The Chosen - Vozes depois d´ELE - CAPÍTULO 15 - PAULO


 

CAPÍTULO 15 ---Paulo

Um Homem em Construção


Eu costumava acreditar que convicção era a coisa mais importante que um homem podia ter.

Hoje sei que convicção demais também pode cegar.

Eu sei disso porque fui cego duas vezes.

A primeira, quando persegui os seguidores de Jesus.

A segunda... quando achei que, por conhecê-Lo, nunca mais pisaria em falso.

Mas eu pisei.

Mais de uma vez.

As pessoas olham para mim e veem viagens. Cartas. Pregações. Milagres.

Mas quase ninguém fala sobre o peso.

O peso de entrar em uma cidade sabendo que alguns me odiavam porque eu antes odiava Jesus.

O peso de ser rejeitado pelos judeus por anunciar aos gentios.

O peso de ser questionado pelos próprios irmãos na fé.

Porque nem todos concordavam comigo.

Nem todos confiavam em mim.

Nem todos entendiam o que eu estava tentando fazer.

E havia uma lembrança que eu carregava em silêncio.

Estêvão.

Durante muito tempo, quando alguém pronunciava aquele nome, eu sentia como se uma 

pedra fosse colocada sobre meu peito.

Eu estava lá.

Não fui eu quem lançou a primeira pedra.

Mas eu estava lá.

Eu aprovei.

Eu assisti.

Eu não impedi.

E, quando a multidão voltou para casa naquela tarde, levando consigo a sensação de ter feito 

justiça, eu levei comigo uma morte.

A morte de Estêvão.

Mas existe algo que poucos sabem.

Eu não perdi apenas Estêvão naquele dia.

Perdi Isabel.

A irmã dele.

A mulher que eu amava.

E, para entender isso, preciso voltar àquele momento.

Ainda consigo ouvir os gritos.

Ainda consigo sentir o calor daquele dia.

Estêvão estava no chão.

Ferido.

O rosto coberto de sangue.

E, mesmo assim, havia algo em seus olhos que eu não conseguia compreender.

Não era ódio.

Não era medo.

Era uma espécie de paz.

Eu queria acreditar que aquela paz era apenas loucura.

Seria mais fácil.

Então ouvi uma voz.

— Estêvão!

Isabel.

Ela correu.

Não deveria ter conseguido chegar até ele.

A multidão ainda estava agitada.

Mas ela chegou.

Ajoelhou-se ao lado do irmão e o tomou nos braços.

Eu fiquei parado.

Não sei por quanto tempo.

Talvez apenas alguns instantes...

Talvez uma eternidade...

Isabel levantou os olhos.

E me viu.

Naquele momento, não havia mais a multidão.

Não havia sacerdotes.

Não havia argumentos.

Não havia Lei.

Havia apenas os olhos dela.

Os olhos da mulher que eu amava.

E o corpo do irmão dela morrendo em seus braços.

Estêvão tentou respirar.

Isabel apertou-o contra o peito.

— Não... não vá...

Ele ainda tentou dizer alguma coisa.

Não consegui ouvir.

Então seus olhos perderam o foco.

E Isabel percebeu.

Ela fechou os olhos do irmão.

Depois voltou a olhar para mim.

Eu quis falar...

Quis explicar...

Quis dizer que eu não havia lançado a pedra.

Quis dizer que apenas estava ali.

Quis dizer que aquilo era necessário.

Mas nenhuma palavra saiu.

Isabel segurou Estêvão com mais força.

E então disse:

— Tudo acaba aqui.

Foi tudo...

Ela não gritou.

Não me amaldiçoou.

Não me chamou de assassino.

Apenas disse:

— Tudo acaba aqui.

E eu soube o que aquelas palavras significavam.

Estêvão havia morrido.

E o que existia entre nós também.

Naquele instante, perdi o amor da minha vida.

E talvez tenha perdido também a última parte de mim que ainda sabia duvidar.

