Projeto The Chosen : Vozes depois d´Ele - CAPÍTULO 04- JOÃO

 




Capítulo 04 ---João

O Preço de Permanecer

Às vezes as pessoas acham que sobreviver é mais fácil do que morrer.

Não é.

Morrer acontece num instante.

Permanecer…
é um tipo de crucificação lenta.

Perder meu irmão foi difícil.

Perder Jesus foi pior.

Mas continuar vivendo depois disso tudo também teve seu peso.

Houve dias em que eu quis descansar.

Dias em que eu olhava para os lugares por onde tínhamos passado e sentia que o mundo inteiro havia se tornado um memorial.

As pedras lembravam.

O vento lembrava.

O mar lembrava.

Tudo carregava fantasmas.

Eu lembrava de Tiagão.

Lembrava de Pedro.

De André.

De Paulo.

De todos os que foram partindo.

E, de algum jeito, eu continuava aqui.

Velho.

Respirando.

Sobrevivendo a homens maiores do que eu.

Às vezes isso me assustava.

Porque comecei a sentir que Deus estava me deixando por último por um motivo.

E eu não sabia se queria descobrir qual era.

Talvez por isso Jesus tenha me confiado Sua mãe.

Porque Ele sabia que, se eu não aprendesse a cuidar de alguém, a saudade acabaria me devorando vivo.

Maria viveu conosco por muitos anos.

E mesmo depois da cruz…
mesmo depois de ter visto o próprio Filho ensanguentado…
ela ainda carregava uma paz que eu jamais consegui compreender completamente.

Às vezes eu acordava durante a noite e a encontrava rezando.

Não pedindo que a dor fosse embora.

Não perguntando por que Deus permitira aquilo.

Apenas agradecendo.

Agradecendo por ainda poder servir.

Aquilo me desconcertava.

Porque eu ainda tinha perguntas que queimavam dentro de mim.

Ela tinha cicatrizes…
mas eu tinha medo.

Foi com Maria que aprendi que permanecer também é uma forma de coragem.

Mas eu não era corajoso o tempo todo.

As pessoas sempre esperavam grandes discursos de mim.

Esperavam revelações.

Esperavam sinais.

E eu odiava decepcioná-las.

Porque a verdade é que, quanto mais velho eu ficava, menos respostas eu tinha.

E mais peso eu carregava.

Havia noites em que eu sentia um desconforto estranho dentro da alma.

Como se algo estivesse se aproximando.

Algo grande.

Algo inevitável.

Os rumores aumentavam.

Guerras.

Fomes.

Perseguições.

Homens enlouquecidos pelo poder.

Irmãos entregando irmãos.

Comunidades se partindo por orgulho.

E, às vezes, enquanto eu orava, sentia um frio impossível de explicar.

Como se o mundo estivesse caminhando lentamente para uma ferida aberta.

Eu não entendia tudo.

Mas percebia.

O tempo estava ficando pesado.

As pessoas riam nas ruas…
mas o espírito delas estava cansado.

Roma parecia eterna.

Os palácios brilhavam.

Os soldados marchavam.

Os mercados continuavam cheios.

Mas havia podridão por trás do ouro.

E eu comecei a temer as revelações que Deus colocava diante de mim.

Porque elas não vinham como histórias distantes.

Vinham como avisos.

Visões rápidas.

Fragmentos.

Sombras.

Às vezes eu via multidões correndo.

Às vezes ouvia gritos durante a oração.

Outras vezes acordava com o coração acelerado, sentindo que havia visto algo terrível…
mesmo sem conseguir lembrar completamente.

Eu tinha medo de dormir.

Medo do que Deus ainda queria mostrar.

Porque compreender o futuro também pode ser uma maldição.

E havia momentos em que eu desejava não ver nada.

Desejava apenas envelhecer em silêncio.

Mas o Senhor não me permitia descansar dessa forma.

Quanto mais eu tentava fugir daquelas sensações…
mais elas cresciam.

Até Patmos.

Quando fui levado para lá, achei que seria o fim.

Uma ilha fria.

Pedras.

Mar.

Silêncio.

Eu já estava velho.

Cansado.

E, pela primeira vez em muitos anos, senti medo de morrer sozinho.

Não o medo da morte.

O medo do abandono.

O medo de desaparecer lentamente enquanto o mundo seguia sem mim.

As noites em Patmos eram longas.

Longas demais.

O vento batia contra as pedras como um lamento.

E o silêncio…
o silêncio era tão profundo que meus próprios pensamentos começaram a me assustar.

Foi ali que as revelações vieram com força.

Não como ideias.

Como presença.

Como fogo.

Como um peso impossível de suportar sozinho.

Vi coisas que ainda hoje me fazem tremer.

Impérios caindo.

O mundo sangrando.

Homens adorando aquilo que os destruiria.

Vi medo nos olhos das pessoas.

Vi orgulho consumindo nações inteiras.

Vi a fé de muitos esfriar como brasas abandonadas.

E o pior não era enxergar a destruição.

Era perceber que o coração humano continuaria escolhendo as trevas mesmo depois de tantos avisos.

Houve momentos em que chorei.

Momentos em que pedi ao Senhor que parasse.

Porque eu já estava cansado demais para carregar visões tão pesadas.

Mas Jesus nunca me deixou sozinho.

Nem ali.

Nem no exílio.

Nem na velhice.

Nem no medo.

E foi em Patmos que finalmente entendi uma coisa.

O Reino de Deus não tinha fracassado.

Roma ainda parecia forte.

Jerusalém já não era mais a mesma.

Muitos dos nossos tinham morrido.

O mundo parecia caminhar para o caos.

Mas Jesus continuava reinando.

Acima dos imperadores.

Acima das guerras.

Acima do medo.

E nenhum império podia impedir isso.

Às vezes me perguntam se ainda sinto saudade.

Sinto.

De Tiagão.

De Pedro.

De Maria.

De todos.

Mas acho que a saudade deixou de ser apenas dor.

Agora ela é promessa.

Porque Jesus prometeu que nos veríamos de novo.

E eu acredito Nele.

Acreditei quando era jovem.

Acreditei quando vi a cruz.

Acreditei quando vi o túmulo vazio.

Acreditei em Patmos…
mesmo tremendo diante das revelações.

E continuo acreditando agora.

Até o fim. 



Apóstolo João

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