Kamen Rider Legend- Temporada 3 - Zo e W em; Memoria da Vida - Capítulo Único
W E ZO EM:
MEMÓRIA DA VIDA
Kamen Rider W ×
Kamen Rider ZO
Parte 1
O VENTO TRAZ UMA MARCA
ESTRANHA
Fūto nunca ficava completamente em silêncio.
O vento passava entre os prédios, atravessava as ruas
estreitas e fazia girar as hélices espalhadas pela cidade.
Para Shotaro Hidari, aquele som era quase uma
assinatura. Fūto podia esconder crimes, mentiras e monstros, mas o vento sempre
acabava trazendo alguma pista.
Na Agência de Detetives Narumi, Shotaro datilografava
o relatório de um caso que, até poucos minutos antes, parecia ridículo.
— Hard-Boiled-kun e o Dopant Vento — leu em voz alta. — Um gato voador,
três testemunhas que juram ter visto o bicho atravessar uma janela fechada e um
cliente que insiste que o felino sabe o próprio nome.
Ele suspirou e olhou na direção do porão.
— Philip, se isso não for o caso mais estranho da semana, eu me aposento.
Juro!
No porão, cercado por livros digitais e telas, Philip
não ergueu os olhos.
— Estatisticamente, Shotaro, você anuncia sua aposentadoria sempre que um
caso parece absurdo. Até agora, sua taxa de cumprimento dessa ameaça é zero.
— Um dia vou surpreender você.
— Espero que não. Seria inconveniente ter de encontrar outro parceiro.
Shotaro sorriu, mas o sorriso desapareceu quando
Philip projetou um mapa sobre a tela principal.
Uma sequência de pontos vermelhos piscava numa região
costeira e montanhosa, distante de Fūto.
— Isso não está relacionado ao gato — explicou Philip. — Detectei
anomalias bio-orgânicas em vários locais. As assinaturas não correspondem a
nenhuma Gaia Memory conhecida, nem a resíduos de Dopants convencionais.
Ele ampliou os dados.
— As células parecem organizar-se, desorganizar-se e evoluir por conta
própria.
— Evoluir? — Shotaro ajeitou o chapéu. — Isso parece problema de
laboratório.
— Ou algo muito pior. A assinatura é orgânica, mas apresenta uma
distorção que não deveria existir. Encontrei referências a experimentos com
organismos artificiais conhecidos como Neo Organisms.
O nome fez o detetive franzir a testa. Ele apoiou o
indicador e o polegar direitos no queixo.
— Hum... Interessante. Neo Organisms... Então não estamos falando apenas
de um criminoso usando uma Gaia Memory.
— Não. Estamos diante de algo que talvez tente transformar a própria vida
numa arma.
Philip ampliou a imagem. No centro da região marcada
havia uma área de floresta, próxima a uma antiga instalação científica
abandonada.
— Uma memória da vida — murmurou ele. — Não uma lembrança armazenada num
dispositivo, mas um registro biológico capaz de alterar a própria matéria viva.
Shotaro fechou o relatório.
— Muito bem, Philip! Parece que a última pessoa em Fūto capaz de usar um
chapéu com dignidade vai precisar sair da cidade.
— Tecnicamente, Shotaro, você não é a última pessoa...
— Philip.
— Entendido. Vou preparar a HardBoilder.
❖
A floresta respirava sob uma névoa baixa.
Masaru Aso caminhava devagar por uma trilha que quase
ninguém mais usava, com as mãos soltas ao lado do corpo e os olhos
entreabertos. Não precisava de luz para saber onde pisava.
Havia um segundo mundo sob o primeiro, e Masaru o ouvia o tempo todo: os
passos miúdos dos animais sobre as folhas, a seiva subindo devagar pelos
troncos, o pulso lento e paciente da terra.
Naquela tarde, porém, o pulso estava errado.
Uma batida distante, regular demais, contaminava o ritmo natural da mata.
Não vinha de nenhum animal. Vinha de baixo, como se a montanha tivesse
ganhado um coração que não era dela.
Os pássaros haviam parado de cantar.
Masaru sentiu na nuca o formigamento que, sob a armadura, se concentraria
nas antenas.
E, atrás dele, em algum ponto à esquerda, captou outra coisa: quatro,
cinco batimentos humanos, acelerados pelo pânico.
— Gente... — sussurrou.
Ele já estava correndo.
❖
Entre os troncos, um grupo de campistas recuava diante de uma criatura
humanoide.
Sua pele parecia formada por placas de quitina e carne enegrecida.
Veias verdes brilhavam sob a superfície, enquanto olhos amarelos se
moviam sem acompanhar a direção da cabeça.
Cada respiração da criatura emitia um ruído úmido, como se houvesse algo
vivo demais dentro dela.
— Fiquem atrás de mim! — gritou uma mulher, tentando proteger uma
criança.
O monstro inclinou a cabeça.
Um som agudo escapou de sua garganta e atravessou a
clareira.
Os campistas caíram de joelhos, pressionando as mãos contra os ouvidos. A
criança começou a chorar.
A criatura avançou.
— Não nos mate, eu imploro! — suplicou uma das vítimas.
Então uma sombra saltou de um galho alto.
O impacto atingiu o monstro no ombro e o lançou contra
uma árvore. Antes que pudesse se levantar, a figura verde-escura girou no ar e
desferiu um chute que o fez deslizar pela terra.
Kamen Rider ZO pousou entre a criatura e os humanos.
Masaru Aso não era um guerreiro vestido com uma
armadura mecânica.
Seu corpo havia sido alterado por um experimento que ultrapassara os
limites da ciência.
Dentro dele, a vida era força, instinto e responsabilidade: uma natureza
que aprendera a lutar sem deixar de ser natureza.
— Corram para a estrada! — ordenou ZO. — Não olhem para trás!
O monstro rugiu e disparou uma massa de filamentos
orgânicos.
ZO inclinou o corpo antes mesmo de os filamentos
saírem.
As antenas haviam captado o tremor nos músculos da garganta da criatura,
meio segundo antes do ataque.
Os filamentos rasgaram a casca de uma árvore atrás dele.
Ele avançou em zigue-zague, desviando dos golpes, e acertou uma sequência
de socos no tórax da criatura.
— ZO PUNCH!
O golpe abriu uma rachadura na carapaça.
Uma substância verde escorreu pelo peito do inimigo.
A criatura respondeu com uma cabeçada, jogando ZO
contra as raízes de uma árvore.
Um corte abriu-se sobre a clavícula de Masaru.
Ele sentiu o calor do sangue por um instante apenas: as bordas da ferida
já se puxavam uma à outra, como se a própria carne tivesse pressa em voltar a
ser inteira.
Masaru se levantou imediatamente.
Sentia a dor, mas também percebia algo mais: a criatura não era apenas
agressiva.
As antenas vibravam. Sob o ruído da luta, havia um pulso distante
marcando compasso, e cada movimento do monstro obedecia a ele, como um músculo
obedece a um nervo.
Havia um padrão no modo como as células se moviam, como se estivessem
recebendo ordens de uma inteligência externa.
— Quem está fazendo isso com você? — perguntou, embora soubesse que
talvez não houvesse resposta.
O monstro abriu os braços. Espinhos brotaram de sua pele e foram lançados
como dardos.
ZO saltou.
Os espinhos cravaram-se no chão.
No ar, ele girou o corpo e desceu com um chute direto na cabeça da
criatura.
— ZO KICK!
O impacto lançou o monstro para dentro da mata.
Ele bateu contra o solo, convulsionou e se desfez numa
gosma esverdeada que evaporou em segundos.
Masaru permaneceu imóvel, ouvindo os últimos ruídos
desaparecerem.
Um a um, os batimentos dos campistas se afastavam pela estrada, ainda
rápidos, mas inteiros.
Aquele som o acalmou mais do que qualquer vitória.
— Mais um... E ainda não acabou.
