Kamen Rider Legend -Temporada 3 - Black RX: Lonely Heart- Capítulo 03 (Final)
Capítulo 03
O IRMÃO QUE AINDA EXISTIA E O ESPELHO DO CORAÇÃO
RX, VOCÊ NÃO ESTÁ SÓ!
WOZ
Fechei o livro
lentamente.
Por alguns segundos,
permaneci em silêncio, observando a tela holográfica diante de mim. As imagens
ainda tremeluziam, como se o próprio tempo hesitasse em encerrar aquela
história.
Meus olhos brilhavam.
— IAWEI!
Touma ergueu o rosto
na minha direção.
— O que foi, Woz?
Não respondi
imediatamente.
A tela mostrou Kyoko.
Depois, Satie.
Em seguida, Nobuhiko.
Por último, Issamu.
Quatro pessoas. Quatro
vidas marcadas por perdas diferentes, mas ligadas por uma história que nenhuma
distância seria capaz de apagar completamente.
E então compreendi.
Aquela história nunca
havia sido apenas sobre Issamu Minami.
Era sobre todos eles.
Kyoko carregava a
ausência do irmão e um sentimento por Issamu que jamais encontrara espaço para
se transformar em uma vida compartilhada.
Satie carregava a
distância de Issamu e a saudade de Nobuhiko, o homem que amara e perdera para a
escuridão de Gorgom.
Nobuhiko carregava a
ausência de si mesmo. O garoto que existira antes de se tornar Shadow Moon,
soterrado sob a identidade que lhe fora imposta.
E Issamu...
Issamu carregava
todos.
A lembrança do irmão
que tentara salvar. A saudade daqueles que partiram. A culpa por não ter
conseguido impedir certas tragédias. E a esperança teimosa de que, mesmo depois
de tudo, ainda fosse possível encontrar algo de Nobuhiko no homem que se
tornara seu maior inimigo.
Talvez essa fosse a
parte mais cruel de sua história.
Issamu não perdera
apenas pessoas.
Perdera também a
possibilidade de voltar a ser quem era antes de perdê-las.
Ou, pelo menos, era
isso que acreditava.
TOUMA
— Ele não está
sozinho.
Woz virou lentamente o
rosto para mim.
— Não? — perguntou,
com uma sobrancelha arqueada.
— Não.
— Mesmo quando luta
sozinho?
— Sim.
— Mesmo quando ninguém
está fisicamente ao lado dele?
Demorei um instante
para responder.
— Mesmo assim.
Woz cruzou os braços.
— E como pode ter
tanta certeza, Touma-kun?
Olhei novamente para a
imagem de Issamu.
Ele estava sem
armadura. Sem inimigos diante de si. Sem uma transformação que pudesse esconder
suas dores.
Apenas um homem.
—Porque ele ainda
consegue ouvir as vozes daqueles que ama.
Woz ficou sério.
— E isso basta?
Balancei a cabeça.
— Não. Lembranças não
substituem a presença de quem amamos. Uma promessa não desfaz uma perda. E a
esperança, por si só, não consegue consertar tudo aquilo que foi destruído.
Fiz uma pausa.
— Mas essas coisas
podem nos ajudar a continuar quando já não sabemos como dar o próximo passo.
Woz desviou os olhos
para o livro.
— Satie pediu que ele
vivesse.
— Sim.
— Kyoko pediu que ele
não transformasse a esperança em uma prisão.
— Sim.
— E os dez Riders
prometeram que, se Issamu voltasse, não permitiriam que ele enfrentasse tudo
sozinho novamente.
Sorri discretamente.
— Eles não puderam
mudar o passado. Mas decidiram que o passado não escolheria sozinho o que
fariam no futuro.
Woz permaneceu em
silêncio.
Pela primeira vez
naquela noite, não tentou transformar minha resposta em uma de suas grandes
declarações.
Talvez também tivesse
compreendido.
Aquela história não
precisava de mais uma batalha.
Precisava de espaço
para que seus personagens finalmente respirassem.
WOZ
O Arquivo Temporal
voltou a emitir um ruído baixo.
Uma linha de
interferência atravessou a tela.
Black apareceu.
A imagem oscilou.
RX tomou seu lugar.
Depois, por alguns
instantes, surgiram RoboRider e BioRider.
As quatro imagens se
sobrepuseram, até que já não era possível distinguir completamente uma forma da
outra.
