
Kamen Rider Legend -Temporada 3
Black RX: Lonely Heart
Capítulo 02
O HOMEM POR TRÁS DA ARMADURA
TOUMA
Quando o Arquivo Temporal voltou a funcionar, não vimos uma
batalha...
Vimos Issamu.
Apenas ele.
Sem armadura.
Sem inimigos.
Sem transformação.
Apenas um homem caminhando sozinho por uma rua molhada de
chuva recente, as poças refletindo os poucos letreiros ainda acesos.
Foi estranho...
Eu conhecia Black.
Conhecia também sua evolução como RX.
E sabia o que ninguém gosta de contar sobre heróis: que,
depois da vitória contra Gorgom,
Issamu não voltou para casa como vencedor.
Voltou como um homem que não tinha mais casa.
A depressão o afundou tão fundo que ele chegou à beira da
mendicância — dormindo onde
dava, comendo o que aparecia — até ser recolhido
pelo casal Sahara, que o acolheu sem
perguntar o preço daquilo.
Apegou-se aos filhos deles, Shigueru e Hitomi, do jeito que
só alguém que perdeu a
própria família se apega a uma que não é sua por sangue.
Reencontrou, aos poucos, algo parecido com alegria.
Arrumou até uma namorada.
Reiko Shiratori.
E, como RX, ganhou mais que um aliado.
Ganhou um irmão.
Joe Kazumi.
Por fora, parecia mais leve. Mais brincalhão. Quase feliz.
Mas aquela imagem mostrava o que nenhuma batalha jamais
revelaria.
A solidão de Issamu não tinha ido embora.
Ele só havia aprendido a escondê-la melhor.
Certo dia, ele entrou numa cabine telefônica na esquina, o
vidro embaçado, o metal frio
sob os dedos.
Discou um número internacional que só conseguira graças a
Takeshi Hongo.
Esperamos.
Uma voz atendeu.
-Alô?
O rosto de Issamu mudou.
- Satie.
- Issamu? Quanto tempo.
A voz dela tremeu antes mesmo da primeira frase terminar.
-Você não sabe como ouvir sua voz me deixa bem.
-Eu... estou indo, viu. Bem, quero dizer.
Ele percebeu a hesitação dela antes mesmo de ela terminar de
mentir.
-Satie.
-O quê?
-Você ainda mente mal.
- E você continua me conhecendo bem demais para o meu
próprio bem.
- Sei quando você está tentando proteger alguém.
-E quem estou protegendo agora?
-Você mesmo.
Silêncio.
Não o silêncio educado de quem espera a vez de falar.
O silêncio de quem foi pega.
-O que aconteceu, Issamu?
-Shadow Moon... — o Nobuhiko apareceu de novo.
O nome errado escapou antes do certo, e os dois perceberam.
- Nobuhiko?
-Sim.
-Você o viu?
-Vi.
A voz dela subiu meio tom, contra a vontade.
-E ele...
Issamu não respondeu.
Não porque não soubesse a resposta.
Mas porque dizê-la em voz alta a tornaria real demais.
- Ainda existe alguma coisa dele ali. Eu sei que existe.
- Eu quero acreditar nisso.
O sorriso que ele tentou forçar na voz não convenceu nem a
si mesmo.
- Então acredite.
-E se estivermos errados? Se não sobrar nada, Issamu?
-Ele diz que não tem memórias. Que não sabe quem foi.
-E você acredita nisso?
-Já sofri demais para continuar acreditando em qualquer
coisa.
-Você sobrevive há tanto tempo que esqueceu como se vive,
sabia?
A frase acertou algo nele. Deu para ouvir pelo silêncio que
se seguiu.
- Eu sei que você quer continuar lutando. Sempre quis. Mas
desta vez eu preciso que
você pense em você.
-Então estarei errado tentando salvar meu irmão.
-Não foi isso que eu disse.
-Foi o que eu ouvi.
Issamu respirou fundo, quase um suspiro cortado.
-Tenho medo de perdê-lo outra vez.
-E eu tenho medo de perder você de novo.
A frase saiu antes que ela pudesse segurá-la.
-Já perdi tanta coisa, Satie. Ele era meu irmão. E nada
disso voltou pra mim.