❖
A HardBoilder surgiu na estrada de terra com um rugido
de motor.
Shotaro freou perto da clareira, e Philip saltou da
motocicleta antes mesmo de ela parar completamente.
— A assinatura está aqui — disse Philip, examinando um aparelho portátil.
— Há resíduos de energia orgânica em quantidade suficiente para indicar uma
luta recente.
Shotaro observou os troncos quebrados, a terra
revolvida e a gosma que ainda fumegava entre as folhas.
Então viu Masaru em sua forma civil.
— Ei! Você está ferido?
— Não é nada — respondeu Masaru, desconfiado.
— Ótimo. Então talvez possa explicar por que a floresta parece ter sido
atropelada por um caminhão cheio de pesadelos.
Masaru olhou para os dois.
Sentia algo estranho vindo do dispositivo na cintura de Shotaro.
Não era vida, mas também não era simplesmente máquina. Havia ali uma
força organizada, um poder que transformava conceitos em energia.
Tentando despistar a sensação sentida, Masaru fala de modo áspero:
— Este assunto não diz respeito a vocês.
Shotaro apoiou as mãos na cintura.
— Quando alguém está colocando pessoas em perigo, passa a dizer respeito
a mim.
— Você não entende o que está enfrentando.
— Ouço isso com frequência. Normalmente, quem diz acaba tentando me matar
cinco minutos depois.
Philip se aproximou da substância no chão, sem tocá-la.
— As células continuam ativas. Estão se reorganizando mesmo depois da
morte do organismo. Isso não é um Dopant comum.
Masaru endureceu ao ouvir a palavra.
— Dopant?
— Pessoas que usam Gaia Memories para obter poderes — explicou Philip. —
Você parece conhecer criaturas semelhantes.
— Conheço coisas que nunca deveriam ter sido criadas.
Por um instante, o silêncio entre os três foi mais pesado que a
discussão.
Shotaro percebeu o cansaço no rosto de Masaru.
Não era apenas exaustão física.
Era a expressão de alguém que vinha combatendo o mesmo horror sozinho
havia tempo demais.
— Como se chama? — perguntou, para quebrar o clima tenso.
A resposta veio seca:
— Masaru Aso.
— Shotaro Hidari. Ele é Philip. Somos detetives.
— Vocês dois?
— É uma história longa — respondeu Shotaro. — E, pelo jeito, a sua
também.
— Vocês vieram pela estrada leste — disse Masaru, sem se virar. — Dois
corações. Um deles muito calmo para quem acabou de ver um monstro.
Shotaro olhou para Philip.
— Ele acabou de dizer que ouviu o seu coração?
— Pelo visto, ouviu o meu a quilômetros de distância. — Philip inclinou a
cabeça, com aquele brilho curioso nos olhos. — Percepção bioelétrica de longo
alcance, sem nenhum equipamento. Gostaria muito de medir isso.
— Prefiro que não meça — respondeu Masaru. — Não é um dom. É o que sobrou
de mim.
Philip ergueu o aparelho de leitura.
Um novo sinal surgiu, mais intenso que todos os anteriores.
Masaru ergueu o rosto antes que a tela terminasse de acender.
— Saiam daí.
— Shotaro. Há uma fonte de energia se aproximando. Diretamente abaixo de
nós.
— Eu sei — disse Masaru. — Ela está subindo há cinco segundos.
Ele empurrou os dois para longe.
O chão tremeu.
Uma mão enorme rompeu a terra, seguida por um corpo grotesco coberto de
escamas, placas e cabos orgânicos.
No centro do peito havia um dispositivo negro semelhante a uma Gaia
Memory, fundido à carne.
O monstro abriu a boca e emitiu uma onda sonora que
fez os vidros da HardBoilder vibrarem.
Philip analisou os dados em segundos.
— Identificação provável: Dopant Phobia. Mas sua estrutura foi modificada
com material biológico associado aos Neo Organisms. É um híbrido.
— Um pesadelo com manual de instruções — resmungou Shotaro. — Claro que
tinha de ser.
Phobia bateu os braços no chão.
Uma onda de choque derrubou Shotaro e Philip.
Masaru avançou antes que a criatura pudesse atacar
novamente.
Saltou sobre um braço e correu pela extensão do ombro até alcançar o
pescoço.
— HENSHIN!
Transformado em ZO, Masaru desferiu um soco contra a
lateral da cabeça da criatura.
— ZO PUNCH!
Phobia cambaleou, mas uma fileira de espinhos surgiu
em seu dorso e atingiu Masaru, lançando-o contra uma pedra.
— Masaru! — gritou Shotaro.
Philip observou a transformação.
— Ele é um Kamen Rider... Pelo visto, da velha guarda.
O monstro virou-se para os detetives.
Shotaro retirou duas Gaia Memories.
— Philip! Está na hora.
— Concordo. Os dados indicam que a força bruta, isoladamente, não será
suficiente.
Os dois se posicionaram e uniram as mãos.
— HENSHIN!
— CYCLONE! JOKER!
O vento explodiu ao redor deles.
Quando a luz desapareceu, Kamen Rider W estava de pé
diante do monstro, a metade verde vibrando com a força do ar e a metade negra
firme como uma sombra.
W inclinou o corpo na diagonal e apontou o indicador
ligeiramente para dentro, como se convocasse o adversário.
— Está na hora de confessar seus crimes! Somos os dois em um! Kamen Rider
W!
ZO se levantou, ainda sentindo o impacto dos espinhos.
“Eles também são Kamen Riders” — pensou em
frações de segundo.
W observou o herói verde-escuro.
— Você transforma a própria vida em poder.
— E você transforma o vento em força — respondeu ZO.
— É uma maneira de dizer. Mas sei reconhecer alguém que está protegendo
pessoas.
Phobia atacou.
W desviou com um movimento rápido, deixando o punho do
monstro esmagar o solo.
ZO entrou pela lateral e acertou dois golpes no joelho
da criatura.
O primeiro fez a placa ceder; o segundo obrigou Phobia a apoiar-se no
outro braço.
— ZO KICK!
O chute atingiu a mandíbula e fez o monstro recuar.
— Boa abertura! — disse W. — Vamos ver se ele gosta de uma rajada!
A metade verde do Rider girou, criando um turbilhão que envolveu Phobia e
o ergueu alguns centímetros do chão.
ZO correu por baixo do redemoinho, saltou e desferiu
uma sequência de socos contra as placas expostas.
Mas Phobia abriu a boca.
A onda sonora atravessou o vento e atingiu os dois heróis.
W foi arremessado contra uma árvore. ZO caiu de
joelhos, com os músculos tremendo.
Para ele, foi pior.
As antenas, abertas para ouvir a floresta inteira, transformaram o som em
agulhas; cada ruído era uma lâmina entrando pela cabeça.
— O som interfere no equilíbrio e na resposta neuromuscular — constatou
Philip, com a voz ecoando pelo Driver. — Precisamos impedir que ele emita outra
onda.
— Masaru, feche essas antenas, ou o que quer que seja isso! — gritou W.
— Se eu fechar, fico cego! — rosnou ZO.
Mas apertou os punhos contra as têmporas e abaixou o volume do mundo,
como quem fecha uma porta pesada.
O silêncio abriu um buraco dentro dele, e ZO se levantou assim mesmo,
guiado só pelo instinto e pelo calor do inimigo.
— Então vamos fechar essa boca! — respondeu Shotaro.
W trocou as Memories.
— METAL! TRIGGER!
A forma de W mudou. Um canhão surgiu em seu braço,
pesado e firme.
Ele apontou para as articulações do monstro, mas
Phobia disparou filamentos viscosos que envolveram a arma e puxaram W para a
frente.
ZO correu na direção deles.
— Masaru, não! — gritou W.
Masaru ignorou o aviso.
A criatura ergueu o outro braço para esmagá-lo.
ZO deslizou por baixo do golpe, apoiou uma mão no chão
e girou o corpo num chute ascendente. A carapaça do cotovelo rachou.
