The Chosen: Vozes depois D'Ele - CAPÍTULO 18 -NATEUS
CAPÍTULO 18--- MATEUS
O Homem Que Aprendeu a Ser Abraçado.
Números faziam
sentido.
Listas faziam
sentido.
Ordens faziam
sentido.
Pessoas, não.
Pessoas eram
imprevisíveis. Diziam uma coisa enquanto seus rostos pareciam dizer outra.
Às vezes, ficavam em
silêncio quando esperavam uma resposta.
Em outras ocasiões,
faziam perguntas sem desejar ouvir a verdade.
Eu nunca soube lidar
muito bem com isso.
Os números, pelo
menos, não fingiam ser outra coisa.
Uma dívida era uma
dívida.
Uma soma era uma
soma.
Se os valores não
correspondiam, havia um erro a ser encontrado.
Com as pessoas,
porém, não existia uma coluna na qual eu pudesse registrar o que sentiam.
Não havia uma
fórmula capaz de me dizer quando alguém estava magoado, quando uma palavra
precisava ser dita ou quando o silêncio era a resposta mais adequada.
Por isso, durante
muito tempo, preferi os números.
Eles não me olhavam
com desprezo.
Não se afastavam
quando eu me aproximava.
Não me lembravam, a
cada encontro, que eu havia escolhido uma profissão que me tornara um traidor
aos olhos do meu próprio povo.
Eu era coletor de
impostos.
Trabalhava para
Roma.
E, para muitos, isso
era tudo o que precisavam saber sobre mim.
Não importava que eu
fosse cuidadoso com os registros.
Não importava que
conhecesse os valores, os prazos e as regras melhor do que a maioria dos homens
ao meu redor.
Eu era um
colaborador dos romanos.
Um homem que
recolhia dinheiro de seus próprios irmãos para entregá-lo aos ocupantes de sua
terra.
Um pecador.
Um traidor.
Talvez eu fosse tudo
isso aos olhos deles.
Durante muito tempo,
também acreditei que essas palavras fossem tudo o que havia para dizer sobre
mim.
Então Jesus passou
por mim.
Não me ofereceu um
discurso sobre meus erros.
Não me apresentou
uma lista das coisas que eu precisaria corrigir antes de me tornar digno de sua
companhia.
Ele simplesmente me
chamou.
— Mateus, filho de
Alfeu... siga-me!
Eu me lembro de ter
olhado para Ele.
Talvez esperasse uma
explicação.
Talvez procurasse,
em seu rosto, algum sinal de que havia cometido um engano.
Mas Jesus não
parecia confuso.
Ele sabia quem eu
era.
Sabia o que eu
fazia.
Sabia como as
pessoas me enxergavam.
E, mesmo assim,
chamou por mim.
Levantei-me.
Deixei para trás a
mesa, os registros, o dinheiro e a segurança de um mundo no qual eu conhecia as
regras, ainda que elas me custassem a convivência com as outras pessoas.
Segui Jesus sem
compreender inteiramente o que estava fazendo.
Pela primeira vez,
não tinha todas as respostas.
E, pela primeira
vez, isso não me impediu de continuar.
A convivência com os
outros discípulos não foi simples.
Eu não sabia como me
aproximar deles.
Alguns me olhavam
com desconfiança. Outros não escondiam o desconforto por terem de dividir o
caminho com um homem que havia trabalhado para Roma.
Eu compreendia a
razão.
Não podia exigir que
esquecessem, de um momento para outro, aquilo que eu havia feito.
Ainda assim, doía.
Eu tinha deixado
tudo para seguir Jesus, mas isso não significava que os outros fossem capazes
de enxergar imediatamente o homem que eu estava tentando me tornar.
Havia dias em que eu
me perguntava se algum deles conseguiria, um dia, olhar para mim sem se lembrar
do coletor de impostos.
Foi nesse convívio
que Filipe se tornou alguém especialmente importante.
Ele parecia
compreender melhor do que os outros as dificuldades que eu enfrentava para
acompanhar certas conversas, interpretar determinadas reações ou encontrar a
maneira adequada de participar de um momento.
