Metal Heroes Memories - A infancha de Jaspion no.Planeta de Edin- Capítulo 01
Capítulo 01 — O Menino das Planícies de Cristal
As auroras de Edin não simplesmente surgiam.
Elas cantavam.
Primeiro vinha a luz azul atravessando os céus violetas do planeta.
Depois, as montanhas cristalinas refletiam tons dourados que corriam pelas planícies como rios luminosos.
Então o vento despertava — suave, antigo, carregando sons que pareciam memórias esquecidas do universo.
Edin era um planeta vivo.
Não apenas de matéria.
Mas de espírito.
Os habitantes acreditavam que as estrelas guardavam consciência, e que toda criatura nascida sob sua luz carregava um fragmento do cosmos dentro de si.
Por isso existiam os Ritos da Aurora, realizados no início de cada ciclo lunar.
Crianças e anciões reuniam-se diante dos espelhos cristalinos para ouvir os “ecos do céu”: vibrações produzidas pelas montanhas quando o vento solar atravessava a atmosfera de Edin.
Alguns ouviam música.
Outros ouviam vozes.
Havia quem chorasse sem entender por quê.
E havia um garoto que escutava perguntas.
E jamais se contentava com respostas fáceis.
Seu nome era Jaspion.
Obediente… mas inquieto.
Brincalhão… mas observador.
Corajoso quando precisava ser.
Travesso quase o tempo todo.
Naquele tempo, porém, ele ainda não era o Filho das Estrelas.
Nem o lendário Tarzã Galáctico, como gostava de dizer com orgulho exagerado sempre que queria irritar Anri.
Era apenas um menino correndo pelas planícies cristalinas com os olhos cheios de curiosidade.
— Jaspion! — gritou Anri ao longe. — Você prometeu ajudar nos arquivos estelares!
A voz metálica da jovem androide ecoou pelas colinas.
Jaspion surgiu atrás de uma formação cristalina segurando três pequenas frutas luminosas roubadas do jardim sagrado.
— Tecnicamente eu prometi tentar ajudar.
— Você também prometeu não entrar no jardim dos anciões.
— E eu tentei não entrar.
Anri cruzou os braços.
— Tentou?
— Tentei muito.
Ela suspirou.
Mesmo sendo uma androide, já aprendera que discutir lógica com Jaspion raramente funcionava.
O garoto sorriu com expressão vitoriosa e saiu correndo outra vez.
Do alto de uma formação mineral, Edin observava a cena em silêncio.
E sorria discretamente.
Havia serenidade naquele velho sábio. Seus cabelos prateados moviam-se com o vento como fios de luz antiga, e suas vestes pareciam feitas do próprio céu do planeta.
Mas seus olhos carregavam algo mais profundo.
Cansaço.
Um cansaço de quem sobrevivera tempo demais.
— Jaspion… você corre como se estivesse tentando alcançar o horizonte outra vez — disse Edin com sua voz grave.
O garoto parou no topo da colina.
O vento atravessava seus cabelos enquanto os cristais refletiam luz ao redor dele.
— E se o horizonte estiver fugindo de mim?
Edin soltou uma breve risada.
— O horizonte não foge. Ele apenas espera que alguém tenha coragem de alcançá-lo.
Jaspion gostava dessas frases.
Nem sempre as entendia.
Mas as guardava como pequenos pedaços de estrela.
Naquela manhã, atravessou os campos até o Lago Miran, onde as criaturas sagradas costumavam repousar durante o nascer das luas gêmeas.
Os Lumis.
Seres antigos semelhantes a cervos cristalinos envoltos por energia azul translúcida.
Os sábios diziam que os Lumis conseguiam sentir a verdade no coração das pessoas.
O ar próximo ao lago era frio e carregava perfume de flores minerais que cresciam às margens da água luminosa. Pequenos sinos de vento presos às árvores cristalinas produziam sons suaves que se misturavam ao eco distante das montanhas.
Jaspion aproximou-se lentamente de um dos Lumis.
O animal ergueu a cabeça.
Silêncio.
Vento.
Luz.
Então o Lumi tocou sua mão com o focinho luminoso.
Ao longe, Edin observava.
E pela primeira vez em muitos anos… sentiu medo.
Porque os Lumis não escolhiam qualquer pessoa.
— Ele sente… — murmurou.
— O quê? — perguntou Anri, aproximando-se.
Edin demorou a responder.
— Destino.
Naquela noite, durante o Ritual da Aurora, as montanhas começaram a emitir frequências suaves.
As famílias reuniram-se ao redor da fogueira central enquanto os cristais brilhavam sob o céu estrelado. O aroma de ervas solares queimadas preenchia o ar, e os mantos cerimoniais refletiam pequenas partículas luminosas como se cada habitante carregasse estrelas costuradas nas roupas.
