The Chosen - Vozes depois D´Ele - CAPÍTULO 16 - MARIA DE NAZARÉ
CAPÍTULO 16 ---MARIA DE NAZARÉ
Mãe de Muitos
As pessoas sempre quiseram saber como era ser mãe de Jesus.
Como se existisse uma resposta simples para isso...
Como se eu pudesse resumir em poucas palavras o que foi carregar nos braços Aquele que
carregaria o mundo inteiro.
Ele foi meu filho...
Mas nunca foi apenas meu.
E talvez essa tenha sido a parte mais difícil.
Muito difícil pra mim...
Desde pequeno, Jesus tinha um jeito de olhar para as coisas como se enxergasse além delas.
Quando era menino, ajudava José na carpintaria.
Carregava madeira.
Varria serragem.
Consertava bancos, mesas, portas.
Às vezes chegava em casa coberto de pó.
Eu reclamava.
Ele sorria.
— Mãe, não se preocupe, eu limpo.
E limpava.
Mas, às vezes, eu o pegava olhando para o horizonte.
Como se escutasse algo que mais ninguém conseguia ouvir.
Eu sabia que Ele era diferente.
Sabia desde antes de seu nascimento.
O anjo.
A promessa.
A voz de Deus.
Mas saber não impediu o medo.
Porque nenhuma mãe está preparada para ver o próprio filho sofrer.
Eu o vi crescer.
Vi suas mãos ficarem maiores.
Sua voz mudar.
Seu rosto ganhar traços de homem.
Vi os primeiros calos surgirem em suas mãos por causa da madeira.
Vi o menino se transformar em homem.
E, mesmo sabendo quem Ele era, às vezes eu ainda queria apenas que voltasse para casa
antes do anoitecer.
Queria ouvir seus passos.
Queria preparar sua comida.
Queria reclamar quando chegasse tarde.
Queria que a vida fosse simples.
Mas a vida nunca foi simples para Jesus.
Vi pessoas começarem a segui-Lo.
Vi pessoas começarem a odiá-Lo.
Vi homens que antes O admiravam começarem a procurar maneiras de silenciá-Lo.
E, pouco a pouco, percebi que o menino que dormia perto da janela já não pertencia apenas
a mim.
Pertencia aos doentes.
Aos pobres.
Aos desesperados.
Aos pecadores.
A todos aqueles que precisavam acreditar que Deus ainda não tinha desistido deles.
Eu sabia disso.
Mas saber não tornava mais fácil para mim.
Toda vez que Ele saía, havia uma parte de mim que perguntava:
E se desta vez Ele não voltar?
Eu escondia esse pensamento.
Uma mãe aprende cedo a esconder seus medos.
Principalmente quando sabe que seu filho carrega uma missão maior do que sua própria
vida.
Então veio a cruz.
Nunca esquecerei aquele som.
O som do martelo.
O som das pessoas gritando.
O som dos soldados.
O som do choro.
O som do meu próprio coração quebrando.
Eu queria chegar até Ele.
Queria arrancá-Lo dali.
Queria fazer qualquer coisa....
Quando lembro, me emociono...me desculpem.
Mas não havia nada que uma mãe pudesse fazer contra aquele momento.
Vi sangue em Seu rosto.
Vi feridas em Seu corpo.
E ainda assim, por trás de toda aquela dor, reconheci o menino que um dia havia corrido
por Nazaré.
O menino que dormia perto da janela.
O menino que chegava da carpintaria com as mãos sujas.
O menino que dizia:
— Mãe, não se preocupe, eu limpo.
E naquele instante compreendi uma coisa terrível...
Eu havia passado a vida preparando meu filho para o mundo.
Mas ninguém havia me preparado para entregá-Lo ao mundo.
Então Jesus olhou para mim.
Nossos olhos se encontraram.
Por um instante, não havia multidão.
Não havia soldados.
Não havia cruz.
Havia apenas meu filho olhando para sua mãe.
Eu chorava.