Franzi a testa.
— Touma.
— Eu vi.
— O Arquivo está
apresentando uma instabilidade.
Touma se aproximou da
tela.
— Não parece uma falha
comum.
— Naturalmente!
Estamos diante de um registro que atravessa diferentes momentos da mesma vida.
Seria quase decepcionante se o tempo não resolvesse demonstrar sua
personalidade dramática justamente agora!
Touma soltou uma
pequena risada.
— Você consegue fazer
uma piada até neste momento?
— É um talento raro,
meu caro escritor.
A tela tornou a
oscilar.
Então a imagem de
Issamu desapareceu.
No lugar dela, surgiu
uma cozinha pequena, do outro lado do mundo.
— Ah... — murmurei.
Touma olhou para mim.
— O que foi?
— Parece que o Arquivo
ainda tem duas histórias para nos mostrar.
A imagem ganhou
nitidez.
E voltamos ao passado.
SATIE — UMA VOZ DO OUTRO LADO DO MUNDO
WOZ
Nos Estados Unidos,
uma chuva fina escorria pela janela de uma cozinha modesta.
O céu estava cinzento.
Sobre a mesa, havia
uma xícara de chá que já perdera o calor. Ao lado dela, um pequeno relógio
marcava a passagem dos minutos.
Satie Kida estava
diante da pia, tentando se concentrar nas tarefas domésticas.
Tentando.
Porque, mesmo quando
as mãos estavam ocupadas, seus pensamentos encontravam o caminho de volta para
o Japão.
Para Issamu.
Para Nobuhiko.
Para tudo aquilo que
ficara para trás.
O telefone tocou.
Satie parou
imediatamente.
Por um instante,
apenas olhou para o aparelho.
Depois enxugou as mãos
em um pano e atendeu.
— Alô?
Do outro lado, houve
uma breve pausa.
Então ela ouviu uma
voz conhecida.
— Satie.
A mão que segurava o
telefone apertou o aparelho.
— Issamu?
— Sou eu.
Ela fechou os olhos.
Não perguntou
imediatamente se ele estava ferido. Não perguntou onde estava. Não quis saber
quantos inimigos enfrentara.
Por alguns segundos,
limitou-se a escutar a respiração dele.
Como se precisasse
confirmar que aquela voz realmente existia.
— Acabou — disse
Issamu.
Satie encostou a mão
livre na borda da pia.
— Acabou?
— A batalha terminou.
Ela engoliu em seco.
— Você venceu?
Issamu demorou um
instante.
— Nós vencemos.
Satie fechou os olhos
com mais força.
Uma lágrima escorreu
pelo seu rosto.
— Eu sabia.
Do outro lado, Issamu
soltou uma risada fraca.
— Sabia mesmo ou
apenas esperava?
— As duas coisas.
A resposta foi
simples.
Mas, para Satie,
continha anos de distância, saudade e preocupação.
Ela não estivera ao
lado dele quando a armadura de Black se partira.
Não vira o instante em
que Issamu enfrentara a morte.
Não pudera segurá-lo
quando ele precisara de alguém.
E, ainda assim,
continuara esperando.
Não porque tivesse
certeza de que tudo terminaria bem.
Mas porque desistir
dele significaria aceitar que a distância havia se tornado maior do que tudo
aquilo que os ligava.
— Você está ferido? —
perguntou, finalmente.
— Estou bem.
Satie suspirou.
— Issamu...
— O quê?
— Você ainda mente
mal.
Dessa vez, ele riu de
verdade.
Foi uma risada breve,
cansada, quase enferrujada pela falta de uso.
Mas Satie a
reconheceu.
E, por um instante,
não ouviu a voz de um herói que acabara de vencer uma batalha.
Ouviu a voz do homem
que conhecera antes de RX, antes de Crisis, antes de tantas outras
responsabilidades.
O homem que, apesar de
tudo, ainda estava ali.
— Eu fiquei pensando
em você — confessou Issamu.
Satie abaixou os
olhos.
— Eu também pensei em
você.
— Muitas vezes,
imaginei como seria voltar a conversar assim.
— E por que não ligou
antes?
A pergunta escapou
antes que ela pudesse contê-la.
Issamu permaneceu em
silêncio.
Satie se arrependeu
imediatamente.
— Desculpe. Eu não
queria...
— Não precisa se
desculpar.
Ele respirou fundo.
— Às vezes, eu não
sabia o que dizer.
