Metal Heroe Memories - A infância de Jaspion no Planeta de Edin - Capítulo 02
Capítulo 2 — O Nome Proibido
Três anos depois…
Os ventos mudaram em Edin.
As aves luminosas migraram antes da estação.
Os Lumis tornaram-se inquietos.
E os espelhos minerais das montanhas começaram a emitir frequências graves que pareciam atravessar o próprio espaço.
Algo estava errado.
Até o planeta parecia sentir.
Edin observava tudo em silêncio do alto do observatório ancestral.
Porque já vira sinais assim antes.
Muitos séculos atrás.
Antes da queda de mundos inteiros.
Abaixo das plataformas cristalinas, sons metálicos ecoavam pelo campo de treinamento.
Golpes.
Impactos.
Explosões curtas de energia.
Jaspion terminava mais uma sequência de combate contra drones de treinamento projetados pelos antigos sábios de Edin.
Seu corpo estava exausto.
As mãos feridas.
A respiração pesada.
Parte da roupa encontrava-se chamuscada por disparos energéticos recentes.
Mesmo assim…
Ele sorria.
— Se isso continuar assim, daqui a pouco vou precisar lutar contra um planeta inteiro! — reclamou enquanto desativava um dos drones com um chute giratório.
Ao longe, Anri observava segurando um painel holográfico.
— Tecnicamente, você perdeu equilíbrio em dezessete por cento dos movimentos finais.
Jaspion revirou os olhos.
— Você consegue transformar qualquer vitória numa bronca.
— Alguém precisa compensar sua tendência natural ao caos.
— “Tendência natural ao caos” foi ofensivo.
— Foi estatisticamente preciso.
Jaspion soltou uma risada curta.
Mesmo cansado, ainda encontrava espaço para brincar.
Esse era seu jeito de sobreviver ao peso das coisas.
Pouco depois, já recuperado parcialmente, subiu até o observatório principal, onde encontrou Edin diante dos mapas estelares.
Os pilares metálicos projetavam galáxias sobre o ar como constelações vivas.
Milhares de sistemas brilhavam diante deles.
Exceto uma região.
Uma mancha escura no centro do mapa.
Como uma ferida aberta no universo.
O sorriso de Jaspion desapareceu aos poucos.
— O que é aquilo?
Edin demorou a responder.
— Uma cicatriz…
— De quê? — insistiu o garoto.
O velho sábio fechou os olhos.
Então respondeu em tom quase enigmático:
— Daquilo que restou depois da passagem da escuridão.
Jaspion aproximou-se lentamente.
Seu raciocínio rápido e suas perguntas cada vez mais incisivas frequentemente surpreendiam Edin.
Havia sede genuína por respostas naquele garoto.
E algo mais.
Uma inquietação impossível de ignorar.
— Existe mesmo algo capaz de destruir planetas inteiros?
— Sim.
— Quem faria isso?
Edin permaneceu imóvel.
Observando o reflexo das estrelas nos olhos de Jaspion.
Definitivamente havia algo diferente nele.
Algo que ia além da coragem.
Além da inteligência.
Além do destino.
Talvez fosse a maneira como ainda conseguia manter luz dentro de si apesar das perdas.
Edin suspeitava do que aquilo significava.
Mas ainda hesitava.
Porque certos nomes carregavam peso demais.
Especialmente nomes antigos.
Especialmente nomes amaldiçoados.
Mas diante do olhar firme daquele garoto que o destino lhe confiara…
Finalmente respondeu:
— Satã
O vento cessou.
As luzes do observatório oscilaram.
Como se o próprio planeta tivesse reagido ao nome.
Jaspion sentiu um arrepio atravessar o corpo.
Sem perceber, cerrou os punhos.
— Ele é um monstro?
Edin virou-se lentamente para ele.
Sua expressão tornara-se mais grave do que nunca.
— Jaspion… ouça bem.
A voz do velho sábio parecia mais pesada.
Mais antiga.
— Satã Goss é mais do que um monstro. Ele transforma monstros. Alimenta-se do medo, do ódio e da dor existente dentro dos seres vivos.
As imagens holográficas começaram a mudar.
Planetas em ruínas.
Civilizações reduzidas a poeira cósmica.
Frotas destruídas vagando pelo vazio.
— Ele é a encarnação de todo o mal do universo.
Jaspion observava em silêncio.
Sua respiração tornou-se mais lenta.
