Projeto The Chosen: Vozes depois d´Ele - CAPÍTULO 06 TOMÉ

 

 



 CAPÍTULO 6--- Tomé


A Dor e a Busca de Respostas Não Me Afastaram da Missão



Eu passei muitos anos achando que precisava entender tudo.

Precisava tocar.

Precisava ver.

Precisava ter certeza.

Os outros costumavam rir disso.

Diziam que eu sempre precisava de provas.

E talvez estivessem certos.

Mas Jesus nunca pareceu irritado comigo.

Nunca me tratou como alguém menor por ter dúvidas.

Ele apenas continuava me chamando para mais perto.

Talvez porque soubesse que os homens mais teimosos também podem amar profundamente.

As pessoas se lembram de mim por causa de um único momento.

O homem que duvidou.

O homem que precisou tocar as feridas.

Mas quase ninguém entende o que havia por trás daquilo.

Eu não duvidei porque amava pouco.

Eu duvidei porque perder Jesus parecia insuportável demais para suportar outra esperança quebrada.

Quando Ele morreu…algo dentro de mim também morreu.

E quando os outros disseram que Ele havia ressuscitado, uma parte de mim quis acreditar imediatamente.

Mas outra parte…teve medo.

Medo de enlouquecer de dor.

Medo de me agarrar a uma esperança impossível.

Então eu disse que precisava tocar.

Precisava ver.

Precisava ter certeza.

E mesmo assim…

Quando Jesus apareceu, não havia raiva em Seus olhos.

Só misericórdia.

Uma misericórdia tão profunda que chegou a doer mais do que qualquer repreensão.

Às vezes acho que foi naquele momento que comecei realmente a mudar.

Quando vi Jesus ressuscitado, achei que nunca mais duvidaria de nada.

Mas a verdade é que continuei tendo medo.

Continuei me perguntando se era forte o bastante.

Continuei me perguntando por que Ele me escolheria para ir tão longe.

Porque fui longe.

Muito longe.

Mais longe do que qualquer um de nós imaginava.

Mas, antes disso…

Houve Ramah.

Ainda me lembro das Bodas de Caná.

Da música.

Das risadas.

Do cheiro do vinho.

Da correria dos servos.

E lembro dela olhando para mim quando Jesus nos chamou.

Eu hesitei.

Claro que hesitei.

Eu sempre hesitava.

Minha mente já estava cheia de perguntas.

Quem abandona a própria vida para seguir um homem que fala sobre um Reino invisível?

Quem deixa tudo sem garantias?

Quem entrega o futuro inteiro nas mãos de alguém que não explica todos os caminhos?

Eu estava pensando demais.

Como sempre.

Então Ramah segurou minha mão e sorriu daquele jeito calmo que desmontava minhas tempestades.

E disse:

— Não pensa tanto, Tomé. Apenas vai.

Naquele momento achei que ela estava apenas tentando me acalmar.

Hoje percebo que talvez ela me conhecesse melhor do que eu mesmo.

Porque passei metade da vida tentando transformar fé em algo completamente compreensível.

E fé nunca foi isso.

Depois veio a dor.

A perda.

O sangue.

A cruz.

E, por fim…o dia em que Ramah agonizava diante de mim.

Ainda existem noites em que volto para aquele instante.

O som da respiração dela falhando.

O medo nos olhos das pessoas ao redor.

Minha impotência.

Minha raiva.

Porque eu tinha visto Jesus curar tantos.

Tantos...

Cegos.

Leprosos.

Paralíticos.

Então por que não ela?

Por que justo ela?

Até hoje há partes de mim que ainda fazem essa pergunta em silêncio.

E talvez essa tenha sido minha luta mais difícil.

Não aceitar a morte dela.

Mas aceitar o silêncio de Jesus depois dela.

Durante muito tempo, a ausência de resposta também pareceu uma resposta.

Uma resposta dura.

Fria.

Distante.

Houve noites em que orei esperando sentir qualquer consolo.

Qualquer sinal.

Qualquer explicação.

E nada vinha.

Só silêncio.

Naquele momento eu queria gritar com Deus...

Eu gritei.

Queria exigir respostas.

Queria um milagre.

Mas Ramah…

Ramah não parecia zangada.

Mesmo morrendo, ela ainda olhava para mim com ternura.

E suas últimas forças não foram usadas para reclamar.

Nem para perguntar “por quê”.

Ela apenas segurou minha mão com dificuldade e sussurrou:

— Segue Jesus.É tudo o que eu te peço.

