Projeto The Chosen: Vozes depois d´Ele - CAPÍTULO 08 FOTINA

 

 

Capítulo 08---Fotina

                         A Samaritana Que Seguiu em Frente

Ainda lembro do som da água.

Do calor.

Do peso do cântaro em minhas mãos.

E do olhar dEle.

Passei anos acreditando que minha vida já estava decidida.

Que eu seria apenas a mulher sobre quem todos cochichavam.

A mulher que evitava outras mulheres.

A mulher que caminhava sozinha até o poço no pior horário do dia para não precisar ouvir julgamentos.

Eu já tinha me acostumado a viver assim.

Porque existe um momento em que a vergonha deixa de ferir…
e começa a parecer identidade.

Eu sabia reconhecer desprezo sem que ninguém precisasse dizer nada.

Os silêncios.

Os olhares rápidos.

As conversas interrompidas quando eu me aproximava.

Por isso eu ia ao poço sozinha.

Era mais fácil enfrentar o calor do meio-dia do que certas pessoas.

Até encontrar Jesus.

Ou talvez seja mais correto dizer: até Ele me encontrar.

Porque eu não O procurava naquele dia.

Eu só queria buscar água e voltar para casa.

Mas Ele estava lá.

Sentado.

Cansado.

Com sede.

E, ainda assim, foi como se fosse eu quem estivesse diante de alguém capaz de matar a sede 

da alma.

Tudo começou de maneira simples.

Não com acusação.

Não com sermão.

Não com condenação.

Com sede.

Como se Deus tivesse escolhido entrar na minha vida pela porta mais humana possível.

No começo achei que Ele fosse apenas mais um homem querendo medir meus erros.

Mas Jesus fazia perguntas de um jeito perigoso.

Porque não perguntava para humilhar.

Perguntava para arrancar verdades escondidas debaixo das feridas.

E quando falou da minha vida…

eu senti medo.

Porque Ele sabia.

Tudo.

Os casamentos.

Os erros.

As noites vazias.

A vergonha.

As vezes em que tentei fingir que nada daquilo me atingia.

E existe algo assustador em ser vista completamente…

e ainda assim não ser rejeitada.

Mesmo sabendo tudo, Ele não falou comigo como os outros homens falavam.

Não havia desprezo.

Não havia ironia.

Não havia pena.

Havia dignidade.

Jesus olhou para mim como se eu ainda pudesse ser alguém.

E aquilo mudou tudo.

As pessoas pensam que o maior milagre daquele dia foi eu acreditar.

Mas não.

O maior milagre foi eu voltar para a cidade.

Porque eu passei anos fugindo das pessoas.

E, de repente, estava correndo para elas.

Passei anos querendo desaparecer.

E, de repente, queria ser vista.

Passei anos escondendo minha voz.

E, de repente, queria contar a todos quem Jesus era.

Foi naquele dia que descobri que ninguém fala com mais coragem do que uma pessoa que 

já não tem mais nada a perder.

Mas transformação não é o mesmo que apagar o passado.

Jesus mudou minha vida.

Mudou mesmo.

Só que Samaria nunca deixava ninguém esquecer quem você foi.

Depois daquele encontro, minha vida nunca mais foi tranquila.

Mas, aos poucos, deixou de ser apenas sobrevivência.

Eu aprendi a viver.

Aprendi a confiar de novo.

Aprendi a construir uma casa sem medo de perdê-la.

Aprendi até a acreditar que talvez eu merecesse paz.

Na Samaria, conheci um homem bom.

Não perfeito.

Bom.

E isso já era raro.

Ele sabia quem eu tinha sido.

Sabia dos rumores.

Sabia dos olhares.

Mesmo assim ficou.

Nos casamos de maneira simples.

Sem grande celebração.

Sem confiança completa da cidade.

Mas havia paz.

Uma paz pequena.

Frágil às vezes.

Porém real.

E, pela primeira vez, senti que Deus não estava apenas me dando uma missão.

Estava me dando também uma vida.

Nossa casa se tornou abrigo para viajantes, discípulos e mulheres expulsas de suas famílias.

