitir que participou da condenação do homem mais 

inocente que já existiu.

E algumas culpas são pesadas demais para certos homens suportarem.

Hoje, vendo Jerusalém cair e o Templo queimar, penso em como todos nós passamos tempo 

demais acreditando que Deus precisava ser defendido por paredes.

Por cargos...

Por rituais...

Jesus nunca precisou disso.

Mesmo depois de morto, continuou crescendo.

Mesmo perseguido, continuou sendo anunciado.

Mesmo rejeitado, continuou transformando vidas.

Talvez seja por isso que, no fundo, finalmente encontrei paz.

Porque já não preciso esconder aquilo que acredito.

Jesus era quem dizia ser.

E nenhum incêndio em Jerusalém pode mudar isso.

Com o tempo, minha vida tomou caminhos que eu jamais teria imaginado.

Em silêncio, ajudei Paulo em alguns dos seus escritos, ao lado de Lucas.

Não como alguém que fala ao mundo.

Mas como alguém que ainda conhece a linguagem dos que duvidam.

Havia em nós a preocupação de que o povo judeu entendesse que aquilo que estava 

acontecendo não era uma ruptura vazia…mas o cumprimento de uma promessa antiga 

demais para ser interrompida por medo ou tradição.

Alguns chamariam isso de epístola.

Outros de defesa.

Paulo chamava de anúncio.

Eu chamava de esperança explicada com cuidado.

E, pela primeira vez na vida, percebi que até o silêncio de um homem prudente pode servir 

à verdade quando finalmente deixa de se esconder dela. 


Rabino Yussif


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