The Chosen - Vozes depois D´Ele -CAPìTULO 17- TIAGO MENOR

 


 CAPÍTULO 17--- TIAGO MENOR

O Homem Que Aprendeu a Esperar


Passei boa parte da minha vida tentando ser visto.

Não por vaidade.

Mas porque é difícil viver ao lado de homens que parecem maiores do que você.

Pedro entrava nos lugares como uma tempestade.

João tinha um coração que parecia maior que o corpo.

Mateus enxergava coisas que ninguém via.

E havia eu...

Tiago, o menor.

Tiaguinho, como alguns me chamavam.

Nunca me incomodei com o apelido.

O que me incomodava era a perna.

A dor.

A limitação.

O jeito como as pessoas olhavam para mim com pena.

Mas havia outra coisa que poucas pessoas sabiam.

Eu gostava de cantar.

Muito.

Quando eu cantava, esquecia a minha perna.

Esquecia os olhares.

Esquecia os cochichos.

Por alguns instantes, eu não era o homem que mancava.

Era apenas Tiago.

Minha voz era boa.

Não digo isso por orgulho.

Era simplesmente algo que eu sabia fazer.

E, durante muito tempo, achei que talvez fosse justamente através dela que eu encontraria meu lugar.

Foi por isso que, quando surgiu a oportunidade de participar de um coral em Jerusalém, meu coração 

quase saiu pela boca.

Jerusalém.

A cidade.

O Templo.

Os cânticos.

Eu imaginava minha voz ecoando entre outras vozes.

Passei semanas treinando.

Cantava enquanto trabalhava.

Cantava sozinho.

Cantava até minha garganta doer.

Eu queria estar preparado.

Queria provar que também podia fazer alguma coisa.

Quando finalmente procurei o mestre responsável pelo coral da minha região, estava convencido de 

que ele me aceitaria.

Cantei diante dele.

Ele ouviu tudo em silêncio.

Quando terminei, fiquei esperando.

Ele não respondeu imediatamente.

Apenas olhou para mim.

Depois olhou para minha perna.

Aquele olhar foi suficiente.

— Você canta bem, Tiago.

Meu coração se encheu de esperança.

Então ele completou:

— Mas não poderá participar.

— Por quê?

Ele hesitou.

— Jerusalém exige disciplina. Apresentações, deslocamentos, longas horas em pé...

Ele não precisou terminar.

Eu já havia entendido.

Era por causa da minha perna.

Novamente.

Sempre a perna.

Minha voz podia ser boa.

Meu coração podia estar disposto.

Eu podia treinar mais do que qualquer outro.

Mas, para ele, havia uma coisa que vinha antes de tudo.

A minha limitação.

Saí dali com a garganta apertada.

Não chorei na frente dele.

Não queria dar esse gosto a ninguém.

Mas, quando fiquei sozinho, bati a mão contra uma parede.

Uma vez.

Depois outra.

— Eu consigo! — gritei.

Minha voz ecoou.

Mas ninguém respondeu.

Foi então que tomei uma decisão.

Se não queriam me deixar ir para Jerusalém, eu iria sozinho.

Eu cantaria.

Eu mostraria que não era apenas a minha perna.

Era a minha voz.

Era quem eu era.

Juntei algumas coisas.

Coloquei-as numa pequena bolsa.

E parti.

Não sabia exatamente o que encontraria.

Sabia apenas que precisava tentar.

A estrada parecia maior do que eu imaginara.

A cada passo, minha perna reclamava.

O caminho era irregular.

Muitas pedras.

Poeira.

Subidas.

Descidas.

Às vezes eu precisava parar.

Respirar.

Esperar a dor diminuir.

Depois continuar.

Mas eu não voltava.

Eu pensava em Jerusalém.

Pensava no coral.

Pensava na minha voz.

E continuava.

Até que a noite chegou.

E o frio veio com ela.

Um frio que parecia atravessar a roupa.

Procurei um lugar para descansar.

Encontrei apenas um trecho de chão protegido pelo pouco de vegetação que havia.

Tentei fazer uma fogueira.

Peguei alguns gravetos.

Juntei folhas secas.

Fiz uma pequena pilha.

Tentei acender.

Nada...

Tentei novamente.

Nada....

Na terceira tentativa, meus dedos já estavam dormentes.

A chama aparecia por um instante e desaparecia.

Eu estava cansado.

Minha perna doía.

Minhas mãos tremiam.

E, pela primeira vez desde que havia saído de casa, tive medo.

Sentei-me no chão.