-Eu sei o que perdemos, Issamu. Ele também era o meu
Nobuhiko. Meu namorado. Eu o
perdi do mesmo jeito que você perdeu seu irmão —
só que ninguém nunca parou pra
perguntar como eu estava depois disso. Perdi até
a vontade de voltar pro meu próprio país
por causa dessa dor. Não sou só uma
voz do outro lado do telefone tentando te consolar. Eu
também sangrei nisso.
Novo silêncio.
Dessa vez, o silêncio dos dois.
-Você tem noção do que isso significa? — perguntou ela, e
não era pergunta, era
acusação suave.
-Eu sei.
-Sabe mesmo?
-Às vezes acho que só continuo lutando porque parar
significaria sentir tudo de uma vez.
Talvez eu só esteja adiando minha própria
solidão.
-Não diga isso.
-Por quê não? É verdade.
-Porque você ainda tem pessoas, Issamu! Você tem uma
família que te recolheu da rua.
Tem os filhos deles, que você ama como se
fossem seus. Tem uma namorada. Tem um
irmão novo. E mesmo assim...
-Mesmo assim eu me sinto só.
A frase cortou a dela pela metade.
Do outro lado da linha, Satie não respondeu de imediato.
-O passado não volta. Você e a Kyoko não voltam a ser o
que éramos antes de tudo isso.
Isso dói. E eu escondo essa dor deles. Da Reiko.
Do Joe. Dos Sahara. Não quero que eles
carreguem o que é meu.
-Isso já é alguma coisa, Issamu. Você seguiu em frente
carregando o trauma, não fingindo que ele não existe. Isso é diferente de estar
bem, mas é um começo.
Uma pausa. Depois, a voz dela mudou de registro — mais
baixa, mais exposta.
-Você pode não acreditar nisso, mas você ainda me tem. E
tem a Kyoko. Ela nunca te
esqueceu. Nenhuma de nós esqueceu.
Issamu ficou imóvel.
-Mesmo vocês estando nos Estados Unidos?
-Mesmo estando nos Estados Unidos.
-É tão longe, Satie. Eu queria poder ver vocês. Mas não
posso sair do Japão — não
enquanto ele ainda estiver por aí. Não luto mais como
Black. Luto como RX. Não é mais
Gorgom. Agora é Crisis. E o nome do inimigo
muda, mas eu continuo preso do mesmo
jeito.
-A gente sabe de tudo isso. As notícias chegam até aqui,
Issamu, mesmo do outro lado do
mundo.
-Então vocês sabem que eu não posso ir.
-E mesmo assim a distância não apaga ninguém.
Uma nova pausa — mais longa que as outras.
-Eu e a Kyoko não podemos lutar suas batalhas por você.
Não podemos estar aí quando
você veste a armadura.
- Eu sei.
-Mas podemos estar aqui quando você tira. Nosso passado
ninguém vai mudar. Nem
Gorgom. Nem Crisis. Nem o tempo.
Issamu sorriu.
Um sorriso triste, dos que doem mais do que o choro.
Os olhos marejaram.
-Obrigado, Satie.
-Não me agradeça.
- Então o quê?
- Viva. De verdade. Não só sobreviva.
Silêncio.
- Prometa.
Ele fechou os olhos.
- Eu prometo.
TOUMA
Parei a gravação.
- Ela não tentou convencê-lo a lutar. Pediu que ele
vivesse. E isso é bem mais difícil.
Woz me olhou.
- Por quê?
- Porque lutar é algo que Issamu já sabe fazer de olhos
fechados. Viver para si mesmo é a
única batalha para a qual ninguém o treinou.
Woz sorriu, quase orgulhoso.
- Você realmente procura esperança em todos os lugares,
Touma-kun. Admiro isso em
você. Isso o aproxima do meu lorde Sougo.
- Porque ela está lá. Em cada veia, em cada artéria dele.
Basta procurar fundo o suficiente.
WOZ
A segunda chamada foi para Kyoko.
Também nos Estados Unidos.
Ela estava diante de uma fotografia — a moldura já um pouco
desbotada pelo sol da janela.
Nobuhiko.
Issamu.
Satie.
Ela mesma.
Uma família feliz, antes de tudo desmoronar.
- Issamu?
- Kyoko.
- Você viu Shadow Moon. A Satie me contou.
- Vi sim.
Ela fechou os olhos.
