Projeto The Chosen - Os escolhidos depois d´Ele - CAPÍTULO 13 - SIMÃO ZELOTE

 

 

CAPÍTULO 13---Simão Zelote

O Homem Que Ainda Procurava a Faca


Passei anos acreditando que Deus precisava de homens violentos.

Homens dispostos a matar.

Homens dispostos a morrer.

Homens dispostos a incendiar Roma até que não sobrasse nada além de cinzas.

Eu acreditava nisso porque era mais fácil do que admitir a verdade.

Eu estava com raiva.

Raiva dos soldados.

Raiva dos impostos.

Raiva dos abusos.

Raiva de ver meu povo sobreviver de joelhos.

Quando entrei para os zelotes, achei que finalmente tinha encontrado propósito.

Eles me deram uma faca.

Um alvo.

Uma causa.

E, por um tempo, isso pareceu suficiente.

Meu mestre chamava-se Johar.

Era um homem inteligente.

Corajoso.

Convincente.

Falava de liberdade como os profetas falavam de esperança.

Quando Johar falava, parecia impossível não acreditar.

Parecia impossível não lutar.

Parecia impossível não odiar.

E eu o segui.

Segui tão longe que deixei para trás coisas que deveriam ter importado mais.

Como meu próprio irmão.

Jesse.

Durante anos, eu disse a mim mesmo que estava fazendo aquilo por ele.

Por nossa família.

Por Israel.

Mas a verdade era mais difícil.

Eu gostava de ter um inimigo.

Gostava de ter alguém para culpar.

Gostava da sensação de estar lutando por algo maior do que eu.

Até Jesus.

Porque nada em mim estava preparado para um Messias que mandava amar inimigos.

Nada em mim estava preparado para ver um romano caminhando entre nós.

Gaius.

Eu olhava para ele e lembrava de tudo.

Das humilhações.

Do sangue.

Das casas invadidas.

Dos impostos.

Da ocupação.

E Jesus simplesmente mandava que eu visse mais.

Aquilo me irritava.

Porque era mais fácil odiar.

Muito mais fácil.

Mas Jesus tinha essa maneira insuportável de não permitir que ninguém permanecesse 

pequeno.

Ele me olhava como se soubesse exatamente quantas vezes eu tinha sonhado com vingança.

E, ainda assim, me chamava para perto.

No começo, achei que Ele fosse mudar de ideia.

Achei que em algum momento pisaria forte.

Chamaria exércitos.

Mandaria fogo do céu.

Expulsaria Roma.

Mas isso nunca aconteceu.

E talvez eu tenha levado mais tempo do que os outros para entender por quê.

Porque eu ainda procurava a faca.

Mesmo quando já estava andando ao lado do Messias.

A pior conversa da minha vida aconteceu com Jesse.

Muito depois de eu começar a seguir Jesus.

Ele me encontrou.

E não estava feliz.

Não havia alegria no rosto dele.

Nem orgulho.

Nem admiração.

Apenas dor.

— Você me abandonou.

Aquilo atingiu mais fundo do que qualquer espada.

Tentei responder.

Tentei explicar.

Mas ele continuou.

—Você fala de salvar Israel.

— Fala de liberdade.

— Fala de justiça.

 Então me diga, Simão...

— Quem salvou sua própria família?

Eu fiquei em silêncio.

Porque não tinha resposta.

Durante anos, achei que estava servindo a Deus.

Mas meu irmão me obrigou a enxergar algo que eu evitava.

Eu havia trocado pessoas reais por uma ideia.

Trocado meu irmão por uma causa.

E aquilo doeu.

Porque era verdade.

Então veio Barrabás.

E o susto que senti ao vê-lo ao lado de Jesus ainda me acompanha.

Eu conhecia aquele rosto.

Conhecia aquele olhar.

Conhecia aquele caminho.

Barrabás havia caminhado entre homens ligados aos mesmos círculos revolucionários que 

eu.

Conhecia Johar.

Conhecia homens que eu conheci.

Homens que acreditavam que a violência salvaria Israel.

Quando o vi diante de Pilatos, senti um frio atravessar minha alma.

Porque não estava olhando apenas para Barrabás.

Estava olhando para uma versão de mim mesmo.

A diferença entre nós era menor do que eu gostaria de admitir.

E então veio a escolha.

Barrabás livre.

Jesus condenado.

Aquilo não fazia sentido.

Não para mim.

Não para ninguém.

Eu olhei para Barrabás.

E ele parecia tão confuso quanto o resto de nós.

Anos depois, encontrei-o novamente.

O homem que vi não era o mesmo.

Havia algo quebrado dentro dele.

Algo que nunca sarou.

Conversamos durante horas.

Pouco sobre política.

Pouco sobre Roma.

Muito sobre culpa.

Foi então que ele me contou.

Disse que, quando ouviu a multidão pedir sua libertação e condenar Jesus...

olhou para o Nazareno.

E sentiu algo impossível de explicar.

Como se estivesse sendo visto por inteiro.

Como se toda sua violência.

Toda sua raiva.

Toda sua história.

Estivesse exposta.

Sem acusação.

Sem ódio.

Sem desprezo.

— Meus pés ficaram livres naquele dia — disse ele.