Pesada.
Pela primeira vez, o universo pareceu grande demais.
Perigoso demais.
Edin continuou:
— Onde ele passa… a esperança começa a morrer.
O garoto sentiu um vazio estranho crescendo dentro do peito.
Não era apenas medo.
Era a sensação de encarar algo impossível.
— E ninguém conseguiu pará-lo? — perguntou finalmente, cerrando ainda mais os punhos.
Edin fitou o garoto longamente.
— Muitos tentaram.
— E falharam?
— Alguns perderam a vida.
Pequena pausa.
— Outros perderam a alma.
O silêncio tornou-se pesado.
As estrelas brilhavam ao redor deles.
Distantes.
Frias.
Então Jaspion perguntou:
— E se ele vier para Edin?
Edin aproximou-se da grande janela do observatório.
As luas gêmeas iluminavam as planícies cristalinas abaixo.
— Então alguém precisará enfrentá-lo.
O semblante de Jaspion mudou.
Por um instante, parecia mais velho do que realmente era.
Mais determinado.
Então sorriu de lado.
— Esse alguém serei eu.
Edin voltou-se para ele.
Antes que pudesse responder, porém, Jaspion já retomava o jeito brincalhão de sempre.
— Mas antes disso… vê se conserta aquela imprestável da Anri pra ela aprender a cozinhar direito. Eu tô morrendo de fome. Esse treinamento quase acabou comigo.
Edin ficou em silêncio por dois segundos.
Então começou a rir.
Uma risada genuína.
Rara.
— Vou revisar a programação dela. Pode deixar.
— Finalmente alguém lúcido nesse planeta.
Na entrada do observatório, Anri cruzou os braços.
— Eu ouvi isso.
Jaspion apontou imediatamente para Edin.
— Foi ele quem concordou comigo.
— Traidor — respondeu Anri olhando para o velho sábio.
Edin gargalhou ainda mais.
Jaspion era assim.
Um instante parecia sério demais para alguém tão jovem.
No instante seguinte, fazia piada apenas para impedir que o peso do universo esmagasse o ambiente.
E talvez…
Talvez fosse exatamente isso que fazia dele alguém especial.
Naquela noite, durante o jantar, Jaspion surpreendeu Anri ao repetir o prato.
— Tá melhor que ontem — disse ele. — Muito bom.
Anri ergueu uma sobrancelha.
— Isso foi um elogio?
— Não se acostuma.
— Considerando que fui programada para cuidar de você, mereço adicional de insalubridade emocional.
Jaspion fez uma careta.
— Tá vendo, Edin? Ela tá cada dia mais assustadora.
Edin apenas ria observando os dois.
Mas mais tarde…
Quando as luzes da cidadela se apagaram…
Jaspion não conseguiu dormir.
As palavras de Edin ecoavam dentro dele.
“Perderam a alma.”
“A esperança começa a morrer.”
“Satã Goss.”
Levantou-se em silêncio.
Sem chamar atenção, caminhou sozinho até as regiões mais afastadas do planeta.
Precisava respirar.
Precisava fugir daquela sensação estranha crescendo dentro do peito.
O vento noturno era frio.
As planícies estavam silenciosas.
Então ouviu um som.
Fraco.
Um gemido.
Seguiu o ruído até uma formação cristalina e encontrou uma pequena criatura alada caída entre as pedras.
Ferida.
Assustada.
Tentando se mover sem conseguir.
Jaspion ajoelhou-se imediatamente.
Toda a inquietação desapareceu por um instante.
— Ei… calma… eu vou ajudar você.
O animal tentou recuar.
Mas o garoto apenas rasgou parte da própria túnica e improvisou um curativo.
Suas mãos ainda estavam machucadas do treinamento.
Mesmo assim, continuou.
Com cuidado.
Com paciência.
— Pronto… você vai ficar bem.
A criatura o encarou.
E lentamente repousou a cabeça sobre sua mão.
Naquele instante, as pedras ao redor começaram a brilhar.
Uma energia suave atravessou o vale.
Como se o próprio planeta estivesse observando.
Muito distante dali…
Além das galáxias destruídas…
Nas regiões onde a luz mal conseguia sobreviver…
Algo despertou.
Uma presença antiga.
Sombria.
Faminta.
Como se tivesse sentido o nascimento de algo capaz de ameaçá-la.
E pela primeira vez em muitos anos…
O vazio sorriu.

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