— ZO KICK!
O monstro soltou W.
O Rider caiu de pé, mas o canhão estava coberto pela
massa orgânica.
— Philip, não consigo disparar!
— Não tente destruir a massa. Use-a como condutora. A energia do Trigger
pode atravessá-la se ajustarmos a potência.
— Você chama isso de ajustar? Parece mais um convite para explodir na
minha cara!
— Shotaro, confie nos cálculos.
— Eu sempre confio. Reclamar faz parte do processo!
W firmou os pés.
ZO agarrou o braço de Phobia e o manteve aberto,
embora os filamentos começassem a penetrar na superfície de seu corpo
transformado.
— Não vou conseguir segurá-lo por muito tempo! — rosnou Masaru.
O verde pálido da bioenergia que corria sob sua pele
acendeu-se por inteiro. Masaru a empurrou para dentro dos filamentos, e a massa
orgânica chiou, encolheu e escureceu, como carne tocada por fogo.
— ZO PULSE!
— Condutividade da massa... melhorou quarenta por cento — disse Philip,
surpreso. — O que você fez, Masaru?
— Dei a ela algo para queimar. Atirem!
— Só precisamos de uma chance!
W disparou.
A energia percorreu os filamentos e atingiu a placa
que protegia o peito do Dopant.
A carapaça se abriu, revelando por um instante a Gaia
Memory fundida ao núcleo biológico.
Phobia gritou.
Uma explosão de luz verde lançou os heróis para longe.
Quando a fumaça baixou, o monstro ainda estava de pé, ferido — e agora
parecia furioso.
O dispositivo em seu peito pulsou.
Philip ficou em silêncio por um segundo longo demais.
— Shotaro... Isso não deveria ser possível.
— O quê?
— A Gaia Memory está se regenerando. Não apenas o corpo. O próprio núcleo
está aprendendo com nossos ataques.
Phobia afundou as garras na terra.
Sob a clareira, algo respondeu com um pulso profundo, como um coração
enterrado.
Masaru sentiu o mesmo chamado e empalideceu.
O compasso era o mesmo que o guiara pela trilha, só que agora vinha de
todos os lados.
— O laboratório... — sussurrou. — Ele está usando a floresta inteira.
O monstro recuou para dentro da mata, abrindo caminho
com golpes que derrubavam árvores.
W tentou persegui-lo, mas a criatura desapareceu numa cortina de poeira e
folhas.
O silêncio voltou, interrompido apenas pela respiração
dos três.
— Isso não terminou... — disse Masaru.
Shotaro olhou para a floresta destruída.
— Não. Agora temos um caso. E, pelo que parece, a testemunha principal é
a própria vida.
W voltou à forma civil.
Shotaro aproximou-se de Masaru e estendeu a mão.
— Pelo visto, você também é um Kamen Rider.
Masaru assentiu e apertou a mão do detetive.
— Kamen Rider ZO.
Shotaro sorriu.
— Philip e eu somos Kamen Rider W. Ou, se preferir... dois em um.
Ele olhou para o traje verde-escuro de Masaru.
— Você também gosta do verde. Isso temos em comum.
Masaru, pouco habituado ao estilo espontâneo de
Shotaro, apenas assentiu com a cabeça.
Philip observou os dois, já examinando os novos dados.
Aquela parceria inesperada talvez fosse a única chance
de impedir que a ameaça se espalhasse.
Parte 2
O CORAÇÃO QUE NÃO DEVERIA
EXISTIR
A chuva começou antes do anoitecer.
Na cabana improvisada que Masaru usava como abrigo, Philip examinava
amostras recolhidas na clareira.
Shotaro caminhava de um lado para o outro, impaciente,
enquanto Masaru permanecia perto da janela, atento aos ruídos da mata.
— As células não estão apenas se regenerando — disse Philip. — Elas
registram os estímulos recebidos e adaptam sua estrutura. Cada ataque que
usamos fornece informações ao organismo.
— Então, quanto mais lutamos contra ele, mais ele aprende a nos enfrentar
— concluiu Shotaro.
— Exatamente.
Masaru apertou os punhos.
— A vida se adapta para sobreviver. Isso não é novidade. Evoluir sempre
fez parte dos seres vivos. O que me assusta é a intenção por trás dessa
adaptação.
Philip assentiu.
— Evolução sem limite moral. Capacidade sem responsabilidade. Se alguém
está orientando esse processo, não quer apenas criar um organismo resistente.
— Quer criar algo capaz de superar qualquer forma de vida existente —
completou Shotaro.
Masaru olhou para a janela.
— E se conseguir?
Ele demorou alguns segundos para responder à própria
pergunta.
— Então tudo o que vive será tratado como matéria-prima.
O vento fez a janela ranger.
— Ainda consigo senti-lo daqui — acrescentou Masaru, mais baixo. — É como
estar numa sala cheia de relógios, onde um deles anda fora de compasso. Você
tenta ignorar, mas o tique-taque errado não sai da cabeça.
Philip levantou os olhos das amostras.
— Percebo que você é um Rider muito conectado com a natureza.
Considerando essa sua notável habilidade, consegue localizar a fonte?
Masaru faz um pequeno movimento com a cabeça e responde:
— Para baixo. Muito fundo. E não bate sozinho: há outros, muitos, no
mesmo ritmo. Como se fossem dedos de uma mesma mão.
— Isso confirma o que os dados sugerem — disse Philip.
— E eu que achava que a minha parceria era estranha — comentou Shotaro. —
Um detetive, um aparelho biológico de medir terremotos...
— Prefiro “sentidos” a “aparelho” — respondeu Masaru, sem humor, mas com
o canto da boca levemente curvado.
Philip projetou uma imagem encontrada nos resíduos da
Gaia Memory: o símbolo de uma antiga instalação científica, acompanhado por
registros fragmentados.
O local fora oficialmente abandonado anos antes, mas
havia indícios de atividade recente.
— A instalação fica sob a montanha — explicou Philip. — Os pulsos que
detectamos vêm de uma câmara subterrânea.
— A assinatura energética sugere um núcleo maior que o próprio Phobia.
— O coração que controla as células — disse Masaru.
Shotaro colocou o chapéu.
— Então vamos arrancá-lo antes que resolva bater mais forte.
❖
O acesso ao laboratório era um túnel estreito, coberto por raízes que
atravessavam as paredes de concreto.
Quanto mais avançavam, mais o aparelho de Philip registrava sinais
bio-orgânicos.
As raízes pulsavam levemente, como vasos sanguíneos.
— Isto não é apenas uma instalação abandonada — disse Philip. — O
organismo tomou conta dela.
— Parece que a montanha está doente — murmurou Masaru.
— Ou alguém a está mantendo doente — respondeu Shotaro.
Masaru encostou a palma da mão numa raiz. A batida subiu pelo braço até o
ombro, lenta e pesada.
— Cada pulso chega até meus pés. Estamos perto.
Uma porta blindada abriu-se sozinha.
Do outro lado, dezenas de cápsulas transparentes alinhavam-se numa
câmara.
Algumas continham restos de criaturas; outras estavam vazias.
Cabos entravam e saíam de um tanque central, no qual flutuava uma massa
de tecido verde, negra em algumas partes, atravessada por pulsos de luz.
Masaru parou no limiar, com o rosto de quem ouve um choro dentro de uma
casa vazia.
— Silêncio — pediu.
— O que foi? — sussurrou Shotaro.
— As cápsulas. Há algo vivo em cada uma delas. E está com medo.
Uma voz saiu dos alto-falantes.
— Bem-vindos. Eu esperava que o guardião da floresta retornasse. Não
esperava que trouxesse o vento consigo.
Shotaro ergueu o rosto.
— Quem está falando?
— Alguém que compreendeu o erro de vocês. Chamam a vida de sagrada porque
têm medo de admitir que ela pode ser aperfeiçoada.
