Projeto The Chosen: Vozes depois d´Ele - CAPÍTULO 05 MARIA MADALENA
CAPÍTULO 5 ---Maria Madalena
O Ministério das Mulheres
Ainda existem noites em que acordo assustada.
Não porque ainda ache que os demônios vão voltar.
Mas porque, por muitos anos, eu me acostumei a acreditar que não merecia paz.
A culpa faz isso.
Mesmo quando as correntes caem…
parte de nós continua ouvindo os sons delas.
Jesus mudou isso.
Não de uma vez.
Não como em uma história simples.
Mesmo depois de ser liberta, ainda houve dias em que tive medo.
Dias em que me senti pequena.
Dias em que achei que iria decepcioná-Lo.
Mas Jesus nunca me olhou como alguém quebrada.
Ele me olhava como alguém que podia recomeçar.
E talvez seja isso que mais sinto falta.
A forma como Ele fazia cada pessoa acreditar que ainda havia algo bom dentro dela.
Poucos dias antes da cruz, nós nos reunimos.
As mulheres.
Sua mãe.
Eden.
Tamar.
Marta.
Maria de Betânia.
Joana.
Ramah.
E tantas outras.
Já existia tristeza naquele dia.
Mesmo antes de entendermos tudo.
Era como se nossos corações soubessem que estávamos nos despedindo.
Então começamos a falar.
Uma de cada vez.
Falando sobre aquilo que Jesus tinha feito em nós.
Sobre aquilo que Ele tinha mudado.
Sobre aquilo que jamais esqueceríamos.
Eu falei sobre a primeira vez que ouvi meu nome sair da boca Dele.
Sobre a primeira vez que alguém me olhou sem medo.
Sem desprezo.
Sem pena.
E, depois de cada lembrança, nós respondíamos juntas:
Dayenu.
Teria sido suficiente.
Se Ele tivesse apenas nos visto quando ninguém mais nos via, teria sido suficiente.
Dayenu.
Se Ele tivesse apenas nos chamado para perto quando todos nos afastavam, teria sido suficiente.
Dayenu.
Se Ele tivesse apenas nos ensinado que Deus não nos odiava, teria sido suficiente.
Dayenu.
Mas Ele fez mais.
Muito mais.
Ele nos devolveu dignidade.
Nos devolveu voz.
Nos devolveu coragem.
E, mesmo sabendo que a cruz estava próxima, naquele momento eu percebi uma coisa.
Jesus não estava indo embora deixando apenas discípulos.
Ele estava deixando pessoas transformadas.
Pessoas que jamais conseguiriam voltar a ser o que eram antes.
Depois da ressurreição, eu continuei servindo com as outras mulheres.
Visitando doentes.
Acolhendo viúvas.
Preparando comida.
Levando mensagens.
Orando.
Às vezes as pessoas falam dessas coisas como se fossem pequenas.
Mas não eram.
A Igreja sobreviveu porque havia gente disposta a amar nos detalhes.
E, mesmo assim, nem todos entendiam isso.
Havia homens sinceros…
mas presos ao medo.
Havia líderes que aceitavam nossa ajuda…
desde que ela permanecesse invisível.
Alguns ainda achavam estranho ver mulheres ensinando.
Estranho ver mulheres viajando.
Estranho ver mulheres liderando outras pessoas.
Estranho ver mulheres falando sobre Deus com autoridade.
Passamos anos ouvindo que nosso lugar era apenas atrás.
Em silêncio.
Escondidas.
E aquilo cansava.
Cansava explicar repetidamente que não queríamos dominar ninguém.
Cansava perceber que alguns aceitavam nossas mãos servindo…
mas não nossas vozes falando.
Houve cidades em que precisei ensinar atrás de portas fechadas.
Casas silenciosas.
Janelas cobertas.
Mulheres entrando aos poucos para não chamar atenção.
Às vezes eu falava baixo não por humildade…
mas por medo.
Medo de escandalizar.
Medo de atrair violência.
Medo de que fechassem ainda mais as portas para outras mulheres depois de mim.
Paulo era um homem bom.
E sofreu muito por Jesus.
Vi suas cicatrizes.
Vi seu cansaço.
Vi sua coragem.
Mas também vi o peso que ele carregava.
As igrejas cresciam rápido demais.
As perseguições aumentavam.
As heresias se espalhavam como febre.
E, às vezes, ele temia que qualquer mudança brusca provocasse ainda mais divisões.
Houve momentos em que ele acreditava que permitir mulheres pregando livremente nas assembleias causaria escândalo demais.
Especialmente entre os judeus mais rígidos.
Especialmente nas cidades dominadas por homens que já procuravam motivos para destruir a Igreja.
Eu entendia seu medo.
Mas, às vezes, o medo também aprisiona homens bons.