Porque, em vez de parar, eu continuei.

Continuei perseguindo.

Continuei prendendo.

Continuei acreditando que estava fazendo a vontade de Deus.

Eu dizia a mim mesmo que estava defendendo a Lei.

Que estava defendendo Deus.

Que estava impedindo uma heresia de destruir aquilo que nossos pais haviam recebido.

Mas Isabel enxergava algo que eu não queria enxergar.

Eu estava me tornando aquilo que dizia combater.

Um homem tão convencido de possuir a verdade que já não conseguia ouvir ninguém.

Talvez ela tenha percebido antes de mim.

Talvez Estêvão também.

E essa é uma das razões pelas quais a lembrança dele nunca me abandona.

Depois da morte de Estêvão, tudo mudou.

Para ela...

Para mim...

Para nós.

O amor que existia entre nós não morreu de uma vez.

Foi morrendo aos poucos.

Cada nova perseguição.

Cada homem preso.

Cada família destruída.

Cada notícia de que eu havia participado de mais uma investida contra os seguidores de 

Jesus.

Eu sabia que Isabel ouvia essas notícias.

Talvez alguém lhe contasse.

Talvez ela perguntasse.

Talvez simplesmente soubesse.

E quanto mais eu avançava naquele caminho, mais distante ela ficava.

Não houve uma despedida formal.

Não houve uma última discussão.

Apenas distância.

E, às vezes, a distância é uma forma mais cruel de despedida.

Quando encontrei Jesus no caminho para Damasco, eu pensei que estava sendo chamado 

para uma nova vida.

E fui.

Mas durante muitos anos não compreendi uma coisa: uma nova vida não significa uma vida 

sem memória.

Jesus me perdoou.

Eu acredito nisso com tudo o que sou.

Mas o perdão não transforma o passado em algo que nunca aconteceu.

Estêvão continuou morto.

Isabel continuou perdida.

E eu continuava sendo o homem que havia participado daquela perseguição.

Talvez por isso eu tenha trabalhado tanto.

Viajei.

Preguei.

Escrevi.

Ensinei.

Como se cada cidade alcançada pudesse compensar uma cidade perseguida.

Como se cada homem que encontrasse Cristo pudesse apagar um daqueles que eu havia 

ajudado a afastar.

Mas não funciona assim.

A graça não é uma contabilidade.

Não existe número de conversões capaz de devolver Estêvão.

Não existe carta capaz de trazer Isabel de volta para mim.

Existe apenas a misericórdia.

E a responsabilidade de não repetir o mesmo erro.

Anos depois, voltei a encontrar Isabel.

Foi depois de minha conversão.

Eu já havia começado a anunciar Jesus.

Já havia enfrentado desconfiança.

Já havia sido recebido com medo por alguns e rejeitado por outros.

Mas ainda havia uma pessoa cujo julgamento eu temia mais do que o de qualquer 

assembleia.

Isabel.

Quando a vi, fiquei sem saber o que fazer.

Ela também parou.

Durante alguns instantes, nenhum de nós falou.

Eu não era mais o mesmo homem.

Mas ela ainda carregava a memória daquele que eu havia sido.

— Isabel...

Foi tudo o que consegui dizer.

Ela me olhou demoradamente.

— Eu soube.

— Sobre Jesus?

Ela assentiu.

— Sobre você.

Baixei os olhos.

— Eu não espero que me perdoe.

Ela respirou fundo.

— Eu sei.

Aquilo doeu.

Porque eu havia esperado alguma palavra que me aliviasse.

Ela continuou:

— Durante muito tempo, eu pedi a Deus que fizesse você sentir o mesmo que eu senti 

naquele dia.

Levantei os olhos.

— E fez?

Ela ficou em silêncio.

— Não — respondeu. — Fez algo diferente.

— O quê?

— Fez você mudar.

Não consegui responder.

Isabel se aproximou.

Havia tristeza em seus olhos.