Filipe não exigia
que eu aprendesse tudo de uma vez.
Quando eu não
entendia alguma coisa, ele explicava.
Quando eu me perdia
em uma conversa, procurava me ajudar a encontrar o ponto em que havia ficado
para trás.
E, quando o assunto
era a Escritura, sua ajuda se tornava ainda mais preciosa.
Eu conhecia números,
registros e cobranças. Sabia organizar informações e identificar
inconsistências. Mas havia passagens das Escrituras que eu não havia estudado
como deveria.
Minha antiga
profissão me ensinara a registrar aquilo que era devido. Não me ensinara,
necessariamente, a compreender tudo o que estava escrito sobre misericórdia,
justiça e redenção.
Filipe me ajudou a
preencher essas lacunas.
Não falava comigo
como se eu fosse incapaz de aprender.
Não fazia da minha
dificuldade um motivo para me diminuir.
Explicava,
relacionava uma passagem a outra e me dava tempo para compreender.
Às vezes, eu
precisava voltar ao mesmo assunto mais de uma vez.
Ele não parecia se
incomodar.
— Você está tentando
organizar tudo antes de compreender o que está diante de você, Mateus —
disse-me certa vez.
Pensei naquilo.
Era verdade.
Eu queria que cada
informação encontrasse imediatamente seu lugar. Queria que as partes se
encaixassem, que as dúvidas fossem resolvidas e que o conjunto formasse uma
estrutura sem falhas.
Mas a fé não era um
registro contábil.
E seguir Jesus não
significava compreender tudo o que Ele fazia.
Filipe me ajudou a
perceber isso.
Ele foi o apóstolo
que melhor compreendeu muitas das minhas dificuldades. Não porque soubesse
todas as respostas, mas porque não precisava transformar cada dúvida minha em
um problema.
Com ele, aprendi que
uma explicação oferecida com paciência podia ser uma forma de cuidado.
Aprendi também que
ninguém deveria ser reduzido àquilo que ainda não compreendia.
Mas havia Pedro.
E, entre mim e
Pedro, existia uma ferida que não podia ser resolvida com explicações.
Nossa relação era
complexa.
Pedro não era um
homem que escondia facilmente o que sentia. Quando estava irritado, eu
percebia. Quando se sentia contrariado, sua expressão e suas palavras tornavam
isso evidente.
Comigo, ele tinha
razões para estar magoado.
Minhas ações como
coletor de impostos e minha aproximação com o governador romano Quintus de
Cafarnaum haviam contribuído para colocar Pedro em uma situação na qual ele
quase perdeu tudo.
Não era uma ofensa
pequena.
Eu sabia disso.
Podia explicar
minhas escolhas. Podia falar sobre as circunstâncias que me haviam levado até
ali. Podia tentar organizar os acontecimentos de modo que cada decisão
parecesse compreensível.
Mas nenhuma
explicação apagaria as consequências que Pedro havia enfrentado.
Eu conhecia os
fatos.
O que eu não sabia
era como reparar o dano.
Por isso, durante
algum tempo, tentei me manter distante.
Era mais fácil
evitar uma conversa do que correr o risco de ouvir aquilo que eu já temia.
Pedro não precisava
dizer que não confiava em mim. Eu conseguia perceber.
E, ainda assim,
havia uma parte de mim que desejava que ele me aceitasse.
Eu queria pertencer
àquele grupo.
Queria que os homens
que caminhavam com Jesus fossem capazes de me reconhecer como um deles.
Mas não sabia como
pedir isso sem parecer que estava exigindo algo que ainda não havia
conquistado.
Jesus percebeu.
Não sei dizer em que
momento compreendeu exatamente o que se passava dentro de mim. Talvez tivesse
percebido minhas tentativas de evitar Pedro. Talvez tivesse notado que eu
pensava demais antes de falar com ele.
Jesus costumava
enxergar aquilo que eu não conseguia expressar.
Certa vez, Ele me
fez compreender que eu precisava tomar a iniciativa.
Eu deveria procurar
Pedro.
Deveria pedir
perdão.