— Você nunca precisou
encontrar as palavras certas comigo.
— Eu sei.
— Então por que parece
tão difícil?
Issamu demorou a
responder.
— Porque, quando penso
em tudo o que aconteceu, tenho a sensação de que não deveria ter o direito de
continuar vivendo como se nada tivesse acontecido.
Satie ficou imóvel.
A chuva continuava
batendo suavemente contra a janela.
— Issamu, você não
está vivendo como se nada tivesse acontecido.
— Não?
— Não. Você se lembra
de tudo. Carrega tudo. Às vezes, parece que tenta pagar por cada perda sofrendo
mais um pouco.
Ele não respondeu.
Satie olhou para a
xícara esquecida sobre a mesa.
— Você perdeu Nobuhiko.
Perdeu pessoas que amava. Passou por coisas que ninguém deveria precisar
enfrentar. Eu não vou fingir que sei exatamente como você se sente.
Sua voz vacilou.
— Eu também perdi
Nobuhiko. Ele foi o homem que amei. Mas a minha dor não é igual à sua, Issamu.
E eu não quero usar o que sinto para dizer como você deveria sofrer.
Do outro lado da
linha, Issamu respirou profundamente.
— Às vezes, tenho medo
de esquecer.
— Esquecer o quê?
— Quem ele era. Quem
nós éramos antes de tudo isso.
Satie apoiou o
cotovelo na pia.
— Você não precisa
esquecer Nobuhiko para continuar vivendo.
— Mas e se continuar
significar deixá-lo para trás?
— Não é a mesma coisa.
Ela escolheu as
palavras com cuidado.
— Deixar alguém para
trás seria fingir que essa pessoa nunca existiu. Continuar vivendo é reconhecer
que ela existiu, que foi importante e que você não pode voltar ao passado para
mudar o que aconteceu.
Fez uma pausa.
— Você pode levar
Nobuhiko consigo sem transformar cada dia da sua vida em um castigo.
Issamu não respondeu.
Satie imaginou que ele
estivesse com os olhos fechados.
Conhecia aquele
silêncio.
Era o silêncio de
alguém que desejava acreditar, mas tinha medo de que a esperança se tornasse
outra forma de sofrimento.
— Eu queria ter estado
aí — confessou ela.
— Eu sei.
— Queria ter podido
ajudar.
— Você me ajudou.
Satie franziu a testa.
— Como?
— Mais vezes do que
imagina.
Ela não conseguiu
responder.
Issamu continuou:
— Quando eu pensava
que estava sozinho, lembrava das pessoas que ainda se importavam comigo.
Lembrava das suas palavras. Às vezes, era isso que me fazia levantar.
Satie levou a mão à
boca.
Não queria chorar
durante aquela conversa.
Mas algumas lágrimas
não pediam autorização.
— Então me prometa uma
coisa — pediu ela.
— O quê?
— Não transforme o
amor que sentia por ele em uma condenação que terá de cumprir pelo resto da
vida.
Issamu permaneceu em
silêncio.
— Quero que, um dia,
consiga lembrar-se dele sem sentir que precisa morrer um pouco junto com ele.
Aquelas palavras o
atingiram de uma maneira que nenhuma ameaça de Crisis conseguiria.
Porque Satie não
estava pedindo que ele esquecesse Nobuhiko.
Estava pedindo que ele
também se lembrasse de si mesmo.
— Eu não sei se
consigo — admitiu Issamu.
— Não precisa
conseguir hoje.
Satie enxugou o rosto.
— Só precisa tentar.
— E se eu falhar?
— Amanhã, tenta outra
vez.
A resposta fez Issamu
sorrir discretamente.
Era uma frase simples.
Não prometia milagres.
Não apagava a culpa.
Mas oferecia algo que
ele quase havia esquecido que existia.
Tempo.
Tempo para errar.
Tempo para sentir
saudade.
Tempo para aprender a
viver sem precisar justificar cada instante de felicidade.
— Obrigado, Satie.
— Não agradeça.
— Então o que devo
fazer?
Ela sorriu entre as
lágrimas.
— Viva.
O silêncio que veio
depois não era vazio.
Era o silêncio de duas
pessoas que compreendiam que algumas palavras precisavam ser deixadas ali,
entre elas, sem explicações adicionais.
— Eu vou tentar —
respondeu Issamu.
— É tudo o que estou
pedindo.