Muitas vezes anunciávamos juntos as boas novas.

Eu falava nas praças.

Nos poços.

Nas casas.

Falava para mulheres que acreditavam já ter perdido tudo.

E dizia a elas aquilo que um dia Jesus disse sem palavras para mim:

que ainda havia futuro.

Mas nem todos aceitavam isso.

Havia pessoas que ouviam minhas palavras…

mas nunca deixavam de me enxergar através do meu passado.

Mulheres que recebiam minhas orações…mas recolhiam os filhos quando eu passava.

Homens que chamavam minha casa de abrigo…mas sussurravam “pecadora” quando pensavam que eu não escutava.

Alguns aceitavam minha fé.

Mas não minha voz.

No começo isso me destruía.

Porque eu tinha mudado.

Eu sabia que tinha.

Meu marido sabia.

As pessoas próximas sabiam.

Mas existe uma crueldade silenciosa em perceber que alguns preferem a versão quebrada 

de alguém.

Porque ela os faz sentir superiores.

Houve noites em que chorei escondida.

Noites em que perguntei a Deus se minha antiga vida me perseguiria para sempre.

E o pior era perceber que, às vezes, eu mesma ainda carregava vergonha dentro de mim.

Como se uma parte da minha alma acreditasse que aqueles julgamentos talvez estivessem 

certos.

Foi nessa época que comecei a entender algo difícil:

Jesus havia me perdoado imediatamente.

Mas eu ainda precisava aprender a viver como alguém perdoada.

E isso demorava.

Mais do que eu gostaria.

Mais do que eu admitia.

Houve um dia em que uma mulher afastou discretamente sua jarra da minha durante uma 

reunião.

O gesto foi pequeno.

Quase invisível.

Mas eu percebi.

Porque pessoas feridas pela rejeição percebem essas coisas imediatamente.

Naquela noite chorei em silêncio.

E então lembrei do poço.

Do olhar de Jesus.

Da maneira como Ele falou comigo diante de todos sem demonstrar vergonha.

Foi ali que entendi algo.

Jesus nunca fingiu que meu passado não existia.

Ele apenas decidiu que meu passado não teria a última palavra.

Isso me sustentou.

Continuei servindo.

Continuei acolhendo mulheres rejeitadas.

Continuei visitando doentes.

Continuei anunciando o Reino em Samaria.

E, com o tempo, comecei a perceber algo inesperado:

minhas cicatrizes começaram a abrir portas.

Porque pessoas quebradas raramente procuram quem parece perfeito.

Elas procuram quem sobreviveu.

Ajudei outras mulheres.

Vi Maria Madalena mudar.

Vi Tamar encontrar força.

Vi Eden descobrir um ministério próprio.

Vi Maria, mãe de Jesus, se tornar abrigo para tantos.

E percebi que nós, mulheres, não éramos apenas testemunhas.

Nós carregávamos parte da história.

Mesmo quando alguns homens não entendiam isso.

Alguns achavam que deveríamos servir em silêncio.

Outros achavam que nossa fé era importante… mas nossa voz não.

Mas Jesus nunca nos tratou assim.

Ele falava conosco.

Nos escutava.

Nos enviava.

Foi uma mulher quem anunciou aos discípulos que o túmulo estava vazio.

Foi uma mulher quem correu para uma cidade inteira depois de encontrar o Messias.

Foi uma mulher quem ungiu Jesus antes de Sua morte.

Nós não éramos um detalhe.

Éramos parte da obra.

Hoje, tantos anos depois, enquanto Jerusalém treme sob o peso da destruição, às vezes penso no poço.

Penso naquela água.

Naquele calor.

Naquele olhar.

Tudo ao meu redor mudou.

A cidade mudou.

O Templo mudou.

As pessoas mudaram.

Mas a voz dEle continua igual dentro de mim.

E, quando sinto medo, ainda me lembro da primeira coisa que Jesus me ensinou:

Que ninguém está tão quebrado…a ponto de não poder recomeçar.


Fotina , a samaritana 


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