Não bastava esperar
que o tempo resolvesse o que minhas atitudes haviam provocado.
Lembro-me de tentar
explicar por que aquilo era tão difícil.
Eu tinha medo.
Medo de não
encontrar as palavras certas.
Medo de que Pedro
interpretasse meu pedido como uma tentativa de escapar das consequências.
Medo,
principalmente, de que ele me rejeitasse.
Jesus não me
prometeu que Pedro me perdoaria imediatamente.
Não disse que eu
seria recebido de braços abertos.
Ensinou-me algo que,
para mim, era muito mais difícil de aceitar.
O perdão era um
presente oferecido por quem havia sido ferido.
Eu podia pedir.
Podia reconhecer meu
erro.
Podia demonstrar
arrependimento e procurar reparar o que fosse possível.
Mas não podia exigir
que Pedro me perdoasse no momento em que eu desejasse.
A decisão não era
minha.
Eu precisava fazer a
minha parte, mesmo sem saber qual seria a resposta.
Foi uma das lições
mais difíceis que aprendi.
Eu estava acostumado
a lidar com valores definidos, resultados verificáveis e registros que podiam
ser conferidos.
Ali, porém,
precisava fazer algo sem garantia de sucesso.
Precisava admitir
meu erro sem poder controlar o resultado.
Precisava pedir
perdão sem transformar o perdão em uma dívida que Pedro fosse obrigado a pagar.
E precisava aceitar
que, mesmo depois de pedir, talvez continuasse sendo rejeitado.
Ainda assim, fui
procurá-lo.
Não me lembro de ter
pronunciado as palavras com a elegância que eu gostaria.
Provavelmente
hesitei.
Talvez tenha
começado a falar, parado no meio da frase e tentado novamente.
Mas fui sincero.
Reconheci o que
havia feito.
Disse que
compreendia por que ele estava magoado.
Pedi perdão.
Pedro me ouviu.
Por um instante,
tive a esperança de que aquele fosse o começo de uma reconciliação.
Então ele me
rejeitou.
Não aceitou meu
pedido naquele momento.
Sua resposta me
atingiu com uma força que eu não havia conseguido prever.
Eu sabia que ele
estava ferido. Sabia que tinha razões para não confiar em mim. Mesmo assim, uma
parte de mim havia esperado que o simples fato de pedir perdão fosse suficiente
para mudar alguma coisa.
Não foi.
Voltei a carregar a
consciência do meu erro e, agora, também a experiência de ter sido rejeitado
quando tentei repará-lo.
Não me arrependo de
ter pedido perdão.
Mas seria mentira
dizer que não doeu.
Eu queria ter feito
tudo corretamente.
Queria encontrar as
palavras capazes de desfazer a distância entre nós.
Queria que Pedro
enxergasse que eu não era mais apenas o homem que havia sido.
Só que o passado não
desaparece porque desejamos recomeçar.
E a dor de quem foi
ferido não obedece à urgência de quem deseja ser perdoado.
Por algum tempo, não
soube o que fazer com aquilo.
Jesus, porém, não me
ensinou que eu deveria desistir das pessoas quando elas não respondessem como
eu esperava.
Também não me
ensinou que eu poderia obrigá-las a aceitar minha mudança.
Eu precisava
continuar fazendo a minha parte.
Pedro também
precisava lidar com a sua.
E Jesus conhecia os
dois.
O que aconteceu
depois me ensinou tanto quanto o primeiro pedido de perdão.
Pedro também tinha
suas lutas.
Ele era impulsivo.
Às vezes, falava antes de compreender inteiramente o que estava sentindo. Podia
demonstrar uma coragem extraordinária em um momento e, no seguinte, descobrir
que ainda carregava medos que não sabia enfrentar.
Eu não era o único
que precisava aprender.
Pedro também
precisava compreender o próprio coração.
Ele conversou com
Jesus sobre o que sentia.
Não tentou esconder
sua dificuldade atrás de uma aparência de firmeza. Foi honesto sobre a mágoa, a
resistência e o problema que tinha em aceitar alguém que, aos seus olhos, havia
contribuído para quase destruir sua vida.