Não havia nada que me consolasse,
Ele me olhava.
Havia dor...
Mas havia ternura em seu olhar.
E depois Ele olhou para João.
Então disse:
— Mulher, eis aí teu filho.
E para João:
— Eis aí tua mãe.
Eu não queria entender.
Não queria aceitar.
Porque ninguém substitui um filho.
E ninguém substitui uma mãe.
Mas naquele momento Jesus não estava pedindo que João ocupasse o lugar Dele...
Estava dizendo que eu não ficaria sozinha.
E talvez estivesse dizendo a João que ele também não ficaria.
Eu queria dizer a Jesus que não precisava se preocupar comigo.
Queria dizer que eu suportaria.
Que uma mãe suporta qualquer coisa.
Mas eu não consegui falar.
Apenas chorei...
João ficou ao meu lado.
Segurou meu braço.
E foi naquele instante que percebi que ele também estava destruído.
Ele havia perdido seu Mestre.
Eu estava perdendo meu filho.
Nenhum de nós sabia como sobreviver ao que estava acontecendo.
Mas permanecemos ali.
Juntos.
João ficou....
Quando muitos já tinham ido embora.
Ficou no silêncio...
Na saudade.
Nas noites em que eu acordava chorando e, por um instante, esquecia que Jesus havia
morrido.
Às vezes eu me levantava pensando que ouviria Seus passos.
Então lembrava.
E a ausência voltava...
Devastadora...
Insuportável
Havia manhãs em que eu preparava comida demais.
Só percebia depois.
Havia momentos em que olhava para uma porta e esperava que Ele entrasse, sorridente
chamando -me de "minha Ema"
E então lembrava que aquela porta nunca mais se abriria para Ele.
João nunca tentou ocupar o lugar de Jesus.
Ele apenas ficou.
E isso foi suficiente.
Pouco a pouco, ele deixou de ser apenas o discípulo amado.
Virou meu filho do coração.
Não porque substituiu Jesus.
Mas porque me ajudou a continuar vivendo sem Ele.
E eu também tentei ajudá-lo.
Porque João perdera um Mestre.
Eu perdera um filho.
Mas ambos havíamos perdido alguém que amávamos.
João era diferente dos outros.
Mais silencioso...
Mais atento.
Mais cuidadoso.
Às vezes me observava em silêncio, como se tentasse guardar detalhes que o tempo poderia
levar embora.
Um gesto...
Uma lembrança.
Uma palavra de Jesus.
E um dia ele começou a escrever.
No começo, achei que fosse apenas mais um relato.
Mas João não escrevia como os outros.
Ele escrevia como quem tentava fazer as pessoas sentirem.
Como quem queria que elas olhassem para Jesus e percebessem não apenas o que Ele fez...
mas quem Ele era.
Às vezes ele me perguntava sobre a infância de Jesus.
Sobre José.
Sobre Nazaré.
Sobre as primeiras palavras.
Sobre os silêncios.
Eu respondia devagar.
Porque algumas lembranças ainda doíam.
Outras aqueciam.
Às vezes eu sorria antes mesmo de perceber.
— Conte também como Ele olhava para as pessoas — eu dizia. — As pessoas precisam
saber disso.
João me olhava em silêncio.
E continuava escrevendo.
— Não fale apenas dos milagres — eu dizia. — Fale da forma como Ele tocava os leprosos.
Da forma como escutava os envergonhados. Da forma como fazia cada pessoa se sentir
vista.
Eu parava.
Respirava.
E acrescentava:
— Porque era assim que Ele olhava para mim também.
João levantava os olhos.
E eu percebia que ele compreendia.
Porque Jesus nunca fez ninguém se sentir invisível.
Nem mesmo uma mãe.
Às vezes João chorava enquanto escrevia.
Às vezes eu também.
Porque cada lembrança parecia trazer Jesus de volta por alguns instantes.
E, ao mesmo tempo, fazia a ausência dEle doer de novo.
Era estranho...
Lembrar era uma forma de reencontrá-Lo.