A ligação terminou
alguns minutos depois.
Satie permaneceu
segurando o telefone por mais um instante.
Depois o colocou no
lugar.
A xícara sobre a mesa
continuava fria.
Ela a pegou, caminhou
até a pia e despejou o chá.
Abriu a torneira.
Lavou a xícara.
Em seguida, encheu a
chaleira com água fresca.
O gesto não curou sua
saudade.
Não trouxe Nobuhiko de
volta.
Não diminuiu a
distância entre ela e Issamu.
Mas, enquanto esperava
a água ferver, Satie percebeu que estava respirando com um pouco menos de
dificuldade.
A vida continuava.
Não porque a dor
tivesse desaparecido.
Mas porque, mesmo com
a dor, ainda havia coisas que podiam ser feitas.
E, naquela noite,
preparar uma nova xícara de chá já era alguma coisa.
KYOKO — O AMOR QUE NÃO EXIGE RETORNO
WOZ
O Arquivo Temporal
mudou novamente.
Dessa vez, mostrou
outro cômodo.
Uma janela deixava
entrar a luz suave do fim da tarde. Sobre uma pequena mesa, havia uma
fotografia antiga, protegida por uma moldura que começava a perder a cor.
Kyoko Akizuki estava
sentada diante dela.
Na fotografia,
Nobuhiko e Issamu apareciam lado a lado.
Satie também estava
presente.
E Kyoko, ainda jovem,
sorria ao lado deles.
Era uma imagem de uma
época em que o futuro parecia oferecer inúmeras possibilidades.
Antes de Gorgom.
Antes de Shadow Moon.
Antes de Issamu
precisar carregar uma armadura para continuar lutando.
Kyoko passou
delicadamente os dedos pela moldura.
— Nobuhiko...
Sua voz quase não
saiu.
Ela sentia falta do
irmão.
Sentia falta do homem
que ele havia sido.
E, talvez, sentisse
falta também de uma parte de si mesma que ficara presa naquela época, quando
ainda acreditava que o amor e a esperança seriam suficientes para manter sua
família unida.
Mas havia outra coisa.
Um sentimento que ela
guardara durante tanto tempo que, às vezes, já não sabia distinguir o que era
saudade, carinho, amor ou a necessidade de preservar a última ligação com
aquela vida que perdera.
Issamu.
Ela o amava.
Ou, pelo menos, havia
muito tempo que compreendia que o sentimento que nutria por ele ultrapassava
aquilo que conseguia dizer em voz alta.
Mas Issamu
reconstruíra a própria vida.
Encontrara outras
pessoas.
Continuara caminhando.
E Kyoko não queria
transformar o próprio sentimento em uma corrente que o prendesse a ela.
A fotografia
tremeluziu sob a luz da janela.
Kyoko fechou os olhos.
— Eu não quero lembrar
de você apenas como Shadow Moon.
A voz falhou.
Ela respirou fundo.
— Você era meu irmão.
Era o Nobuhiko que ria com o Issamu, que se preocupava comigo, que fazia parte
da nossa família.
Uma lágrima caiu sobre
a moldura.
— Eu sei que você fez
coisas terríveis. Sei que machucou pessoas. Sei que se tornou alguém que talvez
nem você mesmo reconhecesse.
Ela apertou os lábios.
—Mas eu não quero
acreditar que tudo o que você foi desapareceu.
Kyoko baixou a cabeça.
Por um instante, a
imagem de Nobuhiko pareceu se confundir com a lembrança de Issamu diante de
Shadow Moon.
Dois irmãos separados
por uma tragédia.
Um tentando salvar o
outro.
E o outro, aprisionado
em uma identidade que o afastara de tudo o que um dia amara.
— Issamu... —
sussurrou.
Ela imaginou o rosto
dele.
O modo como tentava
esconder a dor.
A maneira como assumia
para si a responsabilidade de salvar todos, mesmo quando não havia garantia de
que conseguiria.
Kyoko conhecia aquela
determinação.
Mas também conhecia o
preço que ele pagava por ela.
— Eu sei que você
nunca vai conseguir esquecer o Nobuhiko.
Fez uma pausa.
— E não quero que
esqueça.
Seus dedos apertaram a
moldura.
— Mas também não quero
que passe o resto da vida tentando salvar alguém e se esqueça de que você
precisa viver.
Kyoko desviou os olhos
da fotografia.