Jesus não tratou a
dor de Pedro como se ela não importasse.
Não lhe exigiu uma
reconciliação fingida.
Mas também não
permitiu que a mágoa fosse a única coisa capaz de definir o que Pedro faria
dali em diante.
O tempo passou.
Não sei dizer o que
aconteceu dentro dele em cada momento. Não posso afirmar que, de repente, tudo
se tornou fácil.
Mas houve um dia em
que Pedro me chamou diante dos outros.
Eu não sabia o que
esperar.
Aquela lembrança
ainda estava viva em mim: eu me aproximando, tentando encontrar as palavras,
pedindo perdão e ouvindo sua rejeição.
Por isso, quando ele
pediu que eu fosse até ele, senti o velho receio voltar.
Aproximei-me.
Pedro me olhou.
E, então,
abraçou-me.
Não foi um gesto
distante.
Não foi uma
formalidade feita para que os outros pensassem que tudo estava resolvido.
Ele me recebeu em
seus braços.
E me perdoou.
Não sei se algum dia
conseguirei explicar o que senti naquele momento.
Eu havia passado boa
parte da vida tentando descobrir como deveria me comportar para que as pessoas
não me rejeitassem.
Tentava prever
reações.
Organizava palavras.
Procurava a resposta
correta.
E, quando não
conseguia compreender o que esperavam de mim, muitas vezes me afastava antes
que alguém pudesse fazê-lo primeiro.
Mas Pedro não me
entregou uma explicação.
Entregou-me um
abraço.
O homem que eu temia
havia me recebido.
O homem que tinha
razões para continuar magoado decidiu não permitir que a mágoa fosse a palavra
final entre nós.
O perdão não apagou
o passado.
Não transformou
minhas escolhas em decisões corretas.
Não fez com que o
que Pedro havia sofrido deixasse de ter importância.
Mas abriu um caminho
que antes parecia fechado.
E, naquele abraço,
compreendi algo que eu talvez soubesse com a razão, mas ainda não conseguia
aceitar por inteiro.
Eu podia ser
responsável pelos meus erros sem ser condenado a permanecer para sempre dentro
deles.
Podia reconhecer o
mal que havia feito sem acreditar que aquele mal era tudo o que eu seria.
Podia pedir perdão.
Podia receber
perdão.
E podia aprender a
oferecer aos outros a mesma misericórdia que eu tanto precisava.
Naquele dia, Pedro
não me ensinou apenas sobre perdão.
Ensinou-me que o
amor também podia chegar na forma de um abraço inesperado.
E eu, que tantas
vezes não sabia o que fazer quando alguém se aproximava, finalmente compreendi
que nem todo gesto precisava ser decifrado.
Alguns precisavam
apenas ser recebidos.
A convivência com
Jesus também transformou a maneira como eu observava o mundo.
Eu continuava sendo
Mateus.
Ainda gostava de
organizar informações. Ainda prestava atenção aos detalhes. Ainda precisava de
tempo para compreender certas reações.
Mas comecei a
perceber que minhas características não precisavam ser apenas obstáculos.
Aquilo que antes me
isolava também podia me ajudar a enxergar aspectos que outros deixavam passar.
Eu observava as
palavras.
Guardava as
conversas.
Tentava compreender
a relação entre os acontecimentos.
Quando Jesus
ensinava, eu queria entender não apenas o que Ele dizia, mas como suas palavras
se relacionavam com as Escrituras que eu estava aprendendo a conhecer melhor.
Filipe me ajudava a
perceber conexões que antes me escapavam.
E, aos poucos,
passei a compreender que minha atenção aos detalhes poderia servir a algo maior
do que a organização de registros e cobranças.
Não era necessário
que eu me tornasse outra pessoa.
Era necessário que
aprendesse a usar aquilo que eu era de uma maneira diferente.
Foi assim que
comecei a entender meu lugar entre os discípulos.
Não porque tivesse
encontrado uma fórmula para me relacionar com todos.
Não porque tivesse
deixado de sentir medo ou desconforto.
Mas porque Jesus não
havia me chamado para ser uma cópia dos outros.