Abraçei os joelhos.

Olhei para o céu.

As estrelas pareciam distantes demais.

— Talvez eu tenha sido tolo.

Minha voz saiu baixa.

Quase um sussurro.

— Talvez eles estivessem certos.

Baixei a cabeça.

Eu não conseguia fazer fogo.

Não conseguia andar sem dor.

Não conseguia entrar no coral.

Talvez eu realmente não conseguisse fazer nada.

Foi quando ouvi passos.

Levantei o rosto.

Dois homens vinham pela estrada.

Um deles eu reconheceria mais tarde como Judas Tadeu.

O outro...

Eu nunca esqueceria.

Jesus.

Eles se aproximaram.

Jesus olhou para mim.

Depois olhou para a pequena fogueira fracassada.

— Está frio.

Não era uma pergunta.

— Sim.

Ele se aproximou e se sentou ao meu lado.

Não ficou de pé me olhando de cima.

Sentou.

Como se eu fosse importante o suficiente para que Ele dividisse comigo aquela noite.

Judas Tadeu começou a juntar alguns gravetos.

Jesus colocou parte de sua cobertura sobre meus ombros.

— Não precisa.

— Precisa, sim.

A resposta foi simples.

Judas conseguiu acender o fogo.

A pequena chama cresceu lentamente.

Eu fiquei olhando para ela.

Jesus também.

Depois perguntou:

— Para onde você está indo?

— Jerusalém.

— Fazer o quê?

Respirei fundo.

— Cantar.

Ele sorriu.

— Você canta?

Assenti.

— Bem.

Dessa vez, sorri também.

Era a primeira vez naquela noite.

— E quem disse que você não pode?

O sorriso desapareceu.

— Meu mestre.

— Por quê?

Olhei para minha perna.

Jesus acompanhou meu olhar.

— Por causa disso.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos.

Depois perguntou:

— E você acha que ele está certo?

Não soube responder.

— Quando você canta, o que sente?

Pensei.

— Quando canto...

Parei.

— Eu esqueço.

Jesus me olhou.

— Esquece o quê?

Toquei minha perna.

— Isso....

Ele ficou em silêncio.

Então disse:

— Talvez sua voz tenha sido encontrada para mais do que cantar diante das pessoas.

Franzi a testa.

— Para quê?

— Para lembrar você de quem é.

Aquelas palavras me atingiram de um jeito que eu não esperava.

Jesus olhou para o fogo.

— Há pessoas que passam a vida inteira tentando provar que são fortes.

Depois voltou os olhos para mim.

— E há pessoas que Deus chama justamente quando elas acham que são pequenas demais.

Eu não disse nada.

Ele continuou:

— Os homens olham para aquilo que conseguem medir. Deus olha para aquilo que carregamos por 

dentro.

Olhei para minha perna.

— Mas eu queria apenas ser como os outros.

Jesus respondeu:

— Você não precisa ser como os outros.

— Mas preciso provar que tenho valor.

Ele sorriu.

— Você não precisa provar seu valor para Deus.

Parei.

Jesus colocou a mão sobre meu ombro.

— Nem para os homens.

Minha garganta apertou.

— Nem para mim?

Ele me olhou diretamente.

— Principalmente para você.

Foi naquela noite que alguma coisa mudou.

Não foi minha perna.

Ela continuava doendo.

Não foi minha situação.

Eu ainda não sabia se conseguiria chegar a Jerusalém.

Não foi minha voz.

Ela continuava sendo a mesma.

Foi meu coração.

Naquela noite, diante daquele pequeno fogo, eu entendi que talvez tivesse passado a vida inteira 

tentando convencer os outros de que eu era mais do que a minha deficiência.

Jesus não me pediu que eu provasse nada.

Ele simplesmente sentou ao meu lado.

Ele me viu.

De verdade.

E foi ali que comecei a segui-Lo.

Não porque Ele tivesse prometido me curar.

Mas porque, pela primeira vez, alguém olhou para mim sem enxergar primeiro a minha perna.

Jesus enxergou Tiago.

Naquela noite, voltei a caminhar.

Ainda mancando.

Ainda sentindo dor.

Mas já não carregava o mesmo peso.

Eu não precisava mais provar que era igual aos outros.

Queria apenas descobrir o que Deus poderia fazer através de mim do jeito que eu era.

Foi assim que comecei a caminhar com Jesus.

E, algum tempo depois, voltei a perceber aquilo que sempre me atormentara.

Eu vi Jesus curar cegos.