Mas não havia ódio.

— Eu perdi meu irmão naquele dia, Paulo.

Fechei os olhos.

— Eu sei...

— Não. Você sabe que ele morreu. Eu sei o que foi segurá-lo nos braços enquanto ele 

morria.

Aquelas palavras me atravessaram.

Eu não tentei me defender.

Não havia defesa.

— Eu sinto muito.

Ela respirou fundo.

— Eu sei que sente.

E então disse aquilo que eu jamais esperaria ouvir:

— Eu perdoo você.

As lágrimas vieram antes que eu pudesse escondê-las.

Mas Isabel não terminou.

— Eu perdoo você, Paulo. Mas jamais vou esquecer.

Eu assenti.

 — Não quero que esqueça.

Ela me olhou, surpresa.

— Por quê?

— Porque se você esquecer, talvez eu também esqueça quem fui.

A expressão dela mudou.

Foi a primeira vez que vi algo parecido com paz em seus olhos.

Não era o retorno do passado.

Era outra coisa.

Um começo diferente.

Nós conversamos durante muito tempo.

Sobre Estêvão.

Sobre Jesus.

Sobre culpa.

Sobre perdão.

Sobre aquilo que havíamos perdido.

Em determinado momento, ela perguntou:

— Você ainda me ama?

Eu poderia ter mentido.

Não menti.

— Sim.

Ela abaixou os olhos.

— Eu também.

Aquilo foi talvez a coisa mais dolorosa que ouvi naquele dia.

Porque amar não significava que poderíamos voltar ao que éramos.

Nós éramos outros.

Aquele homem e aquela mulher haviam morrido junto com uma parte de nossas vidas.

— Então talvez devêssemos tentar — eu disse.

Isabel ficou em silêncio.

— Tentar o quê?

— Uma vida juntos.

Ela sorriu.

Mas havia tristeza naquele sorriso.

— Paulo... você tem um caminho.

— E você também.

— Exatamente.

Ficamos em silêncio.

Eu compreendi antes que ela dissesse.

Não seria justo tentar reconstruir uma vida matrimonial sobre as ruínas daquele passado.

Não seria justo transformar nosso amor em uma tentativa de compensar uma perda.

E, naquele dia, fizemos uma promessa diferente.

Não nos casaríamos com outras pessoas.

Não porque estivéssemos presos ao passado.

Mas porque havíamos aprendido a respeitar aquilo que nosso amor havia se tornado.

Não seríamos marido e mulher.

Seríamos testemunhas de uma história que nunca conseguiríamos apagar.

E talvez isso fosse suficiente.

Não nos pertencíamos mais como antes.

Mas também não queríamos pertencer a outra pessoa fingindo que aquela história nunca existira.

Foi uma decisão dolorosa.

Mas foi nossa.

E, pela primeira vez, compreendi que algumas pessoas não permanecem em nossa vida da 

maneira que imaginamos.

Algumas permanecem como memória.

Outras como oração.

Outras como ferida que deixou de sangrar.

Isabel permaneceu como tudo isso.

E como perdão.


Pedro e eu discutimos mais de uma vez.

Não porque nos odiávamos.

Mas porque éramos diferentes.

Pedro vinha do impulso.

Do coração.

Da presença viva de ter caminhado ao lado de Jesus todos os dias.

Eu vinha das letras.

Da Lei.

Da necessidade de organizar aquilo que parecia impossível de organizar.

Às vezes ele achava que eu exigia demais.

Às vezes eu achava que ele cedia demais.

Mas, em algum momento, Pedro me fez uma pergunta que ficou comigo.

— Você fala muito sobre Jesus, Paulo.

— E isso é um problema?

— Não.

Ele fez uma pausa.

— Mas às vezes me pergunto se você está tentando explicar Jesus ou se está tentando 

explicar tudo o que Jesus significa para você.

Aquilo me incomodou.

Porque eu sabia que havia alguma verdade ali.