Mas Jaspion estava distante.
Sentado sozinho perto das margens do Vale de Lumnia.
Ali o vento quase não soprava.
As pedras refletiam o céu com tanta perfeição que parecia impossível distinguir onde terminava o universo e onde começava o chão.
Era naquele lugar que ele costumava conversar com o silêncio.
Em suas mãos havia um pequeno fragmento metálico queimado nas bordas.
E uma fotografia antiga.
As únicas peças restantes da nave de seus pais.
Ele carregava aqueles objetos desde criança.
Não porque lembrasse claramente deles.
Mas porque tinha medo de esquecer.
Edin aproximou-se devagar e sentou-se ao lado dele.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Apenas observaram as estrelas refletidas no lago.
— Você veio conversar com elas outra vez? — perguntou o velho sábio.
Jaspion permaneceu olhando o céu.
— O senhor acha que elas conseguem me ouvir?
Edin sorriu de leve.
— Às vezes acho que são elas que falam conosco.
O garoto apertou o fragmento metálico entre os dedos.
— Eu quase não lembro do rosto deles…
A frase saiu baixa.
Frágil.
Edin permaneceu em silêncio.
Porque algumas dores precisam encontrar espaço antes das palavras.
— Tento lembrar da voz da minha mãe… mas tudo fica confuso.
Jaspion baixou os olhos para a pequena fotografia.
— Isso é errado?
— Não.
— Mas tenho medo de esquecer completamente.
Edin tocou o peito do garoto com suavidade.
— Memórias não vivem apenas na mente, Jaspion.
— Onde vivem então?
— Aqui.
O garoto respirou fundo.
Então perguntou aquilo que evitara durante anos:
— Como eles morreram?
O vento cessou naquele instante.
A pergunta veio intensa.
Honesta.
Exatamente como a essência daquele menino.
Por um breve momento, os olhos de Edin escureceram.
Antigas lembranças atravessaram seu olhar como fantasmas silenciosos.
Sua voz quase falhou.
Quase.
— A nave em que viajavam atravessava o Cinturão Nebular de Darvos… — respondeu calmamente. — Houve uma explosão durante a travessia.
— Um acidente?
Pequena pausa.
Quase invisível.
Edin desviou os olhos por um instante antes de responder:
— Foi o que os registros indicaram…
Jaspion não percebeu a hesitação.
Apenas abaixou a cabeça.
— Eu devia sentir mais tristeza?
A pergunta atingiu Edin profundamente.
Porque somente crianças órfãs conseguiam fazer perguntas daquele jeito.
Sem proteção.
Sem máscaras.
— Às vezes sinto saudade de pessoas que mal consigo lembrar… e depois me sinto culpado por isso.
O velho sábio observou o céu.
As estrelas pareciam muito distantes naquela noite.
— O amor não desaparece só porque a memória enfraquece — disse ele.
Jaspion ergueu os olhos.
— Não?
— Existem laços que sobrevivem até mesmo ao tempo.
As luzes cristalinas dançavam pela relva ao redor deles.
— Seus pais amavam você. E parte deles continua viva em tudo aquilo que você escolhe se tornar.
O garoto permaneceu em silêncio.
Mas algo dentro dele compreendeu aquelas palavras.
Como uma estrela despertando lentamente.
— Às vezes tenho medo de perder mais pessoas — confessou.
Edin fitou o menino longamente.
Ali estava a verdadeira origem do herói.
Não a coragem.
Nem a profecia.
Mas o medo da perda.
E ainda assim… a capacidade de continuar amando.
— O universo sempre tentará tirar algo de nós — disse o velho profeta. — Pessoas. Lugares. Tempo.
Ele colocou a mão sobre o ombro do garoto.
— Mas existe algo que nem a escuridão consegue destruir.
— O quê? — perguntou Jaspion, com sua curiosidade habitual.
Edin sorriu tristemente.
— A capacidade de continuar se importando.
Os olhos de Jaspion marejaram discretamente.
Ele voltou a olhar o céu.
As estrelas ainda eram silenciosas.
Ainda distantes.
Mas já não pareciam vazias.
E sem perceber, apertou contra o peito o fragmento metálico e a fotografia antiga.
Como alguém tentando proteger não apenas lembranças…
Mas a última ligação que ainda possuía com aqueles que um dia o chamaram de filho.

Muito bom, achei muito legal essa ideia de acompanhar a infância do personagem, isso foi muito legal! Eu não sabia que a Anri já existia quando o Jaspion era criança, achei que era depois quando ele se aproximou da adolescência ou de partir para a missão já, mas que ficou muito legal imaginar essa visão da infância de um Jaspion criança, foi muito bem pensado! Parabéns pelo trabalho meu amigo, vamos ver se consigo acompanhar!!
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