Vi surdos ouvirem.

Vi paralíticos correrem.

Vi mortos voltarem à vida.

E, ainda assim, continuei mancando.

Por muito tempo, tentei entender por quê.

Cheguei a pensar que talvez eu não tivesse fé suficiente.

Talvez não fosse digno.

Talvez Jesus tivesse me escolhido apesar da minha fraqueza, e não por causa dela.

Mas um dia perguntei.

Não porque estivesse revoltado.

Só cansado.

Cansado de esperar.

Lembro exatamente de como Ele me olhou.

Sem irritação.

Sem impaciência.

Sem pena.

Apenas amor.

Então sorriu daquele jeito calmo que desmontava qualquer defesa.

E disse:

— Tiaguinho... meu precioso Tiaguinho...

Meu coração quase parou.

Porque ninguém nunca tinha falado comigo daquela forma.

Ninguém nunca tinha olhado para mim como se eu fosse valioso mesmo estando quebrado.

Então Ele continuou:

— Eu posso curá-lo agora.

Minha respiração falhou.

Mas Ele continuou:

— Só que, se eu fizer isso, você nunca entenderá o que é caminhar ao lado de pessoas que sofrem todos os dias.

Fiquei em silêncio.

E Ele colocou a mão no meu ombro.

— Um dia eu vou curá-lo. Mas, até lá, sua dor vai ensinar coisas que a força nunca ensinaria.

Na época, não entendi.

Ou talvez não tenha querido entender.

Porque quem sofre sempre quer que a dor termine logo.

Mas comecei a compreender aos poucos.

Principalmente quando encontrei um homem numa pequena vila.

Anos depois, já anunciando a ressurreição, fui enviado para aquela região.

Havia um homem lá.

Magro.

Muito magro.

Com os olhos fundos de quem já tinha desistido de esperar qualquer coisa boa.

Ele tossia sem parar.

Seu corpo tremia.

E as pessoas mantinham distância.

Diziam que era castigo.

Diziam que era impuro.

Diziam que estava morrendo.

Quando me aproximei, senti o cheiro da doença.

O medo.

A vergonha.

Ele mal conseguia falar.

Mas segurou meu braço e perguntou:

— Jesus ainda cura?

Naquele instante, lembrei de mim.

Lembrei das noites em que perguntei a mesma coisa.

Lembrei do peso na perna.

Da raiva.

Da frustração.

E me ajoelhei ao lado dele.

Minha perna doeu quando fiz isso.

Doeu muito.

Mas fiquei ali.

Segurei sua mão.

E disse:

— Sim. Cura.

As pessoas ao redor ficaram em silêncio.

Eu orei.

Não uma oração bonita.

Não uma oração longa.

Só pedi que Jesus olhasse para aquele homem como olhou para mim.

E então aconteceu.

A tosse parou.

A respiração dele ficou mais leve.

Os olhos, antes perdidos, começaram a ganhar vida.

Ele olhou para as próprias mãos.

Depois para mim.

E começou a chorar.

As pessoas também choraram.

Algumas correram.

Outras se ajoelharam.

E eu fiquei parado.

Sem conseguir acreditar.

Porque, quando menos esperava, eu tinha sido instrumento da cura de alguém.

Eu, o homem que continuava mancando.

Naquela noite, chorei sozinho.

Não de tristeza.

Mas porque finalmente entendi o que Jesus queria dizer.

Ele ainda não tinha curado minha perna.

Mas já tinha curado muitas outras coisas dentro de mim.

A raiva.

A vergonha.

O sentimento de ser menos que os outros.

E compreendi que talvez aquela fosse a razão de eu ter precisado esperar.

Eu conhecia a dor.

Por isso conseguia reconhecer a dor nos outros.

Eu conhecia a vergonha.

Por isso conseguia me aproximar de quem tinha vergonha.

Eu sabia o que era ser olhado como alguém incompleto.

Por isso conseguia olhar para outros sem julgá-los pela parte que lhes faltava.

Pouco tempo depois de Jesus subir aos céus, aconteceu.

Não houve trovão.

Não houve multidão.

Não houve anúncio.

Eu estava sozinho.

Caminhando por uma estrada estreita, indo visitar irmãos em outra vila.

Minha perna doía como sempre.

E eu me lembrava dEle.

Da voz.

Do olhar.

Da promessa.

Então tropecei.

Por instinto, firmei o corpo.

Esperei a dor vir.

Mas ela não veio.

Parei.

Dei outro passo.

Depois mais um.

E mais um.

