Lendas GARO : Jabi e Rekka: Graciosas e fatais - Capítulo 01
Jabi e Rekka: graciosas e fatais
Capítulo 1 — O Chamado da Espada e do Espírito
Meu pai dizia que alguns guerreiros Makai nascem para proteger pessoas. Outros nascem para desafiar tudo ao redor.
E segundo Kouga Saejima, colocar Jabi e Rekka juntas era como aproximar fogo de pólvora.
Hoje, observando as duas, entendo que ele estava errado em apenas uma coisa.
Fogo e pólvora explodem rápido.
Elas queimavam devagar.
Aprendi a observar sacerdotisas Makai através do meu pai. Mas aprendi a compreendê-las através de Gonza Kurahashi.
Gonza dizia que os guerreiros mais perigosos não são os que escondem emoções. São os que transformam emoções em combustível.
E Jabi e Rekka faziam exatamente isso — só que de formas tão diferentes que demorei anos para perceber que estavam fazendo a mesma coisa.
O templo abandonado nas montanhas permanecia envolto numa névoa que parecia guardar memórias ruins.
O ar tinha gosto de ferro velho, incenso queimado e madeira úmida.
Talismãs presos às colunas tremiam sem vento algum.
O chão estava coberto por selamentos antigos riscados às pressas — marcas de gente que tentou conter algo que jamais deveria ter despertado.
Havia urgência naqueles traços. Desespero, talvez.
O tipo de símbolo que só se risca quando já não há mais tempo.
Fui o primeiro a entrar. Mas logo parei.
Jabi estava lá antes de mim.
No centro do salão, ela permanecia ajoelhada.
O pincel madō flutuava lentamente entre seus dedos enquanto símbolos espirituais surgiam no ar como tinta viva.
Os traços não eram apenas magia. Eram caligrafia ritualística.
Cada movimento dela possuía precisão quase hipnótica — a curvatura exata do pulso, a pressão certa nos pontos de ancoragem, a pausa milimétrica antes de cada novo símbolo.
Não parecia combate.
Parecia alguém escrevendo proteção sobre o próprio mundo.
Observei admirado.
Não por falta de urgência.
Mas porque interromper aquilo teria sido como rasgar uma página antes do fim.
— Estranho… O Inga está respirando.
A frase saiu baixa.
Mas imediatamente o templo pareceu apertar ao redor dela. Como se algo tivesse ouvido.
Então veio a voz.
— Uma sacerdotisa sozinha. Que desperdício.
O Horror surgiu entre as sombras.
Seu corpo parecia feito de mármore rachado e fumaça púrpura.
Rostos petrificados se contorciam sob a armadura grotesca — rostos humanos, todos com expressão de quem foi apanhado no exato momento em que percebeu que não haveria salvação.
O espaço ao redor dele tremia levemente, como se a realidade rejeitasse sua presença mas não tivesse força suficiente para expulsá-lo.
Jabi levantou-se devagar.
Calma.
Elegante.
Perigosa.
Não havia medo nela.
Havia algo pior: familiaridade. Como se já tivesse visto esse tipo de monstro muitas vezes e soubesse exatamente qual seria o custo de sobreviver.
— Você está longe demais do cheiro de Hekate para fingir importância.
O Horror rugiu e avançou.
Jabi moveu-se imediatamente.
Mas não como alguém fugindo.
Como alguém conduzindo um ritual.
O pincel madō girou entre seus dedos enquanto talismãs explodiam em luz azul.
Correntes espirituais surgiram do chão como raízes vivas.
Os leques Makai abriram-se num estalo elegante e o ar mudou de direção — não de forma aleatória, mas calculada, como quem redireciona um rio conhecendo cada pedra do leito.
Ela dançava como se bailasse no ar.
Não pela beleza.
Mas porque sobreviver daquela forma exigia ritmo absoluto.
Cada passo tinha propósito.
Cada giro criava distância ou ancoragem.
Cada pausa era uma armadilha.
O Horror tentou golpeá-la.
Errou.
Jabi inclinou o corpo para trás num movimento impossível para alguém sem anos de disciplina silenciosa.
As bandeiras vermelhas giraram ao redor dela como serpentes ritualísticas enquanto o pincel riscava símbolos luminosos no ar — proteção, contenção, prisão.
Era belo.
E, ao mesmo tempo triste.
Porque havia naquela graça algo de solidão acumulada.
O tipo de perfeição que só se desenvolve quando não há mais ninguém ao lado para dividir o peso.
Então o Horror atravessou os feitiços.
Como fumaça atravessando água.
— Fraca!
O golpe destruiu parte do chão.
Jabi deslizou para trás.
Pela primeira vez vi hesitação nos olhos dela.
Pequena. ..
Rápida.
Mas suficiente para o Inga perceber.
Suficiente para que eu percebesse também.
Aquele Horror não era apenas resistente.
— Ele absorve energia espiritual… — sussurrou ela.
E então o chão do templo rachou ao meio.
O assobio veio antes da figura.
Swoosh.
A cabeça do Horror separou-se do corpo.
Uma figura aterrissou entre os destroços.
Agora era Rekka que entrava em ação.
A Makai Blade vibrava em sua mão enquanto duas bandeiras espirituais surgiam atrás dela como labaredas vermelhas em plena tempestade.
Havia poeira no cabelo. Sangue no punho direito.
E nos olhos — algo que não era medo, não era fúria, era algo mais profundo e mais difícil de nomear.
A determinação de quem já perdeu coisas demais para ter medo de perder mais.
Tudo nela era o oposto de Jabi.
Onde Jabi fluía, Rekka rompia.
Onde Jabi analisava, Rekka avançava.
Mas havia beleza nela também.