— Mas minha alma permaneceu acorrentada por muitos anos.

Eu nunca esqueci aquelas palavras.

Porque compreendi exatamente o que ele queria dizer.

Quando Jesus foi preso...quando foi espancado...quando foi humilhado...

quando foi morto...uma parte de mim ficou furiosa.

Eu queria lutar.

Queria puxar uma espada.

Queria matar alguém.

Queria fazer qualquer coisa.

Mas não havia nada a fazer.

Jesus escolheu não resistir.

E isso me destruiu.

Porque percebi que nunca tinha entendido força.

Passei a vida inteira acreditando que força era dominar.

Era vencer.

Era esmagar o inimigo antes que ele esmagasse você.

Mas Jesus...

Jesus era mais forte do que qualquer homem que já conheci.

Porque tinha poder para destruir.

E escolheu amar.

Depois da ressurreição, eu não sabia mais quem era.

Se eu não era um zelote...

Se eu não era um homem de guerra...

O que sobrava?

Foi numa noite, perto da fogueira, que Pedro se sentou ao meu lado.

Nenhum de nós falou por um tempo.

Até que ele disse:

— Acho que Ele sempre soube que seria mais difícil para nós.

Olhei sem entender.

— Homens como nós.

— Homens que resolvem tudo no grito.

— Na força.

— No impulso.

Abaixei a cabeça.

Porque era verdade.

Então Pedro sorriu.

— Talvez seja por isso que Ele nos escolheu.

Naquela noite, chorei sem raiva pela primeira vez.

Com o tempo, Jesse e eu voltamos a caminhar juntos.

Não foi fácil.

Algumas feridas não desaparecem apenas porque pedimos perdão.

Elas precisam aprender a respirar de novo.

Houve conversas difíceis.

Silêncios difíceis.

Memórias difíceis.

Mas Jesus tinha o hábito de reconstruir aquilo que nós considerávamos perdido.

E, pouco a pouco, meu irmão voltou a confiar em mim.

Verônica passou a caminhar conosco em muitas missões.

A mesma mulher que um dia viveu isolada por causa de sua enfermidade.

A mesma mulher que acreditava estar condenada à vergonha.

Agora anunciava esperança.

Visitávamos aldeias.

Ajudávamos viúvas.

Consolávamos famílias.

Levávamos alimento.

Levávamos oração.

Levávamos a história de Jesus.

E muitas vezes eu observava Verônica falando.

Havia uma força tranquila nela.

Não a força das armas.

Nem a força dos discursos.

Mas a força de quem conheceu o sofrimento e sobreviveu.

Muitas mulheres se aproximavam dela.

Porque viam alguém que compreendia suas dores.

E Verônica sempre encontrava tempo para ouvi-las.

Sua própria vida já era um sermão.

Jesse também mudou.

O homem que um dia me acusou de abandoná-lo começou a sorrir novamente.

Não sempre.

Mas cada vez mais.

E houve uma noite, ao redor de uma fogueira, em que ele me olhou e disse:

— Acho que finalmente recuperei meu irmão.

Não consegui responder.

Porque passei anos acreditando que precisava libertar Israel.

E, no fim, foi Jesus quem libertou a mim.

Agora, vendo Jerusalém cair.

Vendo o Templo queimar. 

Também pensei muitas vezes em Gaius.

Se alguém tivesse me dito, nos meus dias de zelote, que eu acabaria chamando um romano de irmão...

eu teria rido.

Ou ficado furioso.

Talvez os dois.

Ainda me lembro da primeira vez que o vi.

Tudo em mim procurava motivos para odiá-lo.

Seu uniforme.

Sua posição.

Sua origem.

Eu não enxergava um homem.

Via apenas Roma.

Via apenas tudo aquilo que eu tinha aprendido a combater.

Mas Jesus insistia em fazer algo que eu detestava.

Ele insistia em transformar símbolos em pessoas.

Com o tempo, comecei a conhecer Gaius.

Suas dúvidas.

Seus medos.

Sua lealdade.

Seu senso de honra.

E percebi algo desconfortável.

Ele não era o monstro que eu havia imaginado.

Era apenas um homem.

Como eu.

Com defeitos.

Com virtudes.

Com feridas.

Anos depois compreendi uma verdade que teria enfurecido o velho Simão.

Aprendi mais sobre amar os inimigos caminhando ao lado de Gaius do que ouvindo dezenas de discursos.

Porque é difícil odiar alguém depois que você aprende sua história.

E talvez tenha sido exatamente isso que Jesus tentou me ensinar desde o começo.

Vendo homens repetirem os mesmos discursos que um dia me seduziram.

Prometendo liberdade através da violência.

Prometendo vitória através do ódio.

Percebo algo que antes jamais entenderia.

Aquele era exatamente o caminho que eu teria seguido.

E teria terminado do mesmo jeito.

Em cinzas.

Roma ainda existe.

As injustiças ainda existem.

O sofrimento ainda existe.

Mas eu já não sou o mesmo homem.

Antes eu carregava uma faca.

Agora...

Eu carrego uma história.

E ela é mais poderosa do que qualquer espada.

Porque a guerra mais difícil que já enfrentei não foi contra Roma.

Foi contra o homem que ainda procurava a faca. 


Apóstolo Simão Zelote

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