Olhei para minha perna.

Dobrei o joelho.

Apoiei o peso.

Corri.

Corri como nunca tinha corrido na vida.

Caí de joelhos no chão e chorei.

Não porque finalmente podia andar direito.

Mas porque Ele tinha cumprido Sua promessa.

Mesmo depois de partir.

Mesmo depois de subir aos céus.

Jesus ainda estava comigo.

Naquele momento, lembrei da noite em que O encontrei.

O frio.

A pequena fogueira.

Judas Tadeu ao nosso lado.

A mão de Jesus sobre meu ombro.

E aquelas palavras:

“Você não precisa provar seu valor.”

Eu tinha passado tanto tempo tentando provar alguma coisa.

E agora estava correndo.

Não para provar.

Mas porque finalmente podia.

Naquele dia, entendi que minha cura não era o fim da minha história.

Era o começo.

Porque, se eu tinha passado tantos anos esperando, agora precisava passar o resto da vida anunciando.

Fui para uma vila.

Depois outra.

Depois outra.

E toda vez que alguém olhava para mim com dúvida, medo ou desânimo, eu sorria.

Porque eu sabia exatamente como aquela pessoa se sentia.

E dizia:

— Ele cumpre o que promete.

Às vezes demora.

Às vezes dói.

Às vezes parece que Ele esqueceu.

Mas não esqueceu.

Eu sou prova disso.

Depois de chegar em uma das comunidades, comecei a ajudar como sempre fazia.

Carreguei água.

Arrumei bancos.

Ajudei a distribuir pão.

Andava de um lado para o outro sem pensar.

Sem medo.

Sem dor.

Como se meu corpo ainda estivesse tentando aprender aquilo que meu coração já sabia.

Foi então que Mateus me viu.

Ele parou no meio do que estava fazendo.

Olhou primeiro para meus pés.

Depois levantou os olhos devagar.

Ficou em silêncio por um instante.

E perguntou, quase sem voz:

— Tiago... você está andando.

Olhei para baixo.

Ainda era estranho acreditar.

Ainda parecia impossível.

Então sorri.

Não um sorriso grande.

Só aquele sorriso pequeno de quem esperou por algo durante tanto tempo que quase esqueceu como era 

receber.

Mateus começou a chorar primeiro.

Porque ninguém entendia melhor do que ele o que era viver anos se sentindo diferente.

Aproximei-me dele.

E disse:

— Ele cumpriu.

Mateus enxugou os olhos.

Sorriu também.

E respondeu:

— Eu sei.

Naquele momento, entendi que Jesus não tinha esquecido nenhum de nós.

Nem o homem que mancava.

Nem o homem que não conseguia olhar nos olhos das pessoas.

Nem aquele homem que, durante uma noite fria, acreditou que não conseguiria chegar a lugar nenhum.

Ele nos viu desde o começo.

E continuou nos vendo até o fim.

Hoje, quando alguém me pergunta sobre minha história, eu poderia falar da cura.

Poderia falar do dia em que finalmente corri.

Poderia falar de como Mateus chorou quando me viu andando.

Mas, quando penso no que realmente mudou minha vida, lembro de uma noite.

Uma noite fria.

Uma fogueira que eu não conseguia acender.

Um homem chamado Judas Tadeu juntando gravetos.

E Jesus sentando ao meu lado.

Eu queria chegar a Jerusalém para provar que podia cantar.

Jesus me ensinou que eu não precisava provar nada.

Eu queria ser visto pelos homens.

Ele me viu.

Eu queria esquecer minha perna.

Ele me ensinou a olhar para ela sem vergonha.

Eu queria ser curado.

Ele me ensinou primeiro a caminhar com quem ainda não havia sido curado.

E, quando finalmente chegou o dia da cura, compreendi:

Esperar não significava que Deus havia me esquecido.

Às vezes, esperar significava que Ele ainda estava formando em mim aquilo que eu precisaria para o 

caminho.

Eu sou Tiago.

Tiago, o menor.

Tiaguinho....

O homem que passou boa parte da vida tentando ser visto.

Hoje sei que nunca estive invisível.

Ele estava me vendo.

Desde a estrada.

Desde a noite fria.

Desde a primeira canção.

Desde o primeiro passo.

Desde a primeira dor.

Desde a espera.

E, quando chegou a hora, Ele cumpriu.

Porque Jesus não tinha esquecido de mim.

Nunca.

Ele apenas estava me ensinando a esperar.



Apóstolo Tiago Menor - Tiaguinho


Comentários