Pedro tinha caminhado com Jesus.

Eu não.

Ele tinha ouvido Sua voz antes da cruz.

Eu havia encontrado o Ressuscitado depois dela.

Eu tinha conhecimento.

Ele tinha memória.

E talvez eu precisasse das duas coisas. 


E havia Tiago.

Tiago carregava um peso que nenhum de nós entendia completamente.

Porque ele não era apenas um líder da Igreja.

Era o irmão de Jesus.

O homem que tinha conhecido o Messias antes que o mundo soubesse quem Ele era.

E Tiago era prudente.

Muito prudente.

Ele temia que, ao abrir demais as portas para os gentios, perdêssemos nossas raízes.

Temia que a fé se tornasse irreconhecível.

Temia que, em nome da liberdade, esquecêssemos da reverência.

Eu entendia isso.

Mas, às vezes, ainda assim doía.

Porque eu sabia que Deus estava fazendo algo novo.

E eu não suportava a ideia de ver homens reconstruindo muros que Jesus tinha derrubado.

Certa vez, depois de uma discussão, Tiago me olhou em silêncio.

— Você está defendendo o Evangelho, Paulo — disse ele — ou está defendendo sua 

interpretação dele?

Eu não respondi.

Porque a pergunta era boa demais para ser respondida depressa.

Discutimos.

Oramos.

Silenciamos.

Voltamos a discutir.

Até percebermos que nenhum de nós estava tentando destruir a Igreja.

Só estávamos tentando protegê-la de formas diferentes.

Mas, em algum momento, comecei a me perguntar se proteger a Igreja não poderia também 

se tornar uma maneira de proteger minhas próprias certezas.

E essa pergunta me assustava.

Porque eu já havia cometido esse erro uma vez.

Eu já havia confundido minha certeza com a vontade de Deus.

Estêvão morreu por causa disso.

Eu não queria que mais ninguém morresse por causa da minha cegueira.

Havia outro conflito que me pesava mais do que admiti...

As mulheres.

As mulheres que seguiram Jesus.

As que permaneceram quando muitos fugiram.

As que O viram morrer.

As que O viram ressuscitado.

Maria Madalena.

Joana.

Tamar.

Verônica.

Eu percebia os olhares.

Os silêncios.

A distância.

Depois que minhas cartas começaram a circular entre as igrejas, algumas delas passaram a 

me evitar.

Especialmente depois da orientação para que as mulheres permanecessem em silêncio em 

certas assembleias.

Eu sabia o que diziam.

Que eu estava diminuindo aquelas que Jesus tinha levantado.

Que eu estava apagando vozes que Ele mesmo tinha honrado.

E, por um tempo, fiz isso sem perceber... e por outro, percebi — mas não soube como voltar 

atrás.

Porque eu estava preocupado com ordem.

Com escândalo.

Com perseguição.

Com o modo como as igrejas sobreviveriam.

Mas sobreviver não é a mesma coisa que ouvir.

E eu precisei aprender isso.

Nem sempre com discussões.

Às vezes, com silêncio.

Às vezes, observando homens que pareciam menores aos olhos de muitos...mas que 

carregavam algo que eu ainda não tinha aprendido.

Homens como André.

Que ouviam antes de falar.

Que buscavam convergência onde outros viam apenas divisão.

Homens que não precisavam vencer uma discussão para permanecer à mesa.

E homens como Filipe.

Que caminhavam entre mundos.

Que entendiam a Lei...e ainda assim reconheciam quando Deus estava indo além dela.

Que não gritavam como eu.

Mas sustentavam pontes que eu, muitas vezes, quase rompi sem perceber.

Eu vi.

Talvez tarde...

Mas vi.

E aquilo começou a me mudar.

Foi então que comecei a perceber uma coisa ainda mais difícil.

Talvez eu tivesse passado tantos anos tentando explicar Jesus que, em alguns momentos, 

havia deixado de simplesmente escutá-Lo.