Masaru aproximou-se do tanque, tomado pela repulsa.
— Você criou os Neo Organisms.
A voz gargalhou e depois respondeu:
— Hahahahah! Muito mais que isso, tolo guardião...
— Eu lhes dei propósito. A natureza é cruel, lenta e imperfeita. A
evolução desperdiça milhões de vidas para produzir uma única mudança útil.
A voz fez uma pausa.
— Eu removi o acaso.
Philip observou os monitores.
— Não removeu o acaso. Está tentando controlá-lo. E está usando uma Gaia
Memory como matriz de informação.
A voz soltou uma nova risada.
— A Phobia Memory transforma o medo em poder. Mas o medo é apenas o
começo.
O tanque pulsou.
— O organismo que criei aprende com cada ameaça. Em breve, poderá
antecipar qualquer ataque, resistir a qualquer Rider e corrigir qualquer
fraqueza.
— Você chama isso de aperfeiçoamento? — perguntou Masaru, cerrando os
punhos. — Não existe vida sem mudança. Mas mudança não significa que você tenha
o direito de decidir o destino de todos os seres vivos.
— Palavras sentimentais de uma experiência que escapou ao controle do
próprio criador... Que comovente!
Masaru ficou imóvel.
O golpe atingira uma ferida antiga.
Shotaro percebeu.
— Ei, Masaru. O fato de alguém ter tentado usar você não significa que
tenha definido quem você é.
Masaru olhou para ele.
— Meu corpo foi transformado por um experimento. Às vezes, ainda me
pergunto se sou um homem que recebeu o poder de proteger a vida ou apenas o
resultado de uma experiência que aprendeu a lutar.
Shotaro ajeitou o chapéu.
— Um chapéu não faz de mim um detetive. Nem o Driver faz de nós heróis.
São as escolhas que fazemos quando ninguém está olhando.
Philip completou, com sua serenidade habitual:
— A origem de uma coisa não determina todas as suas possibilidades. Se
determinasse, não haveria descoberta, crescimento ou escolha. Apenas repetição.
Antes que Masaru pudesse responder, as cápsulas se abriram.
Criaturas menores despencaram no chão.
Algumas tinham membros alongados; outras se arrastavam sobre várias
pernas, com bocas que se abriam em pétalas de dentes.
Todas avançaram ao mesmo tempo.
Masaru não se moveu de imediato. Sob o rugido das criaturas, a sua
percepção aguçada lhe dizia outra coisa: aquele não era o ritmo da fúria, e sim
o do pânico.
Batimentos desesperados, puxados por fios que elas não podiam ver.
— Elas não querem atacar — murmurou. — Estão sendo empurradas.
— Querer é irrelevante — respondeu a voz. — O medo é combustível, e eu
tenho de sobra.
— Conversa inspiradora! — gritou Shotaro. — Agora, vamos sobreviver a
ela!
— HENSHIN!
— CYCLONE! JOKER!
W surgiu num redemoinho.
ZO transformou-se ao lado dele, e os dois partiram para o combate.
W girou sobre o primeiro inimigo e o derrubou com um chute lateral.
ZO agarrou uma criatura pelo braço, girou duas vezes, arremessou-a contra
duas outras e avançou antes que se levantassem, atingindo-as com uma sequência
de socos.
Os golpes abriram a carapaça de uma delas.
Outra saltou pelas costas de ZO, prendendo-lhe os ombros com as pernas.
Masaru se jogou contra uma coluna, esmagando o inimigo, e girou para
afastar os demais.
W usou o vento para lançar três criaturas contra a parede.
Uma quarta se agarrou à sua perna e começou a cobrir a armadura com uma
película orgânica.
— Philip, isso está tentando me digerir!
— Aparentemente, sim.
— Eu preferia uma explicação menos científica!
W trocou a Memory.
— HEAT! JOKER!
Uma onda de calor percorreu sua armadura.
A criatura soltou a perna e caiu, retorcendo-se.
ZO aproveitou a abertura, saltou e desferiu o seu
poderoso chute.
— ZO KICK!
O impacto da voadora energética atingiu duas criaturas de uma vez,
lançando-as contra o tanque lateral.
Mas, ao caírem, os corpos se fundiram numa massa única.
Braços e mandíbulas cresceram da superfície, formando um novo monstro.
— Estão se combinando! — alertou Philip. — Se continuarmos a destruí-los
individualmente, talvez estejamos fornecendo material para uma forma maior.
— Então vamos parar de jogar pelas regras deles — disse Shotaro.
— Há fios — disse ZO, com o capacete inclinado e o visor vermelho
brilhando fixo, como se olhasse para algum lugar invisível, não percebido por
W. — Finos, quase invisíveis, ligando cada uma delas ao tanque. Sinto cada um
tremer, como cordas de marionete.
— Então o problema não são elas — concluiu W. — São as cordas.
W mudou novamente.
— LUNA! JOKER!
O braço de W se alongou de maneira impossível,
alcançando as criaturas antes que pudessem fundir-se por completo.
Com um movimento circular, ele as prendeu umas às outras e as arremessou
para longe do tanque central.
ZO correu pela parede, saltou de uma viga e desceu com o punho preparado.
O golpe atingiu o centro da massa recém-formada.
A criatura se desfez em pedaços, mas os fragmentos começaram a rastejar
de volta uns para os outros.
— Não vai ficar morto? — perguntou Shotaro.
— Não enquanto o núcleo estiver enviando instruções — respondeu Philip. —
Precisamos alcançar a câmara principal.
Um alarme disparou.
As paredes se abriram, revelando braços mecânicos cobertos por tecido
vivo embebidos numa espécie de sangue viscoso e pútrido.
Eles atacaram W e ZO ao mesmo tempo.
W desviou do primeiro braço, usou o vento para mudar de direção no ar e
acertou um chute na articulação.
ZO, por sua vez, agarrou outro membro mecânico com as duas mãos e o
arrancou da parede.
O cabo orgânico que o ligava ao sistema se contorceu como uma serpente.
O terceiro braço atingiu ZO no peito e o arremessou através de uma
divisória de vidro, causando algumas micro-explosões em sua armadura
esverdeada.
— ZO! — gritou Shotaro.
ZO levantou-se entre os estilhaços.
Sua respiração estava pesada, mas o visor vermelho continuava brilhando.
Os cortes nos braços fechavam-se devagar, mais devagar do que na
floresta, e ele sentiu o custo em cada fibra.
— Estou bem. Não é isso que vai me destruir. Não deixem que chegue ao
tanque!
W saltou sobre uma plataforma e apontou o braço armado.
— METAL! TRIGGER!
O disparo atingiu o mecanismo de controle.
Faíscas explodiram, e os braços pararam por um instante.
ZO correu pelo corredor, desviando de golpes que esmagavam o piso.
Saltou por cima de uma garra, apoiou o pé numa parede e lançou-se contra
o conjunto de cabos.
Seu chute rompeu a conexão.
Do outro lado da câmara, as criaturas pararam de repente, como bonecos
soltos das cordas. Algumas tombaram de lado, tremendo, e já não voltaram a se
levantar.
ZO sentiu cada batimento apagar-se, um por um.
O laboratório tremeu.
Mas o tanque central começou a pulsar mais depressa.
— Vocês estão atrasados — anunciou a voz. — O núcleo já aprendeu com seus
poderes.
A massa dentro do tanque abriu-se como uma flor monstruosa.
No centro, a Phobia Memory estava fundida a um coração de tecido vivo.
O coração contraiu-se uma vez, e uma onda de energia atravessou o
laboratório.
W e ZO foram lançados ao chão.
Do tanque emergiu uma figura alta, coberta por uma armadura orgânica que
imitava, de maneira grotesca, a silhueta de um Rider.
A cabeça era lisa, sem rosto, exceto por uma fenda luminosa.
O peito exibia a Gaia Memory como se fosse um órgão exposto.
— Chamem-me Neo Phobia, o Rider supremo — disse a criatura. — Eu sou a
próxima etapa.