Ele me chamara para
segui-lo.
E eu podia fazer
isso sendo Mateus.
Quando chegou o
momento de preparar os ensinamentos de Jesus, minha atenção aos detalhes
tornou-se ainda mais importante.
Eu queria registrar
as palavras corretamente.
Não queria perder
uma frase.
Não queria misturar
acontecimentos.
Não queria permitir
que minha memória transformasse uma expressão em outra apenas porque uma versão
me parecia mais organizada.
Às vezes, minhas
perguntas pareciam excessivas.
Eu precisava
confirmar a sequência de um acontecimento, compreender a relação entre duas
passagens ou descobrir se determinada palavra havia sido empregada com um
sentido específico.
Mas Jesus não me
chamara para escrever uma versão mais conveniente de sua história.
Chamou-me, antes, a
testemunhar aquilo que eu havia visto e ouvido.
E testemunhar exigia
honestidade.
Durante o Sermão da
Montanha, por exemplo, eu me vi tentando acompanhar a dimensão do que estava
acontecendo.
Jesus falava de
pessoas que o mundo costumava desprezar.
Falava dos pobres de
espírito, dos que choravam, dos mansos, dos que tinham fome e sede de justiça,
dos misericordiosos, dos puros de coração, dos pacificadores e dos perseguidos.
Eu ouvia aquelas
palavras e pensava na maneira como os homens eram classificados.
Eu conhecia muito
bem as classificações.
Havia aqueles que
eram considerados respeitáveis.
Havia aqueles que
eram tratados como pecadores.
Havia os que tinham
dinheiro, os que deviam, os que cobravam e os que eram cobrados.
Eu sabia o que
significava ser colocado na categoria errada aos olhos das pessoas.
Mas Jesus não estava
simplesmente reorganizando uma lista de indivíduos dignos e indignos.
Ele estava mostrando
que o Reino de Deus não podia ser compreendido pelas mesmas medidas que os
homens usavam para decidir quem merecia ser acolhido.
Enquanto o escutava,
eu tentava guardar cada palavra.
Às vezes, precisava
fazer uma pergunta para compreender melhor uma ligação entre seus ensinamentos
e aquilo que eu havia lido nas Escrituras.
Não fazia isso
porque acreditasse que poderia explicar Jesus melhor do que Ele próprio.
Fazia porque queria
compreender.
Filipe me ajudava a
organizar algumas das conexões que eu ainda não conseguia enxergar.
E, quando minhas
perguntas pareciam se multiplicar, eu precisava me lembrar de que nem tudo
seria resolvido naquele momento.
Eu poderia continuar
aprendendo.
Poderia registrar o
que havia compreendido e reconhecer aquilo que ainda não compreendia.
A verdade não
precisava ser diminuída para caber na minha necessidade de organização.
Foi uma lição
importante para um homem que passara tanto tempo tentando fazer com que tudo
coubesse em colunas bem definidas.
Foi também assim que
aprendi a compreender a promessa feita a Tiago Menor.
Tiaguinho, como o
conhecíamos, carregava uma história que eu acompanhara de perto.
Eu sabia das
limitações que enfrentava. Conhecia sua maneira de caminhar e as dificuldades
que certos movimentos lhe impunham.
Jesus havia lhe
feito uma promessa.
Um dia, Tiago seria
curado.
Naquele tempo, eu
não sabia quando aquilo aconteceria. Não tinha como registrar uma data,
calcular um prazo ou prever as circunstâncias em que a promessa se cumpriria.
Eu apenas sabia que
Jesus havia dado sua palavra a Tiaguinho.
Então Jesus morreu.
A ausência do Mestre
mudou tudo.
Tivemos de aprender
a continuar sem ouvir sua voz da maneira como havíamos nos acostumado.
Precisamos enfrentar a saudade, as dúvidas e as perguntas que surgiam quando
tentávamos compreender o que significava seguir adiante depois de sua partida.
Havia promessas que
eu não sabia como interpretar diante daquela ausência.
Mas não esqueci a
que Jesus fizera a Tiago.
