The Chosen: Vozes depois d´ELE - CAPÍTULO 14 NAOMI

 



 Capítulo 14--- Naomi 


 A perda que gerou mágoa



Eu costumava acreditar que a dor tinha um limite.

Que existia um ponto em que o sofrimento simplesmente parava.

Estava errada.

A dor não desaparece.

Ela aprende a caminhar conosco.

Depois da morte de Ramah, não perdi apenas minha filha.

Por algum tempo, perdi também meu marido.

Não porque ele tivesse morrido.

Mas porque a dor o transformou em alguém que eu já não reconhecia.

A morte de Ramah abriu uma ferida profunda em Kafni.

E ele decidiu preenchê-la com raiva.

Raiva de Jesus.

Raiva dos discípulos.

Raiva de qualquer pessoa que mencionasse Seu nome.

Eu também estava ferida.

Também estava magoada.

Houve noites em que não consegui orar.

Houve dias em que pronunciar o nome de Jesus fazia meu coração doer.

Eu não O odiava.

Nunca O odiei.

Mas estava magoada.

Profundamente magoada.

Eu O havia visto curar estranhos.

Tinha ouvido histórias de cegos enxergando.

De paralíticos andando.

De leprosos sendo restaurados.

E mesmo assim minha filha morrera.

Quantas vezes perguntei por quê?

Quantas vezes chorei até adormecer?

Quantas vezes desejei uma resposta que nunca veio?

Não perdi a fé.

Mas por algum tempo a fé caminhou ferida.

Como alguém que continua seguindo pela estrada mesmo mancando.

A diferença entre mim e Kafni não era a dor.

Nós dois estávamos sofrendo.

A diferença era que eu continuava olhando para Jesus através das lágrimas.

Enquanto Kafni havia decidido virar o rosto.

Sua revolta cresceu.

Quando Jesus foi preso em Jerusalém, Kafni foi até lá.

E quando voltou, algo dentro dele havia endurecido ainda mais.

Mais tarde descobri a verdade.

Ele estivera entre os agitadores.

Entre os que repetiam acusações.

Entre os que espalhavam mentiras.

Entre os que aceitavam falsos testemunhos.

Entre os que exigiam a condenação de um homem inocente.

Quando ouvi aquilo, senti meu coração se partir novamente.

Não consegui permanecer ao lado dele.

Discutimos.

Choramos.

Gritamos.

E pela primeira vez desde nosso casamento, fui embora.

Voltei para a casa de parentes.

Não porque tivesse deixado de amá-lo.

Mas porque já não conseguia viver ao lado daquele ódio.

Permanecemos separados durante semanas.

Então chegou a notícia.

Kafni estava morrendo.

A febre o consumia.

Os delírios aumentavam a cada dia.

Quando ouvi aquilo, parti imediatamente.

Porque apesar de tudo...ele ainda era meu marido.

Quando cheguei, encontrei Tomé cuidando dele.

Dia após dia.

Noite após noite.

Sem reclamar.

Sem desistir.

Mesmo carregando a própria culpa.

Porque a morte de Ramah também o havia ferido.

Numa das noites mais difíceis, a febre atingiu seu pior momento.

Kafni mal conseguia respirar.

Seu corpo tremia.

Sua pele queimava.

Eu já me preparava para perdê-lo.

Então vi Tomé aproximar-se.

Havia desconforto em seus olhos.

Havia tristeza.

Havia culpa.

Por um momento pareceu incapaz de se mover.

Como se a lembrança de Ramah ainda pesasse sobre seus ombros.

Mas então ajoelhou-se ao lado do leito.

E orou.

Não uma oração longa.

Não uma oração eloquente.

Apenas uma oração sincera.

Pediu misericórdia.

Pediu cura.

Pediu que Jesus fosse glorificado.

Então colocou a mão sobre a testa de Kafni.

E continuou orando.

A paz que invadiu aquele quarto foi diferente de tudo que já havia sentido.

Na manhã seguinte, a febre desaparecera.

A força voltou aos poucos.

Primeiro ele sentou.

Depois caminhou.

Mais tarde voltou às videiras.

Mas a cura do corpo não significou a cura do coração.

A amargura ainda permanecia.

Até o dia em que finalmente o confrontei.

— Você não vai dizer nada?

— Nada sobre o quê?

— Sobre o homem que ficou ao seu lado quando todos acreditavam que você morreria.

O silêncio tomou conta da casa.

Tomé abaixou os olhos.

Kafni permaneceu imóvel.

Então continuei.

— Você culpou Jesus.

— Você O rejeitou.

— Você O acusou pela morte da nossa filha.

Minha voz tremia.

— E mesmo assim um dos discípulos Dele permaneceu aqui.

Longos segundos passaram.

Por fim, Kafni olhou para Tomé.


— Obrigado...Tomé.

Foram apenas duas palavras.

Mas eu sabia o quanto lhe custavam.

Então segurei sua mão.

E disse:

— O homem que você rejeita...

Minha voz falhou.

— ...através de Tomé te curou.

Kafni não respondeu.

Mas pela primeira vez não tentou negar.

Naquela noite sentei-me do lado de fora da casa.

O vento atravessava as videiras.

E pensei em Ramah.

Dias depois tive um sonho.

Vi minha filha sorrindo.

Saudável.

Feliz.

Sem dizer uma palavra.

Apenas sorrindo.

Quando acordei, chorei.

Mas pela primeira vez a lembrança dela não trouxe apenas dor.

Algum tempo depois sonhei novamente.

Ramah estava diante de Jesus.

Ela sorria.

E Ele colocou a mão sobre seu ombro.

Então voltou Seu olhar para mim.

Havia compaixão em Seus olhos.

E ouvi apenas uma frase.

— Ela está feliz.

Quando despertei, minhas lágrimas molhavam o travesseiro.

A dor continuava.

A saudade continuava.

As perguntas continuavam.

Mas algo havia mudado.

Meu coração estava mais leve.

Não porque tivesse recebido todas as respostas.

Mas porque havia recebido consolo.

Naquela noite compreendi algo que jamais esqueceria.

Eu ainda não entendia por que Ramah morrera.

Ainda não entendia por que Jesus não a curara.

Mas já não havia dúvida.

Eu cria.

Porque tinha visto a fidelidade sobreviver ao sofrimento.

Porque tinha visto Tomé permanecer quando poderia ter fugido.

Porque tinha visto meu marido ser alcançado pela misericórdia que antes rejeitava.

Porque tinha visto Jesus continuar transformando vidas mesmo em meio ao luto.

E porque, apesar da saudade que carregaria até o fim dos meus dias, eu ainda conseguia 

sentir Sua presença.

A mesma presença que Ramah amava.

A mesma presença que sustentava Tomé.

A mesma presença que agora sustentava a mim.

A morte havia levado minha filha.

Mas não havia vencido sua fé.

Nem a nossa.

Naomi


Comentários