Por muito tempo,
imaginara o que diria se pudesse conversar com Issamu sem precisar esconder
tudo aquilo que sentia.
Havia palavras que
nunca pronunciara.
Confissões que adiara.
Sentimentos que talvez
jamais fossem correspondidos da maneira como desejava.
Mas, naquele momento,
percebeu que não precisava transformar tudo isso em uma declaração.
Não precisava fazer
Issamu carregar mais uma responsabilidade.
Seu amor não lhe dava
o direito de exigir que ele a escolhesse.
E o fato de talvez
nunca ser correspondida não tornava o sentimento menos verdadeiro.
— Eu queria ter podido
dizer tantas coisas a você...
A voz dela tremeu.
— Mas não quero que
você se sinta obrigado a me dar uma resposta.
Kyoko enxugou as
lágrimas.
— Não quero que você
viva pensando que precisa compensar a minha tristeza. Não quero que carregue
também aquilo que eu não consegui dizer.
Olhou novamente para a
fotografia.
— Se você encontrou um
caminho, Issamu, continue andando.
Um sorriso pequeno,
quase imperceptível, surgiu em seu rosto.
— Mesmo que eu não
esteja nele.
Aquelas palavras
doeram.
Mas não eram uma
despedida de Issamu.
Eram uma tentativa de
deixar de exigir de si mesma que o amor precisasse terminar de uma maneira
específica para ter valido a pena.
Kyoko voltou a olhar
para Nobuhiko.
— E você... continue
sendo meu irmão na memória. Não apenas o homem que Gorgom transformou.
O quarto ficou
silencioso.
Ela pegou um envelope
que estava sobre a mesa.
Dentro dele, havia uma
carta que ainda precisava terminar.
Kyoko esperava
conseguir enviar uma mensagem a Issamu, saber como ele estava e receber
notícias de sua vida. Ainda não sabia de tudo o que acontecera depois da última
batalha, nem tinha ouvido diretamente dele que estava vivo e bem.
Por isso, escreveu
apenas algumas linhas.
Não uma confissão.
Não um pedido.
Não uma cobrança.
Uma mensagem simples,
que não exigia que ele voltasse ao passado para responder.
Continue vivo, Issamu.
Só isso.
Ela dobrou a folha com
cuidado.
Depois tornou a olhar
para a fotografia.
Pela primeira vez em
muito tempo, permitiu-se imaginar um futuro em que a lembrança de Nobuhiko
ainda existisse, em que o amor por Issamu não precisasse desaparecer e em que
ela própria pudesse continuar vivendo.
Não seria fácil.
Talvez algumas
saudades nunca deixassem de doer.
Mas Kyoko compreendeu
que não precisava permanecer eternamente no mesmo lugar para provar que amava
aquelas pessoas.
Às vezes, continuar
também era uma forma de honrar quem se perdera.
E amar alguém
significava, em certas ocasiões, desejar que essa pessoa fosse feliz mesmo
quando não se podia fazer parte de sua felicidade.
Ela guardou a
fotografia.
Não para esquecer.
Mas para continuar.
O QUE A DISTÂNCIA NÃO
PODE APAGAR
TOUMA
A imagem de Kyoko
desapareceu lentamente.
Por alguns segundos, a
tela permaneceu escura.
Eu não disse nada.
Woz também não.
Havia algo de
profundamente triste naquelas duas cenas.
Satie conseguira ouvir
a voz de Issamu.
Kyoko ainda aguardava
notícias.
Uma recebera a
confirmação de que ele continuava vivo. A outra precisava sustentar a esperança
sem saber quando teria uma resposta.
Duas mulheres ligadas
a Issamu e Nobuhiko, mas que enfrentavam a distância de maneiras diferentes.
— Elas não puderam
estar ao lado dele — murmurei.
Woz assentiu.
— Não.
— E, mesmo assim,
continuaram se importando.
— Sim.
Olhei para a tela
apagada.
— Às vezes, penso que
as pessoas acreditam que amar alguém significa estar presente em todos os
momentos importantes.
Woz virou o rosto para
mim.
— E você discorda?
— Acho que a presença
é importante. Não quero diminuir isso. Existem momentos em que uma palavra, um
abraço ou alguém segurando nossa mão pode fazer toda a diferença.
Respirei fundo.
— Mas nem sempre
podemos estar lá. E isso não significa que deixamos de amar.
Woz observou o livro
fechado sobre a mesa.