- Ele falou com você?
- Por um instante. Mas ele diz que não se lembra de quem
foi.
- Só fala em me destruir.
- É só ódio falando.
- Não é só ódio, Issamu. É o meu irmão. Mesmo que ele não
se lembre de nada, ainda é
ele.
-Kyoko...
- Não diga "talvez". Não hoje.
A voz dela quebrou no meio da frase e ela a segurou à força.
- Eu já perdi o Nobuhiko uma vez. Não vou perder também a
esperança de que sobrou
alguma coisa dele em algum lugar. Isso é tudo que me
resta, Issamu. Não tire isso de mim.
Ele ficou em silêncio, porque não havia resposta que não
parecesse uma mentira ou uma
ferida.
-Eu preciso acreditar.
-Eu também quero, Kyoko. Mas já sofremos tanto com isso
que não sei mais separar
esperança de teimosia.
-Então acredite comigo, mesmo sem saber a diferença.
Uma pausa. A voz dela desceu, quase um sussurro.
-Mas não deixe que isso vire uma prisão para você.
-Tinha tanta coisa para te dizer, Issamu. Coisas que
nunca tive coragem de admitir.
- Talvez um dia...
- Mas eu sei que você seguiu em frente. Reconstruiu sua
vida aí no Japão.
- Eu não tenho o direito de te pedir nada...
- Só quero que você entenda uma coisa: seguir em frente
não é abandonar quem ficou
para trás.
Issamu ficou em silêncio, surpreso — não com as palavras,
mas com o que ficou sem ser
dito entre elas.
- Kyoko, você...
- Não se importe comigo.
A resposta veio rápido demais para ser sincera.
- O que eu não quero é que você gaste a vida inteira
tentando salvar uma pessoa e esqueça
de viver a sua.
- Eu não consigo esquecer o Nobuhiko. Não consigo esquecer
a Satie...
-Eu não consigo esquecer você.
A frase escapou antes que ela pudesse impedir.
E ficou ali, entre os dois, sem que nenhum a nomeasse pelo
que realmente era.
-Não quero que esqueça — ela corrigiu depressa, a voz já
embargada.
- Algumas lembranças doem. Mas também são a prova de que
aquilo que vivemos foi
real.
Kyoko segurou a fotografia com mais força.
- Quero que se lembre dele antes de Gorgom.
- Como?
-Como seu irmão de criação.
Uma nova pausa, mais dura que as anteriores.
-Não como Shadow Moon.
Issamu começou a chorar.
- Eu lembro...
-Então ele ainda existe em algum lugar.
- E se não existir?
- Então continue acreditando até que ele próprio prove o
contrário.
A voz dela não vacilou.
Mas a mão que segurava a fotografia, sim.
TOUMA
A imagem desapareceu.
-Ela nunca voltou. Mesmo ainda o amando.
-Não.
- E isso deveria permanecer assim?
Woz me encarou, e pela primeira vez não havia teatralidade
nenhuma no rosto dele.
-Por quê você defende isso?
- Porque Kyoko escolheu uma vida. E amar alguém não obriga
ninguém a abandonar a
própria existência para ficar ao lado dela.
-IAWEI! — mas dessa vez a exclamação saiu baixa, quase
amarga. — Ela continuou representando o papel de irmã de criação de Issamu a
milhares de quilômetros de distância, renunciando ao que realmente sentia.
- Ela já não o via como irmão. Via como homem. E abriu mão
disso mesmo assim. Eu pergunto, Touma: isso é suficiente?
Fiquei em silêncio por um instante antes de responder.
-Não.
-Não?
Woz parecia genuinamente surpreso.
- Mas é verdadeiro.
-Explique-se.
- O amor não precisa ser suficiente para ser real, Woz.
Ela escolheu carregar um sentimento sem transformá-lo em cobrança. Isso não é
pouco. Às vezes a forma mais forte de amar alguém é não pedir nada em troca.
Woz ficou calado por um longo momento.
Quando voltou a falar, a voz já não tinha ironia nenhuma.
- Isso é o tipo de força que nem todo Rider tem.
- Eu sei.
- Nem todo cronista, também.
Não respondi.
Porque, dessa vez, ele estava certo.
Issamu Minami, Kyoko Akizuki , Satie Kida e Nobujiko Akizuki
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