LENDAS GARO - Jabi e Rekka - Graciosas e fatais - Capitulo 03 (final)



 
Lendas GARO
 
Jabi e Rekka: Graciosas e Fatais.


CAPÍTULO 03 (FINAL) — A Dança da Lâmina e do Espírito

Meu pai dizia que sincronização verdadeira não nasce quando duas pessoas se tornam iguais.

Nasce quando param de tentar vencer uma à outra.

O teatro inteiro pulsava Inga.

As cortinas respiravam sem vento. 

As tábuas do palco pareciam carne viva. 

Rostos presos nas paredes observavam  silenciosamente.

E no centro de tudo…

Hekate sorria.

Maior.

Mais monstruoso.

Mais elegante.

Porque alguns Horrores aprendem exatamente como parecer belos para esconder podridão.

Rekka segurava a espada com tanta força que os dedos tremiam.

Jabi permanecia imóvel ao lado dela.

Mas agora Rekka percebia detalhes antes invisíveis: a respiração curta da xamã;

sangue espiritual escorrendo discretamente pelos dedos;

o esforço silencioso necessário para manter tantos selamentos ativos.

— Você está ferida — disse Rekka.

— E você emocionalmente instável — respondeu Jabi. — Ambas teremos de trabalhar com o que temos.

Mesmo naquela situação…

Rekka riu.

Curto.

Cansado.

Hekate abriu os braços.

— Ainda tentando esconder fraquezas uma da outra?

O Horror caminhou lentamente pelo palco.

— Ela acredita que sentir demais a torna inadequada.

Os olhos monstruosos voltaram-se para Rekka.

— E você acredita que, se parar de lutar por um segundo, tudo que perdeu terá sido culpa sua.

Silêncio.

Então Jabi falou baixo:

— Não escuta ele.

Rekka respondeu sem tirar os olhos do Horror:

— Difícil. Ele soa exatamente como minha cabeça.

Jabi finalmente olhou para ela.

E dessa vez não provocou.

Só respondeu:

— A minha também.

Aquilo mudou alguma coisa.

Pequena...

Mas decisiva.

Rekka avançou primeiro.

Mas dessa vez…esperou.

Só meio segundo...

O suficiente.

Jabi abriu o leque.

O ar mudou de direção.

As ilusões se desfizeram.

Rekka encontrou imediatamente o caminho verdadeiro.

A espada atingiu Hekate pela primeira vez.

O Horror rugiu.

Surpreso.

Jabi sorriu discretamente.

— Viu? Você consegue esperar.

— Não se acostuma.

A batalha explodiu.

Mas agora havia ritmo.

As bandeiras vermelhas cruzavam o palco em espirais flamejantes enquanto os leques 

dissipavam ilusões. 

O pincel madō desenhava símbolos luminosos no ar como se escrevesse uma coreografia 

invisível.

E Rekka começou a perceber algo.

Os movimentos de Jabi não limitavam sua força.

Guiavam.

Quando Rekka hesitava—Jabi dissipava a ilusão.

Quando Jabi vacilava—Rekka destruía o espaço ao redor dela.

Complemento.

Natural.

Instintivo.

Hekate começou a perder controle da batalha.

Porque sua força dependia de isolamento emocional.

E elas haviam parado de lutar sozinhas.

— VOCÊS PRECISAM SE ODIAR! — rugiu o Horror.

A energia Inga explodiu violentamente.

Rekka foi arremessada contra uma coluna.

Jabi caiu de joelhos.

O pincel escapou de seus dedos.

Hekate avançou diretamente contra ela.

Mas Rekka apareceu outra vez.

Sangrando.

Exausta.

Furiosa.

— Você não toca nela.

Hekate sorriu.

— Então finalmente admite.

Rekka travou.

Mas Jabi respondeu antes dela:

— Não provoque alguém emocionalmente confusa segurando uma espada.

Mesmo ferida, Rekka soltou uma risada curta.

E aquilo quebrou o medo.

Quebrou a tensão.

Quebrou o domínio psicológico do Horror.

Hekate avançou num rugido.

Jabi ergueu o pincel.