— Satie e Kyoko não
conseguiram impedir que Issamu sofresse.
— Não.
— Não puderam salvar
Nobuhiko.
— Não.
— E não puderam lutar
as batalhas de Issamu.
— Também não.
Abaixei os olhos.
— Mas puderam
lembrá-lo de que sua vida não precisava terminar emocionalmente junto com
aquilo que ele perdeu.
Woz ficou pensativo.
— Satie pediu que ele
vivesse.
— Sim.
— Kyoko pediu que ele
não transformasse a esperança em uma prisão.
— Exatamente.
Fiz uma pausa.
— Elas não estavam
pedindo que Issamu esquecesse o passado. Estavam tentando ajudá-lo a encontrar
uma maneira de continuar carregando esse passado sem ser destruído por ele.
Woz respirou
profundamente.
— E isso nos traz de
volta aos dez Riders.
Assenti.
A promessa daqueles
homens também nascera de uma perda.
Eles não haviam
chegado a tempo de ajudar Black.
Cada um estivera
ocupado salvando pessoas, cumprindo o dever que havia assumido como Rider.
Não tinham
simplesmente abandonado Issamu.
Mas isso não tornava a
ausência menos dolorosa.
Nem apagava a imagem
de Black morrendo sem os companheiros ao seu lado.
— Eles não puderam
mudar o que aconteceu — falei.
Woz completou:
— Mas decidiram o que
fariam se tivessem outra oportunidade.
Olhei para ele.
— Mudam a História?
Woz sorriu
discretamente.
— Às vezes.
— E quando não
conseguem?
Ele demorou um
instante antes de responder.
— Mudam a pessoa.
Fiquei em silêncio.
A promessa dos dez
Riders não trouxera Nobuhiko de volta.
Não apagara a morte de
Black.
Não eliminara a culpa
dos que haviam chegado tarde.
Mas transformara
aquela culpa em compromisso.
Se Issamu voltasse,
eles não permitiriam que enfrentasse tudo sozinho novamente.
Não sabiam se teriam a
oportunidade de cumprir a promessa.
Mesmo assim,
fizeram-na.
Porque algumas
promessas não são feitas com a certeza de que poderão consertar o passado.
São feitas para que o
passado não determine sozinho o futuro.
— Talvez seja isso que
as pessoas façam umas pelas outras — murmurei. — Nem sempre conseguem salvar
quem amam. Nem sempre conseguem chegar a tempo. Mas podem escolher não permitir
que a dor seja a única coisa que permaneça.
Woz me observou.
Dessa vez, não sorriu.
Apenas assentiu.
E, naquele silêncio,
compreendi que ele também estava pensando em Issamu.
No homem que perdera o
irmão.
No homem que morrera
como Black.
No homem que voltara a
viver.
E no homem que, apesar
de todas aquelas perdas, ainda precisava descobrir como continuar.
BLACK, RX, ROBO RIDER
E BIO RIDER — UM ÚNICO HOMEM
WOZ
O Arquivo Temporal
voltou a funcionar.
Dessa vez, a imagem
surgiu sem ruídos.
Black apareceu diante
de nós.
O guerreiro que
enfrentara Gorgom.
O homem que acreditara
poder salvar Nobuhiko.
O herói que morrera
sem conseguir impedir a tragédia.
A imagem mudou.
Kamen Rider RX surgiu
no lugar dele.
Mais forte. Mais
experiente. Preparado para enfrentar uma nova ameaça.
Depois, RoboRider.
A forma que carregava
a dor e a resistência de Issamu.
Por fim, BioRider.
A imagem luminosa e
fluida de um guerreiro que aprendera a transformar o próprio corpo para
sobreviver ao impossível.
As quatro formas se
sucederam na tela.
Black.
RX.
RoboRider.
BioRider.
Quatro formas
diferentes.
Quatro momentos de uma
mesma vida.
Mas não eram quatro
homens.
Era sempre Issamu
Minami.
O Arquivo sobrepôs as
imagens uma última vez, até que a silhueta de RX permanecesse no centro.
Olhei para Touma.
— Você percebe o que
isso significa?
Ele assentiu.
— Que a transformação
não apagou o homem que existia antes.
— Exatamente.
Apontei para a tela.
— Black não
desapareceu porque RX surgiu. O sofrimento de Issamu também não desapareceu
quando ele recebeu uma nova força.