Muito tempo depois
da morte do Mestre, aconteceu algo que eu não esperava perceber daquela
maneira.
Fui eu quem notou.
A princípio, talvez
tenha sido um detalhe. A maneira como Tiago se movimentava. A naturalidade de
um passo. Um movimento que antes exigia esforço e que, agora, parecia acontecer
sem aquela dificuldade que eu conhecia tão bem.
Eu havia convivido
com ele por tempo suficiente para saber como caminhava.
Por isso, quando
percebi a diferença, não consegui simplesmente ignorá-la.
Olhei novamente.
Eu não queria me
enganar. Não queria confundir a esperança com aquilo que estava diante de mim.
Mas havia algo
diferente.
Tiago estava curado.
A promessa que Jesus
fizera a Tiaguinho havia se cumprido.
Durante alguns
instantes, fiquei tentando compreender o que meus olhos me mostravam.
Eu, que tantas vezes
procurava uma explicação para cada acontecimento, não tinha uma fórmula para
aquele momento.
Tinha a lembrança da
promessa.
Tinha o conhecimento
da dificuldade que Tiago enfrentara.
E tinha diante de
mim a realidade de sua cura.
O que me comoveu não
foi apenas perceber que ele já não enfrentava aquela limitação física.
Foi compreender que
a morte de Jesus não havia transformado sua promessa em palavras vazias.
O tempo passara.
Nós havíamos
carregado a ausência, aprendido a viver com a saudade e enfrentado perguntas
para as quais nem sempre encontrávamos respostas.
Mas aquela promessa
permanecera.
Não sei explicar por
que seu cumprimento aconteceu naquele momento, e não antes. Não tentarei
inventar uma resposta para uma pergunta que não me foi respondida.
Sei apenas o que vi
e o que aquilo significou para mim.
A cura de Tiago não
apagava os anos de espera.
Dava àqueles anos um
novo significado.
Olhei para ele e
pensei em tudo o que havíamos vivido ao lado de Jesus.
Pensei também em
mim.
A transformação de
Tiago era visível. Ele havia recebido a cura que o Mestre lhe prometera.
A minha
transformação não podia ser medida da mesma maneira.
Eu ainda tinha
dificuldades. Ainda precisava de silêncio para organizar os pensamentos. Ainda
me perdia em certas conversas e, por vezes, temia não compreender o que os
outros esperavam de mim.
Mas eu já não era o
homem que se escondia atrás de uma mesa, acreditando que os números eram mais
seguros do que as pessoas.
Aprendera a pedir
perdão.
Aprendera a receber
o abraço de Pedro.
Aprendera que podia
ser amado sem precisar me tornar uma cópia de alguém que não era.
Não eram a mesma
coisa.
Não queria comparar
uma cura física com as mudanças que eu carregava por dentro. A promessa feita a
Tiago era dele. A caminhada que Jesus me dera era minha.
Mas, naquele
momento, as duas histórias me lembraram de que Jesus não havia deixado de
conhecer nenhum de nós.
Ele conhecia
Tiaguinho.
Conhecia suas
limitações, suas esperanças e sua espera.
E também me
conhecia.
Conhecia meus medos,
minhas dificuldades e a maneira como eu tentava organizar o mundo para não me
perder dentro dele.
A promessa cumprida
na vida de Tiago me fez compreender que o tempo de uma promessa não determina a
força do amor de quem a fez.
Nem sempre
conseguimos compreender a espera.
Nem sempre sabemos
como uma palavra se cumprirá.
Mas eu havia visto
algo que não poderia registrar apenas como um acontecimento.
Eu precisava
registrar o que aquilo significara.
Tiago fora curado,
como Jesus lhe prometera.
E eu, que tantas
vezes procurara certezas antes de seguir adiante, compreendi que nem todas as
respostas chegam quando desejamos.
Algumas chegam muito
depois.
E, quando chegam,
não mudam apenas o presente.
Também transformam a
maneira como olhamos para tudo o que veio antes.
Com o tempo, comecei
a compreender que registrar a história de Jesus exigia mais do que preservar a
sequência dos acontecimentos.