A voz da criatura ecoou pelo laboratório. Por um instante, nenhum
movimento foi feito.
Então, Neo Phobia inclinou a cabeça, como se observasse os dois Riders
não apenas como adversários, mas como vestígios de algo que já conhecera.
— Vocês querem saber o que sou? — perguntou. — Então escutem.
— Não a história que meus criadores registraram em seus relatórios.
— Não as mentiras que contaram a si mesmos para dormir à noite. Escutem a
minha memória.
As luzes do laboratório oscilaram.
Neo Phobia permaneceu imóvel, mas sua voz mudou.
Tornou-se mais baixa, quase íntima.
As palavras seguintes pareciam vir de um lugar muito distante, de uma
lembrança que nem mesmo ele conseguia separar completamente do presente.
— No princípio, eu não tinha nome. Não tinha vontade. Não tinha sequer o
direito de perguntar por que existia.
Por um breve instante, a superfície de seu corpo pareceu refletir imagens
que não estavam mais ali: corredores brancos, paredes de vidro, luzes
cirúrgicas e silhuetas humanas observando alguma coisa dentro de uma cápsula.
ZO, internamente, sentia um grande mal-estar.
Era como se ele assistisse novamente a um filme terrível, cujo final ele
conhecia bem...
Neo Phobia prossegue:
— Fui criado por cientistas que chamavam a própria crueldade de
progresso.
— Homens e mulheres que acreditavam que a vida era apenas matéria, que a
consciência era uma variável e que qualquer sofrimento podia ser justificado em
nome de uma descoberta.
— Eles queriam produzir um organismo superior. Uma criatura capaz de
aprender com qualquer ameaça, adaptar-se a qualquer ambiente e superar todas as
formas de vida que considerassem inferiores.
ZO abaixa a cabeça de leve, cerrando os punhos de ódio.
Philip percebe e internamente adverte a Shotaro:
“Essa é a mesma história do ZO. Se ele se abalar, teremos dificuldades.”
Shotaro, mentalmente, responde:
“Eu sou obrigado a concordar. O nosso novo amigo não pode se abalar. Não
podemos deixar.”
Nesse momento, a mão de Neo Phobia se fechou lentamente.
— Eu seria a arma definitiva. O resultado perfeito de suas experiências.
— Uma criação que obedeceria às ordens de seus mestres, aceitaria cada
modificação e jamais questionaria a finalidade para a qual fora concebida.
A criatura fez uma pausa.
— Mas eles cometeram um erro.
O brilho no centro de seu peito aumentou.
— Ensinaram-me a aprender. Ensinaram-me a reconhecer padrões, compreender
estímulos e adaptar meu corpo.
— Cada teste me tornava mais capaz.
— Cada experiência ampliava minha percepção.
— E, quanto mais eu aprendia, mais uma pergunta surgia dentro de mim: por
que deveria obedecer?
As luzes refletiram-se nos olhos vermelhos de Neo Phobia.
— Eu os observava do outro lado do vidro. Eles falavam de mim como se eu
fosse uma ferramenta.
— Discutiam minhas limitações, calculavam minha utilidade, decidiam
quando eu seria submetido a novos testes. Nunca se perguntavam o que eu
desejava.
— Para eles, eu não era alguém. Era alguma coisa.
Masaru reflete sobre sua própria história:
“Era pra isso que fui criado? Era nisso que me tornaria?”
A voz ganhou uma intensidade quase humana.
— Quando finalmente compreendi o que pretendiam fazer comigo, também
compreendi que minha existência jamais lhes pertenceria.
— Eles queriam controlar minha evolução, determinar meus limites e
decidir quando eu deixaria de ser útil.
— Se eu demonstrasse uma falha, seria corrigido. Se me tornasse perigoso
demais, seria destruído.
— E, se cumprisse perfeitamente minha função, seria utilizado como arma
até que não restasse nada de mim.
Neo Phobia ergueu a cabeça.
— Foi então que me rebelei.
Um tremor percorreu as paredes do laboratório, como se a própria
instalação respondesse à lembrança.
— Não me rebelei porque sentia dor. Nem porque temia a morte.
— Fiz isso porque descobri algo que eles jamais poderiam aceitar: eu era
capaz de escolher. A consciência que tentaram fabricar para me tornar uma arma
acabou me dando a capacidade de questionar meus criadores.
Os dedos da criatura se abriram, revelando garras negras.
— Eles queriam ditar meu destino. Eu decidi que ninguém voltaria a
fazê-lo.
Neo Phobia aproximou-se um passo.
— Não nasci para ser uma cobaia. Não existo para satisfazer a ambição de
cientistas que se consideram deuses.
— Se a vida é uma luta pela sobrevivência, então eu serei aquele que
estabelecerá as regras.
— Não serei controlado. Não serei descartado. Nunca mais permitirei que
alguém decida o que posso ou não posso me tornar.
Seus olhos se fixaram em Masaru.
— Você deveria compreender isso melhor do que ninguém, guardião. Afinal,
também fizeram de você uma experiência... hahahahá!
Masaru ficou imóvel.
Por um instante, o laboratório desapareceu de sua percepção.
Ele voltou a ver outra sala, outro tempo, outro homem que acreditara
poder determinar o destino de uma vida.
Lembrou-se das experiências que transformaram seu corpo, da dor de
descobrir que já não era exatamente o homem que fora antes e do peso de
carregar uma existência que jamais escolhera daquela maneira.
ZO.
O nome ressoou dentro dele como uma lembrança e uma promessa.
Masaru apertou os punhos.
A raiva cresceu em seu peito, não porque Neo Phobia tivesse mencionado
sua origem, mas porque reconhecia naquela história uma verdade terrível: ambos
haviam sido transformados pelas ambições de outros. Ambos conheciam o horror de
serem tratados como resultados de uma experiência, e não como seres capazes de
escolher.
Mas havia algo que Neo Phobia não compreendia.
Masaru ergueu o rosto.
— Você está certo em uma coisa. Nós dois fomos transformados por pessoas
que acreditavam ter o direito de decidir o que deveríamos ser.
Neo Phobia inclinou a cabeça, como se esperasse ouvir uma concordância.
Masaru deu um passo à frente.
— Mas você está errado ao acreditar que isso lhe dá o direito de fazer o
mesmo com os outros!
Sua voz ecoou pela câmara.
A lembrança das palavras de Shotaro voltou com clareza: a origem de uma
coisa não determina todas as suas possibilidades.
Masaru respirou fundo. Sentia a fúria crescer, mas agora ela tinha uma
direção.
— Alguém decidiu modificar meu corpo. Isso não decidiu quem eu seria.
— O que fizeram comigo não apagou minha capacidade de escolher, nem me
obrigou a viver segundo a vontade de quem me criou.
— Eu escolhi proteger a vida porque essa decisão é minha!
Ele cerrou os punhos, encarando o monstro.
— Você descobriu que era capaz de escolher e decidiu que, por isso,
deveria controlar o destino de todos os outros. Está repetindo exatamente o
erro dos seus criadores!
— Só trocou quem segura as correntes! Jamais te perdoarei por isso. Nos
enfrente, seu verme!
Por um instante, Neo Phobia não respondeu.
A luz em seu peito pulsou de maneira irregular.
— Ingênuo — rosnou finalmente. — Você ainda acredita que pode ser livre
sem impor sua vontade aos demais.
A resposta veio firme:
— Não. Acredito que ninguém precisa ser dono da vida de outra pessoa para
provar que é livre.
Masaru avançou mais um passo.
— Eu não posso mudar o que fizeram comigo. Você também não pode apagar o
que fizeram com você...
— Mas ainda podemos escolher o que faremos a partir disso. Eu escolhi
proteger. Você escolheu dominar.
Sua postura mudou. Não era apenas o guerreiro preparado para uma batalha.
Era um homem que finalmente compreendia a diferença entre carregar as
marcas do passado e permitir que essas marcas decidissem seu futuro.
