Projeto The Chosen : Vozes depois d'Ele - CAPÍTULO 2 - ÉDEN
Capítulo 02---Éden
As Mulheres Que Sustentavam Tudo
Quando
me casei com Simão, achei que minha vida seria
simples.
Peixe.
Rede.
Casa.
Família.
Achei
que meus dias seriam feitos de pequenas
preocupações.
Dinheiro.
Comida.
Filhos.
E
talvez Deus tivesse outros planos.
Porque,
antes mesmo de eu entender quem Jesus era, Ele já estava mudando a
minha vida.
No
começo, achei que seria apenas Simão seguindo um rabino.
Depois
achei que seria apenas uma fase.
Depois
achei que seria só uma viagem longa.
Mas
Jesus não mudou apenas meu marido.
Mudou
todos nós.
Mudou
a casa.
Mudou
o jeito como eu via as pessoas.
Mudou
o jeito como eu via a mim mesma.
E
começou com algo que eu nunca esqueci:
Ele
curou minha mãe.
Eu
ainda lembro do dia.
A
febre alta.
O
corpo fraco.
O
medo silencioso dentro de casa.
E
então Jesus entrou.
Sem
alarde.
Sem
pressa.
Tocou
nela.
E
a febre foi embora.
Simples
assim.
Mas
nada mais foi simples depois disso.
Porque,
quando alguém toca a sua casa dessa forma…
você
nunca mais consegue viver como antes.
Por
muito tempo, achei que meu papel era esperar.
Esperar
Simão voltar.
Esperar
notícias.
Esperar
a próxima cidade.
Esperar
a próxima dificuldade.
Mas
houve um dia em que percebi que Jesus nunca pediu que as mulheres
apenas esperassem.
Nós
também servíamos.
Nós
também ensinávamos.
Nós
também sustentávamos.
Enquanto
os homens pregavam para multidões, nós ouvíamos gente chorando em
silêncio.
Enquanto
eles viajavam, nós ficávamos com as viúvas.
Enquanto
discutiam Escritura, nós cuidávamos dos doentes, das crianças, dos
velhos e dos esquecidos.
E
havia muitas de nós.
Maria
Madalena.
Tamar.
Marta.
Maria
de Betânia.
Joana.
Ramah.
E
tantas outras.
Mulheres
sem nome.
Mulheres
que cozinhavam.
Que
limpavam.
Que
acolhiam.
Que
escutavam.
Que
enterravam mortos.
Que
seguravam outras mulheres enquanto elas choravam.
Às
vezes, penso que a Igreja teria caído nos primeiros anos se não
fossem as mulheres.
Porque
sempre havia alguma coisa para sustentar.
Sempre
havia alguém precisando de cuidado.
E
nós aprendemos a fazer isso umas com as outras.
Mas
houve um tempo…
em
que eu não consegui sustentar nem a mim mesma.
Depois
que perdi meu filho…
algo
em mim também caiu.
Não
foi de uma vez.
Foi
aos poucos.
No
silêncio da casa.
Na
ausência do choro.
No
vazio que ninguém sabia preencher.
Eu
tentei continuar.
Mas
havia dias em que eu não conseguia olhar para Simão sem sentir
raiva.
Raiva
dele.
Raiva
de mim.
Raiva…
até de Jesus.
Porque
Ele curava tantos.
E
não curou o meu filho.
Maria
Madalena ficou ao meu lado.
Salomé
também.
Elas
não explicavam.
Elas
permaneciam.
E
isso, às vezes, era tudo o que eu conseguia suportar.
Foi
então que ouvi as palavras do rabino Yussif.
Falava
de purificação.
De
dor que precisa ser atravessada… não escondida.
Disseram
que eu deveria ir ao tanque.
Eu
não quis.
Parecia
pouco demais.
Naquela
mesma noite, Jesus veio jantar conosco.
Em
um momento, Ele se aproximou de mim.
E
disse:
—
Filha…
eu vejo o seu sofrimento.
—
Eu
entendo o seu luto.
Minha
voz saiu quase como acusação:
—
O
Senhor é o Messias…
—
por
que eu vou buscar em outro o que só o Senhor pode fazer?
Jesus
não respondeu.
Ele
apenas me olhou.
E
naquele olhar… havia confiança.
No
dia seguinte, fui.
Salomé
foi comigo.
Minha
mãe também.
Yussif
leu palavras antigas.
Palavras
de alguém que quase desistiu de Deus…
mas
decidiu permanecer.
Entrei
na água tremendo.
E,
pela primeira vez…
não
pedi respostas.
Só
não quis me perder.
E
algo mudou.
Não
a dor.
Mas
o lugar dela dentro de mim.
E
naquele momento… pensei em Simão.
E
orei por ele.
Naquele
mesmo instante, ele lutava contra o mar.
E
Jesus o segurava.
Depois
disso… eu nunca mais fui a mesma.
Depois
que perdi a esperança de ter filhos…
achei
que nunca mais conseguiria olhar para uma criança sem dor.
Mas
Deus foi bondoso comigo.
Não
como eu pedi.
Mas
como eu precisava.
Os
filhos do pai de Simão se tornaram meus.
Depois
vieram outros.
Órfãos.
Filhos
de viúvas.
Crianças
esquecidas.
E
entre eles… Marcos.
Ele
não era meu por sangue.
Mas
passou a ser meu por escolha.
Como
um filho do coração.
Aprendi
muito olhando para Maria.
E
também para João…
na
forma como cuidava dela.
Ali
eu entendi que família não é só o que nasce.
É
o que permanece.
Nossa
casa nunca ficou vazia.
Às
vezes faltava comida.
Às
vezes faltava dinheiro.
Às
vezes faltava força.
E,
depois da ressurreição, faltou ainda mais.
As
ausências de Simão pesavam.
E
houve momentos em que eu não sabia como continuar.
Foi
quando Joana e Gaius se ofereceram para nos ajudar.
Simão
resistiu.
Orgulhoso.
Ferido.
—
Não
precisamos disso — ele disse.
Eu
olhei para ele… e respondi:
—
Precisamos,
sim.
Ele
ficou em silêncio.
Então
continuei:
—
Sem
Joana… sem Suzana… sem aqueles que sustentaram o ministério de
Jesus…
—
o
Evangelho não teria ido além de poucas cidades.
Ele
desviou o olhar.
—
É
isso que você quer, Simão?
Ele
não respondeu.
Mas
eu sabia que não.
—
Roma
representa o mundo — eu disse.
—
E
as Boas Novas precisam alcançar o maior número de pessoas
possível.
Ele
respirou fundo.
E
então eu disse, mais baixo:
—
Você
foi chamado para isso.
Ele
se lembrou.
Eu
vi no rosto dele.
“Apascenta
as minhas ovelhas.”
E
então ele chorou.
E
eu o abracei.
E
naquele momento eu entendi:
Eu
não sustentava só a casa.
Eu
sustentava aquele homem também.
Hoje,
quando penso em tudo…
não
lembro apenas dos milagres.
Lembro
das cozinhas cheias.
Das
crianças correndo.
Das
mulheres reunidas.
Das
noites silenciosas.
Porque
a Igreja nunca foi construída só por quem pregava.
Mas
por quem permanecia.
E
eu tenho orgulho… de
ter sido uma delas.

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