Eu precisava
escrever sobre aquilo que Ele havia feito.
Mas também precisava
reconhecer o que sua presença havia feito conosco.
Se eu registrasse
apenas os lugares por onde passamos, as pessoas que encontramos e as palavras
que ouvimos, deixaria de fora uma parte essencial daquilo que testemunhei.
Jesus havia
transformado a maneira como eu enxergava a mim mesmo.
Eu, que passara
tanto tempo acreditando que precisava conquistar algum valor antes de ser
aceito, começara a compreender que o amor não funcionava como uma dívida.
Não havia uma soma
de boas ações capaz de obrigar alguém a me amar.
Também não existia
uma lista de erros que, por si só, pudesse resumir tudo o que eu era.
Eu havia errado.
Havia ferido
pessoas.
Havia tomado
decisões cujas consequências não desapareceriam apenas porque eu me arrependia.
Mas também podia
mudar.
Podia reconhecer
meus erros.
Podia procurar
aqueles a quem havia ferido.
Podia pedir perdão,
mesmo sem saber se seria aceito.
E podia continuar
aprendendo.
Pedro me ensinara
isso de uma maneira que nenhuma explicação teria conseguido substituir.
Filipe também.
Jesus, acima de
tudo, havia me mostrado que ser conhecido por inteiro não significava ser
rejeitado por inteiro.
Ele conhecia o homem
que eu fora.
Conhecia o homem que
eu ainda estava aprendendo a ser.
E me chamara mesmo
assim.
Depois da morte de
Jesus, muitas coisas mudaram.
A ausência do Mestre
deixou um espaço que nenhuma palavra poderia preencher.
Havia dias em que eu
me lembrava de uma frase que Ele havia dito e desejava poder perguntar o que
significava.
Havia momentos em
que eu me perguntava se teria compreendido corretamente determinada expressão,
se me lembrava de um detalhe ou se alguma palavra importante havia escapado à
minha atenção.
Minha necessidade de
registrar tudo se tornou ainda mais intensa.
Eu não queria que a
memória transformasse os acontecimentos.
Não queria que o
tempo apagasse detalhes.
Mas, aos poucos,
compreendi que escrever não era apenas organizar informações.
Era testemunhar.
Eu precisava
encontrar palavras para aquilo que havia visto, mas também precisava reconhecer
os limites daquilo que podia afirmar.
Não deveria inventar
respostas para preencher os espaços que a memória deixava.
Não deveria fingir
compreender o que permanecia misterioso.
E não deveria
transformar as pessoas que haviam caminhado conosco em personagens sem
contradições.
Pedro continuava
sendo Pedro.
Filipe continuava
sendo Filipe.
Tiago continuava
sendo Tiago.
E eu continuava
sendo Mateus.
Nenhum de nós havia
se tornado perfeito.
O que tínhamos
recebido não era a garantia de que nunca mais erraríamos.
Era a possibilidade
de continuar caminhando depois do erro.
De recomeçar depois
da vergonha.
De amar depois da
decepção.
De acreditar mesmo
quando a espera parecia longa demais.
Certa vez, enquanto
eu organizava minhas lembranças, Maria se aproximou.
Ela me observou por
algum tempo antes de falar.
— E onde está você,
Mateus?
Levantei os olhos.
Não compreendi
imediatamente a pergunta.
Ela continuou:
— Onde está o homem
que Jesus chamou? Onde está o homem que aprendeu a ser amado?
Fiquei em silêncio.
Eu estava tão
preocupado em preservar as palavras de Jesus, em registrar seus ensinamentos e
em não perder os detalhes daquilo que havíamos vivido, que talvez tivesse me
esquecido de uma coisa importante.
Eu também fazia
parte daquela história.
Não porque minhas
palavras fossem maiores do que as de Jesus.
Não porque minha
experiência fosse mais importante do que a de qualquer outra pessoa.
Mas porque o
testemunho não existia apenas para informar o que havia acontecido.
Ele também precisava
revelar o que aqueles acontecimentos haviam feito com quem os presenciara.
Eu não podia
escrever como se tivesse sido apenas um observador distante.