Mas também era uma forma de perdê-Lo outra vez.
Mesmo assim, eu continuei.
Porque percebi que João não estava escrevendo apenas um evangelho.
Estava preservando um rosto.
O rosto do meu filho.
Enquanto João escrevia, eu também tinha meu trabalho.
As mulheres me procuravam.
Viúvas.
Mães.
Meninas assustadas.
Esposas abandonadas.
Mulheres que tinham perdido filhos.
Mulheres que tinham perdido a esperança.
Algumas vinham porque ouviram falar de Jesus.
Outras vinham porque ouviram falar de mim.
E eu as recebia.
Não porque eu tivesse todas as respostas.
Mas porque sabia ouvir.
Sabia como é sentir medo.
Sabia como é esperar.
Sabia como é perder alguém.
Sabia como é continuar vivendo mesmo quando parece impossível.
Muitas delas choravam.
E eu chorava junto.
Às vezes, enquanto uma mãe falava sobre o filho que havia perdido, eu precisava controlar
minhas próprias lágrimas.
Porque cada história parecia tocar uma ferida que nunca tinha cicatrizado completamente.
Mas eu a abraçava.
E pensava:
Se eu não posso mais abraçar meu filho, posso abraçar o filho de outra mãe.
Talvez tenha sido assim que Deus me ensinou a continuar sendo mãe.
Outras queriam entender como continuar servindo depois de tanta dor.
E eu dizia:
— Continue fazendo o que Jesus fazia. Sente-se com quem está sozinho. Escute quem
ninguém quer ouvir. Cuide de quem todos esqueceram.
Algumas perguntavam:
— Mas como continuar quando o coração está cansado?
Eu pensava em mim mesma.
Pensava em João.
Pensava na cruz.
E respondia:
— Um dia de cada vez...
Talvez essa tenha sido minha missão depois da cruz.
Ser mãe outra vez.
Não apenas de João.
Mas de todos aqueles que precisavam de abrigo.
E houve uma conversa que nunca contei a ninguém.
Só a João.
Foi numa noite silenciosa.
Ele escrevia.
Eu costurava.
Por um tempo, ficamos apenas ouvindo o som da lamparina e do vento.
Havia noites em que o silêncio da casa parecia maior do que a própria casa.
Foi em uma dessas noites que falei.
— Houve uma época em que achei que Jesus fosse se casar.
João levantou os olhos rapidamente.
Talvez surpreso.
Talvez curioso.
Sorri de leve.
— Toda mãe sonha com isso em algum momento.
Ele continuou olhando para mim.
— Eu imaginava uma casa — continuei. — Uma casa cheia de vida. Talvez crianças
correndo. Jesus chegando cansado da carpintaria. Uma mulher esperando por Ele.
Minha voz ficou baixa.
— Eu queria que Ele tivesse conhecido essas coisas.
João abaixou a pena.
Eu continuei:
— Queria que tivesse tido uma vida mais simples.
Ele não disse nada.
Esperou.
— E, se tivesse acontecido... eu imaginava que seria com Maria Madalena.
João ergueu ligeiramente as sobrancelhas.
Maria Madalena tinha uma forma de olhar para Jesus que era diferente.
Não por ambição.
Não por desejo de ser importante.
Era amor.
Um amor sincero.
Profundo.
Daqueles que nascem da gratidão.
E Jesus também tinha por ela um carinho especial.
Um cuidado.
Uma delicadeza.
Talvez por isso eu tenha pensado nela.
Não porque eu soubesse o que teria acontecido.
Ninguém sabia.
Era apenas o pensamento de uma mãe.
Um sonho que nunca aconteceu.
João sorriu de lado.
Como se aquela ideia fizesse sentido para ele também.
Mas então balancei a cabeça devagar.
— Acho que, no fundo, eu só queria que Ele tivesse tido uma vida mais simples. Uma casa.
Uma esposa. Filhos correndo pelo quintal.
Minha voz falhou um pouco.
— Eu queria ouvir crianças chamando por Ele.