Touma observou a
imagem.
— Ele precisou
continuar vivendo mesmo depois de tudo.
— E precisou fazer
isso sem garantias de que a próxima batalha seria mais fácil.
O rosto de RX
permaneceu imóvel diante de nós.
— Seria tentador
acreditar que tudo aquilo que aconteceu precisava acontecer para que Issamu se
tornasse o herói capaz de enfrentar Crisis — continuei. — Mas não é assim que
devemos olhar para sua história.
Touma voltou os olhos
para mim.
— As perdas não
precisavam ter acontecido.
— Não. Nobuhiko não
precisava ter sido transformado em Shadow Moon. Black não precisava ter morrido
daquela maneira. E Issamu não precisava ter carregado tanta dor para merecer se
tornar RX.
Fechei o livro por um
instante.
— Mas tudo isso
aconteceu. E, depois de tudo, Issamu ainda precisou encontrar uma maneira de
seguir em frente.
Touma sorriu
tristemente.
— A força dele não
está em nunca ter sido ferido.
— Não.
— Está em continuar
sendo humano apesar das feridas.
Sorri.
— IAWEI!
Touma riu baixinho.
— Você realmente
precisava dizer isso?
— Naturalmente! Uma
conclusão dessa magnitude exige uma apresentação à altura!
Ele balançou a cabeça,
divertido.
Mas o sorriso
desapareceu pouco depois.
A imagem de RX
continuava diante de nós.
E eu sabia que, por
trás daquela armadura, ainda existia o mesmo homem que chamara por Nobuhiko no
instante em que o perdera.
O mesmo homem que
tentara salvar o irmão.
O mesmo homem que
precisara aprender a viver depois da morte.
A armadura mudara.
As circunstâncias
mudaram.
Os inimigos mudaram.
Mas Issamu ainda era
Issamu.
E talvez essa fosse a
maior vitória de todas.
CONTINUAR SENDO ISSAMU
MINAMI
TOUMA
O Arquivo Temporal
encerrou a transmissão.
A tela holográfica
apagou lentamente, deixando apenas o reflexo da biblioteca na superfície
escura.
Durante alguns
segundos, nenhum de nós falou.
Eu continuava pensando
nas imagens.
Em Nobuhiko.
Em Kyoko.
Em Satie.
Nos dez Riders.
E, acima de tudo, em
Issamu.
— Woz...
— Sim?
— Você acha que ele
vai conseguir?
Woz não respondeu
imediatamente.
Permaneceu diante da
tela, com o rosto sério.
Sem teatralidade.
Sem ironia.
Apenas respeito.
— Ele já conseguiu.
Franzi a testa.
— Conseguiu o quê?
Woz se virou para mim.
— Continuar sendo
Issamu Minami.
Fiquei em silêncio.
A resposta parecia
simples demais para tudo o que havíamos testemunhado.
Mas, aos poucos,
comecei a compreender.
A verdadeira vitória
de Issamu não fora apenas derrotar Shadow Moon.
Não fora se tornar
mais poderoso.
Não fora sobreviver à
morte ou receber uma nova armadura.
E certamente não fora
esquecer o passado.
Sua verdadeira vitória
era continuar sendo humano.
Continuar amando.
Continuar sentindo.
Continuar acreditando
que ainda havia pessoas que valiam a pena salvar.
Mesmo quando a vida
lhe dera motivos para desistir.
Mesmo quando as
lembranças doíam.
Mesmo quando não
conseguira salvar aqueles que mais amava.
Ele não vencera porque
deixara de sofrer.
Vencera porque o
sofrimento não conseguira transformá-lo em alguém incapaz de amar.
WOZ
Touma fechou os olhos
por um instante.
— Então ele não venceu
porque deixou de sofrer.
— Não.
— Ele venceu porque o
sofrimento não conseguiu transformá-lo em outra pessoa.
Sorri.
— IAWEI!
Touma soltou uma
risada curta.
— Você realmente
precisava dizer isso?
— Naturalmente.
Peguei o livro e abri
na última página.
Com uma caneta,
escrevi na capa:
BLACK RX: LONELY HEART
Abaixo do título,
acrescentei:
“O passado não precisa
ser esquecido para que possamos continuar vivendo.”
Fiquei observando as
palavras por alguns instantes.
Era uma conclusão
adequada.
Não porque resolvesse
tudo.
Mas porque reconhecia
que algumas histórias não terminam quando o herói derrota o inimigo.