A ideia me perseguia.

Eu conhecia Suas palavras.

Conhecia os relatos.

Conhecia as Escrituras que apontavam para Ele.

Conhecia os testemunhos daqueles que tinham caminhado ao Seu lado.

Mas conhecer palavras não significa necessariamente compreender o coração de quem as 

pronunciou.

E às vezes, durante a noite, quando todos dormiam, eu me perguntava:

E se eu estiver construindo uma teologia sobre Jesus que nem sempre se parece com a vida 

de Jesus?

Eu me levantava.

Caminhava.

Voltava a me sentar.

Tentava expulsar aquela dúvida.

Mas ela permanecia.

Eu me lembrava do Mestre tocando leprosos.

Sentando-se com pecadores.

Conversando com mulheres que muitos preferiam ignorar.

Acolhendo crianças.

Perdoando homens que não mereciam perdão.

E então olhava para algumas de minhas próprias palavras.

Para algumas de minhas decisões.

Para as fronteiras que eu havia criado em nome da ordem.

E sentia vergonha.

Não porque tudo estivesse errado.

Mas porque talvez nem tudo estivesse certo.

E essa diferença podia significar muito.

Talvez a minha maior luta agora não fosse defender aquilo que eu acreditava.

Talvez fosse descobrir se aquilo que eu acreditava ainda estava de acordo com Ele.

Foi Maria Madalena quem finalmente falou comigo.

Ela me encontrou depois de uma reunião.

Não havia raiva nela.

Só cansaço.

— Você sabe por que nós o evitamos, Paulo?

Eu não respondi.

Porque já sabia.

Ela respirou fundo.

— Nós ouvimos Jesus também.

Aquilo me atingiu mais do que qualquer acusação.

Porque não havia acusação ali.

Só verdade.

Jesus tinha falado com elas.

Chamado elas.

Confiado nelas.

Maria me olhou por alguns instantes.

— Nós não queremos tomar o lugar de ninguém — ela disse. — Só não queremos ser t

ratadas como se nunca tivéssemos estado lá.

Eu abaixei a cabeça.

Porque elas estiveram lá.

Quando muitos homens fugiram.

Quando o sangue caiu.

Quando a cruz ainda estava de pé.

Elas estiveram lá.

— Eu sei — eu disse.

E, pela primeira vez em muito tempo, não falei como apóstolo.

Não falei como teólogo.

Não falei como homem que precisava ter razão.

Falei apenas como alguém cansado de transformar irmãos em adversários.

Maria sorriu de leve.

Triste.

Mas sincera.

— Então não nos esqueça quando escrever sobre a Igreja.

Aquelas palavras ficaram comigo.

Naquela noite, fiquei olhando por muito tempo para um pergaminho vazio.

Mas, antes de escrever qualquer coisa, pensei em Timóteo.

Meu filho...

Não de sangue.

Mas meu filho de coração.

Havia algo diferente quando eu pensava nele.

Uma ternura que eu raramente permitia que os outros vissem.

Eu me lembrava de sua primeira hesitação diante de algumas responsabilidades.

Do modo como observava antes de falar.

Da maneira como ainda carregava inseguranças que tentava esconder atrás da obediência.

Eu queria protegê-lo.

Mais do que isso.

Queria prepará-lo.

Mas comecei a perceber que talvez eu não pudesse prepará-lo apenas ensinando o que eu 

sabia.

Precisava ensinar também o que eu ainda estava aprendendo.

Timóteo precisava conhecer minhas convicções.

Mas também precisava conhecer minhas dúvidas.

Precisava saber que seu mestre não era um homem pronto.

Era um homem em construção.

Se algum dia eu lhe dissesse apenas:

“Faça como eu fiz”, eu estaria traindo aquilo que mais queria transmitir.

Eu queria que ele aprendesse a perguntar:

“Isso se parece com Jesus?”

Antes de perguntar:

“Isso se parece com Paulo?”

Essa diferença me doía.