Às vezes acho que aquelas palavras me perseguiram mais do que qualquer sermão.

Porque ela morreu me entregando exatamente aquilo que eu mais lutava para entregar:

confiança.

Durante muito tempo, também quis entender por que Jesus não a salvou.

Por que algumas pessoas eram curadas.

E outras não.

Por que algumas histórias recebiam milagres.

E outras recebiam despedidas.

Passei metade da vida esperando que Jesus me explicasse tudo.

Mas, no fim, descobri que maturidade não era ter todas as respostas.

Era continuar caminhando mesmo quando elas não vinham.

Talvez essa tenha sido a maior mudança em mim.

Antes, eu precisava tocar para acreditar.

Agora, às vezes, preciso acreditar mesmo sem poder tocar.

Quando fui enviado para a Índia, senti medo.

Mais do que admiti aos outros.

Pedro parecia nascer pronto para agir.

João parecia descansar em certezas profundas.

Até Mateus conseguia organizar o caos melhor do que eu.

Mas minha mente…minha mente nunca descansava.

Às vezes eu invejava os outros.

Invejava a rapidez com que conseguiam confiar.

Enquanto eu continuava preso dentro das próprias perguntas.

Mesmo assim, fui.

Talvez coragem não seja ausência de medo.

Talvez coragem seja apenas continuar andando apesar dele.

Quando cheguei à Índia, senti que estava entrando em outro mundo.

As roupas eram diferentes.

As comidas eram diferentes.

As músicas eram diferentes.

As pessoas rezavam de formas que eu nunca tinha visto.

Havia perfumes no ar.

Especiarias.

Templos.

Elefantes.

Mercadores.

Línguas que eu não entendia.

Durante semanas, me senti estrangeiro em tudo.

Às vezes eu acordava no meio da noite e sentia falta da Galileia.

Sentia falta do lago.

Sentia falta das vozes conhecidas.

Sentia falta até das discussões.

E sentia falta de Ramah...

Minha doce Ramah.

Por muito tempo, achei que nunca deixaria de sentir.

Às vezes eu via mulheres caminhando pelos mercados da Índia e lembrava do jeito como 

ela andava.

Do jeito como sorria.

Do jeito como conseguia me fazer acreditar que eu podia ser mais leve.

Eu queria que ela tivesse visto aqueles lugares.

Queria que tivesse conhecido aquelas pessoas.

Queria ter contado a ela que o mundo era muito maior do que imaginávamos.

No começo, achei que precisaria ensinar tudo.

Mas logo entendi que também precisava aprender.

Aprender a ouvir.

Aprender os costumes.

Aprender a enxergar como Deus já estava agindo ali antes mesmo de eu chegar.

Conheci homens sábios.

Mulheres fortes.

Pessoas que nunca tinham ouvido o nome de Jesus, mas que reconheceram Sua bondade 

quando ouviram falar Dele.

Foi ali que entendi uma coisa.

Jesus não veio apenas para o meu povo.

Nem apenas para Jerusalém.

Nem apenas para Roma.

Ele veio para todos.

Para pescadores.

Para reis.

Para escravos.

Para estrangeiros.

Para pessoas que rezam de joelhos.

E para pessoas que rezam olhando para o céu.

Ainda assim, houve momentos difíceis.

Houve quem me chamasse de louco.

Houve quem me chamasse de blasfemo.

Houve quem quisesse me calar.

Houve dias em que preguei sem acreditar que alguém realmente me ouviria.

Dias em que falei sobre esperança enquanto tentava impedir minha própria fé de desmoronar.

E houve noites em que minha própria mente voltou a me atacar.

“E se você estiver errado?”

“E se tudo isso terminar em fracasso?”

“E se a dúvida nunca tiver ido embora?”

Talvez ela nunca tenha ido completamente.

Talvez apenas tenha aprendido a não me governar mais.

Porque eu já tinha passado tempo demais fugindo da dúvida para fugir também da verdade.

Se antes fui o homem que precisou tocar nas feridas de Jesus para acreditar…

Agora eu era o homem disposto a carregar minhas próprias feridas por acreditar.

E Ramah continuou viajando comigo.

Em cada estrada.

Em cada oração.

Em cada memória.

Às vezes penso que Jesus sorri quando lembra de mim.

Porque, entre todos os homens, escolheu justamente o mais desconfiado para atravessar o mundo inteiro falando sobre fé.

E talvez tenha sido exatamente por isso.

Porque ninguém entende melhor o valor da certeza…do que alguém que já viveu sufocado 

pelas dúvidas.


Apóstolo Tomé

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