Projeto The Chosen - Os escolhidos: Vozes depois d´Ele - CAPÍTULO 11 - SHMUEL
Capítulo 11---Shmuel
A Dúvida Que Prevaleceu
Passei muitos anos acreditando que estava defendendo Deus.
A Lei.
O Templo.
As tradições.
Eu realmente acreditava nisso.
Quando ouvi falar de Jesus pela primeira vez, achei que Ele era apenas mais um pregador
popular.
Mais um homem perigoso.
Mais alguém capaz de confundir o povo.
No começo, minha raiva era sincera.
Eu O julgava arrogante.
Irresponsável.
Uma ameaça.
Mas tudo começou a mudar quando fui obrigado a vê-Lo de perto.
Vi milagres.
Vi cegos enxergarem.
Vi paralíticos andarem.
Vi homens cruéis se tornarem gentis.
Vi mulheres quebradas recuperarem a dignidade.
E isso me perturbava.
Porque homens maus não costumam deixar esse tipo de rastro.
Ainda assim, resisti.
Talvez porque admitir que Jesus era quem dizia ser significasse admitir que eu estava
errado.
E homens como eu não aprendem facilmente a viver com esse tipo de vergonha.
Quando tudo aconteceu, eu estava lá.
Vi o Sinédrio se apressar.
Vi testemunhas mentirem.
Vi homens que diziam defender a verdade fazerem exatamente o contrário.
E, mesmo assim, não fui embora.
Não levantei a voz.
Não O defendi.
Carrego isso todos os dias.
Depois da crucificação, continuei vivendo.
Continuei trabalhando.
Continuei frequentando o Templo.
Mas nada parecia igual.
Yussif tentava falar comigo.
Nicodemos também.
Os dois insistiam que Jesus havia ressuscitado.
Insistiam que ainda havia tempo.
Mas eu não conseguia.
Não porque não acreditasse que algo extraordinário tivesse acontecido.
Talvez, no fundo, eu acreditasse.
Talvez esse fosse justamente meu problema.
Porque, se Jesus realmente era o Messias, então eu havia ajudado a condenar o Ungido de
Deus.
Como alguém continua vivendo depois disso?
Hoje, enquanto Jerusalém cai e o Templo queima, sinto que estou vendo o fim de tudo
aquilo que passei a vida tentando proteger.
E talvez isso seja uma espécie de julgamento.
Ou talvez seja misericórdia.
Porque, quando as pedras caem, sobra apenas a verdade.
E a verdade é que nunca consegui esquecer Jesus de Nazaré.
Nunca consegui esquecer Seu olhar.
Nunca consegui esquecer a forma como falava.
Nunca consegui esquecer a paz que havia Nele.
Passei a vida inteira tentando decidir quem Ele era.
E agora, perto do fim, começo a temer que Nicodemos estivesse certo.
Que Yussif estivesse certo.
Que aquele homem que condenamos fosse, de fato, quem dizia ser.
Talvez eu tenha demorado tempo demais.
Mas ainda assim, pela primeira vez em muitos anos, me peguei fazendo uma oração que
nunca tive coragem de fazer:
“Se Tu eras realmente o Messias… ainda existe perdão para alguém como eu?”
Rabino Shmuel
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