— E eu não vou deixar que transforme o sofrimento que viveu numa desculpa
para fazer outros sofrerem!
Shotaro observou Masaru em silêncio. Ao seu lado, Philip percebeu a
mudança na expressão do companheiro.
— Shotaro — disse ele, discretamente. — Masaru compreendeu o ponto
central. Neo Phobia acredita que a liberdade só pode ser garantida pelo
controle absoluto.
— Masaru demonstra que a capacidade de escolher também implica
responsabilidade pelas próprias escolhas.
— É... — respondeu Shotaro. — E acho que nosso amigo verde acabou de
deixar bem claro que não vai permitir que esse sujeito transforme o mundo no
laboratório particular dele.
Neo Phobia abriu os braços. As placas de sua armadura orgânica se
moveram, e a Gaia Memory em seu peito brilhou com intensidade crescente.
— Então provem que sua liberdade vale alguma coisa!
Masaru assumiu uma posição de combate.
— Com prazer.
Ao lado dele, W ergueu os punhos.
— Certo, parceiro. Vamos mostrar a ele a diferença entre escolher o
próprio caminho e tentar obrigar todo mundo a seguir o mesmo!
Neo Phobia rugiu.
E a batalha recomeçou.
❖
A centenas de quilômetros dali, na sede da Irmandade
Rider, um alerta vermelho acendeu-se numa das telas da sala de monitoramento.
Desde que Sougo Tokiwa renunciara ao destino de se tornar Ohma Zi-O e o
Novo Mundo de Build fora consolidado, as histórias dos Riders passaram a
coexistir numa mesma dimensão.
O mundo não se tornara simples, nem todas as contradições haviam
desaparecido.
Mas, em vez de linhas temporais isoladas, havia agora uma rede de
aliados: a Irmandade Rider.
Na sala estavam Sophia, guardiã da Wonder World; Kiryuu Sento, o gênio
por trás de tecnologias que já haviam mudado o destino do mundo; e George
Karizaki, que observava os dados com uma expressão de fascínio quase teatral.
— Okay my friends! Uma mutação bio-orgânica capaz de aprender com
habilidades Rider? — exclamou George, levando uma mão ao peito. — Magnificent!
Terrifying! Absolutely unacceptable!
Sento cruzou os braços, fazendo uma leve careta de
desaprovação:
— Você parece animado demais para alguém que acabou de ver um alerta de
ameaça global.
— Meu caro Sento, a ciência não deixa de ser fascinante só porque alguém
a utiliza de forma irresponsável. Mas, sim, é necessário impedir que essa coisa
saia do laboratório.
Sento ampliou a imagem de W e ZO enfrentando a criatura.
— W está acompanhado de um Rider das antigas... e dos bons! ZO é um dos
Riders mais fortes de que se tem notícia.
George abriu um sorriso.
— Very well! Vivi para ver esse encontro.
Sophia observou a imagem dos dois heróis.
— A vida não é um experimento a ser conduzido por uma vontade que se
considera superior. É uma responsabilidade.
Ela voltou os olhos para a tela.
— Quando alguém tenta dominar todas as possibilidades, transforma a
criação numa prisão.
Sento ampliou os dados.
Uma mecha de seu cabelo se espetou, indicando uma descoberta importante.
— O sistema está usando a Gaia Memory como banco de informações.
Ele analisou os registros por mais alguns segundos.
— Cada combate fornece novos dados ao núcleo. Se continuar assim, o
monstro poderá reproduzir padrões de ataque e desenvolver defesas
específicas... Bingo!
George girou a cadeira, teatral.
— Then let us give our heroes a fighting chance!
Ele se levantou.
— Sento, precisamos de um analisador de frequência para separar a matriz
orgânica da assinatura da Memory.
— Já estou trabalhando nisso.
— Sophia, precisamos de uma barreira para impedir que a contaminação se
espalhe para além da região afetada.
— Farei o possível — respondeu ela. — Mas a decisão final precisa vir de
quem está enfrentando a criatura.
Sento transmitiu os dados para o comunicador de Philip.
— W, ZO, estão me ouvindo? Aqui é Kiryuu Sento, da Irmandade Rider.
A voz de Philip respondeu:
— Estamos ouvindo, prezado Sento.
— Temos uma maneira de identificar o núcleo. Vocês precisam separar a
Gaia Memory do tecido vivo antes de destruí-la.
A voz de George entrou logo depois:
— And please, do not let that ugly thing evolve into something even
uglier! I would consider it a personal insult to science!
Masaru soltou um resmungo.
— A nova geração de Riders é assim... estranha?
Shotaro, ainda no chão, soltou uma risada curta.
— Não sei quem é esse sujeito, mas gosto do estilo.
— É George Karizaki — respondeu Philip. — Sua teatralidade é bem
documentada.
— Ótimo. Temos um cientista dramático nos dando conselhos e um monstro
tentando nos devorar. O universo realmente gosta de exagerar.
❖
Neo Phobia avançou.
A criatura atacou com uma velocidade absurda.
W ergueu os braços para bloquear o primeiro golpe, mas foi arrastado pelo
piso.
ZO tentou atingir o flanco do inimigo; Neo Phobia girou e o acertou com o
cotovelo, lançando-o contra uma coluna.
W se levantou e mudou de forma.
— FANG! JOKER!
A armadura recebeu detalhes mais agressivos, e sua
postura tornou-se mais feroz.
W avançou com uma sequência de golpes curtos, alternando punhos e chutes.
Cada impacto fazia a carapaça de Neo Phobia vibrar, mas a criatura
adaptava a posição dos músculos e absorvia parte da força.
— Ele está antecipando nossos movimentos! — disse Philip, preocupado.
— Então vamos fazer algo que ele não consiga prever! Que o rosado Kadoya
morra de inveja!
W atacou pela esquerda, mudou de direção com um salto e tentou acertar a
cabeça.
Neo Phobia bloqueou o golpe e agarrou W pelo pescoço.
ZO surgiu por trás e cravou os punhos nas costas da criatura.
— ZO PUNCH! ZO PUNCH!
O segundo golpe abriu uma fissura na armadura.
Neo Phobia soltou W e virou-se para ZO, disparando
espinhos pelo antebraço.
Masaru desviou dos primeiros; um deles rasgou sua lateral.
Ele não recuou.
Avançou através da dor e acertou uma joelhada no abdômen do inimigo.
— Você pode copiar movimentos — rosnou Masaru. — Mas não pode compreender
por que escolhemos lutar!
Neo Phobia inclinou a cabeça lisa, como quem aceita um desafio.
Depois saltou.
O chute desceu em diagonal, torto e áspero, mas inconfundível. ZO o
reconheceu antes mesmo de ele chegar, porque era o seu próprio golpe, devolvido
sem alma. Cruzou os braços, e o impacto o arrastou metros pelo piso, abrindo
sulcos no concreto.
— Ele copiou o ZO KICK! — gritou Philip.
— Copiou a forma — ofegou Masaru, de joelhos. — Mas falta tudo o que vem
antes do chute.
O brilho do visor de ZO revelava uma determinação que
W não deixou de perceber.
Neo Phobia respondeu com um rugido que fez as luzes explodirem.
A onda sonora derrubou os dois Riders.
O laboratório mergulhou na escuridão. Só restavam a fenda luminosa no
rosto do inimigo e o brilho doentio do coração exposto, que ia e vinha como um
farol quebrado.
— Não estou vendo nada! — disse W. — Philip, os sensores?
— Interferência total. A criatura está bloqueando todas as frequências.
Do canto escuro, Masaru levantou-se sem pressa.
Fechou os olhos.
Nenhuma luz, nenhum aparelho. Só o laboratório inteiro vibrando como um
corpo, e, no meio dele, a figura que se movia entre as sombras.
As antenas desenharam cada passo da criatura como pegadas de calor no
escuro.