E me libertava.

Porque eu amava Timóteo como um pai ama um filho que deseja ver crescer além de si 

mesmo.

Eu não queria criar outro Paulo.

Queria ajudar a formar um homem capaz de ouvir Deus mesmo quando Deus o levasse por 

um caminho que eu não compreendesse.

Eu queria poupá-lo das feridas que me formaram.

Mas sabia que não poderia.

Então poderia, ao menos, ensiná-lo a não transformar suas feridas em muros.

Foi nesse período que começou a nascer em mim uma ideia.

Um tratado...

Um escrito destinado especialmente aos irmãos judeus que ainda lutavam para compreender 

quem Jesus era.

Não apenas uma carta.

Não apenas uma resposta a uma igreja específica.

Algo maior.

Uma ponte entre a Lei e a Nova Aliança.

Entre o que nossos pais receberam e aquilo que Deus havia revelado em Cristo.

Eu queria falar de sacerdócio.

De sacrifício.

De sangue.

Do santuário.

Da esperança.

Do cumprimento das promessas.

Mas queria fazer isso sem transformar Jesus em uma fórmula.

Eu queria mostrar que Ele não destruíra as Escrituras.

Ele lhes dera cumprimento.

E, quanto mais pensava nisso, mais percebia que não deveria fazer aquele trabalho sozinho.

Filipe tinha lembranças e testemunhos que eu precisava ouvir.

Nicodemos, de saudosa lembrança. conhecia as Escrituras como poucos e carregava uma 

compreensão de Jesus que tinha de antes de muitos de nós.

Havia coisas em suas anotações que  poderia explicar que eu jamais poderia.

E havia também o rabino Yussif, que guardava as anotações de Nicodemos com tanta 

diligência, como se fosse um aviso que aqueles registros tinham que vir ao mundo.

Um homem acostumado a enxergar as Escrituras não apenas como palavras, mas como uma 

história viva.

Conversar com ele significava voltar às raízes.

Às perguntas que eu, às vezes, tentava responder depressa demais.

Lucas também deveria estar conosco.

Lucas tinha uma qualidade que eu admirava cada vez mais: ele sabia ouvir.

Registrava.

Comparava testemunhos.

Perguntava.

Não tinha vergonha de dizer:

“Não sei.”

E talvez esse fosse um dos maiores sinais de sabedoria que eu havia encontrado.

Por isso comecei a imaginar aquele trabalho como uma construção feita por muitas mãos.

Eu escreveria.

Filipe acrescentaria aquilo que lembrava.

Nicodemos traria a profundidade das Escrituras e aquilo que aprendera sobre Jesus.

O rabino Yussif ajudaria a confrontar nossas interpretações com o conhecimento das 

tradições judaicas e os registros de Nicodemos,  trazendo  a profundidade das Escrituras e 

aquilo que aprendera sobre Jesus.

E Lucas reuniria, examinaria e organizaria os testemunhos.

Não seria apenas um texto meu.

Seria uma conversa.

Um tratado construído à mesa.

Talvez, um dia, recebesse um nome.

Talvez alguém o chamasse de carta.

Talvez de epístola.

Mas, naquele momento, eu o via apenas como uma tentativa.

Uma tentativa de responder à pergunta que não me abandonava:

Quem é Jesus quando todas as nossas certezas são colocadas diante Dele?

Talvez aquele tratado nunca carregasse meu nome.

E, pela primeira vez, isso não me incomodava.

Eu já não precisava que tudo aquilo que escrevesse fosse reconhecido como meu.

Se Filipe tivesse algo a acrescentar, eu o ouviria.


Se os escritos de  Nicodemos encontrasse uma passagem que contradissesse minha 

interpretação, eu a examinaria.

Se Yussif apontasse uma tradição que eu desconhecia, eu aprenderia.

Se Lucas dissesse que precisava verificar um testemunho, esperaríamos.

Talvez essa fosse uma das maiores mudanças em mim.

