Projeto The Chosen: Vozes depois d´Ele: CAPÍTULO 12 DÉBORA

 

 


CAPÍTULO 12---
Débora
A Irmã Que Perdeu Dois Homens

Eu perdi meu irmão duas vezes.

A primeira foi quando ele decidiu entregar Jesus.

A segunda… foi quando decidiu não voltar.

As pessoas falam de Judas como se ele tivesse nascido errado.

Como se sempre tivesse sido escuro.

Como se nunca tivesse rido.

Como se nunca tivesse cuidado de ninguém.

Mas eu me lembro dele antes.

Lembro dele menino.

Magro.

Sério.

Sempre tentando parecer mais velho do que era.

Quando nosso pai morreu, Judas ainda era muito novo.

Mas começou a agir como se precisasse proteger todo mundo.

Ele dividia pão.

Consertava portas.

Fazia contas.

Tentava esconder quando estava com medo.

Meu irmão nunca suportou se sentir impotente.

Talvez tenha sido isso que o destruiu.

Porque Jesus fazia coisas impossíveis.

E Judas acreditou que, se pressionasse o suficiente… Jesus finalmente faria o que ele esperava.

Mostrar força.

Derrubar Roma.

Assumir o lugar que todos acreditavam que era dEle.

Judas não queria destruir Jesus.

Queria obrigá-Lo a agir.

E quando percebeu que tinha entendido tudo errado… já era tarde.

Mas antes da raiva… houve desespero.

Pedro me entregou a carta.

As mãos dele tremiam.

As minhas também.

Eu reconheci a letra de Judas antes mesmo de abrir.

Meu irmão sempre apertava demais a tinta nas palavras.

Como se até escrevendo precisasse controlar o que sentia.

Eu li uma vez.

Depois outra.

E outra.

“Estou confuso...

Estou quebrado...

Estou sem rumo...

A morte infame certamente será meu alívio...

Não apagará meu erro...

Tenho certeza disso...”

Eu continuei lendo.

Cada linha parecia arrancar alguma coisa de dentro de mim.

Porque ali estava meu irmão.

Assustado.

Confuso.

Arrependido.

“Eu amava Jesus.

Repito isso com toda a força que me resta...”

Foi isso que me destruiu.

Porque eu acreditei nele.

Acreditei quando escreveu que amava Jesus.

Acreditei quando escreveu que achava que podia obrigá-Lo a agir.

Acreditei quando escreveu que não queria destruí-Lo.

Só queria que Ele finalmente se tornasse aquilo que Judas esperava.

E, pela primeira vez, entendi o tamanho do erro do meu irmão.

Não foi falta de amor.

Foi excesso de certeza.

Foi acreditar mais na própria lógica do que na forma como Jesus escolhia agir.

Mas o que mais me destruiu…

foi perceber que, no fim, Judas já não conseguia enxergar a si mesmo como alguém que ainda pudesse ser amado.

“O que fiz foi imperdoável...

Não tem mais volta...”

Eu queria gritar com aquela carta.

Queria dizer que tinha volta.

Que ainda dava tempo.

Que Pedro também tinha errado.

Que Tomé também tinha duvidado.

Que todos eles tinham fugido.

Mas Judas já não estava ali para ouvir.

E talvez essa seja a pior parte da culpa.

Ela convence a pessoa de que é tarde demais… mesmo quando ainda não é.

Depois da morte dele, eu senti raiva.

Raiva dele.

Raiva dos discípulos.

Raiva de todos que continuavam vivendo.

Mas, principalmente…

raiva de Jesus.

Porque Ele impediu tempestades.

Curou cegos.

Ressuscitou mortos.

Então por que não impediu Judas?

Por que não segurou sua mão?

Por que não o encontrou antes?

Por que não o fez voltar?

E havia algo ainda pior.

Parte de mim começou a ter medo de Jesus.

Medo de olhar para Ele… e enxergar reprovação.

Medo de que olhasse para mim e visse apenas o sangue da traição.

Porque ninguém dizia meu nome sem lembrar de Judas.

E, aos poucos, comecei a acreditar que talvez Jesus também não conseguisse.

Ninguém respondia.

Maria Madalena me abraçou uma vez.

Eu achei que ela fosse defender Jesus.

Mas ela chorou.

Chorou por Judas.

Pedro também.

Isso me irritou no começo.

Parecia injusto.

Eles ainda tinham histórias.

Ainda tinham propósito.

Ainda tinham futuro.

Meu irmão só tinha culpa.

Naquela manhã, saí cedo.

Precisava ficar longe de tudo.

Das vozes.

Das orações.

Da esperança dos outros.

Fui até um campo onde costumava colher flores quando era menina.

As mesmas flores pequenas.

Brancas.

Frágeis.

Eu me ajoelhei.

E chorei.

Chorei por Judas.

Pela vergonha.

Pelo silêncio.

Pelo fato de que ninguém jamais olharia para mim sem lembrar dele.

Então ouvi passos.

Leves.

Quase como vento sobre grama seca.

Achei que fosse alguém da aldeia.

Mas quando ergui os olhos…

Era Ele.

Jesus.

Não cercado de luz.

Não distante.

Apenas ali.

Como alguém que tinha vindo me encontrar.

Eu não consegui falar.

Só fiquei olhando.

Para as marcas nas mãos.

Para o rosto.

Para os olhos.

Os mesmos olhos.

Sem acusação.

Sem pressa.

Sem medo da minha raiva.

— Devoráh…

Eu comecei a chorar de novo.

Porque fazia muito tempo que alguém dizia meu nome daquele jeito.

Como se eu ainda fosse mais do que dor.

Então Ele se aproximou.

E disse:

— Débora.

Eu olhei para Ele sem entender.

E, pela primeira vez desde a morte de Judas… senti que estava respirando de novo.

Como se Devoráh fosse a mulher esmagada pela culpa.

Mas Débora…

Débora ainda pudesse continuar.

— Seu irmão fez escolhas.

— Você não precisa morrer com elas.

Eu chorei mais.

Porque era isso.

Era exatamente isso que eu estava fazendo.

Carregando uma morte que não era minha.

Uma condenação que não era minha.

Tentando pagar por um erro que eu não tinha cometido.

Então Jesus se ajoelhou perto das flores espalhadas no chão.

Tocou uma delas com cuidado.

E disse:

— Algumas pessoas acreditam que, quando algo é ferido, deixa de ter valor.

— Meu Pai não pensa assim.

Eu cobri o rosto com as mãos.

Porque, naquele momento, percebi outra coisa: eu tinha passado dias 

tentando entender Judas… mas nunca tinha permitido que Deus ainda 

enxergasse algo em mim.

— Vá em frente — Ele disse.

— Conte o que viu.

— Conte que Eu vivo.

E então sorriu.

Não como alguém que ignorava minha dor.

Mas como alguém que sabia que ela não seria a última coisa sobre mim.

Quando Ele foi embora…eu ainda estava ajoelhada.

Com flores nas mãos.

E pela primeira vez desde que Judas morreu…

eu não senti vergonha.

Senti chamado.

Meu irmão escolheu a culpa.

Mas Jesus escolheu me chamar pelo nome.

E, quando Ele me chamou de Débora…

eu entendi que minha história não precisava terminar onde a de Judas terminou.


Dévorah/Débora (irmã de Judas)

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