Parei...
Suspirei...
Abaixei a cabeça.
— Queria vê-Lo envelhecer.
Essa foi a parte mais difícil de dizer.
Porque eu nunca teria a oportunidade de ver os cabelos de Jesus ficarem brancos.
Nunca veria seus filhos.
Nunca conheceria os filhos de meu filho.
Nunca reclamaria das escolhas de uma nora.
Nunca teria aquelas pequenas coisas que parecem insignificantes até desaparecerem.
João permaneceu em silêncio.
Eu enxuguei uma lágrima.
— Mas Jesus nunca pertenceu a uma única pessoa.
Olhei para a chama da lamparina.
— Ele pertencia ao mundo.
João abaixou os olhos.
E continuou escrevendo em silêncio.
Fiquei observando-o.
E percebi que, de alguma maneira, Jesus havia cumprido Sua promessa.
Eu queria ter tido uma família maior.
E Ele me dera.
Não da maneira que eu imaginava.
Mas de uma maneira que jamais poderia ter imaginado.
João.
As mulheres.
As crianças.
Os viúvos.
Os órfãos.
Os que chegavam carregando dores que não sabiam onde colocar.
Todos eles começaram a ocupar pequenos espaços no meu coração.
Não substituíam Jesus.
Ninguém poderia.
Mas cada um deles me lembrava de alguma coisa que Ele havia ensinado.
Quando eu abraçava uma criança, lembrava de como Jesus recebia os pequenos.
Quando alimentava alguém com fome, lembrava das multidões.
Quando ouvia uma mulher que todos ignoravam, lembrava de como Ele parava para escutar.
Quando perdoava alguém, lembrava de Sua voz.
E, pouco a pouco, compreendi.
Ser mãe de Jesus não terminou na cruz.
Talvez tenha começado uma segunda maternidade ali.
Uma maternidade sem o filho nos braços.
Uma maternidade feita de memória.
De serviço.
De escuta.
De acolhimento.
De amor.
Às vezes ainda sinto falta Dele como mãe.
Não como testemunha.
Não como alguém que sabe quem Ele é.
Mas simplesmente como mãe.
E nessas horas não quero respostas.
Quero apenas lembrar.
Lembrar de Suas mãos.
De Sua voz.
Do Seu sorriso.
Do menino que varria a serragem da oficina.
Do homem que tocava os feridos.
Do filho que, mesmo pregado numa cruz, ainda se preocupou em não me deixar sozinha.
Então compreendo que talvez essa tenha sido a última lição que Ele me deu.
O amor de uma mãe não termina quando o filho parte.
Ele muda de forma.
Transforma-se em memória.
Depois em serviço.
Depois em cuidado.
E, finalmente, em amor pelos outros.
Jesus foi meu filho.
Mas, depois dEle...o mundo inteiro começou a caber no meu coração.
E, quando alguém me pergunta como foi ser mãe de Jesus, eu já não procuro uma resposta.
Penso apenas naquele menino que um dia carreguei nos braços.
E naquele homem que, do alto da cruz, cuidou para que eu não ficasse sozinha.
Então sorrio entre lágrimas.
Porque descobri que uma mãe pode perder o filho...mas nunca perde o amor que aprendeu
com ele.
E talvez essa seja a razão de eu continuar abrindo a porta.
Continuar ouvindo.
Continuar acolhendo.
Porque cada pessoa que chega até mim traz alguma coisa de Jesus.
Um pouco de Sua dor.
Um pouco de Sua esperança.
Um pouco de Sua luz.
E, quando fecho os olhos à noite, ainda consigo vê-Lo como menino.
Perto da janela.
Com as mãos pequenas.
Olhando para o horizonte.
Como se escutasse algo que mais ninguém conseguia ouvir.
Desta vez, eu não tenho medo.
Porque agora entendo.
Ele não estava olhando para longe.
Estava apenas ouvindo o Pai.
E eu... eu estava aprendendo a deixá-Lo ir.

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