Eu não precisava mais ser a voz mais alta à mesa.

Precisava apenas garantir que a voz de Jesus não fosse perdida entre as nossas.

Voltei a olhar para o pergaminho.

Ainda estava vazio.

Mas já não parecia vazio.

Parecia uma porta.

Pensei em Timóteo.

Pensei em Pedro.

Em Tiago.

Em André.

Em Filipe.

Em Maria Madalena.

Em Nicodemos.

Em Yussif.

Em Lucas.

E pensei em Estêvão.

E em Isabel.

Aqueles dois nomes permaneceram comigo.

Um como ferida.

O outro como amor perdido.

Talvez ambos fossem parte da mesma lição.

Eu não poderia mudar o que fiz.

Não poderia devolver a vida a Estêvão.

Não poderia recuperar a vida que poderia ter tido com Isabel.

Mas poderia decidir que suas histórias não seriam esquecidas.

Poderia fazer com que cada palavra que escrevesse fosse examinada diante daquilo que 

Jesus havia ensinado.

Poderia tentar construir em vez de destruir.

Poderia ouvir antes de julgar.

Poderia amar antes de condenar.

Peguei a pena.

Molhei-a na tinta.

E antes de tocar o pergaminho, fiz uma oração.

— Senhor... se alguma palavra minha se afastar de Ti, mostra-me.

Fiquei em silêncio.

— E se eu precisar apagar, dá-me coragem para apagar.

Minha mão tremeu.

Então escrevi a primeira linha.

Não como um homem que havia terminado sua caminhada.

Mas como alguém que ainda estava aprendendo.

Porque conhecer Jesus não torna ninguém perfeito de uma vez.

Só torna impossível permanecer o mesmo.

E eu ainda estava mudando.

Ainda estava aprendendo.

Ainda estava tentando entender como construir pontes sem destruir verdades.

Talvez seja esse o trabalho da fé.

Não vencer discussões.

Mas permanecer à mesa.

Mesmo quando seria mais fácil ir embora.

Como Ele permaneceu conosco.

E, enquanto a tinta escorria lentamente pelo pergaminho, compreendi que talvez aquela 

fosse a obra que eu ainda precisava fazer.

Não escrever para provar que eu estava certo.

Escrever para ajudar outros a enxergar.

E, principalmente...para garantir que eu mesmo nunca mais confundisse minha voz com a 

voz Dele.

Porque eu já havia confundido as duas uma vez.

E o preço daquela cegueira tinha sido alto demais.

Estêvão morreu...

Isabel partiu...

E uma parte de mim morreu com os dois.

Mas outra parte nasceu quando Cristo me encontrou.

Talvez o homem que eu sou hoje tenha nascido justamente das cinzas daquela antiga versão 

de mim.

Um homem ainda imperfeito.

Ainda culpado.

Ainda em construção.

Mas, pela primeira vez, disposto a perguntar antes de afirmar:

“Jesus faria isso?”

E, se a resposta fosse não...eu teria de encontrar coragem para largar a pena.

Mesmo que fosse minha própria palavra que precisasse ser apagada.

Porque Isabel me ensinou que o perdão não apaga o passado.

Apenas impede que o passado determine quem seremos.

E Estêvão me ensinou, mesmo em sua morte, aquilo que demorei anos para compreender:

um homem pode estar absolutamente convencido de que está defendendo Deus...e ainda 

assim estar distante do coração de Deus.


Por isso, antes de escrever a próxima linha, fiz uma última oração.

— Senhor...

Minha voz falhou.

Pensei em Estêvão.

Pensei em Isabel.

Pensei em Timóteo.

Pensei em todos aqueles que confiavam em minhas palavras.

E então sussurrei:

— Que nunca mais minha convicção seja maior que o meu amor.

Olhei novamente para o pergaminho.

E continuei escrevendo...


Apóstolo Paulo - Imagem tirada da série Paulo (Rede Rcord)

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