Rekka ergueu a espada.

E pela primeira vez…os movimentos aconteceram juntos.

Sem disputa...

Sem necessidade de comando.

O pincel desenhou os selamentos.

Os leques dissiparam as ilusões.

Uma sinergia que já existia, mas jamais admitida...

Uma graciosidade e sincronia de movimentos que as tornavam fatais.

As bandeiras prenderam o Horror.

E Rekka atravessou exatamente a abertura criada por Jabi.

A espada brilhou azul-dourado.

A armadura de Hekate rachou.

Rostos aprisionados escaparam em luz.

Jabi correu.

O pincel desenhou o selo final diretamente sobre a fissura aberta pela espada.

— SELAMENTO MAKAI — PRISÃO ETERNA!

O teatro explodiu em luz azul.

As almas libertas subiram como fumaça iluminada.

E Hekate começou a desaparecer.

Mas antes de sumir completamente…sorriu.

Não com deboche.

Com compreensão amarga.

— Agora entendo…

O Horror olhou para ambas.

— Vocês funcionam porque uma impede a outra de desaparecer.

Então ele se desfez.

Silêncio.

O teatro finalmente parou de respirar.

Rekka caiu sentada no chão primeiro.

Jabi sentou-se ao lado dela lentamente.

As duas ficaram em silêncio por alguns segundos.

Respirando...

Existindo.

Então Rekka falou:

— Ainda acho você irritante.

Jabi limpou discretamente o sangue espiritual dos dedos.

— E eu ainda acho você emocional demais.

Rekka olhou para ela de lado.

— Mas funcionou.

Jabi sorriu.

Menos provocativa.

Mais sincera.

— Sim.

Uma pausa.

Então completou:

— Porque você me lembra de agir.

Rekka arregalou levemente os olhos.

Jabi desviou o olhar imediatamente, como se vulnerabilidade demais fosse perigosa.

Então Rekka respondeu baixo:

— E você me lembra de pensar.

Aquilo, vindo dela, era quase uma confissão.

Observei as duas em silêncio enquanto o teatro morto finalmente voltava a parecer apenas 

um teatro.

Jabi finalmente notou minha presença e perguntou:

— Aprendeu alguma coisa, garoto Raiga?

Assenti com a cabeça.

Rekka veio em minha direção.

Meio provocativa, disse:

— Conte ao seu pai, que eu fui melhor que a Jabi.

Jabi sorri:

— Até parece... Kouga me conhece de criança. Treinamos juntos.

Rekka não se dá por vencida: 

— No fim, ele escolheu a Kaoru  referindo-se a minha mãe.

Jabi manteve a pose:

— Você bem que tentou...Também foi preterida. Nisso empatamos. 

Rekka abaixa o olhar e me olha desapontada:

— O coração de Kouga somente a sua mãe foi capaz de acessar.

Eu olhava sem saber como responder.

As duas me cobravam no olhar para que eu me posicionasse.

Não tinha a maturidade que tenho hoje, já escaldado de batalhas. 

Estava no início da minha jornada.

Preferi o silêncio.

E pensei no que aprendi crescendo entre Kouga Saejima e Gonza Kurahashi.

Meu pai me ensinou que força sem direção destrói.

Gonza me ensinou que gente que luta sozinha por tempo demais começa a esquecer como 

permanecer humana.

Talvez as sacerdotisas Makai da minha geração precisem aprender ambas as coisas.

Muitas treinam para serem perfeitas.

Outras treinam para serem ferozes.

Poucas entendem que sobrevivência Makai exige as duas coisas.

Precisam da percepção emocional de Jabi.

Da intensidade de Rekka.

Da capacidade de sentir e agir.

De compreender e cortar.

Porque graça sem força se quebra.

E força sem graça se perde.

Enquanto observava as duas dividindo silêncio entre os destroços daquele palco, finalmente 

compreendi algo que meu pai talvez já soubesse desde o começo: algumas pessoas não 

existem para corrigir umas às outras.

Existem para impedir que a outra desapareça na própria escuridão. 

FIM

 

Sacerdotisa Jabi


Sacerdotisa Rekka

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