Lendas Garo: Jabi e Rekka: Graciosas e fatais. - Capítulo 2

 

 
Lendas GARO
 
Jabi e Rekka: Graciosas e Fatais.




Capítulo 2 — As Feridas Sob a Armadura

Gonza dizia que alguns Horrors devoram carne.

Outros devoram aquilo que mantém alguém inteiro.

Hekate era desse tipo...

Não era um Horror de força bruta. Era um Horror de precisão cirúrgica.

Sabia exatamente onde uma pessoa sangrava sem que ninguém percebesse.

Sabia como tornar aquele sangramento mais profundo, mais silencioso, mais difícil de nomear ou mensurar.

Era, de certa forma, o Horror mais humano que já enfrentei.

 

A cidade permanecia viva demais para perceber o que estava acontecendo.

Luzes iluminavam avenidas. Música escapava dos teatros. Atrizes sorriam.

Bailarinas giravam diante de aplausos.

Mas nos bastidores…algo desaparecia delas.

Não de forma dramática...

Não da forma que Horrors costumam agir — arrancar, destruir, consumir visualmente.

Hekate operava de outra maneira. Era como ver alguém acordar cada manhã um pouco menos convicta de que merecia estar ali.

Gradual...

Quase gentil.

Por isso era tão perigoso.

 

Jabi e Rekka caminhavam pelos corredores estreitos de um velho teatro enquanto o cheiro de maquiagem antiga e poeira úmida preenchia o ar.

As paredes eram cobertas de fotografias de espetáculos antigos — rostos sorrindo em poses congeladas, aplausos eternizados em preto e branco.

Havia algo espectral naquelas imagens agora.

Como se cada sorriso guardasse um peso que a câmera não capturou.

— Odeio esse lugar. —resmungou Rekka.

— Porque ele obriga você a pensar antes de atacar? — provocou Jabi.

Rekka reage:

— Porque ele parece morto. Mas ainda está de pé.

Uma pausa.

Jabi não respondeu imediatamente.

Estava olhando para uma das fotografias.

Uma bailarina, jovem demais para ter aquela expressão, sorrindo com os olhos sérios.

Embora odiasse admitir, dessa vez Rekka estava certa.

Algo errado pairava naquele local.

Finamente Jabi, responde:

— Algumas coisas ficam de pé muito tempo depois de deixarem de estar vivas.

Rekka não entendeu se era sobre o teatro ou sobre outra coisa.

Eu também não.

 

Entraram no camarim principal.

Uma jovem bailarina permanecia sentada diante do espelho.

Imóvel.

Os olhos abertos.

Vazios...

Distantes...

Não era o vazio de quem foi destruído. Era o vazio de quem continua existindo mas não consegue mais encontrar a razão para isso.

Como uma vela ainda acesa mas sem chama — apenas fumaça onde antes havia luz.

 

Jabi ajoelhou-se diante dela e encostou o pincel madō em sua testa.

O Inga respondeu imediatamente.

Vergonha.

Medo.

Fracasso.

Solidão.

Tanta dor atravessou Jabi de uma vez que ela precisou apoiar a mão no chão.

Não era apenas rastreamento. Era contato real — Jabi não só lia o Inga, ela o tocava. Deixava-o entrar um pouco antes de empurrá-lo para fora.

Era o preço da precisão dela. A razão pela qual sabia sempre mais do que deveria.

Rekka percebeu.

E pela primeira vez a agressividade dela cedeu espaço para preocupação genuína.

— Ei...

Uma palavra apenas. Mas a forma como saiu — tensa, desconfortável com a própria gentileza — disse muito.

 

Jabi respirou fundo antes de responder:

— Rekka, ouça bem: Hekate não rouba energia espiritual.

Ela ergueu os olhos lentamente.

— Ele rouba a percepção que a pessoa tem de si mesma.

A bailarina começou a chorar sem expressão alguma. Lágrimas descendo pelo rosto como se o corpo ainda soubesse sofrer mas a pessoa dentro não estivesse mais lá para sentir.

Aquilo perturbou até Rekka.

Vi Rekka engolir algo.

Não medo —Definitivamente Rekka não tinha medo de Horrors.

Era outra coisa...

Reconhecimento, talvez...

O tipo que dói.

—Então vamos matar esse monstro agora.

Jabi a encara de modo significativo, visivelmente contrariada:

— Você sempre acha que violência resolve tudo rápido demais.

Percebi que Rekka passou recibo daquela reprimenda.

Ela partiu pro ataque:

— E você pensa tanto que quase morreu naquele templo!

O clima mudou imediatamente.

Rekka aproximou-se.

Olhos crispados.

Havia urgência nela que não era apenas raiva — era algo anterior à raiva, mais honesto e mais vulnerável.

— Você fica analisando monstros enquanto pessoas sofrem!

Jabi não muda a postura:

—E você entra em batalha tentando se punir através da espada!

A frase atingiu fundo.

Vi Rekka parar completamente.

Não de raiva.

De algo que se parece muito mais com ser visto.

Rekka segurou o braço de Jabi num impulso brusco. Os dedos apertaram forte demais para ser apenas intimidação.

— Não fala como se me entendesse.

Jabi sustentou o olhar dela.