Às vezes, a verdadeira
história começa quando ele precisa descobrir quem é depois que a batalha
termina.
TOUMA
Woz caminhou até a
porta da biblioteca.
Antes de sair, parou e
olhou para trás.
— Touma.
— Sim?
— Algumas histórias
terminam quando o herói derrota o inimigo.
Ele fez uma pausa.
— Outras começam
quando ele decide continuar.
A porta se fechou
atrás dele.
Fiquei sozinho.
Ou, pelo menos, era o
que parecia.
Olhei para a tela
apagada.
Pensei em Issamu.
Pensei em Kyoko.
Pensei em Satie.
Pensei em Nobuhiko.
Quatro pessoas
separadas pela História, pela distância e por perdas que nenhuma delas poderia
desfazer.
Mas ainda ligadas por
algo que nem mesmo o tempo conseguira destruir completamente.
Afeto.
Memória.
Esperança.
E então compreendi uma
última coisa.
Um coração solitário
não é necessariamente um coração abandonado.
Às vezes, é um coração
que perdeu alguém.
Às vezes, é um coração
que não sabe como aceitar a ajuda que recebe.
Às vezes, é um coração
que continua amando mesmo quando não pode permanecer ao lado da pessoa amada.
E, às vezes, é apenas
um coração que ainda está procurando onde pertence.
Sorri discretamente.
A história de Lonely
Heart havia chegado ao fim.
Mas a história de
Issamu Minami ainda não.
Antes de guardar o
livro, ouvi uma melodia distante.
Talvez fosse apenas
uma lembrança.
Talvez o Arquivo
Temporal ainda estivesse reproduzindo os últimos segundos da transmissão.
Ou talvez eu
simplesmente não estivesse pronto para deixar aquela história terminar em
silêncio.
Era Long Long Ago,
20th Century.
A música que
acompanhara a história de Black.
A melodia que tantas
vezes soara como despedida.
Dessa vez, porém, não
parecia anunciar apenas uma perda.
Parecia convidar
alguém a continuar.
E compreendi que
aquela música não pertencia somente ao passado.
Também podia
acompanhar o futuro.
Porque, enquanto
Issamu ainda tivesse a possibilidade de amar, de lutar, de sentir saudade e de
acreditar, sua história continuaria.
Não porque a dor
desapareceria.
Mas porque ela não
precisaria ser a única coisa que restasse.
Fechei o livro.
E, antes de guardá-lo
entre os arquivos da Base Sul da Sword of Logos, deixei que a última nota da
melodia se perdesse no silêncio da biblioteca.
CONTINUA EM
KAMEN RIDER BLACK RX:
STAY IN THE WORLD
(SEKAI NI KAKERU)
EPÍLOGO FINAL
O passado pode
permanecer.
As pessoas podem
partir.
As cicatrizes podem
nunca desaparecer completamente.
Há palavras que não
conseguimos dizer a tempo.
Há mãos que não
conseguimos alcançar.
Há despedidas que não
estamos preparados para aceitar.
Mas o amor não precisa
desaparecer porque alguém se foi.
A memória não precisa
se transformar em prisão.
E a esperança não
precisa garantir um final feliz para continuar sendo esperança.
Às vezes, basta que
ela nos ajude a dar mais um passo.
Issamu Minami perdeu
Nobuhiko.
Perdeu a vida como a
conhecia.
Morreu como Black.
E voltou para
enfrentar um novo mundo, novas ameaças e novas responsabilidades.
Mas, por trás de cada
armadura, continuava existindo um homem.
Um homem que sentia
saudade.
Que carregava culpa.
Que precisava aprender
a viver.
E que, apesar de tudo,
ainda era capaz de amar.
Talvez seja isso que
torne sua história tão humana.
Não o fato de ter
conseguido superar todas as dificuldades.
Mas o fato de que,
mesmo sem superar completamente suas dores, ele ainda podia continuar.
Porque algumas perdas
nunca deixam de fazer parte de nós.
Algumas lembranças
continuam doendo.
E algumas perguntas
talvez nunca encontrem resposta.
Ainda assim, enquanto
houver vontade de continuar, haverá a possibilidade de escrever uma nova
página.
A história de Black
terminou.
Mas Issamu Minami
ainda tinha uma vida para viver.
E, enquanto houvesse
vida, sua história não estaria terminada.
FIM.



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