Porque eu lembrava de Jesus.
Ele conversou conosco em público.
Permitiu que aprendêssemos aos Seus pés.
Nos ouviu.
Nos enviou.
Confiou em nós.
Foi a mim que Ele apareceu primeiro depois da ressurreição.
Não a um sacerdote.
Não a um escriba.
A mim.
E houve dias em que eu quis perguntar a todos eles:
Se Jesus não teve medo de nos dar voz…
por que vocês têm?
Nem todos gostavam da minha presença.
Nem todos gostavam da maneira como eu falava sobre liberdade.
Lembro de um ancião, numa assembleia, interrompendo minhas palavras antes que eu terminasse.
Ele disse que mulheres emocionavam demais os ouvintes.
Que poderíamos confundir os novos convertidos.
Que nossa função era servir, não ensinar.
Eu me calei.
Não porque ele estivesse certo.
Mas porque eu estava cansada de lutar o tempo inteiro para existir dentro de lugares que também eram meus.
Naquela noite chorei sozinha.
Não de raiva.
De desgaste.
Porque às vezes o preconceito não vem como um golpe.
Vem como pequenas portas se fechando lentamente diante de você.
E, enquanto isso, outros perigos cresciam.
Havia grupos surgindo por toda parte tentando nos afastar dos apóstolos.
Homens que diziam possuir “conhecimento secreto”.
Diziam que entendiam mistérios escondidos que Pedro não entendia.
Que João não entendia.
Que os outros não entendiam.
Alguns me procuravam constantemente.
Diziam que eu tinha sido escolhida para liderar um novo caminho.
Um caminho “mais profundo”.
“Mais espiritual”.
“Livre das limitações dos apóstolos.”
Mas havia algo errado neles.
Sempre havia orgulho demais.
Segredos demais.
Desprezo demais pelos simples.
Desprezo demais pelo corpo.
Eles falavam como homens apaixonados pelo próprio conhecimento.
Não como homens apaixonados por Deus.
Alguns tentaram usar meu nome para ganhar autoridade.
Outros começaram a espalhar histórias sobre mim que jamais aconteceram.
Diziam que eu possuía revelações escondidas.
Que Jesus havia confiado verdades secretas apenas a mim.
Que os apóstolos haviam falhado em compreender Sua mensagem verdadeira.
Mentiras.
Perigosas mentiras.
E o pior era perceber que pessoas começavam a acreditar nelas.
Homens que nunca caminharam conosco passaram a dizer que me conheciam melhor do que os próprios discípulos.
Às vezes isso me assustava.
Sentir meu nome escapando das minhas mãos.
Como se tentassem transformar minha história em algo que já não me pertencia.
Mas eu me recusei a abandonar os apóstolos.
Recusei-me a abandonar Pedro.
Recusei-me a abandonar João.
Recusei-me a transformar Jesus em símbolo de vaidade espiritual.
Porque eu os vi sangrar.
Vi o medo deles.
Vi a fraqueza deles.
Mas também vi sua fidelidade.
Os homens que caminharam com Jesus não eram perfeitos.
Às vezes eram impulsivos.
Às vezes duros.
Às vezes lentos para entender.
Mas eram verdadeiros.
E eu preferia a verdade imperfeita deles…
ao orgulho elegante daqueles homens.
Pedro entendia mais do que muitos imaginavam.
João também.
Eles sabiam que nós não estávamos tentando ocupar o lugar de ninguém.
Só queríamos continuar servindo.
Por isso, muitas vezes, encontraram maneiras de nos proteger.
Nem sempre podíamos falar diante de todos.
Mas podíamos ensinar em casas.
Podíamos cuidar de grupos de mulheres.
Podíamos orientar crianças.
Podíamos preparar missionários.
Podíamos acolher convertidos.
Podíamos sustentar a Igreja de formas que muitos homens sequer percebiam.
E talvez tenha sido exatamente isso que salvou tantas comunidades.
Porque enquanto alguns discutiam autoridade…
outros lavavam feridas.
Enquanto alguns disputavam doutrinas…
outros enterravam mortos.
Enquanto alguns sonhavam com poder…
outras pessoas mantinham o amor vivo dentro da Igreja.
Foi isso que aprendi com Jesus.
Nem todo milagre precisa ser grandioso.
Às vezes, um pedaço de pão.
Uma visita.
Um abraço.
Uma palavra dita na hora certa.
Também podem mudar uma vida.
Ainda sinto saudade.
Muita.
Mas, quando a saudade aperta, lembro daquele dia.
Das vozes das mulheres se unindo.
Das lágrimas.
Do sorriso de Jesus.
E lembro que, mesmo se Ele tivesse feito apenas uma única coisa por mim…
Teria sido suficiente.
Dayenu.

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