Sem ironia.

Sem provocação.

Só a verdade, limpa e sem ornamento:

— Eu entendo mais do que você gostaria...

 

Silêncio.

Tenso...

Não era tipo de silêncio de quem não tem nada a dizer e sim, de quem tem coisas demais e nenhuma saída segura para elas.

As bandeiras espirituais de Rekka surgiram atrás dela.

Os leques de Jabi abriram-se lentamente.

Então os espelhos do camarim explodiram.

 

Reflexos distorcidos da bailarina começaram a surgir nas paredes:

uma sorrindo artificialmente — o sorriso de quem aprendeu que mostrar cansaço é fraqueza;

outra chorando — mas sem som, como se o choro também tivesse sido roubado; outra completamente sem rosto — apenas o contorno de alguém que não conseguia mais se reconhecer.

Jabi reagiu primeiro.

O leque girou dissipando as ilusões com precisão cirúrgica — não um gesto a mais do que o necessário.

Ao mesmo tempo Rekka protegeu a bailarina dos estilhaços instintivamente. O corpo se colocou na frente antes da mente decidir.

Automático.

 Irrevogável.

E ambas perceberam.

Mesmo brigando…agiam juntas naturalmente.

Como se houvesse uma coreografia entre elas que nenhuma tinha ensaiado mas ambas já sabiam há muito tempo.

 

Mais tarde seguiram o rastro espiritual até o palco principal.

O teatro parecia respirar Inga.

As tábuas rangiam sem pisadas. As luzes piscavam em sequências que não eram aleatórias — havia intenção nelas, como uma mensagem que não conseguia se formar completamente.

E no centro dele…

Hekate aguardava.

Um horripilante morcego bípede.

Sua armadura agora estava coberta por rostos femininos petrificados.

Mais do que antes...

Como se tivesse se alimentado bem desde o templo.

Como se o teatro inteiro fosse sua despensa.

Um morcego...

Nada mais apropriado....

Nada mais irônico.

Mas, ao invés do sangue das vítimas, era a alma que ele adorava sugar.

De modo sarcástico, desafia as duas:

—Ah… minhas sacerdotisas favoritas.

 

Rekka avançou imediatamente.

Violenta.

Furiosa.

As bandeiras vermelhas rodopiavam ao redor dela enquanto a espada rasgava o palco em explosões douradas.

Era possível ver a raiva naquele movimento — não raiva cega, mas raiva com direção, raiva que havia sido aguçada durante anos até se tornar algo com fio.

Linda.

E perigosa.

Jabi moveu-se logo atrás.

Os pincéis desenhavam selamentos no ar.

Os leques dissipavam ilusões antes que alcançassem Rekka — antecipando, não reagindo.

A diferença entre as duas era absoluta.

Rekka destruía espaço.

Jabi reorganizava espaço.

Uma rasgava.

A outra costurava.

 

Hekate percebeu isso.

E decidiu separá-las.

Porque um Horror daquela natureza não precisava de força para vencer.

Precisava apenas de isolamento.

E sabia exatamente onde cortar para criá-lo.

 

As ilusões vieram violentamente.

Rekka viu companheiros mortos. Ouviu gritos antigos.

Sentiu novamente a culpa de não ter sido rápida o bastante — aquela culpa específica, com nome e data, que ela carregava como se tivesse sido construída para ser carregada por ela e apenas por ela.

Enquanto isso Jabi viu algo diferente...

Pessoas que não conseguiu salvar; selamentos falhando; mãos escorregando das dela.

Não era a dor barulhenta de Rekka —  era a dor silenciosa de quem sempre soube demais e chegou tarde demais.

A culpa que não grita.

Que apenas existe, calada, sob toda aquela serenidade.

 

Rekka caiu de joelhos primeiro.

Jabi tentou alcançá-la.

Mas Hekate apareceu diante dela.

— Você é pior que ela — sussurrou o Horror. — Porque esconde culpa atrás de elegância.

O pincel de Jabi tremeu.

Só por um segundo.

Mas quando a armadura de uma sacerdotisa como Jabi treme — mesmo por um segundo — significa que a frase acertou o lugar que ela passou anos aprendendo a não mostrar.

Hekate atacou.

 

Então Rekka surgiu no caminho.

A espada bloqueou o golpe num clarão brutal.

Mesmo ferida.

Mesmo abalada.

Ainda de joelhos — ergueu a espada e bloqueou.

— Sai de perto dela!

E naquele instante Jabi compreendeu algo importante:

Rekka não lutava apenas por raiva.

Lutava porque sentir profundamente era a única forma que conhecia de amar.

E amar, para ela, sempre foi verbo de ação — nunca de espera.

 

Hekate sorriu.

— Então é isso…

O Horror ergueu os braços.

— Vocês não são opostas.

A voz ecoou pelo teatro inteiro. Cada palavra calculada para penetrar.

— São partes quebradas tentando esconder exatamente a mesma dor.

E pela primeira vez…nenhuma das duas rebateu.

Não porque concordavam.

Mas porque verdades que chegam de monstros ainda são verdades.

E algumas verdades demoram anos para ter nome. Hekate tinha dado nome àquela.

 


Horror Hekate  


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