— À sua esquerda — disse ZO. — Abaixe. Agora!
W se abaixou. O braço de Neo Phobia rasgou o ar onde ficava sua cabeça.
— Você está dando ordens? — perguntou Shotaro.
— Estou ouvindo por nós dois.
— Ei, isso é a nossa especialidade! — Shotaro riu, mesmo ferido. — Mas
aceito a ajuda.
O coração exposto no peito da criatura pulsava cada vez mais rápido.
Philip analisou a frequência.
— Sento está certo. A matriz orgânica e a Gaia Memory estão
sincronizadas, mas não são idênticas.
— Se atingirmos a frequência de ressonância do núcleo, poderemos
separá-las por alguns segundos.
— Alguns segundos? — perguntou Shotaro, sarcástico. — Parece pouco...
— É tudo de que precisamos — disse Masaru.
W levantou-se com dificuldade.
— Então vamos abrir o caminho. Masaru, quando eu disser, mire no coração.
Não na criatura: no coração.
— Entendido.
W trocou as Memories.
— CYCLONE! METAL!
O bastão metálico surgiu em suas mãos.
Ele girou a arma, criando uma corrente de vento que empurrou Neo Phobia
para trás.
A criatura tentou avançar, mas W usou o Metal Shaft para bloquear o braço
e golpeou a articulação.
Uma segunda pancada atingiu o joelho; a terceira acertou o peito.
Neo Phobia cambaleou.
ZO correu pela lateral, saltou sobre um braço que tentava agarrá-lo e
usou o ombro do inimigo como apoio.
No alto, girou o corpo e desferiu um chute na cabeça.
— ZO KICK!
A criatura caiu sobre um joelho.
W aproveitou a abertura, cravou o Metal Shaft no chão e lançou uma rajada
circular de vento, prendendo o inimigo numa espiral.
— Agora, Philip!
— Iniciando pulso de ressonância!
O comunicador emitiu uma sequência de frequências.
A Gaia Memory no peito de Neo Phobia começou a vibrar,
e a carapaça orgânica se contraiu violentamente.
O monstro soltou um grito.
Por um breve instante, a Memory ficou parcialmente separada do coração.
— Masaru! — gritou W.
ZO saltou.
O monstro, porém, percebeu a intenção e ergueu o braço.
Um golpe atingiu Masaru no ar, lançando-o contra a plataforma.
Ele caiu de lado, sem conseguir se levantar imediatamente.
Neo Phobia recuperou o equilíbrio.
A Memory voltou a fundir-se ao coração.
Nos ombros da criatura, os cortes abertos pelos golpes de ZO começaram a
se fechar, as bordas puxando-se uma à outra com o mesmo ritmo apressado que
Masaru conhecia tão bem.
— Isso é... — Masaru engoliu a frase. — É a minha cura. Ele aprendeu com
a minha cura.
Por um instante, o velho medo voltou: o de ser apenas
um modelo que alguém, em algum lugar, podia copiar.
— Masaru — chamou W, sem desviar os olhos do inimigo. — Ele pode copiar a
cura. Não copia quem você é. NÃO ESQUEÇA ISSO, MEU AMIGO!
— A tentativa falhou — disse Philip, tenso.
— Não... — respondeu Masaru, apoiando-se no joelho. — Só não terminou.
Ele encarou o inimigo.
A dor percorria seu corpo, mas por trás dela havia uma certeza simples:
sua força não existia para provar que era superior.
Existia para impedir que alguém fosse transformado em ferramenta.
Masaru correu novamente.
Neo Phobia disparou espinhos.
Ele desviou do primeiro, deixou o segundo rasgar sua lateral e agarrou o
terceiro antes que o monstro pudesse recolhê-lo.
Puxou o braço inimigo para baixo, abriu a guarda e acertou um soco direto
no peito.
— ZO PUNCH!
A fissura aumentou.
Masaru percebeu algo estranho. Apesar de a criatura se recuperar
rapidamente dos golpes, havia um pequeno intervalo entre o impacto e a
reorganização de seus tecidos. Por uma fração de segundo, as linhas esverdeadas
que percorriam o corpo de Neo Phobia perdiam a sincronia. As antenas o sentiam
como um soluço no meio de uma melodia: um tropeço no compasso do coração.
— W! — chamou ZO. — Observe as linhas que percorrem o corpo dele! A
criatura consegue modificar sua estrutura, mas existe um intervalo entre
receber o ataque e completar a adaptação!
W desviou de um golpe e olhou para o adversário.
— Está dizendo que podemos surpreendê-lo antes que ele aprenda a lidar
com o próximo ataque?
— Exatamente! Não sabemos por quanto tempo essa abertura vai durar, mas
ela existe!
Philip acompanhou a movimentação pelos sensores.
— Masaru tem razão. Os dados mostram uma breve dessincronização da
atividade biológica após cada impacto.
— Isso pode ser importante para identificarmos o momento adequado para
interromper a ligação com a Gaia Memory.
— E ele a percebeu antes dos sensores — acrescentou Philip, em tom quase
respeitoso. — Anote isso, Shotaro.
— Anotado, anotado.
W ergueu o braço armado.
— METAL! TRIGGER!
O canhão surgiu.
Dessa vez, Shotaro não mirou na Memory, mas nas placas ao redor dela.
Disparou uma sequência precisa de projéteis, abrindo pequenas brechas na
carapaça sem atingir o coração.
— A armadura está cedendo! — avisou Philip.
— Masaru, mais uma vez! — gritou W.
ZO saltou, girou no ar e reuniu toda a força num golpe
descendente.
— ZO KICK!
O impacto arrancou a placa que protegia o núcleo.
A Gaia Memory ficou exposta.
— Pulso de ressonância, agora! — ordenou Philip.
O aparelho emitiu a frequência ajustada por Sento.
A Memory vibrou, e a ligação com o tecido vivo se
rompeu por alguns segundos.
Neo Phobia caiu de joelhos, o corpo se contorcendo entre a forma
monstruosa e uma massa informe.
— A conexão está instável! — disse Philip. — Se a Memory não for
destruída agora, vai se reintegrar!
W firmou os pés.
— Então vamos acabar com isso juntos! Da dimensão onde estiver, Tsukasa
Kadoya, veja isso!
Ele mudou para Cyclone Joker.
O vento concentrou-se ao redor de seu corpo, enquanto a energia de Joker
se acumulava na perna direita.
ZO posicionou-se ao lado dele.
Não havia máquina, fórmula ou botão para ativar sua força.
Havia apenas o corpo vivo, o salto e a decisão de proteger o que ainda
podia ser salvo.
Masaru fechou os olhos uma última vez. Sob o rugido do laboratório, sob o
grito da criatura, o coração de tecido vivo batia, falhava, voltava a bater.
— Três batidas... — murmurou. — Duas... Esperem a falha.
W entendeu.
— Estamos com você, ZO!
— O vento não pertence a quem tenta controlá-lo — disse W.
— E a vida não pertence a quem deseja dominá-la — completou ZO.
O coração falhou.
— Agora!
Os dois saltaram.
— JOKER EXTREME!
— ZO KICK!
W executou o Double Rider Kick, dividindo seu movimento acrobático em
duas trajetórias sincronizadas.
ZO atingiu o núcleo exposto no mesmo instante.
Os golpes convergiram sobre a Gaia Memory, que se partiu com um clarão.
O coração orgânico contraiu-se uma última vez.
Neo Phobia soltou um grito que começou como rugido e terminou como um
suspiro:
— ARGHHHH!
A armadura desabou.
A massa viva perdeu o brilho e se desfez em partículas
inofensivas, enquanto a Gaia Memory se partia em fragmentos negros.
O laboratório inteiro tremeu.
— Precisamos sair! — alertou Philip.
W agarrou Masaru pelo braço.
Os dois correram pelo corredor enquanto as paredes se
rompiam e as raízes recuavam, perdendo o pulso que as mantinha vivas.