Eu havia sido
chamado.
Havia sido
confrontado.
Havia sido perdoado.
Havia aprendido a
perdoar.
Havia sido abraçado
por um homem que, durante muito tempo, eu temi que jamais me aceitasse.
E havia visto uma
promessa feita a Tiaguinho cumprir-se muito depois da morte de Jesus.
Tudo aquilo fazia
parte da minha história.
E minha história
fazia parte do testemunho que eu precisava deixar.
Voltei às minhas
anotações.
Dessa vez, não
procurei apenas a ordem correta dos acontecimentos.
Procurei também a
verdade do que havia vivido.
Escrevi sobre o
homem que eu fora antes de Jesus me chamar.
Escrevi sobre os
discípulos que me ajudaram a compreender o que eu ainda não conhecia.
Escrevi sobre
Filipe, cuja paciência me ensinou que aprender não precisava ser motivo de
vergonha.
Escrevi sobre Pedro,
cuja resistência me obrigou a reconhecer a gravidade dos meus erros e cujo
abraço me mostrou que o perdão podia abrir um caminho novo.
Escrevi sobre Tiago
Menor e sobre a promessa que Jesus lhe fizera, uma promessa cujo cumprimento eu
tive a oportunidade de perceber muito tempo depois.
E escrevi sobre
Jesus.
Não apenas sobre
aquilo que Ele dizia.
Mas sobre a maneira
como olhava para as pessoas.
A maneira como as
chamava.
A maneira como as
fazia compreender que seus erros não precisavam ser a última palavra de suas
vidas.
Eu não sabia se
conseguiria registrar tudo com a precisão que desejava.
Mas sabia que não
deveria esconder aquilo que havia aprendido.
Porque a história
que eu precisava contar não era apenas a história de um Mestre que ensinava
multidões.
Era também a
história de um homem que, sentado atrás de uma mesa, acreditava que o mundo
terminava nos limites de seus registros.
Um homem que não
sabia como se aproximar das pessoas.
Um homem que temia a
rejeição.
Um homem que
precisou aprender a pedir perdão e a aceitar que o perdão não podia ser
exigido.
Um homem que
descobriu, nos braços de Pedro, que a reconciliação podia chegar depois de uma
recusa.
Um homem que viu uma
promessa cumprir-se na vida de Tiaguinho e compreendeu que o tempo da espera
não era, necessariamente, o tempo do esquecimento.
Um homem que ainda
tinha dificuldades.
Ainda tinha dúvidas.
Ainda precisava
aprender.
Mas que já não
estava sozinho.
Quando penso em tudo
o que aconteceu, percebo que Jesus não apagou minha história.
Ele a transformou.
Não me tornou alguém
que nunca mais sentiria medo.
Não me tornou um
homem capaz de compreender todas as pessoas.
Não eliminou de mim
todas as dificuldades que eu enfrentava.
Ele me mostrou que
eu podia continuar sendo Mateus e, ainda assim, aprender a viver de uma maneira
diferente.
Eu não precisava
fingir que o passado nunca existira.
Precisava reconhecer
o que havia feito e decidir o que faria dali em diante.
Não precisava
conquistar o direito de ser amado por meio de uma sequência interminável de
acertos.
Precisava aprender a
receber o amor que me era oferecido e permitir que ele transformasse minhas
escolhas.
Foi isso que
aconteceu comigo.
O homem que um dia
se escondeu atrás de números e registros descobriu que a vida não podia ser
reduzida a uma conta.
O homem que temia
ser rejeitado aprendeu a pedir perdão, mesmo sem garantias.
O homem que não
sabia o que fazer diante de um abraço descobriu que algumas respostas não
precisavam ser explicadas.
Bastava recebê-las.
E, quando escrevo
sobre Jesus, é esse homem que procuro preservar.
Não um homem
perfeito.
Não um homem que
compreendeu tudo imediatamente.
Mas um homem que foi
chamado, que teve medo, que errou, que aprendeu e que continuou caminhando.
Porque, no fim,
descobri que o amor de verdade não se merece.
Se recebe.
E depois se
compartilha...


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