A beleza brutal de uma tempestade — o tipo que não pede permissão, não negocia trajetória, não recua diante de obstáculos.
O tipo de beleza que só existe no movimento.
Parada, ela parecia prestes a explodir.
Em movimento, parecia inevitável.
— Você estava brincando com ele? — desafiando Jabi de modo jocoso.
A resposta veio seca:
— Estava rastreando.
Rekka se mostra inconformada:
— ELE QUASE ARRANCOU SUA CABEÇA!
Jabi não muda a postura:
— E você destruiu meu selamento.
— Porque você demora demais!
Rekka avançou um passo.
Jabi cruzou os braços.
— Você sempre invade tudo desse jeito?
— Funciona!
— Como um touro atravessando um altar.
A tensão entre as duas cresceu imediatamente.
As bandeiras espirituais de Rekka vibraram.
Os talismãs de Jabi responderam.
Mesmo sem se moverem, pareciam prestes a lutar.
Havia no ar entre elas uma carga acumulada — não apenas daquela batalha, mas de algo muito anterior.
De encontros passados que nenhuma das duas mencionava mas ambas carregavam.
Rusgas antigas...
Mal resolvidas.
E ainda assim…havia intimidade ali.
Uma familiaridade agressiva que só existe entre pessoas acostumadas a sobreviver juntas. Não a intimidade de quem se gosta facilmente — mas a de quem já esteve do lado errado da mesma batalha e sobreviveu para brigar a respeito disso.
Rekka explode:
— Fala isso de novo.
Jabi fecha os olhos, abrindo-os em seguida , demonstrando enfado.
— Temperamental.
Rekka se mostra mais irritada:
— Você gosta de me irritar?!
A resposta veio mais seca ainda:
— Muito...
Havia algo nos lábios de Jabi naquele momento.
Não era crueldade.
Era quase ternura — a ternura torta de quem sabe exatamente como acordar alguém do torpor sem ser gentil.
Antes que Rekka respondesse, um selo Makai surgiu entre ambas.
A voz espiritual ecoou pelo templo:
— Hekate despertou.
— O Horror que devora graça e identidade.
— A espada sozinha será consumida.
— O espírito sozinho será quebrado.
— Apenas duas sacerdotisas capazes de confrontar uma à outra poderão vencê-lo.
Silêncio.
Pesado.
O tipo de silêncio que cai quando uma verdade inconveniente enche o espaço inteiro.
Jabi se mostra incomodada:
— Não preciso dela.
— Curioso. Eu ia dizer exatamente o mesmo.
Rekka apontou a espada.
— Se você me atrasar...
— Você vai gritar, quebrar alguma parede e ignorar estratégia? Já percebi o padrão.
Literalmente, elas me ignoraram.
Era como se eu não tivesse ali.
Rekka cerrou os dentes.
Jabi sorriu ainda mais.
Porque talvez aquelas provocações fossem o jeito mais próximo de afeto que Rekka aceitava sem recuar.
Uma forma torta e honesta de dizer: eu te vejo. Eu conheço seus padrões. Ainda estou aqui.
Então Jabi começou a caminhar para fora do templo.
— Você nem sabe para onde Hekate foi.
Jabi não se virou.
— Sei sentir desespero espiritual a quilômetros.
Uma pausa.
— E no momento consigo sentir o seu bem atrás de mim.
Jabi finalmente se dirige a mim:
— Vamos, Raiga! Veja a sacerdotisa preferida do seu pai, fazer a diferença.
Rekka ficou imóvel por um segundo.
Depois a seguiu.
Não porque concordava.
Mas porque havia algo em Jabi que a puxava — da mesma forma que fogo puxa quem está com frio, mesmo sabendo que queima.
Ela se vira pra mim e diz:
— Seu pai sempre soube que eu sou mais efetiva.
E enquanto observava as duas deixando o templo, percebi algo que meu pai jamais admitiria em voz alta: algumas pessoas nascem incompatíveis apenas até aprenderem a lutar no mesmo ritmo.
E talvez o problema não fosse que Jabi e Rekka fossem opostos demais.
Talvez o problema fosse que eram semelhantes demais onde mais importava.
E isso assustava as duas mais do que qualquer Horror.




Um episódio realmente inteligente, e digo isso porque, quando se consegue pinçar exatamente o que teria necessidade de destaque, e não ficar repetindo cenas e acontecimentos, isso é um ato de escrita inteligente! Para quem acompanha Garo, explicar Horror, local, acontecimento, história, motivação, isso fica claro em todo episódio, mas este não era um episódio comum, era pra enfatizar detalhes, os que realmente chamam a atenção considerando os personagens, e tu fez isso magistralmente... Jabi, sua seriedade, sua intimidação, sua perfeição nos movimentos e como os movimentos chegavam a realmente hipnotizar... Rekka e sua postura agressiva, sem conversa, brutal e por vezes afoita, sem admitir óbvio, sempre ciente de que estava sempre, um passo atrás de Jabi! E Raiga, analisando perfeitamente, as diferenças, qualidades e ressalvas à cada uma, e como elas afetaram a vida de seu pai... Jabi, muito antes de Kaoru, já impressionava, embora nada de concreto ou sequer de insinuação por parte de Kouga, já Rekka, chegou depois de Kaoru, ela jamais teria qualquer atenção de Kouga... Para Jabi, houve uma época em que poderia ter florescido, para Rekka, essa chance nunca houve, e isso, de novo, a colocava um passo atrás de Jabi! São duas personagens incríveis, marcantes, creio que se deva colocar ambas como elenco principal da franquia, assim como Raiga, sem dúvidas, mas o fato é que, a visão colocada neste episódio é perfeita, e descreve essas duas lendas makai como elas mereciam! Parabéns meu amigo, excelente trabalho!!
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