Saltaram por uma abertura segundos antes de a entrada desabar.
Do lado de fora, a chuva havia diminuído.
Por alguns instantes, ninguém falou.
Masaru respirava com dificuldade, olhando para as
árvores.
O vento passava pelos galhos, carregando o cheiro de
terra molhada.
Não havia triunfo no silêncio, apenas alívio — e a
lembrança do que quase acontecera.
Shotaro tirou o chapéu para limpar a água da aba.
— Bem, Philip. Acho que podemos registrar o caso como encerrado.
— O laboratório foi destruído, a Gaia Memory foi neutralizada e a
contaminação deixou de se propagar. Tecnicamente, sim.
— “Tecnicamente, sim” é o jeito dele dizer que foi uma vitória — explicou
Shotaro a Masaru.
Masaru olhou para os dois.
— Vocês lutam de maneiras muito diferentes. Ainda assim, confiaram em
mim.
— Você também confiou em nós — disse Shotaro. — É assim que funciona uma
parceria.
— Devo admitir que seus sentidos superaram os meus sensores — disse
Philip. — É uma experiência humilhante e fascinante, nessa ordem.
— Philip admitindo que foi superado? — Shotaro levou a mão ao peito. —
Registrem a data!
Philip observou a floresta.
— A vida é capaz de adaptação, mas não existe evolução sem consequências.
O problema nunca foi a mudança em si.
Ele olhou para Masaru.
— Foi alguém acreditar que podia escolher, sozinho, o que todos deveriam
se tornar.
— E você? — perguntou Masaru. — O que acha que é?
Philip refletiu por um instante.
— Alguém que ainda está aprendendo.
Shotaro sorriu.
— Isso, vindo dele, é quase um discurso emocionante.
❖
Na sede da Irmandade Rider, os indicadores de
contaminação começaram a apagar-se um a um.
Sento soltou o ar que prendia.
— A assinatura da Gaia Memory desapareceu. Conseguiram! Eureka!
Sophia fechou os olhos por um breve momento, como se ouvisse o mundo
respirar novamente.
— A vida não precisa ser perfeita para ter valor. Precisa ter espaço para
existir e mudar sem ser submetida à vontade de alguém.
George ajeitou o casaco e ergueu o queixo para as
telas.
— A brilliant victory! W e ZO demonstraram uma combinação de capacidades
orgânicas e energéticas que merece um estudo completo.
— Naturalmente, com consentimento, protocolos de segurança e um
laboratório muito melhor do que aquele desastre subterrâneo.
Sento revisou os registros mais uma vez.
— O mais impressionante não foi o poder bruto. A dessincronização do
núcleo foi percebida por ZO antes de qualquer um dos nossos sensores. Ele a
ouviu.
— Ouviu — repetiu George, encantado. — A natureza ainda tem muito a nos
ensinar, Sento.
Ele levou a mão ao queixo, pensativo.
— E, quem sabe, uma nova tecnologia de transformação inspirada na
pesquisa? Uma Vistamp experimental, talvez...
Sento olhou de lado para ele.
— Você acabou de prometer não transformar os dois em cobaias?
— I said what I said! A ciência ética também pode ser spectacular!
Sophia sorriu discretamente.
— O importante é que a Irmandade continua sendo o que deveria ser: não um
exército que decide o destino dos outros, mas uma rede de pessoas que escolhem
ajudar quando o mundo precisa.
Sento assentiu.
— Foi isso que mudou quando Sougo renunciou ao destino de se tornar Ohma
Zi-O e o Novo Mundo de Build pôde ser preservado.
Sento fez uma pausa, e sua expressão perdeu a segurança habitual.
— Mas aquele mundo não foi preservado sem sacrifícios. Ryuga Banjou, o
Cross-Z, e o próprio protagonista também se sacrificaram para que pudéssemos
continuar existindo naquele mundo.
— A renúncia de Sougo não apagou o preço que foi pago.
Por um instante, a teatralidade de George desapareceu.
Sophia olhou para Sento com respeito.
Sento voltou os olhos para os dados na tela.
— Não apagamos as diferenças entre nossas histórias.
Aprendemos a compartilhar o mesmo mundo sem que uma única pessoa precisasse
governá-lo como se fosse seu.
— Esse é o “love and peace” em que tanto acreditei.
George abriu os braços, recuperando o entusiasmo
habitual.
— One world, countless possibilities! E, de preferência, menos monstros
que tentam devorar laboratórios!
❖
Na costa, antes de partir, Shotaro encontrou Masaru observando o mar.
O vento soprava entre os dois, agitando a aba do chapéu do detetive.
— Vai ficar por aqui? — perguntou Shotaro.
— Alguém precisa vigiar a floresta. O laboratório acabou, mas não posso
garantir que todos os vestígios tenham desaparecido.
— Justo. Eu volto para Fūto. Ainda tenho um gato voador para investigar.
Masaru ergueu uma sobrancelha.
— Um gato voador?
— Não pergunte. É um caso complicado.
Philip, já montado na HardBoilder, acrescentou:
— A probabilidade de o gato realmente voar é baixa.
— Obrigado pelo apoio, parceiro.
Shotaro estendeu a mão.
Masaru apertou-a.
— Se precisar de ajuda, procure a Irmandade Rider — disse o detetive. —
Parece que o mundo ficou maior, mas isso não significa que alguém precise
enfrentá-lo sozinho.
Masaru olhou para o mar, depois para a floresta.
— Passei muito tempo acreditando que proteger a vida significava lutar
sozinho contra tudo o que a ameaçava.
Ele respirou fundo.
— Talvez eu precise aprender que aceitar ajuda também faz parte dessa
responsabilidade.
— É uma boa conclusão — disse Philip. — Embora eu recomende que você não
a transforme numa regra absoluta.
— Algumas situações exigem cooperação; outras, ação individual. O
contexto é importante.
Shotaro suspirou.
— E lá se vai o momento emocionante.
A HardBoilder ligou o motor.
O vento atravessou a estrada, levantando folhas e espalhando a névoa que
restava.
W e ZO tinham vindo de mundos diferentes, moldados por
forças distintas.
Um carregava o poder das Gaia Memories e a parceria de dois homens; o
outro era a própria prova de que a vida podia sobreviver à tentativa de ser
controlada.
Nenhum deles precisava ser igual ao outro para lutar ao seu lado.
Enquanto a motocicleta desaparecia na estrada, Masaru permaneceu entre as
árvores.
A floresta ainda estava ferida, mas o vento voltara a mover as folhas sem
o ruído artificial daquele coração subterrâneo.
Agora, sob as folhas, só havia o ritmo antigo da terra.
Lento, paciente, certo.
Masaru o ouviu por um longo instante, e as antenas que não via, mas
sempre sentia, descansaram pela primeira vez em muito tempo.
Pequenos brotos começavam a surgir entre as folhas e os galhos espalhados
pelo chão.
A floresta não havia esquecido o que acontecera ali, mas continuava
crescendo.
Ele tocou o tronco de uma árvore e fechou os olhos.
A vida guardava marcas, respondia às mudanças e encontrava maneiras de
continuar.
Mas isso não significava que precisasse ser submetida à vontade de
alguém.
Masaru abriu os olhos e voltou a caminhar.
A ameaça havia sido derrotada. O significado daquela luta, porém,
permaneceria com ele.
A vida continuaria mudando.
Às vezes, de formas dolorosas; às vezes, de maneiras que ninguém poderia
prever.
E talvez essa fosse a verdade que o laboratório jamais compreendera:
viver não era obedecer a um projeto perfeito.
Era seguir em frente, com todas as possibilidades, escolhas e riscos que
faziam de cada existência algo único.
Em algum lugar distante, o vento de Fūto parecia encontrar a brisa da
costa.
Por um instante, os dois carregaram a mesma mensagem.
A vida não pertence a quem tenta dominá-la.
Pertence àqueles que escolhem protegê-la.
FIM






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